A FERRO E FOGO
II TEMPO DE GUERRA

JOSU GUIMARES



LIVRARIA JOS OLYMPIO EDITORA





JOSU GUIMARES





A FERRO
E FOGO
II.        TEMPO DE GUERRA

                   2. edio



RIO DE JANEIRO 1977




Capa
EUGENIO HIRSCH





Copyright  1973 by Josu Guimares


Todos os direitos reservados 
LIVRARIA JOS OLYMPIO EDITORA S.A.
Rua Marques de Olinda, 12
Rio de Janeiro - Repblica Federativa do Brasil
Printed in Brazil / Impresso no Brasil



FICHA CATALOGRFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte
do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)

Guimares, Josu, 1921-
G978f        A Ferro e fogo. II: tempo de guerra. 2. ed. Rio de Janeiro. J.
        Olympio, 1977.
vi,        265p.        front.        21cm.


1 Romance brasileiro, I. Ttulo. II. Ttulo: Tempo de guerra.


CDD - 869.93
CDU - 869.0(81)-31
        75 -0443        v





SUMRIO



NOTA DA EDITORA:
DADOS BIOBLIOGRFICOS DO AUTOR
pgina vi


A FERRO E FOGO
II. TEMPO DE GUERRA

PRIMEIRA PARTE
Pgina 3

SEGUNDA PARTE
Pgina 147





NOTA DA EDITORA
A
DADOS BIOBIBLIOGRFICOS
DO AUTOR



ESCRITOR, jornalista, em certa ocasio poltico militante, mas antes de tudo
homem do sul e romancista por vocao, Josu Guimares nasceu a 7 de
janeiro de 1921, em So Jernimo, municpio carvoeiro gacho prximo
de Porto Alegre. Filho de pastor leigo da Igreja Episcopal Brasileira e
telegrafista de profisso, Josu Guimares passou a primeira infncia em
Rosrio do Sul, junto  fronteira com o Uruguai, transferindo-se, com a
Revoluo de 1930, para Porto Alegre, onde seu pai fora mandado servir. Aps
os estudos secundrios realizados no Colgio Cruzeiro do Sul, de onde
tambm fora aluno o romancista rico Verssimo, Josu Guimares comeou no
jornalismo em 1939, no Rio de Janeiro, integrando a redao de O Malho
e A Ilustrao Brasileira at o comeo da Segunda Guerra Mundial, quando
ento decide retornar  provncia. Em Porto Alegre prossegue a carreira
jornalstica, fazendo praticamente de tudo: reprter, redator, diagramador,
ilustrador, colunista secretario de redao, correspondente no estrangeiro e
diretor, numa atividade constante e multiforme que o levou a quase todos
os jornais da capital.
        Essa dedicao, profissional, entretanto, no prejudicou em Josu
Guimares o escritor nato, o homem de letras, que comeou pela histria curta
em revistas e jornais, e pelas antologias. Em 1969, por exemplo, foi
premiado no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paran e, em 1970,
publicou seu primeiro livro no gnero - Os ladres - pela Forum Editora, do
Rio de Janeiro. Mas a tudo isso  preciso acrescentar ainda um detalhe,
que com plementa a personalidade do autor: a breve experincia poltica e
administrativa do homem de letras, que de 1951 a 1954 foi vereador em
Porto Alegre, e mais tarde diretor da Agncia Nacional no governo de
Joo Goulart.
        Na imprensa do Rio de Janeiro, Josu Guimares foi tambm redator de
Manchete, O Cruzeiro e ltima Hora, assinando neste ltimo rgo uma coluna
diria de crnicas e observaes do cotidiano. Sua obra de ficcionista ganhou
novo impulso con a laborao de uma trilogia sob o ttulo geral de A ferro
e fogo, cujo primeiro volume, tempo de solido, lanado em 1972, vem tendo
reedies sucessivas. Pertence a esse ciclo o livro que ora entregamos ao
pblico, este Tempo de guerra, que d prosseguimento  saga da participao
dos imigrantes alemes na formao do Rio Grande do Sul. Ao lado desse
vasto painel em construo, figura ainda na bibliografia de Josu Guimares o
romance Depois do ltimo trem, narrativa dos ltimos dias de uma cidadezinha
do interior as vspera de ser alagada por uma barragem - romance que esta
Casa editou em 1973 e que encontrou a melhor acolhida por parte do pblico
e da crtica.



vi





A FERRO E FOGO
II. TEMPO DE GUERRA





PRIMEIRA PARTE



I


1 Na noite do enterro de Sofia, ao chegar no empri do Caminho
Novo, Catarina encontrou o Dr. Hillebrand, maleta de fole entre
as pernas, abatido, os olhinhos movedios distorcidos pelas grossas
lentes. Passou por ele em silncio, depois gritou para os fundos que
desatrelassem os cavalos e que trouxessem de l a espingarda
escondida sob os pelegos do banco. Aproximou-se do
mdicco.
      - Se no fosse pelo senhor eu terminava mesmo por perder a
cabea.
        Estranhou, de repente, a presena dele no emprio. Achei que o
senhor andasse, a essas horas, a caminho de So Leopoldo. Houve
alguma coisa? Hillebrand tirou os culos e ficou a lin p-los com o
leno.
      - Enquanto a senhora ajudava Griindling a enterrar a mulher,
o que no deve ter sido nada agradvel, recebi a notcia de que os
revolucionrios estavam concentrados na Azenha.
      - E o senhor, ento, resolveu ficar para ajudar...
      -No. Eu esperava pela senhora, queria saber se tudo havia
corrido a contento. Agora posso ir embora.
      - Obrigada - disse Catarina sentando-se numa banqueta. -
Pensei que o senhor tivesse a inteno de ajudar esse governo que
nunca pagou o que nos deve, doutor. Pode ser que esses outros nos
dem ouvidos.
        Hillebrand recolocou os culos, falava agora como se estivesse
sozinho.  sempre melhor lidar com gente que j se conhece, pelo
menos se sabe o lado de montar. E isso  muito importante. Saiba,
no estou gostando nada disso, muito menos das notcias sobre os
nossos compatriotas, muitos deles esto envolvidos na mazorca. Oto
Heise, Klinglhfer, Kerst, von Salisch. Catarina rosnou um ahn, se
esses homens esto na briga  porque o lado deles  o certo. Conheo


3


todos eles, no so de entrar em mazorca. O mdico olhou Catarina
de frente e caminhou para a porta.
      - Vou para So Leopoldo num dos barcos de Herr Grndling.
Quer alguma coisa para l, um recado para seu marido?
      - Obrigada. Esta noite vou dormir por aqui mesmo. Estou sem
nimo para enfrentar Daniel Abraho e os meus filhos. No consigo
pensar direito.
        O        mdico olhou em redor. No vejo um lugar onde a senhora
possa dormir aqui neste galpo. Deixe a carroa e aproveite para
voltar comigo, no vejo garantias na cidade, ningum pode dizer o
que vai acontecer daqui para a frente, o palcio a fervilhar de gente,
escunas preparadas no embarcadouro, soldados por todos os lados.
        Catarina sorriu sem vontade. , mas eu fico. Obrigada por
tudo, amanh regresso, prefiro voltar como vim. Hoje, morro de
cansada. Durmo em qualquer lugar, estou acostumada.
        Comeou a estender panos num canto de assoalho sem notar
que o mdico saa e puxava a porta. Quando recostou a cabea de
encontro ao balco, sentiu-se orgulhosa de no estar com medo.
Sentia-se tranqila, invadida por uma grande paz interior, indiferente a
tudo. Menos ao barulho persistente dos punhados de terra que jogara
sobre o caixo de Sofia. Rudo de punhos batendo num poro
vazio. Os homens mudos. Nenhuma palavra trocada durante o enterro.
Fora melhor assim, no saberia mesmo o que dizer. Soterravam Sofia
como se estivessem cumprindo um ritual de todos os dias, como o
comer e o beber. No instante de jogar o primeiro punhado de terra,
olhando sem ver, pensara "estou enterrando alguma coisa de mim
mesma nesse caixo". No sabia bem o que fosse. Lembranas da
velha ptria, dos campos nevados, das colheitas, das fornadas de po,
das guerras. A estncia de jerebatuba, a velha figueira testemunha
da Cisplatina. Veio-lhe  memria, naquele momento, uma citao
bblica do marido, "era assim como um grande sinal no cu, sete anjos
com as sete pragas". Isso mesmo, as ltimas pragas.
        Muito ao longe, quando a cachorrada das redondezas emudecia
por segundos, escutava qualquer coisa como o pipocar surdo de tiros.
Alguma arruaa de soldados bbados. Quando no havia guerra, para
manter a forma, os soldados gostavam de atirar a esmo. Mas agora
estariam tiroteando num mundo diferente e, alm do mais, muito
distante. O estranho mundo deles, os soldados. Dentro daquelas quatro
paredes a sua fortaleza. E nela, encravado em altas muralhas, o seu
corpo modo. O pequeno Joo Jorge a aquecer-se no colo. Mateus e
Carlota ali tambm. Philipp de guarda no alto da figueira. Ou no
havia mais figueira? So homens que vm do norte. H os que
chegam do sul. Que a terra seja leve para essa pobre e estranha Sofia.


4


Era uma dor para alimentar outra pessoa, Herr Grndling. Sim, o
sofrimento costuma deixar as pessoas melhores. Deus d as coisas
boas, o diabo reparte as ruins. Mais tiros ao longe, to distantes que
era difcil perceb-los. Cavalos galopando pelas cercanias. Prximos
demais. Era preciso urgente tapar a boca do poo, Juanito corre a
me ajudar, leve as crianas para dentro.
      - So eles, Daniel Abraho, so eles!
        Suava. As mos trmulas tateando em busca dos filhos, no
desamparo de quem no sabe onde se encontra, se faz sol ou chuva, se
 noite, madrugada, dia. O caixeiro Cristiano Richter, que dormia
na casinhola dos fundos, entrou a correr, estacando no escuro.
      - Eles quem, Frau Catarina, eles quem, pelo amor de Deus!
        Ela pediu ao rapaz que voltasse, que fosse dormir, no era nada,
talvez a sua dor de cabea, tivera um dia muito agitado. Richter
permaneceu imvel. Mas eu estou ouvindo tiros, tambm. Que ser isso?
      - Acende o lampio - pediu ela.
        Levantou-se com esforo. Doam-lhe as juntas, os braos e pernas
dormentes, tmporas a latejar. O empregado acendeu o lampio,
aproximou-se de brao erguido, assustando-se com o aspecto de
Catarina.
        - A senhora est doente, deve ter febre.
      - Quero uma caneca dgua, Cristiano, por favor. Ele largou a
luz sobre um caixote e saiu tropeando nos fardos de mercadorias.
Quando voltou, Catarina estava sentada numa banqueta, mos
pressionando a cabea. Depois ficou a olhar para ele, como se o
desconhecesse.
      - Beba, a senhora vai sentir-se melhor.
        Ia dizer mais alguma coisa, mas calou-se. Continuavam os tiros,
ao Longe. Os sons vinham com as lufadas de vento e desapareciam.
Cascos matraqueando na terra firme, cavalos a correr nos arredores.
Ela perguntou, est ouvindo o rodar de grandes carroes? Cristiano
fez que sim com a cabea, olhos arregalados, mos enfiadas nos
bolsos do casaco, como se estivesse com frio. Nisto ouviram um
cavalo que se aproximava, o cavaleiro estacando na frente da porta.
Algum saltou batendo com os ps no cho e, logo a seguir,
estrugiram pancadas na entrada. Richter fez meno de assoprar a chama
da luz, mas Catarina estendeu o brao, impedindo-o. Caminhou com
dificuldade, mas resoluta. Pegou a tranca com as mos crispadas e
ficou imvel.
-        Quem ?
-        Sou eu, Frau Catarina, Germano Klinglhfer.


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        Ela afastou a pesada tranca, abriu a porta e deixou que o recm-
chegado entrasse. Richeter correu para a porta e recolocou a barra de
madeira entre os suportes.
      - Que se passa, Herr Klinglhfer?



2 Juliana embalou Joo Jorge at que o menino dormisse. Ordenou
a Mateus que fosse para a cama, precisava comportar-se como um
rapaz obediente, a me estava em Porto Alegre e o pai no podia
se incomodar. Foi at a porta dos fundos e viu PhiLipp e o marido
conversando a um canto da oficina. De onde estava, perguntou:
      - Posso servir a comida?
        Emanuel respondeu que sim, era s o tempo de os dois
passarem uma gua na cara e nas mos. Ela voltou e ouviu a voz de
Daniel Abraho de dentro de sua toca. Lia a Bblia, "fora acham-se
os ces, os feiticeiros, os fornicrios, os homicidas, os idlatras e
todos aqueles que amam e praticam a mentira". Quando Emanuel
apareceu ela perguntou o que queria dizer fornicrios. O marido disse
que no sabia, que eram coisas de Herr Schneider. Philipp disse que o
pai andava muito nervoso com a viagem de sua me a Porto Alegre.
Justamente agora, acrescentou, quando a revoluo ameaa estourar a
qualquer momento. Sentaram-se os trs para comer na mesa sem
toalha. Juliana calada e pensativa. Philipp excitado, falando mais do que
comendo.
      - Chegou ontem um carregamento muito grande de armas,
mandado pelo prprio Presidente Braga. Os homens disseram que era
para distribuir entre os alemes porque um bando de negros marchava
para c. Querem nos atacar.
      - A mesma conversa de sempre - disse Emanuel.
      - Sei disso - retrucou Philipp de boca cheia - s que desta
vez as coisas no vo se passar como eles querem. Preciso avisar o
Major Heise.
      - Sabe onde ele anda?
      - Daqui a pouco vou estar com ele. Voltou de um encontro
muito importante.
      - E ele vai dar ouvidos a um menino de dezesseis anos?
      -Menino  o Mateus que j est na cama. Outro dia a minha
me disse a mesma coisa para meu pai. E sabe o que ele respondeu?
Que um menino que j pode fazer outro no  mais menino, 
homem.
        Emanuel riu to alto que at fez calar, por instante, a voz cava
e abafada de Daniel Abraho. Joo Jorge choramingou e Juliana


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correu para junto dele, mas antes pediu ao marido, por favor, para
que procurasse rir mais baixo.
        Philipp apontou com o dedo para os fundos e disse que no
podiam contar muito com o pai. E depois, ele j sabia ler e escrever,
estava chegando a hora de ajudar a me que se matava no trabalho.
        - E o pior, Emanuel,  que a guerra j est a de novo. Todo
o mundo sabe disso. At o meu pai afirma que as sete pragas esto
chegando. Uma delas, eu sei,  a guerra.
        Ouviram quando a porta do alapo se abria. Philipp, de onde
estava, pde ver a rstia de luz recortar o telhado dos fundos.
Levantou-se devagar, foi at l. Viu a cara barbuda do pai a emergir
do seu pequeno mundo. Perguntou se ele precisava de alguma coisa.
Daniel Abraho cruzou o indicador sobre os lbios, pedindo silncio.
        - Tive uma viso e ouvi uma voz que me disse que a tua me
no vem hoje, que est em meio de grandes perigos, que o diabo
anda solto. Meu filho, onde esto os teus irmos? Traz Carlota e
Joo Jorge para c, eu cuido deles. Olha por Mateus. Estou com
medo de que Catarina no possa mais voltar.
      - Que  isso, meu pai - disse Philipp sentando-se numa
banqueta ao lado do alapo. - A me est bem, no vai acontecer
nada com ela, amanh mesmo est de volta. V dormir que eu
cuido da casa, Emanuel est comigo.
        Daniel Abraho desfez a tenso do rosto: Emanuel  um bom
rapaz,  um homem em quem se pode confiar. Vou pedir a Deus que
ilumine a todos, que guarde seus filhos. Estendeu para Philipp uma
vasilha de barro e pediu que trouxesse um pouco de gua fresca.
Quando o rapaz voltou disse a ele, sacudindo o dedo no ar:
      - Se at amanh de manh tua me no voltar, vou atrs dela.
Algo me diz aqui dentro da cabea que as coisas no vo l muito
bem.
      - Fique descansado - disse o filho ajudando-o a baixar a
tampa - o senhor tem quatro encomendas de serigotes para entregar
at domingo e o servio est atrasado. Deixe o resto comigo, no
se preocupe, durma.
        Quando retornou  sala Emanuel ainda permanecia no banco da
mesa, esgaravatando os dentes. Juliana no quarto, a ninar Joo Jorge.
      - Vou sair - disse Philipp - preciso encontrar o Major Heise.
Fecha a casa e d uma olhada pelas crianas.
        Sentia-se homem. A noite l fora estava cheia de pressgios, o
vento da primavera passava com rudo pelos galhos das rvores, o
cu limpo e estrelado. Mas ele sentia em tudo uma clara ameaa de
tempestade. Lembrava-se vagamente de uma distante e quase apagada
noite de chuva, a famlia fugindo para algum lugar, ele carregado sob


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o poncho do pai, os ps molhados, os relmpagos iluminando o
dilvio e a figura de um estranho e misterioso cavaleiro sem rosto.



3 Grndling estendido no sof, em mangas de camisa, as botinas
jogadas no cho, um clice de conhaque ao alcance das mos. Ao
p de si, sentados inquietos, Tobz, Zimmermann, Schilling e, de
p junto  parede, amassando um velho chapu de feltro negro, o
ajudante Krebs, do emprio. Grndling bebeu mais um gole e
pensou "no posso ficar bbado". Olhou em torno, apontou para Tobz,
ele que falasse, que dissesse tudo o que sabia. Tobs olhou para os
outros, indeciso.
      -Muita coisa s sei por ouvir dizer, mas ontem  noite o
Visconde de Camamu foi batido pelos revolucionrioS na Ponte da
Azenha. Morreu o diretor do Peridico dos Pobres, um tal de
Prosdia.
      - Saiu ferido e chegou no Palcio todo ensangentado, com o
fardamento em tiras, a gritar que a fora inimiga conta com mais
de quatrocentos homens.
      -Mentira - disse Zimmermann - os outros no deviam ter
mais do que a metade disso. O Visconde o que quis foi justificar a
derrota.
      - A verdade - disse Schilling -  que do lado do governo a
confuso no pode ser maior. Esto apavorados. O Presidente s
pensa em fugir para Rio Grande e ningum mais se entende.
        Grndling derramou mais conhaque no clice e perguntou por que
as igrejas haviam tocado os seus sinos no meio da noite.
      - Foi quando o Visconde chegou ferido ao Palcio e uma
sentinela disparou um tiro por puro medo ou por muita bebida - disse
Tobz. - Imaginem o comandante entrando ali banhado em sangue,
sem cavalo e sem bon, desarmado, era o mundo que vinha abaixo.
      - E da? - disse Grndling abrindo os braos. - Ganharam a
batalha, deixaram o governo a tremelicar e, com tudo isso, vo ficar
na Azenha, acampados, churrasqueando, sem coragem de entrar na
cidade.
        Levantou-se disposto, enfiou as botinas, o colete, pediu que
alcanassem o casaco. Vou ver isso de perto, o Palcio fica por aqui
mesmo, desconfio que essas histrias tm muito de inveno. Todos
se levantaram. Krebs, pressuroso, abriu a porta. Disse ao patro que
havia cavalos selados no ptio. Zimmermann perguntou se no seria
melhor cada um levar uma arma. Grndling disse que no, a briga


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no era deles, no via por que serem tomados pelo que no eram.
Krebs ficou algum tempo mais no porto, o grupo afastou-se
levantando ondas de poeira. Estacaram a pouca distncia do Palcio. Viram
sair carrUagens velozes, cavaleiros armados e soldados em formao de
combate.
      - Vejam - disse Grndling - l vai o valente Presidente Braga
a fugir feito criminoso.
        Um soldado aproximou-se e gritou para eles que fossem embora,
os revolucionrios entravam na cidade pela Praa do Porto, as
tropas do governo haviam se rendido em massa, dando vivas a Onofre
Pires. Grndling perguntou para onde ia o Presidente. O soldado
olhou desconfiado para o grupo, e vocs alemes o que andam
fazendo por aqui? O Presidente vai para Rio Grande, ele achou primeiro
que podia resistir do Arsenal, mas qual o qu, vai tudo na escuna
Rio-Grandense. Esporeou o animal e nem ouviu quando Tobz gritou
para os companheiros "que os ventos lhe sejam fracos".
        Um outro soldado passou perto, vou me juntar com os rebeldes,
os companheiros todos aderiram! Desapareceu a galope, acenando com
o        bon cor de terra.
        Os alemes viram as tropas de cavalaria chegando. a soldadesca
revoltosa enfeitada com as cores da sua gente. Cercaram o palcio
e hastearam a bandeira ao som dos seus clarins. Grndling perguntou:
      - Entre os grados est Bento Gonalves?
      -No - disse Zimmermann - o homem ainda no chegou,
est para os lados de Pedras Brancas.
        Grndling deu de rdeas, vamos para casa que  lugar mais
seguro. Krebs ainda estava no porto, esperou que o grupo entrasse e
fechou as largas folhas de madeira.
        O        dono da casa retornou para o seu sof, atirando longe as
botinas incmodas. Ningum falou. Mariana entrou carregando Albino
no colo e Jorge Antnio pela mo. Queriam ver o pai. Grndling
sentou-se gil, colocou o pequeno sobre os joelhos e abraou o maior
pela cintura. Como vo esses dois homenzinhos? mame foi fazer
uma viagem a um lugar muito longe, mas se os dois se comportarem
bem, ela pode voltar. Alisou o cabelo sedoso de Albino que brincava
com os botes de seu colete, e disse para -a negra que era melhor
no sarem naqueles dias, havia mito perigo pelas ruas. As crianas
podiam brincar na calea guardada no galpo.
        Quando ela levava as crianas, ele disse aos companheiros:
      - Cabea fria, cabea fria  o que sempre digo nessas ocasies.
Qualquer que seja o vencedor h preciso de gente que lhes venda as
coisas. E ns temos essas coisas das quais eles precisam.
      - E se requisitam? - perguntou Zimmermann.


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      - Ora, bem, terminam pagando, pode estar certo disso.
        Fez uma pausa, preocupado. Depois relaxou o corpo na cadeira.
Pelo que se pode notar,  gente que no larga o poder to cedo. Eles
pagam, estou certo disso como dois e dois so quatro. H jeito para
tudo e do couro  que saem as correias. Ora, estou certo disso. Ou
vocs duvidam? Claro, corre-se perigo, mas nem tudo neste mundo 
to certo e to lucrativo como se quer. E depois, um dia o governo
manda buscar reforos e corre essa cambada toda a tiro de festim.
E se isso no acontecer? - arriscou Tobz.
      - At L a gente faz boas amizades com este lado.
        Schilling olhou para o belo relgio de pndulo, notou a poeira
que o cobria, encaminhou-se para ele.
      - Veja, Grndling, o relgio parado!
      -No! - gritou o dono da casa. - Ningum toca nesse
relgio. Ele est parado desde o dia da morte de Sofia. Ningum mexe
nele. Vai ficar assim para o resto da minha vida. Ningum mais vai
ouvir as suas batidas.
        Tobz voltou a sentar-se. Todos se entreolharam, constrangidos.
Grndling encheu o clice de conhaque e sentou-se no sof. Vocs
decerto pensam que eu estou ficando maluco, que no estou regulando
bem da cabea como o marido da Catarina. Isso mesmo, como aquele
pobre-diabo do Daniel Abraho. Pois se estivesse ficando doido, no
era para estranhar. Sabem o que  perder a mulher, perder uma
mulher como a Sofia? Algum de vocs sabe o que seja isso? Ora, no me
venham com conversas. Para mim, agora, tanto faz, quero que o resto
se dane, que se afunde tudo na merda. Ainda no consegui acertar a
minha vida sem ela. Isso interessa algum de vocs? No interessa e
estamos conversados.
        Emborcou o clice no fundo da garganta e encheu outro. E
lembrar que eu andava s voltas com a cadela daquela paraguaia, Izabela,
a deslavada, aquela vaca. Sim senhores, a boa e generosa Izabela,
cada moeda um sorriso. Bons tempos aqueles, o cego Jacob tocando
piano, Cholita na cama comigo e ainda aquela negra que se chamava
Marina, arrumao do safado comandante BLecker. Quem no se
Lembra dele? Que negra, meus caros. Pois apesar disso fao votos de
que aquela vagabunda esteja morrendo de varola em qualquer
pocilga do Rio de Janeiro. Tenho dio dessa raa imunda, chego a
sentir nuseas s em Lembrar que estive na cama com aquela mulher.
Ah, as coisas de que a gente  capaz!
        Levantou-se agarrado ao clice, ps descalos, olhos sangUneos.
Pois  o que eu estava dizendo, esses revolucionrios de meia pataca
vo querer couro, ns temos, farinha, ns temos, fumo, tecidos, botas
ou carroas ou cavalos, pois ns temos. Ento que venham a ns. Se-


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nhoreS, temos tudo para vender a bom preo, mas tomem nota:
dinheiro de pronto, no contado, que requisio  para colono
analfabeto. Deixem comigo, eu me entendo com esse, como  mesmo o nome
dele? ah, sim, com esse Bento Gonalves. General ou Coronel? que
importa? eles mesmos se promovem e se condecoram. Hoje um galo,
amanh dois, no fim de certo tempo os ombros, os braos, o peito
e a bunda cobertos de divisas e dragonas douradas. Eis a, senhores,
um general. E como suas excelncias andam sempre cercados de
soldados, de cabos e de sargentos, o remdio mais inteligente e indicado
 fazer-Lhes continncias com quantas mos se tenha.
        Mariana apareceu na porta e perguntou se podia servir a comida.
Os amigos fizeram meno de sair. O dono da casa ordenou que todos
ficassem, havia comida para todos.
        - E ainda temos muitas coisas para conversar. Duas cabeas
pensam mais do que uma s, trs mais do que duas, quatro mais do
que trs.
        Sentou-se novamente, apoiou a testa nas mos, cotovelos cravados
nos joelhos. Quando olhou em redor parecia no enxergar.  a bebida,
pensou Tobz. Schilling achou que o amigo estava prestes a chorar.
      - Est sentindo alguma coisa? - perguntou Zimmermann,
acercando-se dele.
        Grndling o afastou com o brao, levantando-se.
        - Deus  justo! Claro, todos ns sabemos que Deus  justo,
a Bblia diz assim, os padres dizem assim e os imbecis do mundo
inteiro repetem isso noite e dia. Por isso Sofia est l debaixo da
terra, como um verme.
        Deu um soco no tampo da mesa, fazendo saltar pratos e talheres.
Debruou-se entre pedaos de frango, derramou molho na toalha de
linho branco, quebrou um copo e deixou cair a cabea entre os
braos, sem dizer mais nada.



4 Daniel Abraho dava a impresso de alheamento ao que Catarina
contava, a falquejar com afinco a base de madeira de um lombilho,
aplicado no seu ofcio como se estivesse sozinho no galpo. Ela
falava devagar, resumindo, sonegando partes da histria, agarrada
sempre ao pequeno Joo Jorge. Mateus sentado numa pilha de madeira,
Carlota de mos dadas com JuLiana. Emanuel, ao lado do velho
Jacobus, sentado no mesmo banco onde, Carlos Sonemberg ouvia sem
pestanejar o que narrava Catarina.
        Quando ela se calou, por fim, Jacobus disse que na Linha do
Porto pouca coisa se sabia, as notcias custavam muito a chegar l.


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PerguntoU se naquilo tudo no haveria, por acaso, algo contra os
alemes. Abria os braos compridos e olhava para o cu: pelo amor
de Deus, a gente veio para trabalhar, ningum quer saber de guerra.
Perguntou a Catarina:
      - A senhora no acha que devemos pedir uns conselhos ao Dr.
Hillebrand, ele que  um homem, sensato, de saber?
        Catarina passava a mo pelos cabelos louros do filho pequeno, a
roupa ainda cheia de p, a saia salpicada de placas de barro seco.
      - Saber ele tem - disse ela virando-se para Jacobus - mas
no  desse saber que a gente precisa numa hora de guerra. Ele
sabe curar e mais nada. Est do lado do Imperador. Eu perguntO: e
ns, de que lado estamos?
        Ningum respondeu. De repente Catarina levou a mo ao peito,
ar assustado:
      - E Philipp, por que ainda no voltou?
      - Decerto o Major Heise precisou dele - disse Emanuel -
seno j devia estar de volta. A senhora quer que eu v atrs dele?
      - Por favor.
        O        rapaz pulou por cima de um banco de carpinteiro, lanou um
olhar para Juliana que tinha entre os braos a pequena Carlota e
desapareceu pelo porto, quase a correr. Daniel Abraho aproveitou o
silncio momentneo e perguntou para a mulher:
      - Grndling ainda est vivo?
        A princpio Catarina pareceu no entender a pergunta. Depois
respondeu com voz mansa:
      - E por que no havia de estar? Ningum morre antes da hora.
Pois no  o Livro Sagrado que diz que devemos amar os inimigos e
orar pelos que nos perseguem?
- disse Daniel Abraho atacando com vigor o trabalho
interrompido.
        Juliana aproximou-se de Catarina. A senhora precisa tomar um
bom banho, deixei tudo preparado, a gua est fervendo a essas horas.
Imagino como no deve estar moda da viagem. Tirou Joo Jorge do
colo da me, encaminhou-se para dentro. Sonemberg passou s mos
de Catarina um bloco de papel pardo:
      - A senhora tem a as contas das ltimas semanas, mais a
relao do que foi mandado para o Porto, o dinheiro de cinco serigotes
e da carroa encomendada pelos Renner. E ainda a relao das
mercadorias que vieram de Bom Jardim, de Dois Irmos e da Linha
Caf. Ser que a senhora vai entender?
        Catarina folheou pouco atenta a papelada sebosa, disse a ele
que no se preocupasse, estava tudo certo. Mais tarde, com calma,
falariam sobre o assunto. Depois disse, pensativa:


12


      - Philipp no tem idade para acompanhar o Major Heise.
      -Mas ele foi s para dar um aviso - disse Jacobus.
      - Sei como so essas coisas - retornou ela. - O Major pode
no querer, mas eu conheo bem o meu filho.
        Caminhou em direo  porta dos fundos, parou como se
tivesse esquecido alguma coisa muito importante. Sabem quem foi que
encontrei em Porto Alegre? Germano.
      - A Polcia anda atrs dele - disse Jacobus. - A famlia
do Frederico Weber jurou vingana e diz que no descansa enquanto
no botar a mo em Germano.
      - Pois duvido que eles consigam - disse ela - pelo menos
por enquanto. E depois, Weber estava mesmo pedindo um bom tiro
de garrucha no peito. Com licena, vou tirar a terra da estrada que
me ficou no corpo.
        As crianas foram atrs da me e Sonemberg voltou ao trabalho
lado a lado com Daniel Abraho que descansou a enx por um
momento, cofiando pensativo a barba de bugio.
      - Parece que foi So Mateus quem disse que larga  a porta da
perdio e estreita e apertada  a estrada que conduz  vida.
E baixou com tanta fora a enx contra a madeira que uma
lasca saltou, atingindo o rosto de Sonemberg, mas este se limitou a
passar a mo sobre o pequeno ferimento que deixava escapar um
filete de sangue.



5 Richter passou a tranca na grande porta, pediu a Engele e Gebert
                que o ajudassem a guardar os fundos. Havia quatro espingardas
novas e um bom caixote de cartuchos carregados. Engele
perguntou o que fariam com as armas. E por que Richter estava com
medo se os rebeldes haviam tomado conta da cidade e eles, como
alemes, nada tinham a ver com a guerra?
      - A patroa mandou que eu cuidasse do emprio - disse
Cristiano - pode haver saque.
        Gebert passou a grande mo na testa suada. Pois se a coisa era
assim, melhor seria chamarem Leithner e Baucker que haviam
chegado da Colnia na noite anterior. Quanto mais gente para ajudar,
melhor. Engele disse que iria atrs dos outros, sabia onde encontr-los,
costumavam beber numa birosca da Rua da Margem. Quando
se encontrava a meio do caminho, sentiu medo. Mulheres assustadas
espiavam pelas frestas das janelas. Magotes de soldados cruzavam as
ruas em galope largo, muitos deles gritando, a girar rodas de lao por
cima da cabea. Divisou  frente, numa esquina, um ajuntamento


13


ruidoso, homens e mulheres curiosos e, de repente, gritos lancinantes
de algum que, de onde ele se encontrava, no conseguia enxergar.
Continuou a caminhar sem pressa, acercando-se da pequena massa de
gente j com o corao a bater acelerado. Viu um padre furibundo
comandando trs ou quatro homens mal ajambrados. Eles foravam um
portugus a estender o brao enquanto o padre, com uma grande
palmatria negra, batia nas mos do pobre homem com uma violncia
inusitada para quem, como sacerdote, parecia franzino. A cada
palmatoada o homem gritava pedindo pelo amor de Deus que no
fizessem aquilo, que ele no era do governo, que era fiel ao General
Onofre Pires. Um gacho de chapu de abas largas ria com dentes
podres e gritava:
-        D-lhe, Padre Pedro, este  inimigo do partido.
        E o Padre Pedro batia sem esmorecimento. Deus manda o
castigo na hora,  preciso tirar o satans do corpo desses miserveis, eles
precisam aprender a lio. Engele deu meia volta, tentando atravessar a
rua. Um dos homens gritou: l vai outro deles, pega o caramuru. Viu-se
cercado, algum passara o brao musculoso no seu pescoo, por trs.
Mal conseguia respirar. Gritava que no era portugus, que no tinha
nada a ver com a guerra. Os homens riam. Ento acercou-se dle o
padre.  alemo da Colnia, algum disse enquanto o reverendo
comeava a bater nas suas mos com a palmatria. A princpio era s
uma dor aguda que subia pelos braos, depois um formigamento geral,
o padre a bater e a revirar os olhos para o cu, numa ladainha
incompreensvel. As mos comearam a inchar e Engele no as sentia
mais. Era como se o padre batesse em dois pedaos de madeira, ou
de pedra. Duas grandes e arroxeadas mos dependuradas nos braos
dormentes.
        Foi largado como um animal depois da marcao, algum
gritara qualquer coisa do outro lado da rua, numa esquina da pracinha.
O grupo agora caa sobre um outro homem, dessa vez um velhote
franzino, em mangas de camisa, com um menino agarrado nas suas
largas calas.
        Um soldado parou o seu cavalo  distncia, levantou o corpo
apoiado s nos estribos, deu meia volta e partiu a galope. Engele via
tudo boiando numa densa nvoa, manh de inverno dentro do grande
vero, encapelado mar, o navio jogando, madeiras rangentes, terras
se perdendo no horizonte, o mar acabando, o vcuo. Sentiu que estava
prestes a vomitar. Levou uma das grandes mos de madeira  testa, a
outra ficou a apertar o estmago. Andava vacilante, como se
estivesse bbado. Sentou-se numa soleira de porta, havia um lugar para
encostar a cabea dolorida e afugentar a zonzeira. O povaru seguia o
padre e os asseclas apanhavam novas vtimas. Outro homem estava


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sendo dominado e Engele j escutava os seus gritos, o som abafado
da palmtria, gargalhadas e urros de entusiasmo, ou de medo. Agora
ele precisava orientar-se: para que lado ficaria a Rua da Margem?
Leithner e Baucker ainda estariam l, indiferentes ao perigo que
andava solto pelas ruas. Richter e Gebert entocados no emprio,
espingardas em punho, e ele ali, como um bbado vagabundo, tudo em redor
girando, desequilibrado, um vmito que chegava at a garganta e
regurgitava azedo na boca seca.
        Ento uma patrulha de cavalaria aproximou-se do padre e do
resto do bando. Os soldados apearam com presteza, prenderam o
padre. Davam ordens de comando que EngeIe entendia em parte.
Viu a corja tocada  frente dos cavalos, pelo meio da rua, o padre
protestando, a ameaar de dedo em riste ao prprio sargento que o
empurrava com o peito do animal, enquanto os outros homens recebiam
relhaos dos soldados, defendendo as cabeas com os braos cruzados
no alto.
        Engeie comeou a voltar. No conseguiria chegar onde os amigos
estavam. Precisava mergulhar as mos num balde dgua, num tanque,
afund-las no rio e deixar que a correnteza levasse a dor aguda que
atingia os ossos. As carnes arroxeadas pesavam, tornava-se difcil
carregar os braos, a cabea mal comandava os ps trpegos. Gritou da
porta dos fundos, Richter perguntou quem era. Ao ouvir a voz
desesperada do amigo abriu parcialmente uma das folhas, espingarda em
mira, dedo no gatilho, que ele poderia estar servindo de isca para
assaltantes.
      - Engele, pelo amor de Deus, que fizeram com as tuas mos?
        Gebert veio ajudar, o companheiro parecia prestes a desmaiar.
Carregaram-no para dentro, os dois a fazerem perguntas, o que tinha
acontecido, ento havia bandidos soltos pelas ruas? Engele bebeu toda
a gua de uma caneca que Richter lhe trouxe. Mas como foi isso?
      - Um tal de Padre Pedro, um doido, rodeado de capangas,
dando de palmatria em meio mundo. Eles me pegaram, Cristiano.
      - E Baucker e Leithner?
        - No cheguei at l, eles me apanharam no meio do caminho,
na ida.
      -Mas precisamos procurar Herr Klinglhfer - disse Gebert.
      - Agora no precisa mais - disse Engele, em meio de
gemidos - uma patrulha prendeu o padre e o resto da malta.
        Prepararam panos molhados em salmoura, enrolaram com
cuidado as mos disformes do amigo e depois Cristiano encostou a sua
cabea de encontro ao peito de Gebert para que pudesse tomar uns
goles de ch de marcela, fazia bem, acalmava os nervos, ele prei-


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sava descansar, quem sabe ia dormir um pouco, devia estar sofrendo
muito.
      - Ah, se Frau Catarina estivesse aqui - disse Cristiano.
        Engele virou-se para a parede, os braos apoiados num grosso
pelego pardo. Apertou o quanto pde os olhos para no enxergar mais
nada. Sentia-se humilhado como um menino que acabara de ser
castigado por algo que no fizera. Estava com vergonha dos outros.
Descerrou os dentes para dizer, quase inaudvel, que se um dia encontrasse
o padre ou algum daqueles homens daria em cada um deles um tiro
de garrucha bem no meio da testa. Estava apontando a arma, via bem
ntidos os olhinhos do padre, depois a palmatria indo e vindo, as
gargalhadas de toda a gente e sempre a dor dentro dos ossos, subindo
pelos cotovelos, alojando-se nos ombros.
        Richter, quando notou que ele havia se urinado todo, estendeu
sobre o seu corpo um velho cobertor de enrolar fardos de fazendas,
Engele soluando de dio.
      - Se eu pego um desses canalhas - disse Gebert - passo fogo
sem misericrdia. Ces!
        Bateram forte na porta da frente. Os dois amigos empunharam
as suas espingardas e correram para l. Ouviram uma voz conhecida:
      - Abram, sou eu, Isaas Noll. Frau Catarina me mandou
para
ajudar vocs.
        Richter pensou: agora seremos trs. Abriu a porta e deixou Isaas
passar. Pediu silncio.
      - Vem aqui ver o que esses bandidos fizeram ao nosso pobre
amigo Engele.



6 Philipp, sentado a um canto da sala, no entendia nada, mas ouvia
com ateno tudo o que os oficiais diziam. Oto Heise falava
um portugus difcil, gesticulando muito para explicar os seus
pontos de vista. Juanito, que sara nos calcanhares do rapaz, no o
perdia de vista, os olhinhos vivos seguindo todos os seus movimentos,
procurando adivinhar as suas expresses. Os soldados mal-encarados
lhe pareciam uma permanente ameaa, quase todos eles guarnecendo
portas e janelas, escopetas em ponto de tiro, de vez em quando
espiando a escurido da noite cheia de mistrios. Os alemes que
tomavam parte na reunio permaneciam mudos, a entreolhar-se
preocupados. E se o governo atacasse? Heise veio reunir-se aos seus
compatriotas, comeou a dizer a eles o que estava se passando. Haviam
informado que Bento Gonalves mandara apreender todas as armas
mandadas pelo Presidente Braga para que os alemes defendessem o go-


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verno. Eles deviam ficar do lado da revoluo, aquele governo no
lhes dera nada do que havia prometido.
        Os outros permaneciam calados, com ares de desconfiana. Ento
era uma guerra nova, precisavam pegar em armas? Heise notou que
eles estavam arredios.
      - A verdade  que ficamos todos ao deus-dar, a gente
passando fome, necessidades, sem terra definida, jogados nesta encosta de
serra como animais ou, o que  pior, entre eles e os bugres.
        Se algum ali presente no estivesse de acordo com o que ele
dizia era s levantar-se e ir embora, no queria ningum obrigado, s
voluntrios. Mesmo porque os rebeldes no queriam estrangeiros na
briga, era preciso muito jeito, de incio apenas limpando a colnia de
inimigos da sua causa.
        Os oficiais voltaram a discutir acaloradamente, deram vivas a
qualquer coisa que Philipp no atinou ao que fosse, e logo a seguir
os subordinados alcanaram aos seus chefes as armas que haviam sido
depositadas sobre uma grande mesa central. Um tenente ordenou aos
seus homens que sassem e dessem uma batida em regra pelos
arredores. Os soldados obedeceram e Oto Heise aproximou-se de Philipp
e de Juanito que estava ainda mais colado ao rapaz. Eles que
voltassem tranqilos, o emprio no sofreria nada em Porto Alegre,
havia gente deles l e aquelas tropas seguiriam naquele momento
para ajudar a ocupar a cidade e garantir o comando da revoluo a
Bento Gonalves. No podiam perder tempo.
        Philipp permaneceu onde estava. S abriu a boca para pedir
armas. Ele e Juanito seguiriam juntos com a tropa.
      -Mas  uma loucura, meu filho - disse Heise.
        O        menino no tinha idade para entrar numa guerra, a coisa ia
ser violenta e ningum estava pensando em poupar o inimigo. Philipp
meneou a cabea:
      - Vou junto com o senhor. Juanito ser o melhor batedor de
toda essa guerra.
      - Seu pai sabe que veio aqui?
        Philipp disse que Daniel Abraho sabia. E depois, no importava.
Sua me terminava por apoiar a sua deciso. Fico com o senhor, posso
encilhar cavalo, cuidar da forragem, dar recados e ficar de guarda.
Sentiu-se no alto de uma velha e torta figueira, mo em pala, o grande
e aberto horizonte, os pontos negros movendo-se como insetos, o vento
e o forte cheiro de mar. Sabe, Major, fao isso como ningum. E
Juanito enxergava de noite, sabia caminhar como os tigres. Sim,
algum dissera uma vez que Juanito sabia caminhar como os tigres.
Ou, quem sabe, como os gatos. Juanito seria capaz de atravessar
Um acampamento inimigo sem que nenhuma sentinela percebesse.


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        - E depois, Major - disse o rapaz levantando-se resoluto -,
no adianta me mandar embora. No vou. Largo atrs, como os
cachorros.
        Heise bateu com a sua pesada mo nas costas do rapaz.
        - Vou mandar buscar cavalos e lanas, est bem? E olha aqui:
quero os dois na retaguarda, at que recebam ordens em contrrio.
E se me desobedecer - disse a Philipp sacudindo no ar o dedo
indicador - mando prender tanto um quanto o outro e voltam para
casa nem que seja pela fora. Entendido?
        Pouco depois, partiam. Formao de guerra, duas filas, uma de
cada lado do caminho, batedores laterais, patrulhas na vanguarda e
gente de segurana no fecha-fila. Philipp e Juanito lado a lado, um
sentindo a perna do outro, lanas apoiadas nos estribos, o vento da
primavera sacudindo o chapelo de abas largas que  ltima hora
haviam enfiado na cabea do rapaz. Um cabo passou por eles e gritou
qualquer coisa que Philipp no entendeu. Juanito disse ele mandou
um atrs do outro. Para que o rapaz entendesse bateu com a mao
espalmada na anca do cavalo e deixou que ele passasse para a frente.
Ento ele tambm entrou na fila que marginava os caminhos
tortuosos que atravessavam matos e sangas.
        A meio da noite houve ordem de alto. Deviam apear, mas
permanecer ao lado dos seus cavalos. Distriburam pcdaos de charque
e broas de milho. O Major veio l da frente, examinava cada homem,
cara a cara por causa da escurido, at encontrar os dois. Perguntou
a Philipp se estava bem. O rapaz disse que nunca na sua vida se
sentira melhor, que ele no se preocupasse. O Major falou baixo:
        - Fiquem descansados, o inimigo j est batido, no vai haver
batalha nenhuma. Em Porto Alegre quero os dois ao meu lado. E
trate de fazer com que este ndio entenda o que estou ordenando.
        Quando entraram em Porto Alegre, Philipp viu os soldados numa
alegria contagiante, muitos deles a galopar desenfreado pelas ruas.
Os negros enchiam a rua da Praia com seus balaios e volta e meia
eram corridos dali pelos piquetes de cavalarianos de lana em riste.
Cavalos amarrados em lotes s portas dos botecos enfumaados,
mulheres que andavam apressadas puxando os filhos pela mo. Era um
mundo novo e fascinante que se abria aos olhos do rapaz. Debruadas
nas janelas muitas mocinhas morenas, de grandes olhos assustados.
Carroas ligeiras levantando poeira, homens de largos ponchos e
soldados com velhos e variados fardamentos.
        Prximo  Igreja do Rosrio o agrupamento fez alto, o
comandante proferiu uma arenga, oficiais e sargentos percorreram as
colunas dando instrues. Heise veio ao encontro de Philipp e do ndio.
Um cabo alemo levaria os dois para o emprio de Frau Catarina,


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eles que permanecessem l aguardando novas ordens. No havia perigo
para todos.
      -No esqueam as minhas ordens - gritou o Major dando de
rdeas e desaparecendo na poeira.
        Quando chegaram na frente do emprio viram logo Richter
encostado  porta. Philipp achou graa na cara de espanto do
empregado. Recusou a sua ajuda para desmontar. O cabo retornou,
Juanito recolheu as rdeas dos animais e Richter e Philipp entraram.
      - Frau Catarina chegou bem?
        Philipp disse que no chegara a ver a me. Sara  noite, muito
cedo, e a sua tropa havia abandonado o caminho principal.
      - Sabe, Engele apanhou de palmatria de um tal Padre Pedro,
um malfeitor que j est preso, graas a Deus. Ele est com as mos
horrveis, vamos at l nos fundos.
      - De palmatria? - disse Philipp espantado. - Mas ento esse
padre est doido.
      - Pois acho que sim, meu filho. Engele ia passando na rua,
precisava encontrar Leithner e Baucker, e de uma hora para outra
apareceu esse tal de padre e mais meia dzia de bandidos. Pegaram
o coitado de jeito. E isso tudo na frente de meio mundo, uma
humilhao.
        Philipp entrou no quartinho. A pea na semi-obscuridade, um
cheiro forte e acre de urina e de salmoura. Ento falou com voz
mansa, com receio de que ele estivesse dormindo.
      - Ento, Engele, o que houve?
        O        outro virou apenas a cabea, tentando adivinhar quem estava
ali. O rapaz disse, sou eu, Philipp. Engele grunhiu qualquer coisa
e esticou os braos para que ele visse as mos enroladas em trapos.
      - Os bandidos me pagam, Philipp, eles me pagam.
      - Calma - disse o rapaz sentando-se  beira do catre -
deixa isso comigo que falo com o Major Heise ainda hoje, sou
soldado do batalho dele. E vamos achar esse padre, isso eo prometo.
        Richter pediu a Engele que procurasse descansar e carregou
Philipp para fora do quarto.
      - Vou preparar uma comida qualquer para o menino. Juanito
deve estar morrendo de fome, tambm.
        Falava sem parar enquanto assava pedaos de charque no grande
fogo de barro, olhando de vez em quando, curioso, para o rapaz.
Pois ora vejam, o menino Philipp j soldado, saindo de casa como
homem feito. E sua me, o que diria de tudo isso. Daniel Abraho,
na certa, lia a sua Bblia pedindo proteo para o filho, Deus olharia
por todos. Isaas Noll entrou na pea e arregalou os olhos ao ver
Philipp.


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      - O menino por aqui, vejam s!
        Philipp fez um gesto de enfado com a mo, cortando a alegria
do outro.
        Houve um silncio prolongado. Richter anunciou que a comida
estava pronta, no era l essas coisas, pedaos de carne assada e po
de milho. Mas haviam guardado uma boa cerveja fermentada na
colnia. Noll, tentando desanuviar o ambiente, levantou a sua caneca
e fez um brinde pela chegada do soldado Philipp Schneider e de seu
ordenana Juanito.
        O        soldado bebeu como um veterano, depois foi para o ptio
vomitar tudo o que comera e bebera, contra a parede de madeira crua.
Richter e Noll ajudaram o rapaz a deitar-se num pelego colocado ao
lado do catre onde Engele gemia baixinho. Saram. L fora Richter
disse a Noll:
      - Todo o batismo de fogo  assim. Ele j , afinal, um
verdadeiro soldado.



20



II



1 Naquela noite, Catarina notou que a barba e os cabelos do marido
estavam grandes demais. Viu tambm as suas mos feridas por
lascas de madeira e golpes da enx. A camisa parda grudava no
corpo, tinha os msculos tensos e seus olhos encovados brilhavam como
nunca. Preparou uma grande bacia com gua bem esperta, disse a
ele que os homens precisam, de vez em quando, de lavar os cabelos,
de curar as feridas. No era preciso falar muito com ele. Daniel
Abraho se deixava levar com docilidade, dava sempre aquela
impresso estranha de quem olha atravs das pessoas e das coisas. De fato,
no disse uma s palavra. Deixou a mulher lavar, com sabo caseiro,
grosso, cheirando a sebo, as mos escalavradas. Depois ela abriu um
pote pequeno, cheio de uma pomada que o Dr. Hillebrand havia
deixado ali num dia qualquer. Besuntou as feridas com cuidado, de vez
em quando perguntava se no estavam doendo, se ardiam, ele sempre
a fazer que no com a cabea.
        Catarina trocou de gua, pediu a Daniel Abraho que ficasse de
p, curvado, queria lavar os seus cabelos sem cor, o ruivo das melenas
confundindo-se com a terra das estradas, com a poeira de serragem
das oficinas. Empapou bem os cabelos, esfregou com vigor a grande
pedra de sabo como se estivesse lavando roupa  beira de um aude.
Onde andaria Philipp? Um menino entre soldados e bandidos.
Juanito saberia cuidar dele; o ndio adivinhava as coisas, cheirava o
perigo no ar, era sorrateiro e vivo. Daniel Abraho abriu a boca que
deixava escorrer gua e sabo; afinal, quando poderia comer? estava
morrendo de fome.
      - O estmago sempre pode esperar. Agora, a limpeza  mais
importante - disse Catarina esfregando cada vez com mais fora.
        Philipp teria comido alguma coisa? De bom grado levaria at
o filho um prato de comida, uma roda inteira de po, do po que


21


naquela tarde tirara do forno. Apurou o ouvido, na certa as crianas
j dormiam. Comeou a enxugar a barba e os cabelos do marido.
Prendia a sua cabea de encontro ao peito e esfregava com veemncia
e deciso. Era como se abraasse a cabea de Philipp e com aqueles
panos midos reavivasse as foras combalidas do rapazinho em plena
guerra. Olhou para o marido e teve vontade de dizer a ele que se
parecia com um bicho, os cabelos eriados, a barba encaracolada.
Tirou a sua camisa suja, passou o pano molhado no peito e nas costas,
ordenou a ele que permanecesse ali, junto ao lampio, enquanto ela
afiava a faca para desbastar a grande juba que levava susto s crianas.
        Terminada a tosa, Daniel Abraho sentiu a cabea leve e Catarina
disse que agora sim, ele merecia o seu prato de comida. Havia postas
de carne assada no forno e grandes batatas cozidas no molho forte.
Enquanto ele comia com sofreguido, Catarina olhava para o marido,
recordava os tempos antigos; sua pele, agora, comeava a ficar
pergaminhada, as costas abauladas pelo trabalho nos serigotes, os braos
rijos e musculosos, o corpo adelgaado e sem barriga, o desejo
irrefreado brotando no bico dos seus seios, na quentura do ventre, um
desejo a princpio vago e indefinido, depois forte e preciso, aguado
enquanto levava o marido para a toca, ajudando-o a descer, indo com
ele, ajeitando as cobertas no cho, tirando-lhe o resto de roupa que
deveria ser lavada no dia seguinte; buscaria outras, veja o meu
exemplo, assim, eu tambm tiro a blusa, a saia,  preciso que a
gente se livre de toda essa imundcia, pelo menos de vez em quando,
faz bem ao corpo e  alma. Daniel Abraho acendeu o pequeno
lampio que o ajudava a ler a Bblia, Catarina puxou a porta do alapo,
deitaram-se juntos, os corpos se tocando, ele a passar as mos
inchadas pelo corpo da mulher e a rir desajeitado, dizendo que no sentia
nada com aquelas mos, elas pareciam de pedra ou de madeira, eram
como o cabo da enx, os seios de Catarina arfavam e ela os comprimia
de encontro ao peito forte de Daniel Abraho, ele a repetir que no
tinha mais tato, no sentia a pele da mulher, que aquilo talvez fosse
um castigo dos cus por tantos pecados cometidos pelos homens na
terra.
        - Ns no devemos pagar pelos pecados de mais ningum na
terra - disse Catarina falando ao seu ouvido - bastam os nossos
e Deus  grande.
        Esticou o brao e com a mo trmula, de menina, abaixou a luz
do lampio, achegou-se ainda mais, sentiu algo duro e latejante, rijo,
nervoso, fremente. Daniel Abraho no sabia mais fazer as coisas
sozinho, tateava desajeitado, apenas o desejo visvel, a garra de um
selvagem no meio da noite, excitado to-somente pelo cheiro da
fmea, os seus gemidos abafados, cuidado, as crianas esto logo ali,


22


esses tabiques de madeira so como simples redes de cips. Era como
se estivessem numa clareira iluminada por uma lua comum, a mesma
que banhava os filhos, os vizinhos, aquela gente toda que povoava o
vilareJO silencioso, pois que naquela hora, quem sabe, dezenas de
outros casais, como os Schneider, se tateavam no escuro, se
procuravam com febre e ardor, as mesmas mos rsticas mal sentindo a carne
do parceiro, O mesmo cheiro de suor dos corpos trabalhados de sol a
sol, a grande noite comum, como o suave luar da toca, a luz
mortia de um candeeiro igual, Catarina mordendo o dorso da mo, onde
andaria Philipp, Deus do cu, ele que era tanto Catarina, a respirao
acre e forte do marido, a barba grosseira a tresandar sabo, suas
palavras entrecortadas, como grunhidos de animal em cio, o balanar
de navio em alto-mar, era sempre assim, a velha noite a bordo do So
Francisco de Paula que retornava com furor, dorida, longnqua, os
corpos ofegantes dos outros casais. Debaixo da casca de noz o mar
profundo e negro, o mistrio insondvel das guas e do amor. Daniel
Abraho ouvia a voz da jovem mulher de Dresden, as patas dos
cavalos das tropas em guerra, Catarina um ponto perdido no meio da
terra, de largos campos, espingarda cruzada sohre os joelhos. o fogo a
devorar-lhe as entranhas, a esvair-se em smen e sangue, a vontade
quase incontida de gritar naquela hora: miseraveis, canalhas; de
chorar, de soluar baixinho para no despertar as crianas. A dor fluida
de algo em brasa a trespassar-lhe as carnes, o corpo intumescido, o
corao disparado, o pequeno, mido, abafado covil das duas feras
entrelaadas, sangue do meu sangue, carne da minha carne, Senhor,
olha por ns, ilumina nossa escurido, suplicamos-te, Senhor, livra-nos
de todos os perigos e ameaas desta noite.
        Depois, ficaram os dois em silncio. A mulher desejando dormir:
o homem meio assustado, pois que havia mais algum ali dentro de
sua toca, todos os seus segredos violados, sabido pelo coro de
cachorros que uivavam na noite longa e perigosa. Seriam os mesmos,
pensou Catarina, que perturbavam o sono agitado e febril de Philipp
dormindo debaixo de um cu vazio de estrelas e de luzes, prenhe
de ameaas e pressgios, de inimigos que poderiam surgir de repente,
de uma canhada, de um bosquete, de uma coxilha, armas na mo,
diante daquele menino que se colava  terra e que no queria morrer.
        As lgrimas de Catarina eram quentes e molhavam o rosto de
Daniel Abraho e ele ainda afagava os seus cabelos, pedia que
ficasse quieta, sentia o sal dos seus olhos e dizia a Deus que aquele era
o sal da vida.



23



2 Philipp acordou sobressaltado. Juanito trocava as compressas de
gua fria sobre a sua testa alagada de suor. Estavam numa pequena
pea do emprio, a madrugada l fora se anunciava pelas frestas
da parede de madeira. O rapaz sentia os miolos soltos no oco da
cabea, uma contrao aguda no estmago, as carnes doloridas.
Perguntou ao ndio se estavam na guerra. Sacudiu Juanito que no entendia
as suas palavras, gritou, berrou. Isaas Noll entrou apressado, que est
havendo por aqui? Afastou Juanito, passou a mo pela testa de
Philipp: isto ainda  resultado da noite de ontem.
      - E o Major Heise? disse Philipp.
        - No sei, deve andar por a, at agora no houve mais tiros,
acho que esta maldita guerra terminou.
        Philipp agarrou-se ao brao de Isaas, conseguiu ficar de p, o
quartinho rodopiando, um gosto azedo na Lngua saburrosa. Apoiou-se
na parede, saiam todos, saiam, quero ficar s. Juanito e Isaas
obedeceram. O rapaz caiu sentado na cama, as mos pendentes entre os
joelhos. Onde andariam os soldados? Heise no o abandonaria assim,
no o enganaria como uma criana, havia prometido lev-lo com o
batalho; que fosse para lavar cavalo, dar forragem, levar recados, fazer
fogo para os cozinheiros, limpar e arear os grandes paneles.
        S os galos cantavam, a cachorrada e os seus latidos haviam
desaparecido. Isso era mau sinal, cachorro no costuma largar soldado,
persegue os regimentos como as chinas e os ladres de cadveres. Isaas
gritou de fora:
        - Acho melhor dormir um pouco mais.
        Ele no respondeu. Deitou-se devagar, recostou a cabea no duro
e mido travesseiro de palha. Recusava-se a reconhecer que algo estava
lhe faltando. E por que precisaria? Ficou de ouvido atento, distinguia
ao longe a voz de Catarina dando instrues em casa. E se andava
por ali dizendo coisas, mandando, cuidando da casa, por que no
chegar at a porta do quartinho e perguntar, meu filho, quer tomar
alguma coisa? Precisa de um remdio? Est com febre? Mas no era
a voz da me, ela estava em So Leopoldo, dormindo ao lado dos
irmos menores, ouvido atento a qualquer chamado do pai. A voz
apagada de Daniel Abraho lendo a Bblia, as palavras filtradas como
a luz fraca do candeeiro, bruxuleando pelas frestas do soalho de
pranches de cavina.
        Isaas e Gebert emudeceram, Philipp fincou os cotovelos sobre
a enxerga, cabea erguida, ouvido atento. Engele deixou de sentir
as dores nas mos. Richter fez um sinal, era melhor pegarem as
armas. Um grupo numeroso se aproximava a galope, o barulho das
patas dos cavalos aumentava, na certa se avizinhavam do emprio.
Isaas esgueirou-se pelo quartinho de Philipp.


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-        Esto vindo para c - disse quase num sussurro.
        O        rapaz acalmou-o, deve ser gente nossa. Os cavaleiros apearam,
eles calcularam que fossem no mnimo cinco. Talvez oito. Bateram forte
na porta com os cabos dos rebenques. Uma voz grossa e rude se fez
ouvir:
        - Abram em nome do governo revolucionrio!
        Um outro gritou: ei, gente de casa, abram que somos amigos.
Richter olhou para Juanito que fez um sinal de assentimento.
Encaminharam-se para a porta, Isaas tirou a tranca enquanto os outros
empunhavam as suas armas. Toparam com um grupo de seis homens,
 frente deles um sujeito de m catadura, melenas pretas escorrendo
pelo pescoo sujo, sobre os ombros um pala sem cor.
        - Sou Jos Incio da Silva, me tratam por Juca Ourives.
Alguem me conhece aqui?
        Juanito disse que sim. O homem aproximou-se dele: esses
gringos no falam Lngua de gente, ndio filho de uma puta? Pois diz a
eles que estamos recolhendo donativos para a causa revolucionaria
em nome do General Bento Gonalves. Queremos fazendas, charque
e mantas contra o frio. A revoluo depois paga. Philipp entendeu que
eles queriam levar coisas e viu nas mos de Juca Ourives uns panos
com as cores da revoluo. Disse para Isaas, deixa levar e anota,
que o Major Heise depois se encarrega de cobrar. Acrescentou: que
deixem recibos das quantidades, pea por pea. Fez sinal para o
ndio, ele que mandasse os homens entrar. A malta avanou em
direo das prateleiras, vidos, tropeando nos caixotes, cada um
agarrando o que podia. Philipp disse a Isaas:
      - Acho que no so revolucionrios, devem ser ladres,
repara bem nesses homens.
      - Reagimos?
        Olharam em redor, viram dois deles de escopeta em punho,
guardando os companheiros. Philipp disse no. Alguns dos companheiros
podiam ser mortos por eles, no valia a pena, eles tinham como
recuperar a mercadoria se fosse um assalto mesmo. Quase a seguir
ouviram um novo tropel que se aproximava. Seriam outros ladres? Juca
Ourives suspendeu, por sua vez, o saque, e ficou de ouvido aguado.
Fez sinal para os companheiros irem at a porta, queria saber quem
se aproximava. O primeiro a sair voltou, correndo:
        -         um piquete do Onofre Pires!
        Largaram tudo, estabanadamente, e correram para seus cavalos.
Os animais, assustados, impediam que eles montassem. O piquete
chegou, um tenente deu voz de priso, os soldados apearam e trataram
de caar o bando. Juca Ourives gritava que eles pagariam caro, pois
estavam recolhendo donativos para as foras da revoluo, que iria dar


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queixas ao Presidente Marciano Ribeiro. Quando j estavam todos
presos e manietados, chegou Heise com mais dois ordenanas. Philipp
correu para ele, contou em poucas palavras o que achava que
estivesse ocorrendo. Heise dirigiu-se ao tenente, que perfilou-se em
continncia.
      - H dois dias andamos atrs desses safados.
        Juca Ourives era useiro e vezeiro em faanhas como aquela. De
corredor de carreiras de cancha reta virara assaltante. Heise caminhou
at o chefe do grupo. Disse a ele que um tipo assim devia ser logo
passado pelas armas, sem julgamento, sem direito a nada, um ladro
vulgar. E, de mais a mais, estava desmoralizando a causa. Juca Ourives
sorria velhaco, ar superior, alemo de merda, um dia te pego. Um
soldado tratou de apertar ainda mais as cordas que prendiam as suas
mos s costas. Ele gritava: vim com as foras do General Gomes
Jardim, quando ele souber disso vai mandar meter todos vocs na
cadeia, ustedes vo ver. Cuspiu num dos soldados e recebeu bofetadas
de mais dois. Outros caram em cima dele, batiam com violncia. O
tenente foi obrigado a ordenar que parassem, gritou apopltico, at
que os nimos serenassem. Juca Ourives foi colocado no lombo do
cavalo, os demais seguiriam a p. O piquete rumou para os lados
do cais. Heise disse, deviam meter esses desordeiros na Presiganga.
Entrou no emprio, seguido pelos demais. Sentou-se um pouco
desanimado, olhou para Philipp com ar de quem queria dizer alguma
coisa desagradvel, o rapaz percebeu.
      - Acho que o major no est muito contente, v-se logo.
        Heise permaneceu ainda alguns momentos sem dizer nada,
passava as mos no rosto crestado pelo sol e depois disse para eles:
      - O novo governo no quer estrangeiro lutando ao lado deles,
devemos voltar para So Leopoldo.
        Philipp mostrou-se surpreso, mas ento no querem estrangeiros
na guerra, justamente ns que sempre os ajudamos? Mas aquilo era
uma injustia, algum deveria falar com os chefes revolucionrios.
Heise sacudiu a cabea negativamente. Eles mesmos decidiram, no
h como faz-los voltar atrs. Todos se entreolharam, Philipp parecia
ser o mais abatido. Mas ento, balbuciou ele, quer dizer que devemos
voltar, cada um para a sua casa, trabalhar na lavoura, cortar
madeira para os lombilhos, construir carroas e carretas, comprar e
preparar o melhor charque e depois de tudo isso ainda entregar tudo aos
militares em troca de pedacinhos de papel, os vales que nunca mais
seriam cobrados e nem pagos e nem lembrados?
      -No volto, major - disse de repente Philipp.
        Heise permaneceu impassvel, como se no estivesse ali e nem


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ouvira nada. Esfregou as-mos nas pernas, levantou-se decidido,
bateu forte nas costas do rapaz:
-        Pois temos de voltar, lamento muito.
        E diante de nova reao de Philipp disse: a caminho de So
Leopoldo discutiremos o resto. H muito tempo pela frente. E depois,
no sou eu quem d as ordens. Virou-se para os demais: come-se
alguma coisa antes da viagem? Todos viram que ele tambm estava
abatido, sentia-se trado, afinal agora os alemes eram alijados,
voltavam  condio de estrangeiros e nenhum ainda havia esquecido os
compromissos assinados pelo Major Schaeffer. Eram ou no eram
cidados brasileiros?
        Comeram o que havia. Heise, Philipp e Juanito se despediram,
iam partir com um troo de tropas para a colnia. Uma espcie assim
de retirada, homens e cavalos de cabea cada pelos caminhos e
picadas conhecidos, a marcha lenta, desanimada, chegariam com o
clarear do dia, quando os fogos comeavam a ser acesos nas casas, as
poucas estrelas diluindo-se com o alvorecer.



3 Grndling gostava de assistir, do convs de um dos seus lanches,
o pr-de-sol no Guaba. Pedras Brancas, do outro lado, na
margem oposta, ofuscada pelo derrame de luzes e de cores no
cu de poucas nUvens, primeiro o amarelo lavado, depois o rseo, o
vermelho, o violceo, o roxo sombrio, quando o disco amortecido do
sol afundava no horizonte. Ele olhava com desprezo para os negros
carregadores no porto, animais que nem sequer levantavam os olhos
para assistir aquela beleza toda, o dia que relutava em morrer, a noite
abocanhando as sobras de claridade. Grndling, naquele momento,
recordava um quadro qualquer que vira, tempos atrs, em Hamburgo,
na rica manso de um importador amigo. Era um pr-de-sol menos
rico, as cores leves, enchendo, de sombrias tonalidades, uma cena de
guerra. Os exrcitos de Napoleo, batidos e desordenados, os cavalos
espantados, o cho coberto de cadveres e, sobre tudo aquilo, um sol
tambm vencido, agonizando com as tropas. Estava ele agora no
tombadilho sujo do Jorge Antnio, cabea confusa, Porto Alegre
dominada pelos rebeldes, o governo legal homiziado em Rio Grande, os
Caminhos para So Leopoldo vigiados e quase todos os dias os
imundos papeluchos das requisies.
        Nos pores do barco os seus homens aguardavam que o sol
terminasse de desaparecer. Tobz, Schilling, Zimmermann, Bayer. E os
Convidados, Gaspar Schirmer, um rapaz de vinte e poucos anos,
cabelos louros escorridos, pouco falante, os olhos de mope, um bluso


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de couro mal curtido e calas largas de pano riscado. Conrado Jost,
queimado pelo sol, conhecido por sua habilidade em fazer contas,
grandes mos de cabo de enxada. E ainda Gabriel Hatzenberger, de
Hesse, magro e desconfiado, fumando um palheiro enquanto observava
os demais com os seus olhinhos espremidos. Havia um forte cheiro de
peixe podre naquele poro. A luz fraca de dois lampies fumegantes
enchia de sombras as paredes baixas e gordurosas. Zimmermann disse,
Herr Grndling no demora, j est a em cima.
        Ele j no via mais o disco arroxeado do sol. Olhava, mas no
enxergava. Jorge Antnio com quase seis anos, Albino com trs. Agora
Frau Meta, a parteira Apolinria, tomando conta da casa e das
crianas. De incio ela no queria, tinha as suas obrigaes, atendia as
suas compatriotas de So Leopoldo, no tinha hora para dormir e nem
para comer, mas aquela era a sua obrigao. Joo Jorge, filho de
Catarina, nascera em suas mos. E varava picadas por causa de um
parto. A oferta de Grndling fora generosa, mas no poderia aceitar.
Foi quando Catarina falou com ela, Frau Metz, aquelas pobres
crianas esto abandonadas no casaro da Rua da Igreja, entregues s
negras, sem ter um vivente com quem falar. E depois, a senhora j est
com mais de sessenta anos, precisa descansar dessa vida de caixeiro-
viajante, lombo de burro para todos os lados, quer faa sol, quer
faa chuva. Uma casa com conforto, um bom dinheiro por ms, as
mucamas para o servio grosseiro. "Aceite, h outras parteiras aqui em
So Leopoldo".
        A velha Apolinria entrara desconfiada na grande casa, os
candelabros, os quadros, o belo relgio parado, "a senhora, por favor -
dissera Herr Grndling - no toque nesse relgio, no lhe d corda,
no lhe tire o p, quero que ele fique sempre assim". As crianas
arredias, a princpio, depois a confiana do sono tranquilo, mesmo nas
noites de tempestade, nas arruaas de guerra. De vez em quando, para
no desaprender, um parto pelas vizinhanas.
        Grndling agarrou-se ao rstico corrimo da escada a pique e foi
ao encontro dos seus homens. Tobz ofereceu um banco, ele disse que
preferia ficar de p, sentia-se melhor caminhando de um lado para
outro no pequeno e mido poro.
        - Por certo os senhores sabem o motivo desta reunio de hoje.
Preciso tomar algumas decises e conto com todos. Esses j so meus
velhos companheiros - disse apontando Zimmermann, Tobz e
Schilling - e os senhores eu j conhecia de nome e que so honestos,
fiis e trabalhadores  coisa que nem se discute, tenho provas disso.
        Prosseguiu falando sem olhar para nenhum deles em especial.
Preciso reestruturar meus negcios, a guerra est na nossa porta, os
tempos esto ficando cada vez mais difceis e se a gente no pensar


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com a cabea fria termina ficando na misria. No se trata de tomar
partidOs Vejam l, chamo a ateno para esse detalhe. No  o caso
de tomar partido, ganha-se mais ficando de fora. Quando se quer
fazer negcio a poltica  m conselheira e pssima tesoureira. No
nos interessa saber quem est no governo, se ele est nas mos de
pretos ou de brancos, pois que diabo,  com ele que sempre est a
razo.
      -No se bebe neste barco? - perguntou a Tobz.
        O        outro correu a desencavar duas garrafas de rum num caixote,
descobriu canecas de bano, correu pressuroso para junto do patro
que agora sorria satisfeito, assim  que se faz, tudo deve ser previsto
-        disse batendo com a palma da mo nas costas do amigo. Sirva
essa gente,  rum de primeira. Mas vamos aos negcios. Virou-se para
Schirmer, O rapaz teve um leve sobressalto, tenho boas informaes a
seu respeito,  um moo ambicioso, sabe fazer negcios, me disseram
que levanta com o sol e deita-se com ele.  de gente assim que eu
gosto. Pergunto: aceita abrir o nosso emprio no Porto?
        O        rapaz coou o queixo, a ponta do nariz, alisou os cabelos
corridos, disse em voz baixa e calma:
        - Sabendo que tenho de enfrentar o velho Jacobus, a misso
no  das mais fceis - ficou alguns segundos calado, todos em
expectativa. - Mas aceito e prometo tocar o barco para a frente, se
assim o senhor entender.
      -Negcio fechado. Amanh mesmo pode seguir para So
Leopoldo neste lancho mesmo, e de l segue para o Porto. Vai ter
todo o meu apoio.
        Olhou para Hatzenberger, quero este aqui para as compras nas
picadas, eu sei, por informaes seguras, que ele  capaz de andar
uma semana inteira no lombo de uma mula, atravessa sangas e matos,
sabe regatear,  duro nos preos e quando lhe convm compra na
marra.
        O        outro chupou mais forte a fumaa do seu cigarro, no
levantou os olhos para Grndling, dava a impresso de no ouvir nada.
Depois falou, dando-se ares de que estava mais preocupado em refazer
o seu palheiro do que propriamente com o assunto que agora lhe
tocava de perto.
      - Quero trinta por cento no lucro. Cinqenta por cento nos
casos especiais.
      - E que voc entende por casos especiais? - perguntou
Grndling demonstrando leve irritao na voz.
      - Aqueles que no pago em dinheiro, mas por trocas. Sabe,
quando se troca dois carretis de linha por um leito bem cevado.
        Grndling soltou uma gargalhada estrepitosa.  assim que se


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fala. A est um homem que precisa menos de trs anos para ficar
rico. Com a minha ajuda, pode estar certo, fica rico em dois anos
ou menos. Mas dou vinte por cento e quarenta nos chamados casos
especiais. Hatzenberger no demonstrou grande surpresa com a
deciso de Grndling, mas percebeu que seria imprudente discutir uma
coisa que acabava de ser dada como definitiva, era o jeito do dono
daquele barco.
        - Este - Grndling apontava agora para Conrado Jost - vai
ser o meu homem aqui mesmo em Porto Alegre, junto com Bayer. Sei
que ele faz o preo da batata bastando ver a cor do saco. Pois dou
casa, salrio e participao a combinar. Dos lucros do fim do ano
ainda dou mais dez por cento. Acertado?
        Jost assentiu, srio e calado, meio confuso com a rapidez da
proposta, gostaria de pensar sobre o novo trabalho, fazer clculos, por
fim perguntou "quando comeo a trabalhar?"
        Grndling levantou a caneca quase batendo no teto. Exclamou
"vamos beber pelo xito dos nossos negcios". Todos o
acompanharam, um pouco espantados pela maneira fcil com que ele engolia a
bebida. Schilling perguntou se a reunio havia terminado, se podiam
ir embora. Tobz ajudou o amigo, disse que no era por eles, mas o
patro devia estar cansado. Grndling balanou a cabea,
concordando. Podem ir, os acertos de dinheiro ficam para amanh.
Zimmerman e Schilling se encarregariam dessa parte.
        Foram subindo a escada estreita, um por um, desaparecendo de
encontro ao cu estrelado de uma noite quente.
        Quando Grndling retornou ao convs, viu a silhueta da
Presiganga e imaginou que muitos legalistas deviam estar nos seus
pores imundos, aguardando o julgamento dos revolucionriOs. Chamou
o marinheiro de vigia e disse a ele que fosse buscar, de manh bem
cedo, o salvo-conduto para seguir antes do meio-dia para So
Leopoldo. O homem fez algumas curvaturas e ficou onde estava, ps
plantados no cho, enquanto o patro descia, levemente inseguro, o
prancho que ligava o barco ao velho trapiche carcomido. Ruminava
satisfeito com suas prprias decises, todos deviam saber, sempre
legalista para os homens do Imprio e sempre revolucionario para a
cambada de malfeitores que haviam se instalado no Palcio, sim, eles
agora estariam l, botas sujas de barro esfregadas nos grandes tapetes
mandados vir da Europa, as grandes cusparadas jogadas ao lu, o mate
amargo passando de mo em mo dos rudes cavaleiros.




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4 Catarina, de onde estava - tinha diante de si os cadernos
pretos das contas do emprio e da oficina - via Philipp entregue
de corpo inteiro ao trabalho, ele e Fmanuel ajustando os raios
de uma roda de carroa, ambos sem camisa, peles luzidias pelo suor
que escorria e empapava parte das calas. Mais adiante, Daniel
Abraho empenhado na lavra de mais um serigote, os cabelos curtos
hirsutos, as mos hbeis, os lbios em contnuo movimento, como se falasse
sem parar. O filho no dissera uma palavra sobre a guerra, nem por
que voltara. Beijara a me e o pai, os irmos menores, dera um
abrao demorado e comovido no amigo Emanuel. Juanito, com aquele
seu ombro cado, ensaiara uns passos de dana indgena, como a
demonstrar incontid alegria, depois fora fazer uma faxina na toca de
Daniel Abraho, limpar os cantos da oficina, ficou um tempo enorme
espiando a rua, o descampado em frente, o cu redondo e limpo,
aspirando a plenos pulmes aquele ar que tambm era dele. Mais
tarde, procurada pelo Major Oto Heise, Catarina ficou sabendo de
tudo, os alemes que se recolhessem s suas casas, que aguardassem
a chamada. Enquanto isso, o que tinham a fazer era plantar, cuidar das
roas, colher, criar os seus bichos e tratar dos filhos. Dissera a Heise:
eu fao a guerra do meu jeito.
        Em dado momento ela sentiu necessidade de ir para o lado do
filho, afagar os seus cabelos, conversar um pouco sobre tudo,
perguntar como se sentia, em que pensava. Mas o menino calava, com
Emanel trocava meia dzia de palavras, em geral sobre assuntos do
servio. Qualquer coisa dentro dele no ia bem. No sorria nem
mesmo quando fazia o pequeno Joo Jorge, ento com dois anos,
cavalgar os seus joelhos. No saa  noite, deitava-se cedo, ou pelo
menos ia para a cama quase ao mesmo tempo em que o pai
submergia na sua toca.
Uma noite, Catarina acorreu assustada ao ouvir seus gritos e
imprecaes. Philipp se debatia entre os lenis, banhado em suor,
proferia coisas ininteligveis, comandava Juanito. Acordou sentindo as
mos fortes da me que lhe seguravam os braos. Depois o afagou,
meu filho deve estar tendo pesadelos, trata de dormir, vou buscar um
pouco dgua. Ento ele se situava na escurido, aquela era a sua casa,
O pai l embaixo, os irmos dormindo na pea ao lado, aquele cho
era intocvel, era dos Schneider. Bebeu a gua fresca e disse para
a me que podia ir dormir, estava bem, no era nada. Logo a seguir
retomava  guerra que se resumia nas palmatoadas do Padre Pedro,
as mos sanguinolentas de Engele, o assalto de Juca Ourives, o
bandido preso, manietado, ameaando cus e terra; afinal, que teria a dizer
sobre tudo isso o nosso bom amigo Major Oto Heise? O inimigo
atacando e as tropas bivacadas, cavalos soltos no campo, a guerra re-


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duzida s escaramuas de rua, o fortim do emprio onde os homens
empunhavam armas como se estivessem a temer os bugres, ou ento
os poucos tiros dos soldados bbados, os homens do Cabo Rocha
assassinando o Coronel Freire e seu filho; essa guerra era a guerra deles,
no a sua, a guerra com a qual sempre sonhara, as que vinham
reproduzidas nas gravuras vindas da Europa, homens e cavalos
entreverados, os grandes canhes fumegando, tiros e pontaos de baioneta.
        Naquela noite ouviu de sua me, voz sumida para no acordar
as crianas e nem preocupar os outros, por que o meu filho no
procura dormir se h tanto trabalho pela manh? Como adivinhara que
ele ainda estava acordado, e bem acordado?
        No dia seguinte ela voltara aos seus cadernos de capa negra,
havia neles, a lpis, crculos, traos e cruzes, a marca e no os
nomes dos clientes, os riscos borrando os sinais, a indicar as contas
pagas; na oficina os homens trabalhavam, era a faina de todos os
dias, os meninos limpando o cho dos gravetos e aparas, distribuindo
gua, levando recados e encomendas. Juliana, barriga de cinco meses,
a andar pelo descampado fronteiro  casa, cuidando das crianas, uma
galinha choca com os seus pintinhos.
        Uma noite, Catarina serviu  famlia um pernil assado no forno.
Daniel Abraho olhou guloso para a carne tostada, brilhante de
gordura, estendeu os braos sobre a mesa e disse, devemos agradecer
a Deus Nosso Senhor pelo alimento que nos concede, o po nosso
de cada dia, por todas as graas alcanadas, amm. Catarina no
olhou para Philipp, disse:
        - Tenho pena dos soldados, muitos deles chegam a passar dois
e at mais dias sem comer nada, sem ter nada o que botar na boca.
 bom agradecer a Deus quando se tem a mesa farta.
        Os meninos foram dormir, Juliana sempre atenta, Emanuel
espreguiando-se e logo depois Philipp acompanhou o pai at o seu
covil, ajudando-o a acender o lampio, sacudindo as cobertas, o
senhor precisa deixar essas cobertas pelo menos um dia inteiro ao sol,
aqui dentro h muita umidade, pode juntar escorpio. Daniel Abraho
parecia no ouvir, abriu a Bblia, escuta aqui, estas so as palavras
divinas, ai daqueles que tm ouvidos e no ouvem, que tm boca e
no falam, que tm olhos e no vem. Philipp saiu sem rudo, fechou
a portinhola abafando l dentro as palavras arrastadas do pai, ouviu o
ressonar entrecortado da me, o vento a silvar pelas frestas, era chuva
que estava por chegar.
        Acordou em sobressalto, podia jurar que ouvia a voz autoritria
e inconfundvel de Heise. Era como se estivesse h um sculo a
esperar por aquela voz, por aquele momento, jogou para longe as
cobertas, sentou-se quieto, respirao suspensa. O major falava com


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Catarina na porta da rua. Philipp ouviu o barulho de cascos de mais
de um cavalo, levantou-se rpido, no estava sonhando, enfiou as
calas e as botinas, passou as mos pelo cabelo revolto e foi ao
encontro das vozes. Percebeu, num relance, o rosto preocupado da me,
viu o ar tresnoitado de Heise.
        - Vim te buscar, vais comigo - notou mais atrs a cara de
Juanito. - A tua sombra pode ir tambm.
        - Seja o que Deus quiser, major - disse Catarina.
        Heise virou-se para o rapaz, vamos nos engajar s foras de Lima
e Silva, ele acaba de dispersar um grupo de legalistas no Faxinal, em
Porto Alegre vamos engrossar a diviso que segue para Rio Grande,
precisamos desalojar o Presidente Arajo Ribeiro. Esclareceu: o
ex-Presidente.
        Emanuel ajudou o amigo a encilhar o cavalo, encheu um
embornal com comida que Catarina amealhou de uma assentada, Daniel
Abraho ,sara do abrigo, espiava em redor sem compreender bem o
que se passava, o filho disse que seguia o major para a guerra,
novamente. O pai estendeu a mo, num gesto tpico, leva a minha bno
e que Deus te acompanhe. Heise perguntou a Catarina, a senhora
est muito preocupada? Ela respondeu: no estou, o senhor pode
acreditar, algo aqui dentro de mim diz que nada de mal acontecer ao
meu filho.



5 Os soldados alemes cavalgavam juntos, a tropa seguia
lentamente, a cavalhada no agentaria marcha batida. Philipp buscava no
horizonte algum sinal do inimigo, perguntava aos companheiros
quando afinal entrariam em combate. Goeske e Kondrf, o sargento
Ohlmann e o ligao Albrecht comentavam entre eles a ansiedade do
menino, ainda bem que ele nem sonhava com o que pudesse ser um
combate de lana, corpo a corpo, cavalos e homens mordendo a
poeira do cho. Ohlmann disse a Philipp que estavam indo ao
encontro da gente do Onofre Pires que cercava Rio Grande, talvez
estivessem quela hora nos arredores de So Jos do Norte.
        Vozes de comando, repetidas como um eco, ordenaram alto.
Todos viram dois cavaleiros que se aproximavam da cabea da coluna,
a trote largo. Os homens se encontraram com os oficiais e falavam
muito, gesticulavam apontando para o norte, abriam os braos,
finalmente apearam para uma reunio com o alto-comando. Foi
transmitida ordem de apear por alguns momentos. Philipp perguntou a
Ohlmann:
        - Ser que eles encontraram o inimigo?
        - Pelo sim, pelo no, o melhor  ir preparando as armas.


33


        Albrecht havia seguido o Major Heise e estava l na frente. Ao
voltar viu-se cercado pelos companheiros alemes, formaram um crculo
em torno dele, ele pedia que pelo menos lhe deixassem um pouco
de ar para respirar. Calma, por amor de Deus. Deu as notcias: Juca
Ourives havia se juntado s foras do Capito Pinto Bandeira e agora
eles marchavam juntos para So Jos do Norte a fim de auxiliar a
defesa da vila, temendo a aproximao de Onofre Pires. Philipp
perguntou a Goeske:
        - Este Juca Ourives no  aquele mesmo que foi preso no
nosso emprio do Caminho Novo?
        - Deve ser o mesmo, tenho lembrana do nome dele.
        Depois acrescentou: e sabe que no Passo da Areia, perto de
Porto Alegre, ele foi preso quando deflorava uma menina de famlia?
Onofre Pires resolveu, depois de ter o bandido preso, de ordenar
que ele fosse solto, achando que com o tempo o homem acabava por
tomar jeito. Pois outras menininhas perderam o que tinham de mais
precioso e a est ele de chefete, importante e com galo no ombro.
        Heise reuniu os alemes, explicou que seguiriam juntos para So
Jos do Norte enquanto metade das foras ia direto para Rio Grande.
Montaram apressados, o corao de Philipp disparando, Juanito
colado a ele, olhinhos brilhantes, lana firme entre os dedos crispados,
postura de antigo guerreiro. Eram, ao todo, cem homens. Logo
depois, quando se juntaram aos soldados de Onofre, subiam para
trezentos e cinqenta. Philipp ficou assombrado quando viu o
comandante, homem de quase dois metros de altura, cabea bem plantada
entre os ombros, voz tonitruante. Disse para Kondrf que montava a
seu lado, perna a perna,  um gigante essc tal de Onofre Pires. O
outro confirmou, nunca vi um general assim to grande. Mais  frente,
Heise permaneceu algum tempo ouvindo as instrues do comando,
depois veio reunir-se aos seus homens para transmitir as ordens e
cumprir o papel que cabia aos alemes naquela manobra ttica para
desbaratar as tropas de Juca Ourives e do Capito Francisco Pinto
Bandeira. Mais adiante havia um encordoado de coxilhas, Heise
apontou a espada para uma delas, a mais proeminente, deu de rdeas
seguido pelo magote daqueles soldados que se destacavam dos outros
pelos louros cabelos e pelas roupas de lavradores.
        Para Philipp aquela era uma cavalgada rumo ao fogo, uma
disparada para a morte. Era assim, ento, uma batalha. O cenrio todo
parecia pintado numa tela. Quando estacaram, ningum desmontou,
ficavam cobertos pela elevao do terreno, enquanto piquetes menores
faziam evolues no alto, a descoberto, lanas na vertical, presas aos
estribos, bandeirolas frenticas, tocadas pelo vento, as crinas e os
rabos dos cavalos nervosos.


34


        Heise disse: o inimigo assim pensa que somos poucos, a um
        toque de corneta devemos voltear esta coxilha e atacar pela esquerda.
Mas s faam isso quando eu der o exemplo. Circulava entre os seus
homens, enfia mais o p no estribo, no  assim que se agarra uma
lana, encurta as rdeas, puxa o brido, s gritem depois de
comeada a carga. O cavalo de Juanito fazia evolues, orelhas erguidas
como a farejar qualquer coisa no ar, o ndio no sabia se ficava 
direita ou  esquerda do rapaz, preferiu a direita, assim ele poderia
manobrar melhor com a lana. Viram, no alto, os homens
concen        trados, logo a seguir entravam em linha, as lanas foram abaixadas,
presas sob os sovacos, e foi quando os alemes comearam a ouvir um
tropel distante, depois mais ntido, era o inimigo que se
aproximava em disparada, aos gritos de guerra que fizeram um tremor
percorrer a espinha de Philipp e deixaram lvidos os seus
companheiros. Quantos seriam eles? Mil homens? Os corneteiros, a um sinal,
ergueram os seus instrumentos, os magotes que haviam ficado
escondidos nas baixadas iniciaram as suas evolues rpidas, Heise partiu
com seus homens pela esquerda e em breve todos eles puderam ver
os magotes desordenados que investiam contra eles. Ao iniciar a
corrida Philipp gritou para os companheiros mais prximos:
           - Mas  s isso, gente?
           - Firme na lana, rapaz, que  o Juca Ourives.
        Philipp jamais em toda a sua vida iria esquecer o fragor do
entrechoque de lanas e espadas, os gritos dos homens e os relinchos
dos cavalos, o inimigo prontamente desmantelado, cercado, a tentar
desesperadamente abrir uma brecha qualquer por onde pudesse
romper o cerco muito bem planejado. Viu arrepiado uma lana penetrar
no peito de um soldado e sair pelas costas, em meio a golfadas de
sangue, o soldado a vomitar, olhos esgazeados. Juca Ourives,
domiDando o cavalo e a espada, conseguiu por fim romper o cerco e iniciar
        uma fuga desabalada, seguido de perto por vinte e poucos homens.
        Heise, em plena carga, percebendo a manobra, mudou de direo
e saiu em perseguio dos fugitivos. Quando sentiu que no os
alcanaria - eles tinham cavalos melhores - fez sinal de alto, o
remdio era retornarem. Philipp protestou: pelo amor de Deus,
major, vai deixar aquele bandido fugir?
        - Rapaz - gritou Heise vermelho - aprenda que aqui s quem
d ordens sou eu. Retornar!
         noite, caras alumiadas pelas fogueiras, o cheiro forte do
assado enchendo de gua a boca da soldadesca, os alemes pareciam
frustrados. Haviam visto o inimigo de longe, a manobra do comando
fora perfeita. O ligao Albrecht descrevia os resultados do combate,
fora uma vitria estrondosa, Pinto Bandeira encontrado morto, tres-


        35


passado por uma lana. Muito material havia sido apreendido, farta
munio e apontava para um grande reduto onde se viam os
prisioneiros amontoados, muitos deles pedindo para aderir, outros
choravam, tinham muitos filhos em casa, temiam ser fuzilados.
        Heise caminhava de um lado para outro, falava com cada um
dos seus homens, perguntou a Philipp como estava, como se sentia
depois daquele seu primeiro combate, O rapaz disse que nem fora
um combate, tudo correra to fcil, o inimigo havia passado por longe.
      - Pois  assim que eles no nos podem fazer mal - disse o
major.
        Ohlmann perguntou, que dia  hoje? Kondrf respondeu, 22 de
abril, anote a no seu dirio para contar aos netos. Depois foram ver
os prisioneiros, quase todos eles espalhados pelo cho molhado, alguns
em fila, os guardas em redor, olhos e ouvidos atentos. Ohlmann
perguntou ao major:
      - Aqueles dois ali so graduados?
      - So. Esse tal de Juca Ourives, um celerado, comandando dois
oficiais de linha, dois coronis. Parece mentira!
      - Coronis?
      - Pois no est vendo? Antnio e Jacinto Pinto de Arajo
Correia. Dois irmos, ainda por cima.
        Ohlmann fez o sinal-da-cruz, pelo amor de Deus, por Nossa
Senhora dos Prisioneiros. Vejam s, dois oficiais do Imprio mandados
por aquele bandido sem entranhas, um assaltante de beira de
estrada.
        Philipp descansava a cabea sobre o lombilho protegido pelo grosso
pelego, olhava para cima e no via uma estrela sequer, s as nuvens
baixas que corriam, notou bem, elas corriam em direo de So
Leopoldo, levariam at l o cheiro daquela sua primeira batalha. As
plpebras pesavam, lutava contra o sono, a lana entrava pelo peito e
saa sempre nas costas e o sangue nunca era to vermelho. Juanito
deixou que Philipp dormisse, ajeitou a manta sobre os seus ps
descalos e tratou de enrodilhar-Se, como fazem os gatos, para passar
aquela noite ventosa, sentidos alertas na guarda do rapazinho que
estava sob a sua responsabilidade. Mas o sono no chegava. O ar salitrado
que vinha de um mar no muito longnquo transportou o ndio de
ombro torto para uma vaga estncia do litoral, era por certo Medanos-
Chico, uma indiazinha tmida e frgil, os borregos fugindo dos
caracars, as cavalgadas noturnas, chuva batendo nos olhos, a grande
figueira de galhos tortos, o poo vigiado noite e dia, as lancinantes
coronhadas dos castelhanos.
        Quando finalmente sentiu que ia dormir, o dia chegou e com ele
o movimento de homens e cavalos.



36



III


1 Daniel Abraho e Emanuel ajustavam o toldo da carroa de
Catarina. As largas correias presas aos barrotes laterais, grandes
remendos no pano descorado, ela trazendo de dentro de casa as
cestas com mantimentos, cobertores, corotes com gua do poo, duas
espingardas, as caixas de munio. Disse para o marido que lanava
olhares desconfiados s armas, Deus olha pelos seus filhos, mas ns
precisamos ajud-lo um pouco. As crianas espiavam pela nica
janela entreaberta, Mateus sentado na soleira da porta, coando as
pernas mordidas de mosquito. Estava tudo pronto. O dia mal amanhecia,
Catarina ainda ficou alguns momentos pensativa, no queria esquecer
nada. Mandou Emanuel trazer a bolsa de dinheiro, que a colocasse
no pequeno fundo falso inventado pelo marido, uma tbua corredia
que s podia ser aberta por baixo. Passou as mos pela barriga,
pensou, meu filho j deve estar com quase trs meses. Se for homem
se chamar Daniel Abraho, como o pai. Se for mulher, bem, se for
mulher, veremos.
        Abraou o marido, entrou para beijar Joo Jorge que dormia.
Beijou Carlota, que fosse boazinha, que ajudasse a cuidar dos irmos
pequenos, que olhasse para o pai e para a casa. Por ltimo ergueu
Mateus da soleira: d um abrao na mame, prometo que na volta
trago -coisas boas para todos. Subiu para a bolia auxiliada por
Emanuel que, de um s pulo, subiu e abancou-se a seu lado. Daniel
Abraho parecia triste, apenas ergueu o brao quando a carroa
arrancou, cavalos estugados pelo chicote raivoso de Catarina, e aos
Poucos desapareceu na poeira.
        Na Feitoria Velha os abraos e a alegria dos encontros, a casinha
dos Weimann, os galpes sempre bem sortidos dos Pettersen, Joo
Satter e sua mulher Dorotia, os Lang com aqueles seus imensos
porcos passando por dentro de casa e varando a sombra dos telheiros, os


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Bohrer que tinham um filho nas tropas legalistas do Dr. Hilebrand;
Lus e Isabel Rau, com aquele pobre filho deles, feito animal, sem
falar, grunhindo, arrastando-se pela terra batida, entre ces e
galinhas; os Herrmann e seu grande forno a lenha de onde saa um
po delicioso, sempre que Catarina trocava farinha de trigo por
galinhas e milho. Ela nunca sabia se era de perguntar pela criana, o
animalzinho roando pelos seus ps, o ranho escorrendo boca abaixo.
a me gritando "menino sai da", ento Catarina disse, acho que a
medicina pode fazer alguma coisa pelo menino, mas at os mdicos
esto na guerra, acho que com o tempo e muita f em Deus ele um
dia melhora, quem sabe at ainda venha a ajudar a famlia na roa,
casar, que sei eu, a gente pode esperar at mesmo um milagre. A
me ouviu tudo indiferente, depois disse, a senhora acredita em
Deus, ns tambm, quem no acredita? Mas esse menino nasceu
maldito,  obra de satans ou de praga, h gente para tudo, a senhora
fique tranqila, a gente j est acostumada e ele nem sabe que est
vivo, gosta mais dos cachorros do que das pessoas. Catarina lembrou-se
de Joo Jorge, sentiu um vcuo no estmago, saiu de perto da
criana, passou para debaixo de uma coberta de palha, comeou a falar de
negcios, depois de guerra, finalmente sentiu que no tinha mais nada
a dizer.
        Dormiram os dois, naquela noite, na casa dos Pettersen e dos
seus sete filhos, trs meninas mais velhas que ajudavam a me na
cozinha, que depois ajeitaram as enxergas de Catarina e levaram palha
ainda fresca para a cama de Emanuel, sob o telheiro do forno ainda
em construo; e s foram dormir depois de feitos os negcios.
        Ficaram, assim, uma semana fora de casa. Bom Jardim, Linha-48,
So Miguel, Linha Dois Irmos, Linha Herval. Era um sbado, chovia
sem parar, as rodas da carroa abarrotada cavavam sulcos no
caminho tortuoso das picadas, vadeando riachos e crregos, Catarina
abrigada sob o toldo, Emanuel fustigando os cavalos, a imaginar se um dos
eixos estivesse cavado por cupins ou se um dos varais estivesse
trincado. A carroa rangia e vergava, os cavalos perdiam as foras,
venciam os atoleiros aos arrancos, o toldo velho deixava passar gua em
quantidade. Emanuel disse, esta semana mesmo vou dar um jeito num
toldo novo, nem to pobre se anda, nem to rico se precisa ser.
Catarina sonolenta, indiferente, parecia no ouvir; a lembrana
esvoaando em torno de Philipp, que estaria ele fazendo naquele momento,
em que coisas pensava ele quando errava por ermos e matos, a mo
fechada na empunhadura da lana, talvez estivesse com os ossos
molhados por aquela mesma chuva, a roupa empapada, o inimigo a
rondar, a morte como um nevoeiro, como o vapor que emanava dos
plos dos cavalos. Embrenhava-se, confusa, no tempo, atrs do


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grande mar que tambm fazia gemer o madeirame do navio, os bosques,
os prados e as casas mortas que havia deixado l, onde a guerra existia,
onde os inimigos se enfrentavam e corriam das suas terras aqueles
que plantavam e que colhiam, que cozinhavam os grandes pes
dourados, que espreitavam as grandes batatas frigindo nas brasas, a
manteiga derretida escorrendo para fora das vasilhas, como o sangue de
um ferido.
        Foi chamada  realidade pela voz de Emanuel que sobressaa do
rudo forte da chuva que mais parecia um dilvio, o cu escuro,
fechado, trovoadas que sacudiam as folhas dos galhos e espantavam os
animais.
        - Vem um pedao de tropa a na frente, Frau Catarina, no
consigo enxergar direito.
        - De que lado  essa gente?
        Eram mais de vinte homens,  frente deles um mais imponente
que parecia ser o chefe, chapu de abas largas, grande leno amarrado
no pescoo, a capa escorrendo gua, uma longa espada pendente
do lado esquerdo. O homem aproximou-se, fez um sinal de alto,
perguntou a Emanuel de onde vinham, de quem era a carroa, para onde
estavam indo, O rapaz no entendeu a pergunta, Catarina abandonou
a proteo do toldo, sentiu os pingos fortes embaciando o seu olhar,
afinal quem eram eles, o que queriam? O homem virou-se para os
companheiros que se amontoavam atrs dele:
        - No adianta, so alemes, no entendem uma palavra do
que a gente diz. Deve ser gente destas picadas, uns pobres-diabos.
Vamos.
        Deu o exemplo, esporeou o cavalo, passou pela carroa, os
outros seguiram a trote, lanando olhares curiosos para a carg, o que
levariam aqueles debaixo do toldo remendado? Emanuel deixou
que eles desaparecessem no caminho, fustigou os cavalos de mansinho,
os animais quase no tinham fora para arrancar as rodas do
barral, as ventas espirrando fumaa, as correias estalando.
        Noite chegando, Catarina disse a Emanuel que o melhor seria
pernoitarem na casa dos Herrmann, no valia a pena prosseguirem
viagem, nem os cavalos aguentariam.
        Guilherme Herrmann entreabriu a porta, levantou bem alto o
lampio bruxuleante, perguntou quem eram. Ouviu a voz de Catarina.
Gritou para a mulher que j estava deitada, corre aqui, Gertrudes, 
Frau Schneider que est voltando. Emanuel ajudou Catarina a descer
e a entrar, desatrelou os cavalos e disse para o dono da casa que
aqueles animais no chegariam a So Leopoldo. Herrmann abriu os
braos, ele no tinha um cavalo sequer, mas seu vizinho Decker tinha
um par de mulas de primeira qualidade. Emanuel franziu a testa:


        39

        - Mulas? Ser que a gente atrela esses bichos na carroa?
        Herrmann riu solto, ora meu filho, deixa isso por nossa conta,
as mulas obedecem Decker como dois cachorrinhos. E depois  s
saber usar as rdeas e o chicote.
        Catarina aceitou um cobertor de algodo que a dona da casa
trouxera, despiu as roupas encharcadas, olhou o pequeno quartinho
com a cama humilde desfeita e pediu desculpas. Depois comeram um
pouco de comida que sobrara da ceia, nacos de uma grossa e
gordurosa lingia, nacos de po dormido. Deu notcias de todos com quem
estivera naqueles dias, falou dos soldados que havia encontrado no
caminho, afinal quando esperavam que aquela chuva parasse?
Herrmann disse que a chuva sempre era bem recebida, o diabo  que,
s vezes, caa gua demais. Depois fez um rodeio, se Frau Schneider
no levasse a mal, queria um favor seu, coisa pequena, ela era muito
respeitada em So Leopoldo, conhecia gente importante, era amiga
do Dr. Hillebrand. Catarina perguntou, de que se tratava? Sabe, ele
disse, h mais de seis meses mandei buscar meu irmo com a
familha, at agora no recebi notcia nenhuma, os homens do governo
no me dizem nada e ainda mais agora que andam em guerra, no
sei bem a causa.
        Catarina cabeceava de sono, tinha os ossos modos, os ps
gelados. Engoliu um pedao de lingia, passou a manga mida da blusa
na boca engraxada.
        - Fique descansado. Assim que eu puder, falo com o inspetor
de imigrao.
        Sabia que no estava chegando ningum mais da Alemanha, mas
no valia a pena falar nisso naquele momento para Herrmann e a
mulher, eles perderiam o sono, ficariam tristes, no adiantava nada.
Era melhor que fossem dormir com a esperana no corao, ainda
mais eles, enterrados vivos naquela encosta de serra, a pele das
caras, braos e mos crestada como a dos animais, curvados o dia
inteiro sobre a terra inada, pois a querer chamar irmos e parentes
que haviam ficado do outro lado do mar. Pensou, aqui  noite, l
ainda ser dia. Ou seria o contrrio, ou mesmo aquela noite se
estendia pelo mundo inteiro. Noite, cama, sono. Cabeceou algumas
vezes. Gertrudes disse, a pobre da Catarina morrendo de sono e a
gente aqui a conversar. Vamos, deite-se, sua cama est pronta,  esta
aqui, desculpe mas no temos outro lugar seno aqui na cozinha
mesmo. Est mais quente,  o que vale.
        No dia seguinte Catarina no se lembrava de muita coisa do
que haviam conversado na vspera. Herrmann falara num irmo que
ficara na Alemanha. Teria morrido o irmo? No quis perguntar nada.
Um dia, quando Herrmann fosse a So Leopoldo, perguntaria a ele o


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caso do irmo. Ficou um bocado de tempo assistindo  habilidade
de Decker, ajudado por Herrmann, no trabalho de atrelar as mulas,
dois animais ariscos e teimosos, ancas rolias, pernas fortes,
musculOSaS.
        - Quer vender as mulas, Herr Decker?
        - No, Frau Schneider, a senhora desculpe, mas elas fazem
parte da famlia. No h dinheiro que pague essas duas teimosas.
        Chegaram a So Leopoldo sob um cu de nuvens varridas, sol
escamoteado, manh alta, calor se anunciando. Ela viu logo a famlia
na frente da casa, o marido no porto da oficina, as crianas
agrupadas e, mais ntido do que todos eles, em destaque na paisagem
cinzenta - Catarina seria capaz de jurar - pensou ver o soldado Klumpp
Schneider, o seu menino Philipp, o cabelo assoprado pelo vento brando
da manh ainda molhada. A figura comeou a perder fora, embaciada
pelo seu olhar triste. Disse para Emanuel que procurava sofrenar as
duas mulas indceis:
      - Philipp deve estar bem. - Depois de um breve silencio, a
carroa j parada. - No sei por que, mas tenho certeza, ele est
bem.



2 Albrecht perguntou a Philipp se ele estava com frio. Goeske
afirmou que a temperatura andava pela casa dos trs ou quatro
graus, talvez menos. Philipp tinha as mos quase insensveis, os
ps lhe pareciam enfiados em duas pedras de gelo. Mas respondeu:
tanto quanto o resto da tropa, ou eu sou diferente deles?  melhor
deixarem disso. Kondrf disse que se a noite no estivesse to
escura,nem o inimigo pudesse andar pelas cercanias, o Comandante Lima
e Silva teria autorizado a que fizessem fogo. Um braseiro, por
pequeno que fosse, teria o seu valor, nele acenderiam os cigarros,
esquentariam mos e ps.
        Seriam o qu? duas horas da madrugada? O certo  que quando o
Major Oto Heise comeou a ordenar que se preparassem para
Seguir a marcha, os soldados recm haviam adormecido, a despeito
do frio e do cho molhado. Mas cada um sabia exatamente onde
estava o seu cavalo e todos iniciaram a difcil tarefa de encilhar os
animais assustados, no escuro, s apalpadelas, Ohlmann a recomendar
"Cuidado com os coices", Goeske e Philipp se ajudando, cuidado, puxa
O teu cavalo para l, pega a sincha por a. Uma voz disse, vo
trotando porque ningum sabe o que vamos ter pela frente. Um outro
replicou: quero s ver se o comandante mandar atravessar o So


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Gonalo com essa correnteza. Sabem nadar? O pequeno soldado Joo
Satter, que se destacava dos outros por uma mancha escura e peluda
que tinha na metade do rosto, disse para o companheiro do lado:
      - Inimigo por aqui s se for da marinha. Ser que vamos atacar
os barcos?
        Ohlmann ordenou que ele calasse a boca, se tivessem de brigar
dentro dgua, brigariam. Ou queres voltar para o colo da tua me la
em So Leopoldo? Philipp lembrou-se de imediato de Catarina, o seu
olhar triste, suas poucas palavras, como se para ela fosse indiferente
um filho seu estar na guerra, muito longe de casa, mas no fundo
deixando entrever as suas mgoas, toda a dor que escondia dos
demais, a deixar a vida correr como ela era.
      - Goeske - esperou que o outro contestasse. - Aquela gente
toda de So Leopoldo deve estar, a essas horas, dormindo a sono
solto.
        Heise j estava montado, ordenou que os homens fizessem o
mesmo. Estavam todos presentes? O sargento respondeu que sim, j
fizera uma revista. O major esperou que todos montassem, pediu
silncio, falava agora em voz baixa, quero que saibam que vamos seguir
pelas margens do rio, h duas canhoneiras e um pequeno vapor de
guerra fundeados muito perto daqui, vamos atacar de surpresa. Ouviu
uma voz em sussurro "no disse que era guerra de marinheiro?". Quem
falou a? Silncio. Quero mais ateno, escutem o que estou dizendo.
Nossa gente vai marchar na retaguarda, s agiremos se o inimigo for
obrigado a fugir por terra, antes disso s os esquadres de fogo.
        Os cavalos chapinhavam na gua, Philipp se perguntou se aquilo
que tinham debaixo dos ps j era o rio So Gonalo, o dia estava
ainda longe de ser pressentido e a noite parecia ser a mais negra e a
mais longa de todo aquele inverno. Goeske suspirou, se a gente
pudesse, pelo menos, fumar um palheiro, comer alguma coisa quente.
Kondrf brincou, vou pedir ao major para que nos mande servir um
bom chourio frito e meio po de centeio para cada um. Mas onde
diabo se meteram essas tais de canhoneiras? Um outro disse: vai
ver esto  bem atracadas no porto de Rio Grande, que  lugar mais
abrigado.
      - Silncio! - gritou o major com voz irritada.
        Depois esporeou o animal, encaminhou-se para a cabea da
tropa, ficou por l ainda algum tempo, a marcha se desenvolvia com
lentido, por fim retornou, deu ordens para que o seguissem, foi
quando sentiram que os cavalos pisavam um terreno mais seco e
duro, no afundavam as patas na lama. Era um terreno de aclive,
possivelmente uma coxilha, vislumbravam a barra do dia na linha do
horizonte, uma tnue claridade difusa. Penetraram num ralo caponete


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de rvores mirradas, Kondrf disse: isto aqui d para esconder um
tocador de corneta, nunca uma tropa.
        Comeou, de repente, a fuzilaria de terra, a claridade permitia
enxergar os barcos fundeados  margem, os gritos de surpresa, a
correria dos marinheiros, alguns deles caindo ngua depois de
atingidos por tiros.
      - Boa manobra - disse Ohlmann.
      -Nunca vi disso em toda a minha vida - gritou o Quartel-
Mestre Guilherme Kallmeyer.
        Era um homem de quarenta e poucos anos de idade, famoso por
sua fora fsica e pela grande cicatriz que ia da testa  nuca, ningum
sabia se era de guerra ou de briga, ele jamais falara do talho e nunca
soldado algum teria tido a coragem de perguntar.
        Philipp sentiu a perna de Juanito colada  sua, os rapazes todos
como que hipnotizados pelo tiroteio a pouca distncia, ento eles
viram o claro terrvel das bocas de fogo de bordo, ento as coisas
poderiam mudar, os estilhaos derrubavam homens e cavalos, abriam
buracos negros no campo pisoteado.
      - Eles tm canhes! - exclamou Goeske.
        O        dia clareava, a cena j podia ser vista inteira, as
guas escuras
e rpidas do rio comeavam a carregar com os barcos que haviam
levantado ncoras, os canhes cuspindo fogo sobre as tropas de terra,
os primeiros soldados entrando rio adentro, afogando-se, ordens
gritadas de todos os lados. Heise viu quando um piquete de cavalaria,
armado de lanas, investia contra os navios como a querer praticar
uma abordagem, o fogo dos seus canhes sem alvo certo, voltados
agora os marinheiros para soltar o velame. Heise levantou o brao,
revoluteou a espada, deu o sinal de ataque.
Os lanceiros partiram cleres para o campo de luta, cavalos
entrando no rio de margens fundas, os homens sentindo a gua pela
cintura, Juanito agarrado a uma das rdeas do cavalo de Philipp que
resfolegava e dava manotaos, tentando voltar. Ele viu que no
chegariam perto dos barcos que se iam, rio abaixo, ao sabor da
correnteza, auxiliados j pelas velas enfunadas pelo vento frio. Ouviram
a voz de Heise ordenando que voltassem, viram quando ele dava
o exemplo, numa luta arraigada contra a correnteza, cavalos e homens
rodopiando, cada vez mais distanciados. Philipp e Juanito juntos,
haviam soltado as lanas, cravavam as esporas nos animais que, aos
arrancos, buscavam as margens. J pisavam o barro das margens quando
Juanito viu o soldado Satter cair dos arreios, mergulhando no escuro
das guas. Foi em seu socorro, pegou-o pelas botas, depois pelos
cabelos, puxou-o at as margens onde j estavam os companheiros para
ajudar. Satter comeou a vomitar, olhos esgazeados. Foi quando esti-


43


lhaos de bala de canho varreram a pequena elevao do terreno,
Ohlmann levou as mos  barriga, olhou rindo para Kondrf, eles me
pegaram, os filhos de uma puta. Depois levantou as mos, exibindo-as
a escorrer sangue, parte dos intestinos  mostra. Caiu devagar, de
joelhos. Ainda tentou levantar-se, rodopiou sobre si mesmo, ficou
estendido na lama. Philipp e Juanito chegaram assustados, o rapaz
levantou a cabea do companheiro, colocou o brao de amparo, no sabia
o que fazer, o sangue cheirava forte. Albrecht abriu caminho entre
os outros, aproximou-Se nervoso.
      - Soltem o coitado, est morto.
        Philipp ficou ainda por breves instantes segurando a cabea do
sargento. Albrecht teria razo? Um homem no morre assim to
depressa. Tem certeza, Albrecht? Que  isso, menino, larga o cadver
e pega o teu cavalo, no demora muito e estoura outro canhonao aqui
e no fica ningum para contar a histria. O rapaz parecia no
acreditar, o sargento mantinha os olhos abertos, mas olhava para um ponto
fixo, ele teve vontade de sacudir o ferido, chamar por seu nome,
virou-se para os que ainda estavam por ali, ser que no tem um
mdico a, algum que possa olhar por ele? Um soldado disse, monta
logo, agora  servio de padre. Ento Philipp achou que a morte era
assim mesmo, depositou com cuidado a cabea do sargento no cho,
desviou os olhos das vsceras e do sangue que ainda escorria
abundante.
        O        fogo cessara. As duas canhoneiras e o pequeno vapor j se
encontravam fora do alcance das armas de Lima e Silva. De bordo
no partia nenhum tiro, pareciam descer o rio  deriva, mas logo
depois tomavam rumo e sumiam em ordem. As tropas de terra se
refaziam, sargentos e cabos corriam de um lado para outro,
agrupavam os homens, tentavam estabelecer a ordem desfeita pela
investida rio adentro, muitos cavalos ainda tentando chegar s margens,
homens nadando, parte da cavalhada esparramada pelos campos. Um
pouco afastado do rio um agrupamento maior, os soldados se
encaminhavam para l, os alemes viram Heise no grupo, correram para
ele. O major falou com um tenente:
      - Algum oficial ferido?
      - O prprio Comandante Lima e Silva. O oficial estava
estendido na grama molhada, suas dragonas cadas e no rosto, do lado
esquerdo, um profundo ferimento de metralha. Um outro oficial tinha
o pedao de bala na mo. Disse para um outro: pesa mais de uma
on. O mdico ordenou que se afastassem, pediu ajuda para
transportar o comandante para um lugar mais seco, estenderam capas no
cho, armaram uma pequena barraca, trouxeram caixas com
medicamentos.


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        Ordem de acampar, reunir a cavalhada, desencilhar, a cozinha
ia preparar comida para todos.
        Philipp sentou-se num pedao de tronco, Juanito veio para seu
lado, acocorou-se, o rapaz disse, logo o sargento Ohlmann, por que
havia de logo ele ser o atingido, os barcos at haviam parado de
atirar, quem ter a coragem de dar a notcia para a sua mulher?
Juanito olhava para ele, sem entender. Goeske aproximou-se:
      - Foi duro, eu sei, ver o pobre do sargento morrer daquele
jeito. Mas que diabo, na guerra  assim.
        Philipp ficou algum tempo olhando para ele, depois perguntou:
      - Ser que o comandante se salva?
      - Acho que sim - disse virando-se para Satter que estava
deitado do lado deles, plido, esverdeado - agora j no posso dizer
o mesmo deste aqui, depois de beber tanta gua um homem
termina morrendo de barriga estourada.
        Philipp chegou mais para perto do rapaz, por um pouco mais,
se no fosse Juanito, estavas no fundo do rio.
        Os outros riram, um deles disse: e se comer um pedao de carne
assada, agora, ela vai ficar toda molhada. Satter fechou os olhos, passou
a mo pelo peito e vomitou um pouco mais, um lquido escuro e
ftido.



3 Grndling havia muito que no reunia seus amigos na casa da
Rua da Igreja. Nessas ocasies era quando mais se recordava de
Sofia, da sua presena suave e tranqila, sua discreta postura numa
das poltronas da sala, retirando-se quando notava que alguns dos
amigos de seu marido comeavam a beber em demasia, ou quando o
prprio Grndling se embebedava. Sempre que Zimmermann, ou
mesmo qualquer um dos outros, sugeria reunir-se em sua casa, ele dizia
que era melhor um encontro a bordo de um dos lanches, ou mesmo
na casa de um deles, alegava que as crianas estavam crescidas, que
Albino era um homenzinho, que a velha Apolinria poderia
bisbilhotar, nunca se sabia. Mas naquela noite chamou os amigos e encheu
a sala, lotou as poltronas, fez com que a negra Mariana se
movimentasse como nos velhos tempos.
        Olhou em redor. L estavam Zimmermann, Bayer, Tobz, Schilling,
Gaspar Schirmer, Jost e Hatzemberger.
      - Pois acredito que haja cadeiras para todos.
        Fez um sinal para Tobz, precisamos servir a esta gente aquele
rum especial que conseguiste arranjar com aquele portugus da Rua
da Praia, pois ainda que no seja o melhor do mundo, tambm


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para pior no deve servir. Bateu na perna com a mo espalmada:
pois meus amigos, estamos em guerra. Riu aberto, estava animado,
levantou-se, caminhava de um lado para outro, todos o acompanhavam
com os olhos, permaneciam sentados, examinavam a sala e os seus
mveis, as cristaleiras brilhantes, o magnfico relgio parado, os
grossos tapetes. Grndling encaminhou-se para a porta que dava para a
cozinha e falou com Frau Metz:
      - A senhora bote os meninos na cama e no quero que
ningum nos incomode, Mariana se encarrega de nos atender.
        Fechou as duas folhas da porta, voltou para o meio da sala,
sentou-se com cuidado, lentamente, corpo repousado, pediu a Tobz que
lhe enchesse o copo com rum. E que fizesse o mesmo com os outros
copos. Beber ajudava a clarear as idias, precisava estar, mais do
que nunca, com a cabea fresca, limpa. E depois, disse olhando em
redor e baixando o tom de voz, temos umas boas meninas a bordo
de um dos lanches. Como vem, eu no improviso nada, tudo 
feito com cuidado, feito como eu gosto das coisas. Schirmer mexeu-se
na cadeira, gostaria muito de acompanhar os amigos, mas era casado,
tinha muitos filhos e de mais a mais era quase vspera de embarcar
para o Porto, alis, cumprindo ordens do prprio Herr Grndling.
Hatzemberger ouviu o outro, sorriu contrafeito, talvez ele tambem no
pudesse ir, no poderia mesmo chegar muito tarde em casa.
        Grndling deixou ficar um pouco de silncio no ar, depois
bateu forte, mais uma vez, com a mo sobre a perna: e quem disse a
vocs que esta reunio vai terminar cedo? Schirmer ficou corado,
bem, eu no disse isso.
      - Pois fique sabendo que os homens que trabalham para mim
no tm hora para levantar-se e nem para dormir. - Fez outra
pausa - E  bom que a mulher de cada um fique sabendo disso. Ou
no sabem colocar as mulheres no seu devido lugar?
        Houve um silncio constrangedor, quebrado pelo prprio dono da
casa:
      - Bem, o assunto de hoje  srio, mas no se trata exatamente
de negcios.
        Bebeu um grande gole. O caso  que precisavam ajudar a um
amigo, um amigo at que ningum conhecia, mas que no futuro, quem
sabe, poderia ser muito til e retribuir  larga qualquer favor que
recebesse agora. Tratava-se de um militar de muita fibra, cheio de
amigos influentes, um homem realmente importante.
      - Do governo? - perguntou Schilling.
      - Ora, do governo. Nunca se sabe. H governo aqui, governo
ali. O fato  que recebi um apelo e sempre que algum recorre aos
meus prstimos no costumo cruzar os braos e ficar indiferente. Fez


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uma breve pausa, os outros permaneciam mudos e intrigados.
Grndling prosseguiu reticente, eu preciso atender ao pedido, mas no quero
arriscar nada,  evidente, a gente sempre precisa tomar precaues.
E no h de ser para prestar um favor que vou arriscar os meus
amigos. Acho que isso ficou bem claro.
        Pediu que eles chegassem mais para perto, que puxassem as
cadeiras, as paredes tm ouvidos, disse baixo:
        - Trata-se de um coronel ou de um major, no estou bem certo,
um tal de Marques.
      -No ser o que veio trazido pelo Major Lima e Silva? -
perguntou Tobz.
        - Esse mesmo.
        - Ento o homem  major.
        - Pois que seja. O principal  que se trata de um militar
importante, est no 8.o BC, jurou que no ia tentar fugir,  legalista
de quatro costados.
        - Mas que diabo de pedido fez esse homem? - perguntou
Schilling.
        -Calma, chego l. Ele quer auxlio nosso para sair de l, a
cidade est praticamente desguarnecida, a soldadesca o que quer 
bebida e mulherio, est bem na hora de um golpe de mo.
      -Mas o homem no jurou que no tentaria fugir? - disse
Tobz.
        - Isso  outra coisa, na guerra vale tudo. Eu, na pele dele,
faria o mesmo - disse Grndling um pouco irritado.
        Seu plano era simples. Zimmermann entraria em contato com um
tal de Henrique Guilherme Moyse, que servia no 8.o BC. O major
gozava de certas regalias, havia feito amizades entre os guardas e todos
os prisioneiros estavam do seu lado, dispostos  fuga. No havia hora
melhor, Bento Gonalves andava pela campanha, aliciando gemte e
explicando a revoluo, estaria agora pelas bandas de Alegrete ou de
Uruguaiana. Os demais chefes revolucionrios estavam empenhados
em sitiar e tomar So Jos do Norte e Rio Grande, onde o
Presidente estava homiziado e muito bem guarnecido.
        Zimmermann, que ouvia calado, ponderou que achava perigoso
que fosse ele o emissrio, j que era muito conhecido na cidade. Acrescentou
logo, para evitar mal-entendidos, se me vem l chegam logo
a esta casa. Grndling sorriu, voc tem toda a razo, temos de
fazer a coisa com extremo cuidado, sem deixar a marca dos nossos
dedos. Iria, ento, Hatzemberger. Alguma objeo? O outro disse que
no. Muito bem, ora vamos ao plano.
        - Tobz, abastece essa gente toda - esperou que o amigo
tornasse a encher os copos, que voltasse a sentar-se. - Bem, Hatzem-


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berger passar ao Moyse algumas armas, numa hora em que
estiverem de guarda homens da confiana do Major Marques. E  s.
Depois, ento, quando ele estiver fora das grades, a gente trata de
avisar o Dr. Hillebrand que, por sua vez, avisar Menna Barreto.
        Bebeu um outro gole, estalando a lngua, riu-se, vejam vocs,
estamos representando o papel de generais nesta guerra, s falta
mesmo abrirmos um mapa ali em cima da mesa e botar nos ombros esses
gales dourados que so o orgulho de todos eles.
        - E para avisar o Dr. Hillebrand? - perguntou Zimmermann,
um pouco nervoso.
      - Calma. Antes disso um brinde pelo sucesso da nossa misso
militar.
        Bateram os copos sem grande entusiasmo. Hatzemberger enrolava
um palheiro, pode-se fumar aqui dentro? eu no sei, no, mas o
senhor no acha o plano um tanto arriscado? E se as coisas no
sarem exatamente assim como se pensa?
        O        dono da casa levantou-se para encher mais uma vez o seu
copo, depois parou frente a Hatzemberger e disse com voz calma,
mas dura:
      - Saiba, meu caro amigo, que no costumo executar planos
com falhas. Se no confiar em mim, pois bem, estamos entendidos,
passe bem.
        O        outro empalideceu, mas eu no estou dizendo isso, Herr Grndling.
o senhor me entendeu mal. s vezes as coisas no saem como
a gente quer. precisa-se armar um esquema de sada.
      - Pois j o tenho.
        Ento no est mais aqui quem falou, disse Hatzemberger
nervoso, o senhor sabe muito bem que pode contar comigo. Grndling
bateu nas suas costas, timo, assim  que gosto das pessoas. Virou-se
para Schilling que se mantinha calado a um canto, sem beber.
      - Est doente ou com as pernas a tremerem?
        Schilling levou um susto, gaguejou, eu com medo? Mas o que 
isso, por amor de Deus, pode contar comigo.
      - Bem, agora vamos todos para bordo do Dresden, ele est
ancorado no trapiche Dois, quase no fim.
        Tobz perguntou se iam a cavalo, Grndling disse que no, iriam
a p mesmo, a noite estava boa para uma caminhada, um pouco fria,
mas nada de chuva.
        Cada um tratou de enfiar os seus abrigos. a maioria deles com
largos ponchos de l grossa, o dono da casa auxiliado a vestir o seu
bem cortado sobretudo xadrez, vindo da Europa, belos botes de
couro. Saram em silncio. Ventava muito. Schilling esfregou as mos,
disse: o minuano, meus senhores!


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        Um sentinela, postado  entrada do cais, perguntou "Quem vem
l?". Grndling identificou-se, o soldado baixou a espingarda, sorriu
largo, passem no ms. Caminhavam todos com cuidado, era fcil
enfiar um p nos buracos das madeiras apodrecidas. Pareciam fantasmas
naquela noite sem lua, as guas chapinhando nas colunas de madeira.
o        marinheiro-Vigia do Dresden fez um sinal com o lampio, depois
procurou iluminar o prancho estreito, os homens foram subindo, um
a um, equilibrando-se, Zimmermann disse: seria muito engraado se
algum casse agora nesta gua gelada.
        O        vigia chamou o patro  parte, falou sussurrando, Grndling
pegou o homem, violentamente, pela camisa: patife, ento  assim
que cumprem as minhas ordens? Schilling acorreu, mas o que estava
se passando? Tobz e Zimmermann tratavam de acalmar Grndling que
largou o marinheiro depois de um safano, derrubando-o.
      - Pois ele agora vem me dizer que s conseguiram uma
mulher, uma menina. As outras falharam, que havia muitos fregueses na
espelunca dessas vagabundas.
        Ningum disse nada, ele suspirou, ah, que falta me faz a cadela
da paraguaia. Schirmer foi o primeiro a dizer, isso acontece, por nossa
causa no se preocupe, afinal h uma mulher para o senhor. Bayer
acrescentou, eu, da minha parte, posso muito bem ir para casa.
      - Pois ento, boa noite para todos - disse Grndling irritado.
- Eu me encarrego dessa menina a embaixo.
        Fez um gesto com a mo levantada, quero todos amanh na
minha casa,  mesma hora. Todos comearam a descer o prancho,
auxiliando-se mutuamente, aos poucos desapareceram.
        Grndling pegou o lampio que estava sobre um barril, desceu
com ele a escadinha e l embaixo ergueu a luz  procura da mulher,
onde diabo se meteu essa cadela, no vejo ningum aqui. Por fim
abriu uma portinhola, l dentro, espremida, tiritando de frio contra
a parede molhada, grandes olhos espantados, uma loira menina
recm-sada dos quinze anos, ou talvez nem isso.
      - Ah, escondida feito uma lebre. Que idade tens, minha
menina?
        Ela balbuciou algumas palavras que ele no entendeu. Fala mais
alto, ningum aqui est nos ouvindo. Ou no tens boca? Vamos,
quantos anos tem a menina?
      - Treze - disse ela.
Grndling pensou, essas meninas hoje em dia comeam cedo.
Devia fazer parte daquela gente que fora mandada para os lados de
Torres. Ento a maldita casa no tinha outra mulher para mandar!
Enfim, ele no era a palmatria do mundo. Puxou a alemzinha
pelas mos, sentiu os cabelos sujos, escorridos, os bracinhos raquti-


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cos, os seios midos, um busto de rapazinho. Foi quando lembrou-se
de algo pungente, atroz, espicaante, algo que lhe acelerou o corao,
seria efeito da bebida, daquela porcaria de rum dos negros da Rua
da Praia. Deu um berro para cima:
      -Marinheiro, leva essa menina embora!
        Achou uma garrafa de rum, quebrou o gargalo, afastou o
lampio que empestava o ambiente com o seu cheiro acre e sentiu que
as grossas lgrimas que lhe escorriam pelo rosto no eram devidas
 fumaa, era Sofia, ali presente, a menina que ela fora, o bicho-do-
mato, enfim, aqueles anos todos, uma vida inteira.
        A grande noite se resumia, para ele, naquele pequeno, abafado e
ftido poro de um barco fluvial.



4 O plano se desenvolvia com perfeio. Hatzemberger passara
as armas para o Major Marques, correra a comunicar a Grndling
como as coisas haviam se passado e este, por sua vez, assistia aos
preparativos do Dresden para levar at So Leopoldo o seu novo
auxiliar Gaspar Schirmer. Tudo corria conforme as previses e o plano
traado. Menna Barreto seria avisado da fuga, saberia o que fazer.
        Mas deviam ter calma, esperar. Nada de apressar os negros no
trabalho de carga, tempo ao tempo, os amigos de Grndling
espalhados pela cidade em busca de notcias, afinal o que estaria fazendo o
major depois da evaso, o resto do plano dependia dele e das suas
ligaes.
        Zimmermann veio dizer a Grndling que a cidade estava
praticamente desguarnecida, os revolucionrios mais preocupados com as
refregas no interior, as notcias das tropas cercando Rio Grande e So
Jos do Norte, as manobras dos barcos de guerra, falavam muito na
presena a bordo do Capito-Tenente Parker, do Vice-Almirante
Greenfell e de outros graduados legalistas. De Hatzemberger nem
mais a sombra, desaparecera logo depois de cumprida a misso. Tobz
e Schilling permaneciam nos seus postos, em lugares onde as notcias
chegavam primeiro, de onde podiam observar as entradas e as sadas
do Palcio. Schirmer, nervoso, disse a Grndling:
      - Esse major ter condies de fazer o que pretende?
        -         problema dele - disse Grndling. - Se no der certo,
pois volta para as grades.
      - E se for apanhado de novo no podem obrigar o homem a
dizer quem forneceu as armas?
      - Por mais que queiram, nunca sabero nada. O prprio major


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no sabe, por segurana trocamos de nomes e no h alemo metido
na encrenca.
        Schirmer pareceu mais tranqilo. Os escravos continuavam
carregando o lancho, tudo no cais era normal, de onde estavam podiam
avistar parte da cidade, as ruas prximas, os escravos vendendo os seus
quitutes fumegantes, homens a cavalo, carroes pesados rodando de
um lado para outro, os condutores sumidos nas suas grandes capas
negras, o vento fino e frio penetrando pelas roupas, encrespando de
leve as guas do Guaba.
        Grndling atento, olhos presos s ruas que desembocavam na
zona do cais, na expectativa de ver algum dos seus homens retornarem
com notcias. Que estaria o Major Marques esperando para sublevar
o quartel da Praa do Porto e partir para ocupar os postos quase
abandonados pelos revolucionrios? Passavam das dez horas, o
lancho no poderia ficar retido por mais tempo, embora no estivesse
com a carga completa, a misso dele, naquele dia, era bem outra.
Disse para Schirmer, o que vai no barco d muito bem para iniciar
os negcios l fora. Lembre-se do que falei, podemos perfeitamente
cobrir os preos do Jacobus, daqui eu me encarrego de remeter o que
for preciso, vamos abarrotar os seus galpes. E depois ainda pode
tentar pedir ajuda ao Dr. Hillebrand,  bom amigo, est do lado dos
imperiais e diga a ele que  a nossa causa tambm. Virou-se para a
cidade, e que diabo anda fazendo o nosso Major Marques? Teria
desistido da empreitada?
        Chamou o marinheiro, manda esses negros descansarem, afinal
no estou assim com tanta pressa, terminam suspeitando da gente e
no h motivo para isso. O homem olhou para o patro, no
entendia, ele que sempre insistia na pressa, que ordenava que usassem a
chibata quando os negros amarravam um pouco mais o trabalho. E
agora com aquela ordem de descanso, negro sentado, de fato a guerra
comeava a deixar todo o mundo de miolo mole. Obedeceu, gritou
para os carregadores, eles trataram de sentar-se pelo madeirame, cada
um tratando de acender os seus pitos, falando entre si naquela
algaravia que ningum entendia, por mais cristo que fosse.
        Grndling ouviu, distintamente, o primeiro tiro e logo a seguir
uma fuzilaria rpida, depois breve silncio. Houve uma certa agitao
no cais, os escravos se entreolharam, o patro de um outro barco
gritou qualquer coisa que Grndling no entendeu, outros correram.
Mais tiros. Os estampidos, agora, provinham de vrios pontos. Ento
o major estava a executar o seu plano, o homem era de ao, sabia
O que fazer na guerra. Viu Zimmermann surgir correndo, chegou quase
Sem flego, falava com dificuldade, Herr Grndling veja, o major
COnseguiu levantar todo o quartel, soltou os presos, eles conseguiram


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muitos homens nas ruas, j devem ter tomado mais duas guarnies e
h muita gente presa, escute a balbrdia.
        Depois foi a vez de Schilhing, este veio a cavalo, saltou com o
animal ainda em movimento, correu com agilidade no madeirame
podre, trazia a notcia da priso do prprio Vice-Presidente Marciano, de
Amrico Cabral e de muitos deputados e altos funcionarios.
        Tobz chegou logo depois, vinha sorridente, a coisa sara melhor
do que esperavam, o homem no era de meias conversas, agia para
valer, havia muita confuso por toda a parte, at os negros da Rua
da Praia haviam se encafuado, deixavam balaios e tendas ao deus-dar.
      - Herr Grndling, pode mandar embora o lancho com
Schirmer, a coisa est resolvida.
        Viu qualquer coisa ao longe, apontou para o lado de onde
vinham as guas, veja l, olhe, algum est tentando fugir pelo Guaba,
o fogo do Arsenal  contra o homem. Grndling viu tambm a figura
escura remando furiosamente num pequeno caque, os estilhaos caam
ao redor do barquinho, depois saltou para a gua e nadava com
agilidade. Todos assistiam  cena, alguns marinheiros torcendo para que
o infeliz conseguisse chegar do outro lado, um deles disse " preciso
nadar muito bem para chegar at l". Um outro garantiu que ele
chegaria, nadava com muita energia e afinal estava tratando de salvar
a prpria pele. Por fim a figura sumiu na distncia, Tobz disse, o
homem conseguiu chegar na ilha da Pintada.
        Um piquete aproximou-se do trapiche onde o Dresden balouava
nas guas escuras, Grndling de p, imponente, sobre as tbuas
velhas. Um oficial desmontou e caminhou em sua direo, arrastava a
grande espada, fez uma continncia que agradou ao alemo,
transmitiu a ordem de fazer zarpar o lancho e que fizesse seguir a mensagem
que tinha em mos para ser entregue com urgncia a Menna Barreto.
Era de parte do Major Marques. Grndling recebeu o canudo de
papel, agradeceu ao oficial e disse que podia voltar descansado, a
mensagem chegaria, dava a sua palavra. Depois chamou Schirmer que se
mantivera discretamente  distncia:
      - Tens uma misso muito importante pela frente. Esconde muito
bem escondido isto aqui, que no caia nas mos de ningum e trata
logo de aproveitar os bons ventos.
        Chamou o seu primeiro homem, avisou que outros dois seguiriam
juntos, precisava reforar a tripulao. Ao todo seriam quinze homens.
Havia armas e munies para todos, o principal era no perderem
tempo.
        O        barco comeou a afastar-se, velas pandas, homens agitados de
proa a popa, Grndling ainda conseguiu fazer-se ouvir:
      - Escondam bem as armas,  barco de negcios.


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        O oficial que comandava o piquete acenou de onde estava com
um trapo branco na ponta da espada, era o sinal para que os
homens do Arsenal no atirassem sobre o lancho.
        Rodeado por seus amigos, Grndling enfiou os dedos na cava
do colete e, sorridente, comeou a caminhar rumo  casa da Rua da
Igreja. A Tobz, que caminhava pressuroso a seu lado, adiantou que
todos deviam acompanh-lo, havia um esplndido pernil de porco
recm-carneado que a negra Mariana tratava de dourar ao forno. Tobz
fez um sinal para os demais, Grndling prosseguiu, agora chegou a
nossa vez de comemorar e levantar um brinde todo especial pela sorte
de Schirmer, pelo xito da sua misso, afinal no era todo o dia que
algum conseguia abrir a porta da Histria.
        - Sim, acabamos de entrar para a Histria desta bela provncia,
meu caro.
        Ento pararam. Uma grande multido se aproximava do cais,
soldados armados de escopetas guarnecendo os flancos, eles viram
logo que se tratava dos prisioneiros, os homens eram empurrados,
recebiam coronhadas, eram tangidos como reses para a beira do rio.
        - Ser que vo afogar esta cambada como ratos?
        Olhando para o meio do rio, Grndling disse, eu sou capaz de
apostar como vai tudo para a Presiganga. Olhem, os barcos esto se
movimentando, claro, vai tudo para aquela pocilga flutuante.
Permaneceram ainda por algum tempo assistindo ao espetculo, homens bem
trajados e empertigados a serem empurrados como negros escravos,
seriam ao todo mais de quarenta. Tobz comentou:
        - Eu acho que primeiro eles devem esvaziar aquela geringona,
est quase afundando de tanta gente.
        - Aquilo  um verdadeiro cemitrio - disse Schilling. Depois
pegou no brao de Grndling - veja, o nosso velho amigo Braga
no meio da matalotagem.
        Grndling apertou os olhos, tentava localizar o funcionrio entre
aquela gente toda,  verdade, l vai o nosso Braga, espero que agora
ele possa descansar um pouco daquela megera que tem em casa.
Todos riram alto. Braga, de onde se encontrava, olhou para eles, olhos
espichados, como a pedir auxlio. Viu apenas Grndling acenar,
indiferente, e reiniciar a caminhada de volta, cercado pelo seu pequeno
grupo.
        Em casa, em torno  mesa, o dono da casa lamentou que a
poca no fosse das melhores, aqueles tempos em que a sua adega
estava sempre abarrotada. Como nos bons tempos, disse, mas a
verdade  que sempre sobra alguma coisa para os homens de boa
vontade, como diz a Bblia, e hoje devemos beber at cair. Schilling foi


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o        primeiro a levantar o copo e brindar pelo xito do companheiro
Schirmer, quelas horas navegando a pano cheio rumo  colnia de
todos eles. Depois, disse Tobz, vamos ter no Porto um rico e feliz
comerciante de secos e molhados.
        Mariana, nervosa, servia a mesa. Algo se passava que ela no
conseguia adivinhar, aqueles tiros, o patro e seus amigos bebendo e
levantando brindes, havia no ar qualquer coisa de inexplicvel, aqueles
tiros, a correria de gente nas ruas, da janela dos fundos vira os barcos
que iam e vinham, piquetes de cavalaria a trotar por descaminhos.
O pernil especial, uma festa em casa como h muito tempo no se
lembrava de outra parecida.
        Depois da sobremesa, um doce de ovos "que s o diabo desta
negra sabe fazer", Grndling comeava a ser vencido pelo sono, olhos
fechados, botinas atiradas longe, cabea recostada nas pernas de
Zimmermann.
        Ento Schilling disse uma coisa que fez com que ele abrisse,
contrafeito, os olhos:
-        At agora, meus senhores, tudo muito bem, mas a verdade
 que vamos ficar aqui ilhados, cercados de rebeldes por todos os
lados. E eu pergunto: ser que essa gente vai deixar os nossos
lanches andarem de um lado para outro, trazendo e levando coisas?
        Grndling levantou-se com esforo, deixando cair o copo que
partiu-se com estrondo.
-        Por favor, agora me deixem, quero dormir.
        Virou-se para Schilling, com ar de enfado, deixe este assunto
por minha conta, no quero a opinio de ningum e proibo de quem
quer que seja abrir a boca e atrapalhar a minha digesto. Que merda,
logo depois desse pernil que nem na Europa se come melhor. Fez
um sinal com ambas as mos para que todos fossem embora, que
desaparecessem, no queria ningum mais naquela casa. E fiquem
sabendo, gritou, que os lanches vo continuar subindo e descendo a
porcaria desse rio.
        S, a cabea rodopiando, chamou Mariana e ordenou que
limpasse aquela mesa, que deixasse os meninos no quintal, no queria
saber de barulho, que fosse todo o mundo para os infernos.
        Arrotou aliviado e fechou-se no quarto.



54



Iv


1 Catarina acabara de atender alguns fregueses, passou pela
cozinha para dar uma olhadela no fogo, avivou as chamas, terminou
de encher uma chaleira e foi at a oficina onde Daniel
Abraho e Emanuel trabalhavam como sempre, mais dois auxiliares
desbastando o grosso aos troncos, um outro descarregando madeira -
a faina de todos os dias. Ento ela ficou algum tempo admirando o
serigote recm-acabado, uma boa obra de arte, a forma perfeita, os
intrincados desenhos em baixo-relevo, o esguio e lustroso cabeote.
Emanuel, com a chegada de Catarina, suspendeu o trabalho, olhou
para ela, limpou as mos no avental, vestia uma grossa e encardida
camisa de l, o vento soprava frio e cortante.
        - Juliana comeou a sentir dores. A senhora acha que j pode
ser o filho?
        - Pois no est fora de poca, uma semana a mais, uma
semana a menos, nunca h uma hora marcada - disse Catarina,
sentando-se numa banqueta.
        - Estou com medo - confessou o rapaz. - O Dr. Hillebrand
metido nas picadas com os soldados legalistas, Frau Apolinria em
Porto Alegre, a cuidar dos filhos de Herr Grndling.
        - H outras parteiras por aqui.
        - No confio nelas, nem sei bem por que, mas no confio.
        Daniel Abraho, ao lado, largou o trabalho tambm. De que
estavam os dois falando? devia ser assunto srio, cochichavam, em
plena hora de servio. Catarina confirmou, o assunto de fato era
Srio.
Juliana est comeando a sentir as dores.
-        Ah - disse ele retornando ao tombilho.
        Catarina aconselhou Emanuel a voltar para o trabalho,
deixasse com ela aquele assunto. Dessas coisas as mulheres sabiam tratar


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muito bem. Quando ia transpondo a porta de casa pensou no filho
que tambm levava nas entranhas, mais alguns meses e o problema
seria dela. Frau Sperb recm a iniciar-se nos misteres de parteira,
mal sabendo lidar com umbigos e guas da barriga. Frau Masson
doente, no se podia contar com ela, passava os dias na cama atacada
de reumatismo, ainda mais nessas noites de inverno. Se a coisa
acontecesse de madrugada, ento, ela era carta fora do baralho. Restava
chamar Frau Metz, mas como, de que maneira? Mesmo com bons
cavalos numa carroa nova ela demoraria muito a chegar naqueles quase
quarenta quilmetros de picadas, desvios e barrais, travessias de sangas
e alagadios. E ela deixaria os meninos de Herr Grndling? Duvidava
muito. Algum jeito se h de encontrar, disse para si mesma enquanto
caminhava para o quartinho de Juliana, no fundo dos galpes.
        Abriu um dos tampos de madeira da janela; entrou uma lufada
de ar frio. Ento a menina est assustada e pensa que  a primeira
mulher do mundo a ter um filho. Ora vejam s, os animais tm
filhos no mato, debaixo de chuva e de raio, com frio ou calor,
nenhum deles morre, esto vivos desde o princpio do mundo. Juliana
ouvia e esfregava a barriga com mos leves. Disse, essas dores so
como agulhadas aqui nesta altura da barriga, elas vm e voltam, s
vezes custam a voltar e depois passam como vieram. Veja, no tenho
mais dores agora, acho que posso levantar-me, vou ajudar na casa.
      - Pois acho a idia muito boa, no adianta nada ficar na
cama e depois parto no  doena. S no deve fazer servio pesado,
deixa essas coisas para mim.
        Juliana sentou-se no catre enquanto Catarina retornava para a
sua casa, um homem a cavalo acabava de chegar, ela foi ver quem
era. Espiou por uma pequena fresta na porta, era Herr Werland que
viera com eles da Alemanha. Foi ao seu encontro, perguntou  guisa
de saudao:
      - Ento, como est passando a nossa Cristina?
      -Muito bem, obrigado, andou l com uma febrezinha, mas
coisa de nada - amarrou o cavalo numa estaca, apertou a mo de
Catarina. - Mas agora eu venho por outros motivos. A senhora tinha
ouvido falar num tal de Schirmer? Gaspar Schirmer? Ele estava a
servio de Herr Grndling.
      -No, que aconteceu?
      - Pois acabaram de apreender o lancho Dresden que subia o
Rio dos Sinos, vinha carregado de armas e munio, com cerca de
vinte homens, ou mais.
-        Armas?
-        Sim senhora, e ainda com uma mensagem a Menna Barreto


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informando que os legalistas reconquistaram Porto Alegre, faanha de
um tal Major Marques de Souza.
        Catarina perguntou como seria possvel apreenderem um barco
que subia e descia o rio sempre a transportar mantimentos, se eles
eram s para negcios? A histria lhe parecia mal ajambrada. Werland
contou, ento, que um troo de revolucionrios havia intimado o
barco a aproximar-se da margem, eles queriam saber que espcie de
mercadorias levava o lancho. No s a gente de bordo no havia
obedecido como no satisfeitos comearam a disparar tiros contra o piquete.
E assim andaram at que novos soldados chegaram na outra margem,
cruzando fogos contra os marinheiros. Numa parte mais estreita do
rio conseguiram fazer a abordagem, perdendo muitos homens. Ento
arrastaram o barco e o encalharam na areia. Viram que havia muita
gente morta, outros feridos e ainda o tal de Schirmer, com um brao
quebrado, tentando resistir, desesperado, chegou a dar um tiro de
garrucha num oficial. Fora levado para um capo prximo e ali
degolado na mesma hora.
        Catarina ficou pensativa, ento Grndling estava abertamente do
lado dos legalistas, ento era ele o homem do Dr. Hillebrand em Porto
Alegre. Werland notou a preocupao de Catarina, ela parecia no
ouvir o que ele contava, talvez estivesse muito preocupada.
        - Bem, a senhora no deve ligar muito para essas coisas, afinal
nem se conhecia esse tal de Schirmer.
        Catarina saiu de seu alheamento. O senhor est enganado, na
verdade no estou ligando muito para isso, acontece que Juliana est
esperando o primeiro filho e o que me preocupa, neste momento, 
ter uma boa parteira  mo para a menina.
        - E Frau Masson?
        - Estou pensando nela, mas primeiro a gente precisa saber como
est a coitada de sade.
        Ele concordou, de fato todo o mundo sabia que a parteira andava
quase sempre doente, uma pena, tinha boa mo para botar criana
no mundo. Falaram ainda um pouco mais sobre o caso da criana que
estava por nascer, ele se coava, Catarina disse, o senhor tem alguma
coisa mais para contar, ora essa, fale. Ele no esperou novo convite:
outra coisa, Frau Catarina, sabe-se com certeza que o deputado Ulhoa
Cintra conseguiu fugir e a estas horas deve estar avisando Bento
Gonalves da tomada da sede do governo.
        Catarina ouvia atenta, balanou a cabea, e que fariam os
revolucionrios com a gente arregimentada pelo Dr. Hillebrand naquelas
picadas, por sinal mais de quatrocentos compatriotas de armas na mo,
ainda as tropas de Menna Barreto, de Joo Castro e de Silva Barbosa?
        Werland espichou o beio, levantou os ombros, no sabia de


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mais nada. Ele disse que precisava ir, Catarina despediu-se do amigo,
mandou lembranas para a sua mulher e voltou para dentro. De onde
estava, Daniel Abraho perguntou o que andava querendo Werland. A
mulher respondeu alto, preocupada:
      - Acho que a guerra, agora, vai ser aqui em So Leopoldo.
        O        marido ficou imvel, cenho fechado, depois comentou com
um leve sorriso:
      - Ento Philipp vem tambm.



2 Emanuel recebeu um recado misterioso, pediam que fosse  noite
at a Rua do Fogo e Sacramento, na casa de Lus Rau. Era
urgente. Consultou Catarina, que poderia ser? mal conhecia Rau, o
portador do recado tinha sido um alemo maneta da picada, no sabia
tambm quem era ele. Catarina riscava a tbua da mesa com a
unha, ouviu tudo sem levantar os olhos, depois disse que no se fugia
do bicho sem conhecer o plo. Pois se dependesse de mim, se quer
saber, eu ia ver o que era. Encerrou o assunto, saindo para o quintal.
        Quando Emanuel voltou para a oficina, no disse nada para
Daniel Abraho. Remoa o assunto, boa coisa no seria, encontro as
dez da noite, na casa de algum que apenas conhecia de vista, um
homem que vivia de consertar mveis velhos, cordas de relgio, panelas,
lampies. Certo dia estivera na oficina perguntando se havia trabalho
para ele, que com a guerra as encomendas escasseavam, tinha famlia
grande. Emanuel ficara de falar com Catarina e afinal tudo dera em
nada, o problema era o mesmo para eles todos. Agora Rau queria um
encontro com ele, no devia ser coisa de trabalho, seno era ele que
bateria na sua porta. Bem, j havia decidido, iria.
        Depois de comer, noite fechada, ficou ainda algum tempo ao lado
da mulher, ele mesmo passando a grossa mo na barriga de Juliana
sempre que ela dizia que as dores estavam chegando-, depois ela dizia
que haviam passado, que ele no precisava ficar temeroso, Frau
Catarina saberia cuidar dela, j no sentia medo. Perguntou a Emanuel:
      - Homem ou mulher, que queres?
        Ele fez um gesto vago, tanto fazia; se fosse homem trabalharia
com ele, aprenderia o mesmo ofcio, seria forte como o av, casaria
depois com uma moa que fosse bonita e soubesse tomar conta de uma
casa. Acrescentou: uma moa de boa famlia.
      - E se vier menina?
      - Vou gostar tambm, desde que seja bonita como a me, se
chamar Maria Luza, nome da tua av que morreu na Alemanha.
Gostas do nome de Maria Luza?


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        Ela riu contente, no poderia haver pensado num nome mais
bonito, o pai dela ia danar de alegria. Ento ele disse, levantando-se,
escuta aqui, agora vou ter que sair, recebi um recado para estar na
casa do Lus Rau esta noite. No sei do que se trata, mas Frau
Catarina acha que devo ir. Juliana ficou sria, meio assustada, se ela acha
que deves ir, ento isso  o melhor. Ele ainda voltou, j estava perto
da porta, passaram as dores? Claro, no sinto mais nada, estou muito
bem, vai tranquilo, disse beijando a mo calejada do marido.
        Era uma noite sem lua, ventosa, quase primaveril. Caminhava
sem conseguir pensar em nada. Das casinholas, por certo, ouviam as
suas botinas mastigando o areo das ruas, o vilarejo dormia, um que
Outro latido abafado pela distncia. A casa da Rua do Fogo e
Sacramento estava mergulhada na escurido, nem sinal de luz alguma,
alguma fresta que denunciasse vida l dentro. Passou pela frente, foi
at os fundos, temia bater. E se tudo no passasse de uma
brincadeira, de um encontro inventado? Naquele instante ouviu o ranger
de uma porta, uma voz ciciante que chamava por seu nome. Aproximou-se
nervoso:
      - Sim, sou eu mesmo, quem est falando?
        Reconheceu a voz de Rau, por favor venha, entre, desculpe a
escurido, mas  preciso. Embarafustou pelo buraco de trevas,
tateando as paredes, tropeou num banco, sentiu que havia outras
pessoas na salinha.
      - H algum mais aqui dentro?
      - Sim, Emanuel. Sou eu, von Salisch.
        A princpio no queria acreditar no que ouvia, estaria sendo
vtima de uma brincadeira de mau gosto, a mesma voz pediu que ele
chegasse mais para perto, afinal se encontraram, mos se buscando,
um aperto forte e franco. Sim, era von Salisch, um homem muito
importante que j estivera em So Leopoldo em misso dos legalistas
e que logo depois passou a combat-los, convencido das boas razes
dos rebeldes. Um von Herrmann von Salich que ele sabia de maneiras
nobres, professor de msica e de lnguas, agora ali no escuro da
salinha, na casa humilde de Rau, a chamar um simples empregado
de oficina dos Schneider. A voz se fez ouvir mais forte:
      - Preciso de voc e de muitos outros rapazes. Acontece que
mais de trezentos compatriotas nossos esto nas fileiras de Menna
Barreto, do outro lado do rio, enganados, ludibriados por essa gente
do governo que agora tenta jogar o dio dos brasileiros contra a
nossa colnia.
        Disse que a sua inteno era evitar aquilo tudo, mesmo que
tivesse de pagar um alto preo pela sua deciso. Precisava reunir um
bom grupo, quem sabe uns cinqenta homens bem dispostos, gente


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de confiana. Fez uma pausa, o silncio era quase total, no ouvia
sequer o vento passando por entre a galharia das rvores. Sua voz
era calma, prosseguiu, que ningum julgasse que estava procurando
carne para canho, tinha um plano que no exigia um tiro, no
precisavam morrer e nem matar ningum, mesmo porque eram todos
irmos, falavam a mesma lngua, tinham vindo das mesmas terras.
-        Mas eu no entendo, Herr Salisch.
      - Claro, eu sei que deves estar confuso, acontece que no
disponho de muito tempo, precisei fazer as coisas de uma hora para
outra.
        Perguntou se Emanuel confiava nele e se ele podia contar com
a sua ajuda e com o auxlio dos seus amigos, ele era um rapas
bem relacionado.
      - Para fazer o que  preciso, devemos estar prontos o mais
tardar depois de amanh,  noite.
        Emanuel sentia a cabea a latejar, as mos frias, era como se
estivesse sozinho em plena noite.
      - Eu no sei, preciso falar com Frau Catarina, por mim vou
agora mesmo, o senhor sabe disso.
      - Fale com ela, ento.
        Ainda pediu que ele procurasse falar com os rapazes Wessel, com
Kristen, os Oberstadt, com Hollfeldt e com mais alguns que ele
achasse pudessem participar da misso. Diga a eles que no haver
derramamento de sangue, mas apesar disso devero ir bem armados.
sobre certas coisas no se pode jurar, mas no acredito que se precise
dar um tiro. Apertou a mo de Emanuel, sentiu-a mida, se por acaso
no puder ir, pelo menos convide os outros rapazes. Quero s voluntrios
nas minhas fileiras, realmente aqueles que estejam dispostos
a defender o bom nome das nossas colnias.
        Rau se mantivera calado todo o tempo, assim no escuro era como
se no existisse. s vezes pigarreava. Quando von Salisch disse a
Emanuel que ele poderia ir e que agradecia ter vindo, ento Rau
falou, voz roufenha:
      - Diz l que na tua ausncia eu fico ajudando, no quero
nenhuma paga por isso.  a mo que posso dar.
        O        rapaz ficou sem saber o que dizer, despediu-se de ambos, viu
a porta abrir-se e por ela entrar a fraca luminosidade de fora. Notou,
quando j iniciava a caminhada de volta, um agrupamento de
cavaleiros sob as rvores, ouviu o escarvar de patas de cavalo, von
Salisch no viera sozinho, havia deixado seus homens de guarda.
        Quando chegou em casa, confuso, indeciso, teve vontade de
deslizar como uma sombra pelos muros e meter-se sob as cobertas


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sem despertar Juliana. Mas estacou a meio caminho, era a VOZ de
Catarina:
      - Ento, que queria von Salisch?
      - Von Salisch, mas ento a senhora sabia?
      - E que importa isso? Quais so os planos dele e o que quer
de ti?
        Ficaram os dois a conversar em voz baixa, sentados num mesmo
banco, Catarina s ouvindo, s vezes s rosnando qualquer coisa como
a dizer que estava entendendo. Emanuel emudeceu, temia que ela
notasse o leve tremor de sua voz, depois perguntou qual era a opinio
da sua patroa. A princpio Catarina permaneceu sem dizer nada, como
a dar tempo a que o prprio rapaz tomasse uma deciso.
-        A senhora acha que devo ir?
      -No sei, meu filho, Philipp tambm tinha as suas dvidas e
ele terminou por resolver sozinho. Se acha que o melhor  ficar em
casa, ento trata de deitar, de dormir, amanh volta ao trabalho como
se nada houvesse acontecido.
        Ouviam, na casa toda mergulhada em silncio, o ressonar de
Daniel Abraho sob o piso de madeira.
      - Ah, ia me esquecendo de lhe dizer uma coisa - disse
Emanuel - Herr Rau pode ficar aqui, ajudando, enquanto eu estiver
acompanhando von Salisch. No quer nenhuma paga por isso. A
senhora concorda?
        Catarina sorriu na escurido, apertou a mo do rapaz, a gente
conhece as pessoas mesmo quando no h luz. De manh bem cedo
comea a procurar os teus amigos, diz a eles o que pretende VOn
Salisch, que convidem outros, muito cuidado, as paredes tm ouvidos.
A colnia deve estar infestada de espies, h gente a mando do Dr
Hillebrand, andam por a nos botecos, nos emprios e oficinas, e
sempre que ficam sabendo de alguma novidade vo correndo contar a
ele e aos generais do governo. Todo o cuidado  pouco. Deixa Juliana
por minha conta, j falei com Frau Masson, ela agora anda bem
melhor do seu reumatismo.
        Emanuel deitou-se como um gato, deslizou por entre as
cobertas sem o menor rudo, Juliana parecia dormir um sono profundo.
Ento ele ouviu a voz dela dentro da noite e abalando a sua prpria
solido e medo:
-        Vais tambm para a guerra, como Philipp?
        Ele no respondeu. S ficou ouvindo o choro abafado e sentido
de Juliana.



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3 Dois marinheiros, Ruppel e Janzen, ouviu o patro falar. Grndling
indisposto, rspido, caminhava de um lado para outro. Escutem,
nem todos os meus lanches sero apreendidos pelas tropas rebeldes
e nem todos sero assim to estpidos como Schirmer, que muito
bem poderia ter parlamentado com os soldados, em vez de partir
para o tiroteio. Eu ainda recomendei para aquele imbecil que tivesse
cuidado, que no se precipitasse. Pois o asno fez exatamente o
contrrio. E por que agora todo o mundo est com medo?
        Um deles, Ruppel, um latago de quase dois metros, disse que
eles no estavam com medo; se o patro quisesse, os barcos saiam do
cais naquele momento e se alguma coisa acontecesse o nico a perder
seria ele, Grndling. Afinal, pelo que sabia, os barcos custavam muito
dinheiro.
        Zimmermann e Tobz se mantinham afastados, Tobz acocorado,
a riscar as tbuas com a ponta da faca. Depois levantou-se, meteu
a faca na bainha, limpou as mos.
        - Se os homens se negam a navegar o melhor a fazer  pegar
um por um deles e dar uma lio para que nunca mais esqueam.
        Zimermann puxou o amigo pelo brao. era melhor calar a
boca, todos os homens daquela beirada de rio conheciam Grndling
e no iam arriscar a pele com negaas.
        Por fim os marinheiros afastaram-se e o patro veio para junto
deles. Tobz perguntou: e ento? Grndling olhava para os barcos
que balouavam ringindo as amarras, passou a mo pela barba ruiva
e cuspiu na gua oleosa.
        - Talvez eles tenham razo. No se sabe como esto as coisas
l por cima. No fundo no deixa de ser arriscado entregar os barcos
nas mos dessa gente.
        - Eles no esto querendo trabalhar?
        Grndling disse que a pergunta no merecia resposta. Deixaram o
trapiche calados, o patro de cara fechada, testa franzida, os outros
dois tentando adivinhar os seus pensamentos. A Rua da Praia
fervilhava de gente, piquetes de legalistas repontavam prisioneiros a peito
de cavalo, dois negros apanhavam de chicote, quituteiros anunciavam
aos brados a sua mercadoria.
        - Vamos l para casa, disse GrLindling, as coisas no esto muito
claras, para essa gente  at divertido subir e descer governo, hoje
apanham uns, amanh outros, uns mestios politiqueiros, s querem
fazer discurso. Zimmermann e Tobz concordaram, fizeram alto numa
esquina para ouvir o que dizia um orador inflamado, possesso,
ameaando cus e terras com os punhos fechados, cuspindo-se todo. Tobz
avistou Schilling, veja, nosso amigo parece que vem a com novidades.


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O outro chegou a arfar, cara molhada de suor, eu venho das
redondezas do Palcio, h muita confuso, ningum informa nada direito.
Foi interrompido por Grndling:
      - O Major Marques de Souza est no Palcio?
      - Bem, isso no sei, falam muito nele, mas a notcia mais
importante  a chegada ainda hoje do Presidente Arajo Ribeiro, ele
j deixou Rio Grande, vem a bordo de um navio de guerra imperial.
      -Mas ento o major...
      - Pois esse deve ser promovido e vai para a campanha
combater os rebeldes.
        Grndling comeoU a rir, custou a conter-se. pois que belo
pagamento vai receber esse pobre-diabo. Pensava com certeza ganhar
um cargo  altura de quem conquistou a cidade, chefe de polcia,
comandante da guarnio, sei la, e em troca lhe do um grupelho de
gachos miserveis para servir de bucha de canho para os
revolucionrios.  o fim do mundo.
        ReinicioU a caminhada interrompida com a chegada de Schilling,
pediu a ele que fosse tambm para a sua casa. No sei. s vezes
chego a pensar que se um dia deixar essa casa no vou mais
conseguir pensar em nada. preciso do cheiro que ela tem, de estar no meio
daquilo tudo, sei l. Subiam agora a ladeira poeirenta, iam apreensivos.
pouco falavam - quando Tobz gritou, empurrando Grndling e
Zimmermann contra a parede de uma velha casa de quitanda, ele prprio
acoitando-se num desvo de muro, entre os pilares de pedra. Uma
pequena carroa vinha lomba abaixo, unl burro preso e arrastado
entre os varais, gente a correr para todos os lados, gritos de aviso,
caixas e sacos esparramados. Grndling rogou uma praga. que
necessidade tinha esse negro dos infernos de querer subir a rua, pois que
aproveitasse a temeridade. A carroa ainda deu mais algumas voltas, o
animal a espernear, o escravo, por fim, tambm preso no meio dos
destroos. Acorreu logo gente de todos os lados, Zimmermann disse,
o que eles tm a fazer, agora,  dar um tiro no meio da testa do
animal e levar o diabo do preto para a Santa Casa, pelo menos morre
num catre e no a no meio da terra e das pedras. Prosseguiram
lentamente, a lomba era muito ngreme.
        Mal chegaram em casa, Grndling prosseguiu no assunto do cais,
como se ainda estivesse l.
      - Por to grande paga eu acho que o nosso caro major,
adivinhasse ele essa coisa toda, nem se daria ao trabalho de sair da priso.
Convenhamos, essa foi muito boa.
        Chamou Mariana: o dono da casa queria beber alguma coisa
antes de comer, que servisse aos amigos tambm. Como sempre
fazia, tirou as botinas e abriu os botes do colete. O ar estava morno,


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era        bem capaz de vir uma chuvinha, dessas de molhar bobo.
A mucama tirou a fruteira centro-de-mesa e comeou a arrumar os
pratos, esticando aqui e ali a toalha de linho branco. Grndling
exclamou, mas ja e meio-dia, meus senhores! Os outros bebericavam calados,
mostravam-se diferentes dos outros dias, as coisas estavam mal
paradas, ou pareciam estar, ningum seria capaz de afirmar qualquer
coisa para o dia de amanh, o prprio chefe conversava uma coisa e
dizia outra, estariam entrando num beco estreito demais para eles.
        Mariana, pouco depois, entrou carregando uma travessa de
costelas assadas ao forno, grandes batatas coradas, entregou ao patro um
garfo especial e uma grande e bela faca afiada. Ele gostava de servir.
Deixou a negra sair.
        - Parece que hoje ningum tem fome nesta casa. Um pedao
desta costela, assim desta parte bem gorda, duas batatas, um bom
molho e depois, como sobremesa, uma loira mulher das nossas na
cama. Eis, meus senhores, o que se pode chamar de uma graa
divina.
        Provou um bom naco, falava de boca cheia, a loira mulher na
cama bem que poderia ficar para outro dia, mas o que eles tinham
 sua frente, preparado pelas artes da negra - claro, todo o preto
tem um pacto com o dinho - era de encher o dia de qualquer
vivente, o resto que fosse para o inferno.
        Parava de falar apenas quando engolia, elogiava a comida, as
mulheres, aquelas de pele muito alva, as que tinham o ventre rosado,
penugem de veludo, coxas rolias e dois pares de seios que
lembravam os pudins daquela negra velha, duas grandes mas de encher as
mos, bicos escuros e eriados, isso era muito importante, algum ali
presente sabia disso? ou eles pertenciam quela classe de animais que
se esvaziam dentro das fmeas e tanto faz a cor do plo, a largura
das ancas ou os grunhidos que do?
        Ele estava falando demais, os outros sabiam disso, no
certamente um sinal de bom tempo, era previso de chuvas e trovoadas.
Primeiro as belas e gordas nuvens, o vento fresco e ameno, a seguir os
coriscos e a tempestade levando tudo de roldo, a gua em catadupas.
Grndling, pensou Tobz, anunciava tempestade.
        Frau Metz veio dos fundos da casa, entrou sala adentro,
corpanzil gil: veja, Herr Grndling, olhe ali pela janela, o Guaba
coalhado de barcos e de navios, alguma coisa est acontecendo, que
Deus nos acuda.
        Correram todos para a janela, o dono da casa com mais vagar
do que seria de esperar. Viram l embaixo o rio brilhando com a
luz do sol a pino, trs barcos de guerra chegando, sumacas e pequenas
canoas dirigindo-se para eles, viam o povaru a correr pelo cais.


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        - O fugitivo do Rio Grande retorna ... disse Grndling com
certa amargura - depois do nosso major lhe abrir as portas. E ainda
por cima com as nossas chaves.
        Schilling perguntou se no seria melhor procurarem o major,
conversar com ele, afinal havia recebido auxlio na hora precisa, sem
a ajuda deles a coisa estaria ainda no mesmo p, o Presidente cercado
em Rio Grande, os rebeldes de donos da capital. O major era homem
atilado, jamais deixaria de reconhecer a verdade, deviam confiar nele.
        - A idia no  m - disse Grndling ainda de olhos fitos na
chegada dos barcos de guerra, o burburinho de canoas, sumacas e
gente - e amanh mesmo vou falar com ele, afinal estamos em
condies de abastecer a praa.
        Voltou para a sua poltrona, s gostaria de saber de onde aquela
gente toda da capital ia tirar comida para no morrer de fome, eles
haviam cado na sua prpria ratoeira, Porto Alegre era agora uma
grande ilha. Pois s ns, vejam bem, s ns estamos em condies
de botar comida na mesa desses pulhas, desde,  claro, que nos
deixem chegar at aqui as mercadorias que chegam em Rio Grande vindo
da Europa ou do centro do pas. Idias, meu caro Schilling, idias
valem ouro, s vezes chegam a valer mais.
        Coou a barba crescida, teria o resto da tarde para pensar
melhor, para achar o fio daquela intrincada meada. Teria a noite
inteira, cabea fresca, ah, se tivesse um belo par de seios para repousar o
rosto, mos de seda alisando o seu cabelo, quem sabe faria as pazes
consigo mesmo, cada idia chegando por sua vez, nada de atropelos,
de confuso, a barba spera roando a pele fina, era chegar em
Palcio e dizer aos funcionrios, mandem avisar ao Major Marques
de Souza que seu amigo Cronhardt Grndling est aqui, quer apertar
a sua mo, cumpriment-lo pela estrondosa vitria, deseja oferecer
o sacrifcio da sua prpria vida pela causa legalista. Precisaria do
discurso? No. Digam ao major que est aqui Herr Grndling, ele
sabe de quem se trata. Claro, no precisaria dizer nada pata aqueles
imbecis da portaria, tudo o mais que tivesse de dizer o faria l
dentro, refestelado numa cmoda poltrona de veludo vermelho,
agradecendo o charuto, o major sorridente, se no fossem vocs, os
alemes, no sei o que seria da causa legalista. Fale, Herr Grndling, o
senhor est na sua prpria casa. Um conhaque? Ou prefere rum, eu
sei,  a bebida preferida pelo meu caro amigo. As armas chegaram
na hora precisa, foi preciso muita coragem da parte de todos os
alemes que me ajudaram. Vou recomend-lo s graas do governo
central, ele saber reconhecer, na sua magnanimidade, o valioso auxilio
dos seus verdadeiros amigos, dos seus melhores aliados.
Zimmermann olhou para os outros, o patro estava quase dor-


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mindo, seus pensamentos andavam longe. Falou em voz baixa, vamos
deix-lo, ele sabe o que faz, saram em silncio, Grndling arriado no
sof, na sua cabea as imagens do Guaba sustentando os barcos, o
povaru nervoso como um formigueiro tocado pelo fogo, aquela
mesma gente que at ontem lambia as botas dos rebeldes, uma corja de
aduladores fedorentos, uma gentalha que merecia pata de cavalo e
lambidas de espada no lombo. Mais uma dzia de navios-priso, muitas
outras Presiganga recheadas todas de presos, a linha dgua beirando
o tombadilho, era de se ver, os mandes de ontem, os onipotentes,
a camarilha de farrapos com as mos atadas s costas, uma chibatada
bem no lugar certo, pois que fossem pedir aos negros para que os
tirassem dos pores mofados. Lembrou-se do velho Braga preso, dos
seus olhos de cachorro faminto, pois a estava uma coisa para ser
falada ao Major Marques, o senhor no me leve a mal, mas em
primeiro lugar mande tirar l do meio do rio um pobre-diabo amigo
meu, chama-se Braga, seu primeiro nome no me vem  cabea, veja,
minha cabea di como se estivesse aberta ao meio.



4 No haveria algum de respeito com quem se pudesse falar
naquele entrevero todo? Corredores escuros, embarrados, gente de
todos os tipos a entrar e a sair das salas, soldados que corriam
pressurosos no cumprimento de misteriosas ordens, por trs de cada
porta um figuro annimo, arrastar de esporas e tinidos de espadas
nuas, um cheiro de suor ardido. Dois homens discutiam
acaloradamente: sempre estive ao lado dos legalistas, no viro casaca; at ontem
estavas dobrando a espinha para os farrapos imundos, eu mesmo vi,
no me contaram. O outro tentou puxar uma pistola que levava
atravessada no cs das calas: ento me chamas de mentiroso, isso se
responde com sangue. Um oficial apartou os dois, berrou, mais respeito,
aqui  a sede do governo, no admito desrespeito s autoridades
constitudas.
        O        mais baixo, de pala, afastou polidamente o oficial, por favor,
esse assunto  s nosso e de mais ningum, faa o favor de retirar-se.
Ento o oficial levou a mo  espada:
      - O senhor est preso por desacato!
        Chamou dois soldados que estavam junto  porta de grandes
escudos entalhados, eles acorreram com presteza, perfilaram-se
desequilibrados, em continncia, olhavam firmes para o oficial, no sabiam o
que se passava. Enquanto isso o homem encaminhava-se colrico para
uma porta, voltou-se, o senhor vai pagar caro por esse insulto, afinal
onde estamos, no perde por esperar. O oficial ainda gritou, alto,


66


nem um passo a mais. Os soldados permaneciam rgidos, o superior
gritoU, prendam aquele homem. Mas ele j havia desaparecido,
batendo a porta com estrondo, o tenente no seu encalo.
        Grndling, surpreso com o inusitado da cena, no saiu de seu
canto, os nimos estavam agitados, realmente ningum se entendia, era
um pandemnio. Relanceou os olhos, buscava algum com quem
pudesse falar, onde afinal poderia localizar o Major Marques de Souza?
Nisto retorna o oficial que tentara prender o homem de pala,
vinha batendo com os saltos das botas nas tabuas largas do assoalho,
passava por ele, pois quem sabe seria o homem indicado.
      - Por favor.
        O        tenente fez um gesto de enfado, no tinha tempo a perder, que
procurasse algum da Casa Civil, ele no era porteiro nem introdutor
de ningum. Grndling ficou de mo perdida no ar. uma raiva
incontida, um tenentinho vagabundo daqueles com ares de general. Onde
estaria ele metido quando se tratou de tirar os rebeldes da cidade? na
certa escondido debaixo da cama, a tremer feito mulher velha.
Sentia-se desamparado, antes no tivesse vindo.
Abre-se uma porta com violncia, o sujeitinho de pala que fora
ameaado de priso pelo tenente furibundo irrompe porta a fora, atras
dele um oficial que deveria ser major ou coronel, seguidos por
outros que falavam ao mesmo tempo, onde est o atrevido que teve a
ousadia de desrespeitar o nosso deputado legalista? Grndling sorriu,
ento o nosso tenentinho metera a mo errada, o feitio virava-se
contra o feiticeiro. O magote entrou na sala por onde acabava de
embarafustar o oficial, houve gritos e discusses, finalmente saiu o
tenente de rosto congestionado, cabea baixa, os superiores atrs, ento
aonde estamos, no se respeita mais as autoridades, recolha-se  sua
unidade, apresente-se ao seu comandante!
        O        corredor voltara a ficar silencioso, os rudos agora vinham da
rua, cavalos e carroas, homens arrastando esporas no lajedo. O
oficial superior voltava, Grndling abordou-o, o senhor vai me desculpar,
sou Herr Cronhardt Grndling, fao comrcio entre Porto
Alegre e So Leopoldo, precisava falar com o Major Marques de Souza.
        O        militar estacou contrafeito, olhou com certa curiosidade para
ele:
      - Aconselho o senhor a voltar dentro de quinze ou vinte dias,
a hora no pode ser mais imprpria para tratar de assuntos
comerciais.
      -Mas no se trata disso, pelo amor de Deus.
      - Sei, compreendo. mas o Major Marques est com o Senhor
Presidente, no pode atender ningum, nem agora e nem nos
prXimos dias.


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        Deu meia volta e desapareceu por uma daquelas malditas portas.
Grndling ficou imvel, desarvorado, no havia dvida nenhuma, a
reviravolta havia de fato subido  cabea daquela gente, os mesmos
que h poucas horas estavam manietados nos pores infectos da
Presiganga, mijando-se nas calas, esbofeteados pelos revolucionrios,
cuspidos, humilhados. Pois esses eram os homens arrogantes de agora,
mal saam das grades, mal respiravam ar puro e j se davam ares de
uma importncia que na verdade nunca haviam tido.
        Um sargento de grandes bigodes cados nos cantos da boca,
pardacento, cabelos imundos cados sobre a gola rota do dlm,
acercou-se do intruso:
      - O senhor deseja alguma coisa, procura por algum?
      - Sim, preciso falar com o Major Marques.
      - Tem audincia marcada?
      -No, mas acontece que somos amigos e tenho um assunto
muito srio para tratar com ele.
      - Desculpe, mas isso no pode ser, so ordens, tenha a
bondade de esperar l fora, est proibida a permanncia de qualquer
pessoa estranha aqui. S autoridades.
        Levou Grndling at a pequena escada da grande porta da rua,
deixou-o no calado esburacado e voltou ao seu posto. Grndling
olhou para o cu, o sol j ia caindo no horizonte, a noite no tardaria
muito. Estava perto de casa, abriu caminho entre uma soldadesca
que recendia suor e fumo barato, sentia os ps apertados na botina, o
pescoo estrangulado pelo colarinho engomado, a boca seca, uma
enorme vontade de beber.
        Entrou sem fazer rudo, livrou os ps dos torniquetes, tirou o
colarinho e a camisa, encheu um copo de conhaque e largou o corpo
pesado numa poltrona. A cabea doa, algum batia-lhe com malhos
nas tmporas. Pois o senhor aguarde l fora, sim, ponha-se na rua,
seu alemo filho da puta, desaparea daqui. Um mestio de ndio que
no sabia o que era um banho h meses, comedor de carne crua,
piolhento. A hora no era prpria para tratar de negcios. Com que
ento, no tratavam negcios a qualquer hora. Era de rir. Na hora
do perigo os alemes arriscavam a pele, contrabandeavam armas,
estendiam a mo para aqueles cachorros da Corte e bastava pisarem
o cho do Palcio para falar grosso, correrem com as pessoas de
bem, cada um tentando lamber a sola das botas dos seus superiores.
Mestios!
        Olhou em redor, a noite chegava devagar, as coisas perdiam os
contornos. No queria ver ningum. Passou para o sof, apoiou a
cabea num almofado, fechou os olhos.
Ouviu um rudo, espiou. era Mariana que entrava a medo, os


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dois olhos brancos na escurido. Deu um berro, ela que fosse para
o inferno, no queria saber de ningum e de nada, que prendesse os
filhos l dentro. A negra sumiu.
        Agarrou firme o gargalo da garrafa. Era como se estrangulasse
uma galinha. Deixou a bebida escorrer garganta abaixo, queimando
como pimenta viva. Passou a mo, de leve, pelo veludo do almofado,
precisava naquele momento de uma mulher, uma fmea sem meias
medidas, s Izabela seria capaz de encontrar a mulher que lhe
servisse. Se for o caso, traga duas, como nos bons tempos, e mande este
cego maldito tocar alguma coisa daquelas suas msicas paraguaias. Os
dedos geis de Jacob, o velho cabar de paredes caiadas, o reservado
com a sua mesa comprida, o quartinho abafado, o cheiro acre do
querosene dos lampies e a luz trmula das lamparinas. isso, adivinhou,
sua cadela. Um puhrajey das canhadas paraguaias, s esse cego seria
capaz de tocar dessa maneira, ele nasceu para isso.
        L fora a noite morna, pesada, as mariposas que espocavam nas
chamas, a pele quente e gordurosa das mulheres da velha e esperta
Izabela. Agitou furisamente os braos, como a espantar fantasmas,
fora com essas megeras, no quero ningum aqui, leve essas mulheres,
me deixem s.
        Cruzou os braos sobre uma mesa invisvel e dormiu pesado,
deixando cair sobre o tapete a garrafa vazia.



5 Dois dias depois do ltimo encontro, Rau passou pela oficina,
chamou Emanuel, precisava falar com ele. Disse em voz baixa
hoje  meia-noite na Sanga dos Porcos, lado direito, antes da
travessia do rio. Emanuel fez que sim com a cabea e ele partiu sem
dizer mais nada. O rapaz voltou ao trabalho, sentia um leve tremor
nas mos, viu na janela dos fundos o rosto de Catarina que o
olhava de modo significativo. Ele ainda tinha nos ouvidos as suas
palavras, "no posso decidir nada por ti; pensa, avalia bem e resolve:
fala com os outros rapazes, mas no esquece de dizer a eles se
vais junto ou no; o importante  que tenhas a conscincia tranqila
e faas as coisas por ti mesmo".
        As dores de Juliana vinham espaadas, a parteira viera
examin-la, quase sempre acontecem rebates falsos no primeiro parto. Mas
a coisa no devia estar para muito longe. E nada de ficar na cama,
deve caminhar, o exerccio  um bom remdio, ajeita a criana na
barriga. Nada de carregar peso, tambm, trabalho s de criana.
Juliana olhava Frau Masson e sentia-se confiante, o rosto sereno da
velha, os grandes olhos azuis boiando na cara de pele ressequida.


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        Emanuel arranjava as suas coisas com vagar, calado, Juliana
ajudando o marido a enrolar o cobertor de algodo, notou quando
ele tirava de sob o colcho a sua grande e afiada faca de mateiro.
Ela segurou o seu pulso:
      -Mas ele disse que no iam fazer guerra.
      - Eu sei, mas  sempre bom a gente ir prevenido, nunca se
sabe.
        Ele procurava dar-lhe as costas, fingia-se preocupado com as
pequenas coisas. Juliana mostrava-se calma, isso at parece caStigO dos
cus, agora a guerra  entre irmos, gente do mesmo sangue, vindos da
mesma terra. Ele disse, von Salisch foi muito claro, ningum vai
precisar guerrear, ele l tem a sua prpria maneira de agir,  um homem
muito cuidadoso, Frau Catarina sabe disso.
        Ficaram os dois na parte fronteira da oficina, noite fechada, o
cavalo pronto. Com uma das mos segurava as rdeas, com a outra
o brao da mulher. Sentiu-a desamparada, nervos tensos, trmula,
Puxou-a mais para si, a grande barriga colou-se a ele, o pulsar do
corao confundia-se com o seu. Soltou seu brao, ficou passando a
mo, de leve, sobre o vestido largo, debaixo do pano vivia o seu
filho.
      -No quero que ele nasa enquanto eu estiver fora.
      - Isso no depende de mim, s Deus sabe. Se eu puder ele
espera para chegar na tua volta.
        Ouviram um galope isolado, aproximava-se algum. Deve ser
um dos nossos, disse ele com forte tremor na voz. Beijou Juliana,
no sabia o que dizer, sentiu as suas lgrimas quentes, ela silenciosa.
Desprendeu-se com esforo, montou e partiu no encalo do outro que
no havia parado e nem dito nada. Ainda olhou para trs, mas no
viu nada, a escurido havia engolido a sua mulher e o filho. Ou a
sua filha. Ela se chamaria Maria Luza.
      - Quem vem l?
        -        Kristen - respondeu o companheiro de Emanuel.
        Acabavam de chegar  Sanga dos Porcos, um terreno pantanoso
que alagava sempre que o rio subia depois das chuvas na serra.
Aproximaram-se do acampamento, um pequeno fogo central iluminava os
homens como fantasmas. Entre eles, de p, von Salisch. Emanuel
reconheceu vrios dos rapazes, apeou e foi apresentar-se ao
comandante.
      - Eu estava certo de contar contigo - disse von Salisch
apertando forte sua mo.
        Depois virou-se para o sargento, esto todos aqui? quantos
somos? A voz firme do Sargento Oberstadt respondeu, quarenta e oito
homens, comandante.


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        - Bem, vamos levantar acampamento, precisamos subir mais,
sempre costeando o rio.
        Os preparativos foram executados num abrir e techar de olhos,
montaram todos, von Salisch deu o sinal de marcha e iniciaram uma
penosa caminhada por terreno difcil, irregular, s vezes pequenas
elevaes de rocha, em determinados lugares os cavalos afundando
as patas, guas pelos joelhos.
        Ao clarear do dia von Salisch deu ordens de alto, reuniu em
torno de si a pequena tropa, pediu ao sargento que procedesse 
verificao das armas de cada um, depois afastou-se para examinar as
redondezas, estudava o terreno, enquanto o sargento cumpria as suas
ordens. Voltou, falava sem pressa, calmo, queria que todos soubessem
dos seus planos, o que pretendia fazer, revelou as informaes que
possua e a muitos perguntava se haviam compreendido bem, se
queriam algum outro esclarecimento, se tinham sugestes a fazer. Ningum
abriu a boca, estavam atentos, enquanto o comandante fazia o seu
cavalo circular entre eles, a passo lento, pois Menna Barreto pretende
cruzar o rio dois quilmetros acima de onde nos encontramos, ele
dispe de cerca de duzentos patrcios nossos, de cavalaria, mais de
trezentos de infantaria e uns cinqenta brasileiros, contando com os
seus oficiais.
        Sofrenou o cavalo, torceu o corpo, ficou apoiado num dos
estribos, falou devagar, mas seguro:
        - Vocs esto percebendo que eu no pretendo enfrentar uma
fora dessas com o nosso grupo, isso no passaria de um suicdio.
Vamos permanecer entrincheirados na margem de c e s dispararemos
alguns tiros quando a cabea da coluna comear a vadear o rio.
Eles voltaro para organizar o ataque, no sabero quantos somos e o
resto deixem comigo, vou parlamentar com o seu comandante, como
se tudo no passasse de um engano, pois vou me declarar legalista.
        Fez uma pausa longa para acender um cigarro, auscultou a
fisionomia dos que estavam mais perto, depois prosseguiu, vou
atravessar o rio sozinho, quero falar com a nossa gente, convencer os
nossos patrcios de que esto lutando do lado errado, essa guerra
no  deles, no devem ficar com o governo do Rio de Janeiro, que
cada um volte para o seu lote e trate de cuidar da sua terra e da
sua famlia. Ento, voltaremos ns para casa, cumprimos a nossa
misso, que  de paz, temos muito ainda o que fazer. Jogou o palheiro
fora, empertigou-se sobre os arreios, todos prontos? O Sargento
Oberstadt ordenou que se preparassem, galopou entre eles, reiniciaram a
marcha, o dia j clareava, o rio descia escuro e rpido.
        Ao avistar - meia hora depois - a parte espraiada do rio,
com sinais de patas de cavalo e de sulcos de rodas de grandes car-


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roes, vou Salisch ordenou alto, chamou Oberstadt, deu instrues e
o sargento carregou os rapazes para um caponete cerrado a uns
quinhentos metros de onde estavam.
      - Escondam bem os cavalos, no deixem nenhum solto, voltem
logo para ocupar o terreno.
Um soldado trouxera o cavalo do comandante que se postara,
numa pequena elevao, estudando o terreno. Cada um que ia
chegando ia recebendo indicao do lugar exato onde deveria
permanecer, formando, logo depois, uma linha sinuosa, curta, cerrada, a
cavaleiro dos que tentassem vadear as guas do rio. Se algum canoeiro
passasse, naquele momento, pelo meio do rio, no veria nada nas
suas margens, os homens haviam sumido nas reentrncias do terreno
acidentado.
        Emanuel empunhava firme uma espingarda. Espiava nervoso a
margem oposta e sentia sob a barriga a umidade da terra molhada
pela noite. Pensou, Philipp estaria, quelas horas, em algum lugar
parecido com aquele, teria nas mos uma espingarda ou uma lana, ou
talvez trotasse com seu cavalo por coxilhas e canhadas, ele quase o
enxergava, sim, era o menino Philipp na guerra. Ele precisava
concentrar-se na margem oposta, de l sairia o inimigo. Empunhava
firme a arma, no queria tremer, lutaria como o melhor de todos
eles, precisava voltar para a casa de cabea erguida, Juliana gostaria
de saber que fora um valente, que o pai de seu filho era um
homem, um soldado que no temia o perigo. Maria Luza, se fosse
mulher. Se fosse menino, bem, havia tempo para pensar nisso. Talvez
Herrmann, em homenagem ao seu primeiro comandante naquela
guerra, um homem de verdade, que sabia o que estava fazendo, que no
conhecia o medo. Juliana, estava certo, gostaria do nome de Herrmann.
Herrmann Jacobus. Maria Luza Jacobus.
        Um cavalo relinchou distante, os cavalos escondidos no caponete
se mostraram agitados. Estava l um homem atento, a presena deles
acalmaria a cavalhada. O vento estava a favor deles, da outra
margem jamais ouviriam qualquer som daquele lado. Emanuel esfregou a
mo aberta na relva mida. Sua testa porejava suor frio. Que diabo,
os outros estariam assim tambm. De onde estava, von Salisch fez
um aceno para a linha sinuosa dos seus homens. Eles se colaram mais
 terra.
        Os primeiros soldados surgiram na outra margem. Era um grupo
de batedores, lanas horizontais, cautelosos. Os primeiros cavalos
comearam a chapinhar nas guas. Outros mais surgiram. Emanuel mal
conseguia vislumbrar as sombras que se moviam lentamente do outro
lado. Sentia o estmago contrado, a boca seca. E se von Salisch
houvesse cometido um erro? Se fossem milhares de homens com potentes


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bocas de fogo e no quisessem parlamentar e despejassem sobre
eles uma torrente de ferro em brasa? Impossivel. Tudo daria certo,
ele no morreria sob a metralha do inimigo, ele no queria morrer
e nem podia, sua mulher carregava um filho na barriga, um ser vivo
e palpitante, o pai chegaria a tempo de ouvir os primeiros vagidos, a
tempo tambm de ver Frau Catarina dar o primeiro banho com agua
aquecida no grande fogo de chapa rubra. Daniel Abraho estaria
lendo a Bblia e pedindo a proteo dos cus para a criana que vinha
ao mundo numa hora em que os homens se guerreavam e se
exterminavam.
Os piquetes da vanguarda inimiga j estavam quase a meia do
rio, a procurar com cuidado os baixios, espadamando-se com cuidado,
atentos, lentos. Viam-se as feies dos primeirOS homens, era s
apontar, dar no gatilho, meter uma bala bem no lado do corpo.
        Von Salisch fez o sinal combinado e ouviu-se, cerrada e
aterradora, a primeira descarga de fuzilaria. O pnico tomou conta do
inimigo, alguns soldados empinaram as suas montarias, debandavam de
volta, gritos e ordens confusas de comando. Reorganizaram-se
rapidamente, as pontas das lanas denunciando a extensa linha que ia sendo
formada ao longo do rio. Talvez fossem, mesmo, uns quinhentos
homens. Salisch obtivera informaes exatas. No esperou mais,
comeou a erguer o pedao de pano que havia amarrado na ponta de
uma lana, depois levantou o busto, ficou de joelhos, finalmente de
p, balanando a bandeirola de paz. Iniciou uma caminhada lenta,
precavido, at a elevao mais proeminente. L de trs surgiu um
dos homens puxando dois cavalos pelas rdeas, Oberstadt caminhou
sem pressa para junto do comandante, os dois montaram, olhos fixos
 frente, comearam a entrar rio acima, seguindo a linha invisvel do
vau, o trapo branco para l e para c.
        Na outra margem von Salisch notou que os homens ganhavam
mais confiana, alguns deles j tornavam a entrar no rio, acenavam
pacficos, por fim os dois j cruzavam serenamente pelos primeiros
soldados em alerta. Foram direto ao grupo de oficiais do comando
que cercavam Menna Barreto, imponente no seu cavalo baio,
fardamento vistoso, dourados a reluzir nos ombros e nas mangas. Salisch
foi recebido com reservas, dirigiu-se ao comandante, havia por certo
um engano, eles no eram rebeldes, eram alemes que estavam ali a
fim de protegerem os seus bens e as famlias dos seus patrcios que
estavam na guerra. Oberstadt viu entre os alemes velhos conhecidos
seus, entre eles Behrens, Wrede, Strobach, Roeding, o ruivo Kirchardt,
da Picada Hortncio, o filho do seleiro Spring, ento sorriu para eles,
pequenos acenos amistosos, enquanto Salisch ouvia de Menna Barreto
que eles, os alemes, no podiam formar tropas militares para nada,


73


que s a eles, legalistas, cabia fazer com que os direitos e os bens
dos cidados fossem respeitados. Salisch declarou-se de acordo,
queria colaborar, estava ali para isso, gostaria at de poder falar com
seus patrcios, explicar para eles os motivos pelos quais lutavam, o
imprio estava em perigo, era preciso que todos ajudassem a derrotar
os rebeldes. Menna Barreto achou a idia boa, no sabia falar
alemo, seria uma excelente oportunidade para esclarecer os seus homens.
        Von Salisch pediu, aos gritos, que os alemes entrassem em
forma, infantaria  frente, cavalaria mais atrs, notou os homens
cansados, cavalos exaustos, precisava comear a sua arenga o mais
depressa possvel:
      - Liebe Landsleute: Alle mssen ber diesen Krieg gut
nachdenken. Wir haben nichts mit ihm zu tun, es gibt keinen Grund warum
wir unser Leben sr die Interessen der Regierung in Rio de Janeiro
opfern sollten...
        Prosseguiu entusiasmado, voz firme, notou que os homens
recebiam bem as suas palavras, Menna Barreto sorria satisfeito, trocava
olhares significativos para o seu Estado-Maior, assim os alemes se
integrariam melhor com os brasileiros. Salisch alinhava novos
argumentos, lembrava a famlia de cada um, as mulheres e as crianas
entregues  prpria sorte, a terra mal trabalhada, que esperavam eles
para tomar uma deciso?
        Deu-se o inevitvel, os soldados de infantaria comearam a sair
de forma, os cavaleiros esporeavam os animais e rumavam para o rio.
Por todos os lados uma debandada urgente, livre, alegre. Menna
Barreto gritou para Salisch, afinal o que estava se passando, que estava
ele dizendo aos homens? Ele ainda disse algumas palavras mais para
os soldados que ainda o rodeavam, virou-se para o comandante
enfurecido: estou dizendo a eles o que devem fazer como alemes, que
voltem para seus lotes, que cuidem das suas famlias, que no se
metam numa guerra que no  deles.
        Um oficial avanou com seu cavalo at Salisch, desembainhou a
espada:
-        Isto  uma traio, merece a morte.
        Mas estacou diante de Oberstadt, que o ameaava com a lana,
e de mais quatro ou cinco alemes que acorreram para defender os
dois, estavam em maioria, corriam perigo, o oficial recuava. A
oficialidade olhava para o rio, as tropas alems passavam em meio de
grande algazarra, os soldados de infantaria saltavam para a garupa
dos companheiros, formavam filas seguindo os baixios.
        Foi quando piquetes da retaguarda surgiram de inopino, um
sargento gritou que Bento Gonalves aproximava-se  frente de grande
tropa, vinham a menos de quatro quilmetros. Menna Barreto deu

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ordens apressadas de reunir, os brasileiros tratando de obedecer
enquanto os alemes alcanavam a margem oposta e confraternizavam,
alegres, com a pequena fora de von Salisch que ficara aguardando
os acontecimentos.
        As tropas legalistas desapareceram rio abaixo, enquanto Salsch
reunia seus homens, dando ordens para que montassem, o caminho a
seguir todos sabiam, So Leopoldo ainda estava na mesma direo.
        EmanUel voltava de corao leve, afinal tudo havia corrido
conforme as previses, o pequeno grupo conseguira uma vitria com
apenas uma descarga de armas viradas para o cu, que a ordem fora
para no atirar sobre os inimigos. Agora sim, juliana j poderia dizer
a Frau Masson que o filho do soldado e guerreiro Emanuel Jacobus
poderia vir ao mundo. Sentiu vontade de fincar as esporas no ventre
do cavalo e galopar, galopar, voar pelas margens tranqilas do Rio
dos Sinos.
        Mas o animal estava cansado, seguia de cabea baixa, passos
trpegos, cruzando banhados e barreiros, vencendo com dificuldade o
longo caminho de volta.



75



v


1 Os homens descarregavam os pesados fardos que os negros
traziam nas costas, o emprio com gente por todos os cantos,
Grndling refestelado numa cadeira de couro, pernas estendidas sobre
um tamborete, a saborear talhadas de melancia. Bayer dava ordens,
gritava com os escravos, enquanto Tobz escolhia as melancias maduras,
batendo com os dedos nas cascas rajadas, separava uma e enfiava
faco, abrindo-a meio a meio. O corao, vermelho brilhante
pontilhado de pequeninas e negras sementes, era levado numa bandeja para
Grndling. Ele enchia a boca, caldo escorrendo pela barba, olhos
gulosos fiscalizando a mercadoria que chegava de Rio Grande.
        - Essa gente daqui no tem dinheiro para pagar essas coisas e
de So Leopoldo no nos chega nada.
        Chamou Bayer, ele que tratasse de fazer com que os escravos
descarregassem com cuidado, no podiam largar as caixas no cho
daquela maneira, assim quebravam o que vinha dentro. O gerente
chamou um dos feitores, transmitiu as ordens e logo depois Grndling
sorriu, as suas determinaes estavam a ser cumpridas, ouvia-se o
estalar dos chicotes no lombo dos negros recalcitrantes. Afastou Tobz
com o brao, no queria mais saber de melancia, isso  comida para
porco, estou com a barriga estourando de gua. Levantou-se para
urinar atrs de uma parede, voltou abotoando-se, vamos rebater essa
porcaria com uns bons "schnaps".
        Depois de um longo rateio Bayer pagou o feitor com
mercadorias. Ele tentava explicar ao homem, estamos em guerra, falta trabalho
para todo o mundo, os seus negros no so melhores do que os
outros, vai terminar matando de fome esses diabos se continuar
cobrando assim pelo trabalho deles. Depois que eles saram Bayer veio
reunir-se  roda em que estava o patro, limpava o suor com um grande
pano de algodo, disse, minha vontade agora era tomar um bom


76


banho de rio, ningum agenta um calor desses, h mais de um ms
que no chove. Tobz achou graa no outro, o ms de fevereiro
sempre foi assim, admiro no saber disso. Bayer pediu licena, apanhou
um pedao de melancia, provou, disse que parecia uma pedra de
acar.
        - Se tivesse chovido, seu parvO, esta melancia estava aguada
que s porco seria capaz de comer.
        Zimmermann acabou de falar e fez um sinal com a mo, dois
empregados Vieram limpar o cho das cascas e sementes, o patro meio
sonolento, bebericando ainda os seus "schnaps". Olhou para Bayer:
        - Afinal, tudo chegou de acordo com as relaes?
        - Lang e Rieth esto conferindo, at agora parece tudo certo.
        Estavam numa espcie de escritrio, separado do resto do
emprio por uma pequena mureta de pedra, de onde se avistava uma
das quatro portas largas que davam para a rua. L fora, os carroes
com seus cavalos modorrentos, a espantar com o rabo as moscas
varejeiras. Grndling reparou nos cavalos, olhou em redor e disse
que havia tanta mosca ali dentro quanto se via na rua, era uma
imundcia, bichos irritanteS, patas pegajosas. Schilling ainda tentou sacudir
um pedao de saco, espantando-as, mas o que conseguiu foi levantar
uma nuvem de poeira. Lang aproximou-se, disse para Bayer que
estava tudo em ordem, apenas quatro pratos quebrados, duas tigelas,
alm do vidro de um dos candeeiros. Grndling ordenou a Bayer que
lesse a relao.
        - Mil e duzentos cvados de riscado e mil de algodo.
        Grndling sorriu, amanh mesmo essa gente do governo vem
aqui requisitar,  fardamento para soldado. O empregado prosseguiu.
        - Duzentas caixas de linha e duzentas de novelos de fio de
linha. Trinta dzias de bitters (o patro rosnou, afinal vinha tambm
alguma coisa que prestasse); dez caixas de toalhas; trinta candeeiros;
mil dzias de botes para jaqueta; cinco mil agulhas, dois mil cvados
de cassineta e outro tanto de musselina; vinte moinhos para caf e
quatro mil quilos de sal.
        Grndling interrompeu a leitura, para mim chega, no quero
saber de mais nada, s nos mandam porcaria, quinquilharias para
ndio. A na relao, por exemplo, tem rum da Jamaica? O gerente disse
no, sem olhar para o papel. Pois , posso jurar que essa mercadoria
veio mas no passou de Rio Grande, l s tem ladro, so uns
miserveis, pois que se embebedem feito porcos. Levantou-se, disse que
ia para casa, apontou para Tobz, Schilling e Zimmermann, vocs
venham comigo. Saram, na rua o sol estava escaldante, caminhavam
lentamente, a proteger-se nos curtos beirais das casas baixas.


77


      - Preciso dar uma chegada em So Leopoldo - disse aps
algum tempo.
      - O senhor no acha um tanto arriscado, depois de tudo o
que aconteceu? - disse Schilling.
      -No acho, se quer saber. No sou rato para ficar preso numa
toca. E depois, preciso falar com uma determinada pessoa, quero
fazer um acordo, acho que este  o caminho mais certo. Sim, um
acordo sempre  melhor.
        Ento parou, ficou de frente para os outros, o sol a pino
transformava as suas barbas numa labareda:
      - Que  feito dos homens de Frau Catarina, como est o
emprio dela?
      -Mas o senhor no sabe? - disse Tobz admirado. - Os
homens dela foram presos, o Isaas Noll, Engele, aquele que
apanhou de palmatria do Padre Pedro, e um tal de Richter. E mais:
esto todos na Presiganga.
      - E o emprio?
      - Vazio. Saquearam na medida, no ficou uma agulha nas
prateleiras e ainda por cima fecharam as portas com trancas e pregos.
        Grndling prosseguiu, pensativo, depois disse como se no
falasse com ningum, como se estivesse s, pois vo abrir o emprio
dela, vo soltar os seus homens, dou a minha palavra de honra
sobre isso. Os outros se entreolharam, Zimmermann disse, mas Herr
Grndling o senhor vai querer quebrar lanas por um concorrente da
raa de Frau Catarina? H muito que ela no nos deixa comprar
nada nas picadas;  nossa inimiga declarada.
      - Ora, deixe-se disso, eu sei quem so os nossos inimigos. Este
 um problema meu, no me interessa a opinio de mais ningum.
        Caminhavam limpando o suor que escorria pelas golas das
camisas. Grndling ainda monologava, precisamos de porco, de milho,
frangos, ovos, batatas, feijo, fumo, toucinho, torresmo. Eles que
fiquem com as agulhas, as toalhas e cassinetas. Pois nos pagam muito
bem. Querem um bom chapu europeu? Pois custa um saco de
batatas ou dois de milho. Um timo negcio. Dois quilos de biscoitos
nossos por um saco de milho e estamos quites. Duas dzias de ovos
por uma toalha. Vejam, uma toalha das boas, d para enxugar a cara
do pai e os ps do filho, depois  s estender num galho.
        Os negros dormiam nos portais, um calor mido empastando o
ar, nenhum soldado pelas ruas. Na Igreja do Rosrio os escravos se
amontoavam entre as colunas. Tobz lanou um olhar para eles, fez
um trejeito, quando se precisa de um desses animais custam os olhos
da cara; o que querem  dormir,  modorrar em qualquer desvo.
Grndling tinha o pensamento longe, caminhava compassado, no ouvia


78


o        que os outros diziam, pois tinha l o seu plano na cabea. Era a
sua vantagem sobre os demais, sabiam cumprir ordens, eram fiis,
mas qualquer um deles incapaz de ligar duas idias, de resolver um
problema, de usar a cabea. Estava certo. Eles ganhavam a vida
prestando servios, cabia a ele traar os planos, dar ordens, prever todos
os detalhes. Pois tudo agora ficava mais claro na sua cabea, como 
que ainda no tivera aquela idia, isso  que o intrigava.
        Quando chegaram  Praa da Matriz ele disse aos outros que
podiam ir para as suas casas, ele estava cansado, com muito calor,
queria dormir at que o sol se fosse embora. Riu-se, descontrado,
quero ficar nu em cima de uma cama, um jarro de gua  mo e um
pouco de ar entrando pela janela. Assim pode ser que a cabea fique
mais fresca, preciso disso. Parou, botou a mo sobre o ombro de
        Schilling:
      - Uma coisa, ainda. Procurem saber mesmo se aqueles rapazes
de Frau Catarina esto na Presiganga e quem  o responsvel pelos
presos daquela geringona.
        Fez uma pausa, cofiou a barba molhada.
        - Quero saber isso ainda esta noite.



        2 Emanuel encontrou no caminho de volta um carroo que vinha
do Porto, da casa dos pais, pesado de mantimentos, na bolia
o entregador Incio Bins. Ele e os poucos companheiros pararam
 sombra, os cavalos caindo aos pedaos, o resto do grupo havia
seguido von Salisch, internando-se pelas picadas. Surpreso, Bins
perguntou de onde eles vinham, assim armados, por acaso andavam em
guerra? Mais ou menos, disse Emanuel, mas ningum chegou a brigar,
agora estamos voltando para casa. Perguntou se ali no havia alguma
coisa para comer. Bins alegrou-se, puxou de um saco sob o banco
um grande pedao de lingia gorda, especial para a famlia, e dois
belos pes de milho. Deixm comigo, vou preparar essa linguia com
ovos, fao fogo em dois minutos e de mais a mais eu tambm
ainda no comi nada desde que sa do Porto. Sabem, a gente no
gosta de demorar muito pelo caminho.
        Todos apearam, o rapaz desenganchou a sua panela de viagem,
tirou a caamba de brasas e comeou a preparar o fogo. Emanuel
deu o exemplo para os outros, desencilharam os cavalos, deitaram-se
sobre os pelegos, estavam com os olhos pesados de sono. Mas ele
no conseguiria dormir, seus pensamentos voavam, agoniava-se, via
nitidamente o quartinho dos fundos, a oficina onde Daniel Abraho
trabalhava em silncio, Juliana como estaria? J tivera a criana? Con-


        79


fiava na gorda parteira, em Catarina, nas oraes de Daniel Abraho.
Disse, quase em voz alta, Deus  bom.
        Quando terminaram de comer, o entregador ainda a apagar o
resto de fogo, os companheiros tratando de reagrupar os cavalos, eles
disseram que Emanuel fosse na carroa, assim chegaria mais
descansado. Despediram-se, a comida havia chegado bem na hora,
tocaram os cavalos a passo.
        Bins atrelou o cavalo na traseira da carroa, ajeitou a mercadoria
para dar lugar a uma espcie de cama para o filho do patro,
examinou bem os arreames dos cavalos puxadores, aboletou-se em seu
lugar e deu a partida. Emanuel acomodou o corpo dolorido, estendeu
as pernas dormentes, enxergava agora o vasto cu sobre a cabea, as
copas das grandes rvores, os pssaros lentos que cortavam o ar.
Cruzou os braos na nuca, cabea enevoada, dormiu.
        Quando os cavalos estacaram bruscamente, viu a sombra do
rapaz na bolia e ouviu a voz clara, ntida, forte, de Catarina. No
conseguia acordar de todo, tinha o corpo modo, a patroa perguntava
ao rapaz se tudo havia corrido bem, como iam as coisas pelo Porto.
Bins disse a ela que podia ficar descansada. tudo estava bem. a nica
coisa que podia contar  que havia encontrado um resto de tropa
no caminho. Pouca gente, no mais que cinco rapazes.
      - Soldados?
      - Soldados, sim senhora. E para provar o que digo trouxe aqui
comigo um deles, feito prisioneiro por mim, afinal comeu a melhor
lingia que eu trazia para a senhora.
        Aproximou-se de Emanuel que ainda lutava contra o sono,
puxou um pedao de pano que cobria parte do carregamento.
      - Veja  senhora, o soldado Emanuel.
        Catarina assustou-se. Ele est ferido? Emanuel levantou a
cabea: Frau Catarina, a senhora?
      -No - disse Rins - ele no est ferido, preferiu fazer
este pedao de caminho dormindo, j estava meio morto de cansao.
        Emanuel levantou parte do corpo, apoiando-se nos cotovelos,
viu parte da casa, o porto da oficina, l nos fundos ficava o seu
quartinho, o quartinho de Juliana, viu as crianas na porta da casa,
Daniel Abraho, Rau e outras duas pessoas que no conhecia. Virou-se
para Catarina:
      - E Juliana?
      - Teve a filha - respondeu ela, ajudando-o a descr.
      -Maria Luza? Por amor de Deus, Frau Catarina, quero ver
Juliana e a minha filha. Ento foi tudo bem, eu sabia que Deus
olha para os seus filhos, eu sabia.
        Catarina disse ao rapaz que fosse passar uma gua na cara,


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estava coberto de terra, precisava pelo menos trocar de roupa, uma outra
camisa, estava um bicho.
      - E Juliana?
      - Ela est bem, Frau Masson acaba de sair daqui, passou toda
a noite ao lado dela.
      - E a que horas nasceu?
      - H quatro horas, mais ou menos.
        Caminharam em direo da porta, ele abraou Daniel Abraho,
beijou as crianas, apertou a mo de Rau, ento veio sempre dar uma
ajuda como prometeu, muito obrigado, as coisas l correram como
von Salisch havia previsto, tiros s para assustar a gente do outro
lado, ningum morreu, o comandante quelas horas marchava para
os lados de Porto Alegre. No limiar da porta Catarina fez com que
o rapaz parasse, botou a mo no seu ombro, um momento, precisamos
conversar alguma coisa, duas palavras s. Ele notou a expresso da
patroa, tornou-se sombrio de repente, fale, por amor de Deus fale,
Frau Catarina. Juliana no foi bem? Ela pediu: Daniel Abraho, traz
gua para Emanuel, ele deve estar com sede depois
d toda essa viagem. Obrigou-o a sentar-se no banco da salinha da
frente, sua voz era firme, falava com os dentes um pouco cerrados:
      - Juliana est bem, muito bem mesmo, est dormindo agora,
no convm acord-la,  natural que esteja fraca, isso acontece com
todas as mulheres.
      - E Maria Luza?
      -Nasceu morta - disse num repelo Catarina.
        Emanuel ficou olhando para ela como se no tivesse entendido,
notou que os outros estavam na porta, espiando-o, pelos seus olhos
continuavam passando as ramadas das grandes rvores do caminho,
voejavam os mesmos pssaros lentos e agourentos, eram aves negras.
Ouviu a voz, l fora, de Daniel Abraho, lia um trecho da Bblia,
"Deus  para ns refgio e fortaleza, auxlio encontrado sem falta nem
atribulaes. Portanto no temeremos, ainda que se mude a terra,
ainda que se abalem os montes nos seios dos mares, ainda que
bramem e se perturbem as suas guas".
      - Quero ver a minha mulher - disse ele com voz sumida.
      - Vamos at l, mas quieto, sem barulho, no  bom que
acorde, ela est muito fraca e triste, ainda no quis comer nada, s
falava em ti.
        Abriram a porta do quartinho com cuidado, o couro ressequido
das dobradias rangeu de leve, a claridade de fora riscou o cho de
terra batida. Juliana dormia um sono agitado, respirao difcil,
entrecortada. Emanuel sentiu cheiro de sangue e de desinfetante. Apro-


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ximou-se da cama, viu a sombra difusa da mulher, olhou para
Catarina que lhe fez um sinal para sarem. L fora disse, a meia voz:
      - Juliana no sabe ainda que a filha no vive, foi melhor
assim at que fique mais forte.
      - E quando vai ficar sabendo?
      - Tem tempo,  melhor para ela no saber j. Agora  preciso
enterrar o anjinho que nem chegou a ver a luz do dia.
      - Quem vai encomendar?
      -No encomendam as pessoas que nascem mortas.  s
enterrar.
      - Como os animais?
      -No - disse ela firme. - Como as pessoas que nascem
mortas.
        Ele baixou a cabea, olhos secos, perguntou onde estava a filha.
Catarina conduziu-o at os fundos. Sobre uma tbua para lombilhos
estava um embrulho de papel pardo, ndoas sangUneas. Ele disse:
no pode ser, no  a minha filha, parece um embrulho de lixo, no
podem fazer isso com ela, no podem. Comeou a chorar, soluar
abafado, apertava a cabea com as mos, batia no rosto. Catarina
elevou a voz: no  a tua filha,  um feto, no se pode encarar
as coisas dessa maneira e tu sabes disso, no piora as coisas para a
tua mulher que ainda vive, que precisa viver. Puxou-o pelo brao, Herr
Rau leva o embrulho, ele sabe o que fazer nesses casos, nasceram-lhe
dois filhos assim.
        Emanuel passou as costas das mos nos olhos, teve uma enorme
vontade de gritar, de bater com os punhos contra a parede, viu-se 
beira do Rio dos Sinos, espingarda entre os dedos, era preciso atirar,
atirar sem parar, devastar o inimigo, aniquil-lo.
        Catarina puxou sua manga, vamos, no adianta ficarmos aqui,
isso no resolve nada. Ele sacudiu o brao, livrou-se da mo dela.
      - Por favor, Frau Catarina, no diga que no, pela primeira
vez vou desobedecer a senhora. Maria Luza vai ter um caixo, um
caixo feito com as minhas prprias mos, no vai ser enterrada como
uma coisa, como um animal.
      -Meu filho, tens o direito de fazeres o que achar melhor -
disse ela retornando para a oficina.
        Falou com o marido, que escolhesse alguns bons pedaos de
madeira, Emanuel queria construir um caixo para o feto. Ele
obedeceu, comeou a vasculhar uma pilha de tbuas, pontas e aparas.
Virou-se para a mulher, disse:
      - Emanuel est certo, todos so filhos de Deus, com mais
razo ainda as crianas que nascem mortas.
        A mulher corrigiu, no h encomendao para as crianas que


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nascem mortas. Ele suspendeu as buscas, caminhou at ela, abriu os
braos: no se faz encomendao? Viu Emanuel que chegava, foi
ao seu encontro: eu fao a encomendao crist da tua filha, deixa
isso comigo, as palavras da Bblia tm o mesmo valor na boca de
um sacerdote ou na de um cristo.
        Catarina afastou-se, deixou os dois entregues  construo do
caixozinho para o feto. Mos geis, bocas caladas, Emanuel
contendo o choro, a passar na sua memria a voz grave e pausada do
velho Jacobus, "homem no chora".
        Depois de algum tempo o trabalho estava terminado. O rapaz foi
buscar o embrulho manchado de sangue e colocou-o, com cuidado,
entre as paredes de madeira crua. Voltou, pediu a Daniel Abraho
um martelo e pregos, sentou a tampa rstica, cerrou os dentes, cada
batida era como se esmagasse um ser vivo, s vezes com raiva
incontida, dio, desejo de destruir algo que ele mesmo nem sabia bem o
que pudesse ser. Como o puxar do gatilho, os inimigos na outra
margem, era preciso atirar para matar. Von Salisch estava errado, na
guerra no se deve poupar o inimigo, alinha-se a ala com a massa
de mira, a bala abre um rombo entre os olhos de algum que
tambm se prepara para matar. Viu que o caixo estava fechado -
teria pouco mais de um palmo dos seus - meteu-o debaixo do brao,
agarrou uma p de corte, enfiou o chapu.
        - Volto dentro de uma hora, Frau Catarina.
        Daniel Abraho postou-se  sua frente. Espere, vou buscar a
minha Bblia, esta criana precisa ser encomendada com a palavra
de Deus.
        Logo depois saam os dois, rumo ao cemitrio. Emanuel adiante,
Daniel Abraho um pouco mais atrs, tentando folhear a Bblia preta,
dando corridinhas para alcanar o rapaz.
        Emanuel escolheu um lugar mais alto, seco. Havia uma figueira
perto, depositou o caixozinho no cho, arregaou as mangas, CUSpiU
na palma das mos e comeou a cavar com Vigor. O suor escorria
cara abaixo, ardia nos seus olhos. enquanto Daniel Abraho
continuava a folhear a Bblia. Cavou ainda por algum tempo, com dio,
mediu com a p a profundidade, achou que estava bem, virou-se
para o patro:
        - Pode comear a encomendao, Herr Schneider.
        Ajoelhou-se. Ento chorava. A voz de Daniel Abraho era grave
e triste, "Eclesiastes, captulo trs, tudo tem a sua ocasio prpria e
todo o propsito debaixo do cu tem o seu tempo. H tempo de
nascer e tempo de morrer", ele lia a Bblia ajoelhado na terra recm-
revolvida e mida, o vento a sacudir-lhe o cabelo rebelde, "h tempo
de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar


                                                                83


o que se plantou". Emanuel no podia crer que a posta sangnea que
vira fosse a sua filha Maria Luza, aquilo de fato no estava
acontecendo, estaria ferido pela lana de um inimigo, era ele que morria,
devia ser assim o que se passava num homem que perde sangue aos
poucos, esvaindo-se lentamente, sem pressa, "tempo de chorar e
tempo de sorrir, tempo de prantear e tempo de danar", comandante
von Salisch, estou ferido, Hollfeldt, chama urgente o cirurgio-mor,
Juliana me espera em casa, no posso morrer agora, "tempo de amar
e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz", Kristen, Wessel,
Sargento Oberstadt, onde esto vocs que no me ouvem e nem me
socorrem, eu no consigo mais chorar, pelo amor de Deus, meu
sangue encharca a terra,  possvel que ningum veja, que deixem o meu
corpo aqui exposto para aqueles pssaros malditos descerem e me
devorarem? Que se passa com o resto da tropa que desapareceu?
Malditos!
        Daniel Abraho suspendeu a leitura da Bblia, passou a mo
sobre a cabea do rapaz:
        -  preciso ter f, meu filho, o desespero no  prprio dos
cristos.
        Emanuel olhou para ele sem entender, viu o tosco caixozinho
sobre a terra revolvida, esfregou a manga da camisa nos olhos, por
certo no estaria chorando, era s o suor.
        Quando voltavam para casa, ele ainda tinha nos ouvidos, dentro
da cabea, a voz rouca de Daniel Abraho, "tempo de falar e tempo
de calar, tempo de matar e tempo de curar". Que diria a Juliana
quando abrisse a porta do quartinho cheirando a sangue e a
desinfetante, quando chegasse perto da sua cama e visse os seus olhos
muito brancos, o seu vulto estendido debaixo das cobertas, a sua
voz triste e apagada, perguntando pela filha que haviam levado?
        Ele pegou das suas mos, apoiou nelas a sua testa molhada e
ali ficou, tentando no pensar em nada.



3Os soldados brasileiros, por determinao do comandante ferido,
rumaram para So Jos do Norte. Os alemes foram mandados de
volta para a colnia, no convinha que chegasse aos ouvidos da
Corte que braos estrangeiros estavam lutando ao lado dos rebeldes.
Heise reuniu seus homens, disse que haviam recebido uma nova
ordem, preisavam estar em So Leopoldo, o Dr. Hillebrand continuava
incomodando, agora com mais de quatrocentos patrcios emboscados
nas picadas ao p da serra. Era noite j, ento ordenou que se
preparassem para dormir algumas horas antes de iniciar a marcha de


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volta, era preciso alimentar a cavalhada. Philipp, Satter e Juanito
foram cortar capim para os animais, enquanto outros faziam fogo e se
preparavam para cozinhar alguma coisa.
        Enquanto executavam a ordem, Philipp confidenciou a Satter que
estava envergonhado, estavam sendo mandados embora, isso no se
fazia nem com os negros escravos. Repelidos como leprosos, depois
de tudo o que haviam feito, depois de arriscarem a vida daquela
maneira. Satter suspendeu a sega por alguns momentos, o amigo devia
confiar mais no Major Heise e eles eram soldados, deviam obedecer.
        - Tenho a certeza de que em So Leopoldo nos mandam para
casa - disse Philipp. - Para eles  muito vantajoso que a gente
continue plantando e fabricando carroa.
        Satter meneou a cabea, o soldado Philipp estava ficando
maluco, a guerra no lhe fazia muito bem. Assim, o melhor mesmo seria
voltarem para casa e cada um ajudar de sua maneira. Segavam agora
com raiva, como se estivessem cortando pescoos de imperiais. Juanito
ia recolhendo o capim mido, fazendo feixes, deixando-os em linha
para que fossem encontrados na volta, quando a escurido da noite
houvesse cado sobre a terra, cobrindo campos e varzedos.
        - J est melhor do vomitrio? - perguntou Philipp
quebrando o silncio.
        - Quase - disse Satter sem parar - agora eu preciso  de
comida no estmago, alguma coisa mais slida, quente, sei l.
        Avistaram ao longe, no acampamento, a tnue claridade das
fogueiras. Philipp distendeu o corpo, espreguiando-se, acho que chega,
o resto os cavalos que arranjem por l mesmo. Viu quando Juanito
juntava-se a eles, ento convidou o amigo, vamos voltar, o pior agora
 recolher os feixes nessa escurido toda, se ainda viesse algum
mais para uma ajuda. Fez um sinal para o ndio, iniciaram o caminho
de volta empilhando os molhos de capim nos braos. Satter paralisou
os outros dois com um grito lancinante, Philipp viu quando ele
recolhia o brao esquerdo de encontro ao peito, segurando-o com a
outra mo. Gritou desesperado:
        - Uma cobra, ali vai ela, uma cobra!
        Philipp correu, seguido por Juanito, queria ver a cobra, cascavel
no era que ningum ouvira o chocalho, mas era quase certo tratar-se
de bicho venenoso. Estava escuro demais, as macegas altas tornavam
difcil a busca. O melhor era socorrer Satter, lev-lo depressa para o
acampamento, o rapaz gemia, desta no escapo, era cobra venenosa,
estou sentindo o brao dormente, no consigo mais mexer com os
dedos. Ofegante pelo peso, Philipp tratava de acalmar o
companheiro, devia ser cobra-verde, vira muitas delas na vspera, caso
contrrio estaria ficando cego. Satter fincou um p no cho, obrigou


85


Philipp a parar, virava a cabea para todos os lados, olhos esgazeados,
o amigo sentia a respirao dele no seu rosto, ainda com o hlito
azedo de quem vomitara muito.
      -No estou enxergando bem - disse ele.
      - Ora, nenhum de ns est enxergando bem - disse Philipp.
-        Vamos andar depressa, no acampamento eles sabem o que fazer
nesses casos.
        Iam, gora, mais devagar. Satter choramingando, ele sabia muito
bem o que faziam em tais casos, queimavam a mordedura com um
tio.
      -No vou deixar que me queimem, prefiro morrer.
        Mais perto, eles viam os vultos dos homens ao redor das
fogueiras, Philipp gritou chamando Albrecht, Koeske. Foi quando Satter
disse que no podia mais andar, pararam todos, logo depois Juanito
disparou rumo ao acampamento, Satter disse que estavam voltando as
nauseas, comeou a vomitar aos arrancos, amparado firme por Philipp.
        Logo depois, deitado prximo a uma fogueira, cabea apoiada
nos pelegos de um lombilho, Satter disse para Heise que o mirava
de p, mos  cintura, calado:
      - Vou morrer, major.
        Kondrf aconselhou cauterizar a ferida, pelas dvidas. Ohlmann
concordou, afinal ningum ficara sabendo que espcie de cobra tinha
sido, o veneno de algumas delas s vezes custava a fazer efeito.
Heise agachou-se, passou a mo na testa do rapaz, pegou a mo ferida,
examinou-a bem com o auxlio de um tio que Ohlmann havia
aproximado, depois tornou a levantar-se, chamou Philipp, o melhor que
temos a fazer  dar um bom prato de comida a este rapaz.
      -No foi cobra venenosa - disse calmo. - Se fosse
estaramos agora abrindo um buraco ali no cho para enterrar o jovem
soldado.
        Ohlmann continuava com o tio fumegante, mas ento no
vamos cauterizar a ferida? No, disse Heise, mas quero aproveitar a
brasa para acender o meu cigarro.
      - Vamos, rapaz, levanta, vamos passar uma pomada nessa
ferida.
        Satter olhava para o major, no queria acreditar, depois circulou
o olhar pelos companheiros, comeou a rir num crescendo, nervoso,
histrico, corriam lgrimas pela cara, ento no vou morrer mais,
escapei de duas num mesmo dia. O comandante havia se afastado,
chamou por Philipp, ordenou: leva o ndio e mais trs companheiros,
quero que tragam a forragem para os cavalos.
      - E agora, por favor, batam com uma vara no cho antes


86


de apanhar os feixes. Se algum voltar com mordida de cobra mando
botar a mo no meio das brasas.
        A fogueira morria. Sonolento, Satter passava de vez em quando
a mo sobre a ferida para saber se no estaria inchando. Os homens
dormiam agrupados, o frio piorara. Philipp sentia no rosto a umidade
da noite, mos e ps gelados, Juanito enrodilhado no cho de terra
solta. Sentado sobre o lombilho forrado de pelegos, o Major Oto Heise
mantinha os olhos fechados, costas apoiadas num tronco de rvore,
fazia um esforo para pensar claro, tinha que estar seguro sobre o
que deveria fazer quando o dia chegasse. Todos viram quando o
grosso das tropas brasileiras se punha em marcha, Heise permaneceu
onde estava, j havia apresentado as despedidas ao comando, ficariam
apenas os alemes aguardando ordens.
        Com o dia claro, alguns soldados tratando de alimentar o fogo
em meio ao braseiro coberto de cinzas, Philipp acercou-se do major,
ento ainda no se poriam em marcha rumo a So Leopoldo? O major
disse que no, isso ia depender de ordens, tanto podia ser naquele dia
como nas prximas semanas. Heise reuniu os graduados, houve uma
conversa longa s margens do rio, os soldados cumpriam as suas
tarefas com os olhos voltados para o grupo.
        Os dias iam passando, eles no tinham nenhuma informao
sobre tropas inimigas, nenhum conhecimento sobre as manobras das
foras revolucionrias. Piquetes saam campo a fora em busca de
reses, traziam os bois xucros de arrasto, presos por laos de couro
cru. Ohlmann costumava dizer, nas longas noites ao redor da fogueira,
que a vida assim era melhor, comiam boa carne, cumpriam pequenos
horrios de sentinela, o mais era tempo para dormir, ajeitar as
roupas velhas, contar casos antigos, histrias de assombrao. Uma noite,
cu estrelado, lua cheia, os pios das corujas rasgando o silncio, Satter
disse que vira a alma de Killmeyer vagando pelos campos, estava
certo de ter visto o Quartel-Mestre, ele caminhava segurando com as
mos os intestinos que se derramavam do ventre aberto. Philipp se
limitava a ouvir as histrias, no dizia nada, aproveitava as longas
noites para pensar no pai, na me e nos irmos menores. Como
estariam eles? Um dia acercou-se de Heise, gostaria muito de saber o
que estava se passando, quando afinal se poriam em marcha, ningum
mais suportava ficar ali, exposto ao tempo, ao frio, sem uma barraca
ou abrigo qualquer. O major s ouvia. Philipp insistia, mais dia menos
dia poderiam ser apanhados ali como ratos, preferiam estar com o
grosso das tropas cercando Rio Grande ou em qualquer outro lugar
que no fosse aquele descampado, onde at os bois escasseavam,
encontravam alguns a trs e s vezes quatro quilmetros, terra adentro.
Qualquer dia um fazendeiro daquela regio ia aparecer para cobrar o


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seu gado que estava sendo abatido. Heise pediu a ele que tivesse um
pouco de pacincia, ele sabia de tudo isso, mas a ordem recebida
fora para aguardar um emissrio que apareceria a qualquer momento.
Quem sabe, uma mensagem do Major Lima e Silva, um aviso do
prprio von Salisch que, pelas informaes recebidas, no devia estar
muito longe dali. Mordiscava um fio longo de capim, Philipp sentiu-o
preocupado, depois comentou: Porto Alegre no se rendia, pelo visto
estava muito bem guardada, o porto de entrada era inexpugnvel, o
quartel fazia as vezes de um forte.
      - Incrvel  que tenham perdido Porto Alegre - disse Heise.
Numa noite de chuva, roupa colada no corpo, Philipp ouviu
algumas vozes que discutiam, a pouca distncia, com o Major Heise.
Apurou o ouvido, no conseguia distinguir uma s palavra, apenas
percebia que os nimos estavam agitados. Caminhou cauteloso,
seguido por Juanito que empunhava a sua lana, acercou-se do grupo, a
maioria dos soldados estava l, o major querendo argumentar, o dever
de cada um era obedecer sem discutir ordens, caso contrrio cairiam
todos nas mos do inimigo, seriam passados pelas armas, degolados.
Por fim, ordenou que calassem a boca, mas a sua voz no tinha mais
a firmeza de outros dias. Rompeu o silncio que se fizera de
imediato:
      - Pois a permisso, meus amigos, est dada, que cada um tome
o rumo que bem entender. Agora, uma coisa: eu seguirei o meu
destino, nada mais tenho a dizer.
        Deu as costas, caminhou devagar sob a chuva fina, foi acomodar-se
sob um pequeno toldo que improvisara com galhos de rvores, com
talos de capim-melado. Os soldados falavam entre eles, todos confusos,
finalmente Heise percebeu que eles haviam decidido marchar ao
encontro das tropas que sitiavam Rio Grande. Boa sorte, pensou.
Ohlmann comandava os soldados, corriam para todos os lados em busca
dos cavalos, gritavam alegres. Philipp aproximou-se do comandante,
no disse uma palavra.
      - E tu, no vais procurar o teu cavalo?
      - Eu podia saber para que lado vai o major?
        Heise sorriu, e isso importa alguma coisa para o menino? Pois
se quer saber vou para os lados de Porto Alegre, prefiro ajudar no
cerco da cidade. Ento o rapaz disse que poderia contar com ele e
com Juanito. Satter passava por perto, ento no vens com a gente?
Ele disse que no, acompanharia o major, iam para os lados de Porto
Alegre.
      - Pois desejo felicidades, que entrem logo na cidade, deve haver
boas camas por l. E mulheres, tambm.
      - Da minha parte espero que tome mais cuidado com as
cobras.


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        Heise ainda perguntou se estava certo na sua deciso, sobrava
tempo para preparar os cavalos e acompanhar os camaradas, Rio
Grande ficava mais perto. O rapaz notou Juanito logo atrs dele,
disse ao major que o raio da chuva aumentava, no havia nenhuma
fogueira mais acesa. Heise fez um sinal, que os dois viessem para
debaixo do toldo precrio, passava chuva mas sempre era melhor
do que debaixo do cu. Viram quando o ltimo homem partiu, ainda
passou a galope por perto deles, acenando, depois ficaram em silncio,
um sentindo o calor do corpo do outro.
      -No acha melhor tratarmos de partir, tambm? - perguntou
Heise a Philipp.
      - Pois espero que seja uma ordem - respondeu ele
levantando-se lpido, fazendo sinais para Juanito.
        Meia hora depois estavam em marcha, os cavalos a passo na
margem direita do So Gonalo, Heise disse, vamos direto para
Pedras Brancas, os amigos andam por aquelas bandas. Juanito vinha
mais atrs, a grande lana balouando, ele montado em plo. Heise
quis saber se ele havia perdido os arreios. Philipp disse que no,
emprestara a um soldado.
      - Para ele - disse Heise - o melhor  assim.



4 Hau ab sonst Knallt's!
Grndling parecia ouvir, naquele instante, a longnqua frase de
Frau Catarina. Mas atirar por que, Frau Catarina? A senhora
deve estar enganada, algum nos andou intrigando. Lembrou-se da
cara do ndio na janela e o cano ameaador de sua espingarda. Os
outros no porto, Daniel Abraho de Bblia em punho, afinal o
que se passava? Catarina levantara a arma  altura dos olhos, volte
ou eu atiro. As moedas jogadas em sua direo, as pragas do marido,
ele naquele descampado, ridculo, sem saber o que fazer. Agora
passava pelo pedao de cho onde estivera parado, calado pela mira
de Catarina. Sorriu com leve amargor, os tempos eram outros. Olhou
demoradamente para a casa, era a mesma, crescera bastante para os
fundos, o emprio estava movimentado quela hora, quase oito.
        Sentia ainda um gosto azedo na boca, toda a noite passara no
poro mofado do batelo, bebendo um rum de cachorro. Estacou -
divertia-se um pouco com a memria do passado, Hau ab sonst Knallt's,
puxa, mulherzinha decidida. Tivesse mais tempo, naquela poca, e na
ocasio um pouco mais de coragem, e teria dominado Catarina,
alisaria a leoa com suas mos de seda, ela se curvaria diante do macho.
Era uma fmea de mos calejadas, grossas, mas o rosto ainda osten-


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tava uma antiga pureza europia, os braos bem feitos, os olhos azuis
grandes e claros. Teria dito, vamos ns fazer um filho, teu marido
virou bicho, no sou culpado de nada disso. Excitava-se ao pensar na
posse de uma mulher de quem se acabara de tirar uma arma das
mos, dominando-a, se fosse o caso, batendo-lhe.
        Estacou na soleira da porta, bateu palmas, fingiu no tomar
conhecimento dos curiosos que saam do emprio e se postavam na
rua, examinando-o. Temia ser visto pelo marido doido, o homem
seria capaz de armar um escarcu e isso estragaria tudo, botaria seus
planos por gua abaixo.
        - Herr Grndling, s suas ordens.
        Catarina surgira do interior da casa como um fantasma. Ele
notou, um tanto chocado, como envelhecera aquela mulher, a barriga
enorme, de Oito meses, a pele seca de uma colona, quebrada debaixo
dos olhos, pescoo velado, expresso de cansao.
        - Vim aqui para falar com a senhora - comeou ele inseguro
-        sobre um negcio de mtuo interesse, as coisas tm se
complicado para qualquer lado que uma pessoa se vire.
        Catarina afastou-se da portalada.
        - Entre, vamos sentar nesta sala, mesmo porque  a nica que
tem bancos.
        Ele tirou o chapu de feltro, olhou em redor, notou a
simplicidade de tudo, uma saleta de gente pobre das picadas. E no entanto
eles deviam estar muito bem, Catarina sabia ganhar dinheiro, o
marido fazia as melhores carroas e carretas de toda a regio, os seus
serigotes seguiam direto para o Rio de Janeiro, muitos deles
encomendados pela prpria Corte. A casa no era mais do que um rancho,
o fogo de lenha a um canto da pea, um piso feito com tbuas
velhas, o teto de telhas  vista, picum da fumaa dos lampies e da
boca negra do fogo.
        Sentou-se, no conseguia parecer natural, achou que Catarina
estava notando, ela olhava perscrutadora, em silncio, defendendo-se.
      - A senhora no vai sentar-se?
        Catarina respondeu sem abrir a boca, ajeitando-se no banco,
mos cruzadas sobre o tampo grosseiro da mesa. Surpreendeu
Grndling:
      - Pelo que sei o senhor quer trocar mercadoria importada pelos
nossos produtos das picadas.
      - A senhora est bem informada.
      - Quero dizer ao senhor que sei que Porto Alegre est com a
comida racionada e aqui, para falar a verdade, precisamos muito
pouco do que o senhor tem para vender.
      - Um momento - disse Grndling com leve irritao na voz -


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s venho aqui propor um negcio como qualquer outro, a guerra e a
poltica dessa gente no me interessa.
        Lembrou-se que Catarina tinha um filho na guerra, tentou
corrigir:
      - Ou melhor, sobre a guerra s tenho a lamentar, com tantos
rapazes por a, enfrentando perigos e sofrimentos. Mas quem sou eu
para mudar o curso da Histria! Se a senhora entender que no deve
fazer negcio, ento vou procurar outras pessoas, a senhora est no
seu direito.
        Ficaram os dois calados, Catarina alisando as mos, ouvia-se dali
o rudo forte de serrote, martelos batendo, homens falando.
      - Se vim aqui foi porque a senhora dispoe de um bom
estoque, e essas coisas se estragam, e alm do mais  uma pessoa em
quem se pode confiar.
        Ela como se nada ouvisse, limpando as mos de pequenos
pedaos de pele escamada, pensativa. Grndling mudou de tom, sua VOZ
ficou suave.
      - Veja, Frau Catarina, quando eu fiquei sabendo que o seu
emprio do Caminho Novo havia sido fechado e seus empregados
presos, achei que era uma vergonha e uma burrice fazer tal coisa,
falei com meus amigos chegados ao governo, mostrei claramente a eles
que aquilo no interessava a ningum, consegui soltar os homens, eles
l esto de casa vazia.
      - Como esto eles? disse Catarina, sem agradecer e sem
levantar os olhos.
      - Agora, bem. Tenho fornecido comida, algum dinheiro, a
senhora sabe, o emprio ficou s com as quatro paredes, levaram tudo,
at os balces.
      - Quanto lhe devo?
      - Que  isso, pelo amor de Deus - disse Grndling mais
esperanoso - eu no viria aqui para cobrar da senhora aquilo que
estou fazendo para ajudar os rapazes.
        Notou um sorriso triste em Catarina, prosseguiu falando em tom
baixo, amigo, eles precisam agora de mercadoria,  por isso tambm
que estou aqui, sei que a senhora ter muitas vantagens numa aliana
comigo, os rebeldes deixam passar os meus lanches porque precisam
das mercadorias, os imperiais porque a cidade est comeando a
sentir fome. Eu tenho a faca e a senhora est com o queijo nas mos.
        Ele agora sentia-se mais  vontade, notava em Catarina uma
Ponta de simpatia.
        - Trouxe comigo muita coisa, farinha branca como neve,
cassinetas, agulhas, musselinas, lampies, novelos de linha, pratos, panelas,


91


a senhora sabe, essas coisas sem as quais a gente no sabe e nem
pode mais viver.
        Catarina fez um gesto com a mo:
      - Um momento, sei bem dessas coisas, mas acontece que eu
tenho outras sem as quais no seria possvel a vida, morreriam todos
de fome: carne de porco, milho, batata, toucinho, ovos, O senhor,
como  natural, est pensando em fazer trocas.
      - Bem, so detalhes que a gente pode muito bem acertar depois.
O principal  fechar o negcio.
      - Est fechado - disse Catarina resoluta, levantando-se.
        Ela preferia abreviar o encontro, era melhor, Daniel Abraho
poderia surgir na porta de um momento para outro e talvez ficasse sem
entender nada. Grndling pensava na mesma coisa, notava Catarina
preocupada com a porta, levantou-se rodopiando o chapu entre os
dedos, encaminhou-se para a sada.
      - Um momento - disse Catarina - o senhor, por acaso,
teve alguma notcia do meu filho Philipp?
        No mesmo instante sentiu-se arrependida da pergunta, mas
afinal ele devia compreender que se tratava de seu filho, era quase um
menino, andava metido na guerra dos homens, de soldados e de
bandidos. Ele tambm sabia das histrias de degolas e fuzilamentos,
soldados dependurados em galhos de rvores, sangrados como ovelhas.
Grndling ficou embaraado, estava ali para tratar de negcios, nem
sabia do rapaz, mas notou que Catarina tremia levemente, ela disse,
desculpe, no importa, o senhor no deve saber dessas coisas.
      - Pelo contrrio, tenho falado com os rapazes do emprio e
nenhuma notcia ruim chegou. Sabe como , notcia ruim chega logo.
        Catarina agradeceu, foi com ele at a porta.
      - A senhora pode mandar buscar hoje mesmo a mercadoria
que est no Dresden. Na volta do barco mande o que tiver e no caso
de qualquer dvida depois a gente acerta, falamos a mesma lngua,
viemos da mesma terra. E por favor, seja compreensiva nas trocas,
o negcio  bom para os dois lados. Portanto, um bom negcio.
        Ficou um momento indeciso, deu alguns passos, parou:
      - Recomendaes minhas para seu marido, qualquer coisa que
precisar estou s ordens. E quanto ao rapaz, tranqilize-se, vou mandar
saber tudo sobre ele. Deixe comigo.
        Afastou-se, ela permaneceu onde estava, quieta e confusa.
Grndling, Herr Grndling acabava de sair de sua casa, estivera debaixo
do seu teto. Lembrou-se da ordem desesperada que dera num dia
distante, Hau ab sonst Knallt's, naquele pedao mesmo de cho. Se
ele houvesse avanado, pensou, na certa teria arrancado a espingarda
das suas mos trmulas.


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5 Frau Masson pediu calma, enxugava a testa de Catarina que se
contorcia sem soltar um gemido. Juliana corria de um lado para
outro, nervosa, mantinha a boca do fogo entupida de lenha seca,
os grandes paneles e tachos esquentando gua, corao disparando no
peito, era quase a sua tragdia rediviva. Desviava os olhos da cama,
meu Deus, tudo vai dar certo, teve vontade de dizer alguma coisa
para Daniel Abraho que se mantinha do lado de fora da porta, mas
ele tinha uma aparncia de tanta calma, parecia to seguro, imvel,
os lbios em orao muda, que a moa preferiu deix-lo em paz. Ouviu
a voz rouca de Catarina: minha filha, faz um ch para ns, tudo vai
dar certo. A parteira no alto, trata de fazer um balde de ch, muita
gente aqui est precisando disso. Virou-se para o marido que
permanecia junto  porta, como uma sombra:
      - Por que o senhor no volta para o trabalho? nestas horas os
homens no prestam para nada, s atrapalham.
        Juliana chegou-se para junto dele, o senhor no deve ficar
preocupado, Frau Catarina  mulher para ter vinte filhos. Fez uma
ligeira pausa, "muito diferente de mim". Emanuel apareceu, vindo dos
fundos, plaina na mo, cabelos cobertos de aparas de madeira, olhava
firme para a mulher. Juliana sorriu, num esforo, vai tudo bem, as
crianas esperam a noite para nascer.
        Daniel Abraho acercou-se do rapaz, vamos trabalhar, Deus Nosso
Senhor ilumina o parto, ele est junto de ns, eu sei disso. Fez um
gesto em crculo, com as mos, ele sempre est junto dos seus filhos
nas horas de perigo. Foram para a oficina, naquele momento
chegavam dois cavaleiros que apearam e se dirigiram a eles, cumprimentos
de mos sacudidas e tapas nas costas. E como estava a carroa
encomendada? Emanuel mostrou as rodas, as laterais armadas, o varal
quase todo falquejado, mais dois dias de trabalho, trs no mximo.
Os homens comearam a examinar atentamente as rodas, passavam as
mos nos raios de madeira escura, puxa, vai ser uma linda carroa.
Ento notaram que Emanuel olhava preocupado para dentro, Juliana
caminhava de um lado, sumia, depois aparecia no outro, levando
um bule nas mos, agitada. Ficaram intrigados. Estava se passando
alguma coisa? O rapaz sorriu, disse nada, so coisas da vida. Frau
Catarina est esperando filho de uma hora para outra.
      - Para hoje? - um deles quis saber.
      - Pode ser que sim, pode ser que no. S quem pode saber
mesmo  Frau Masson.
-        Ah, Frau Masson, ela est em boas mos.
        Daniel Abraho j estava empunhando o martelo, uma espcie
de malho, bateu forte num prancho de cedro, fazendo saltar recortes
de tbuas. Disse para eles:


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        - Sim, ela est em boas mos, nas mos de Nosso Senhor Jesus
Cristo.



        Philipp perguntou ao Major Heise se ele no estava sentindo frio,
o vento minuano subia pela sua manga e gelava o peito. O major riu,
sorte tinham os cavalos que caminhavam e na marcha esquentavam o
corpo. Cavalo sente pouco frio.
        Juanito vinha mais atrs, encolhido no lombo do animal, um
pala velho protegendo o pescoo, dependurada no cinto uma espada
que encontrara nas barrancas do So Gonalo. Heise disse, esses
rapazes vo terminar morrendo todos, o que eles deviam ter feito no
fizeram, agora que tenham sorte. Que tinham eles de sair da colnia,
de largar a terra da famlia? Philipp disse, mas l tambm h guerra,
major, o Dr. Hillebrand nas picadas, dizem que com milhares de
homens, ele continua fiel ao governo central.
        - Pois vamos desentocar o doutor - disse Heise.
        Escurecia rapidamente, os cavalos comeavam a passarinhar com
os vos rasantes dos morcegos e o pio cavernoso das corujas
encarapitadas nos moires. O major apontou para um taquaral, vamos
pernoitar ali, uma lstima que a gente no tenha trazido um pedao de
po, estou morrendo de fome. Philipp seguiu atrs dele, concordou
batendo com a mo espalmada no estmago, o coitado aqui h muito
tempo que vai vivendo de sobras. Havia uma pequena elevao, o
taquaral caa para aquele lado, formando uma espcie de telheiro que
bem podia proteger os homens do vento sul. O major disse:
        - Com um pouco de comida a gente podia passar uma excelente
noite.
        Virou-se para o ndio que recolhia as rdeas soltas, bateu forte
na barriga, e ento? muita fome? Abriu bem a boca e fez com a mo
como se jogasse comida para dentro dela. Juanito tirou da cintura
um pequeno saco, meteu a mo com cuidado, tateando, trouxe de l
uma manta escura de charque.
        - Deus sabe o que faz - exclamou alegre o major diante do
achado.



        Emanuel no pde evitar um calafrio que lhe subia espinha acima
quando ouviu, vindo do quarto, os primeiros vagidos de uma criana.
Catarina cessara de gemer. Juliana ajudava Frau Masson sem entrar
no quarto, s de passagem, espichando os olhos na direo do marido
que torcia as mos, enquanto Daniel Abraho abria a Bblia
encardida,  procura de trechos esparsos que ia lendo apressado. Sua voz
rouca se fez ouvir no silncio da casa:
        - Homem ou mulher?
        Frau Masson custou a responder, depois disse esganiada:
tomara que no tenha a barba igual ao pai. Ele disse, um menino, Santo


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Deus, que as suas bnos caiam sobre ele. Catarina abriu a boca,
faltava-lhe flego, a voz no vinha. S Frau Masson conseguiu ouvir,
"que o Senhor tambm abenoe o nosso filho que est na guerra".



        Philipp levantou a cabea que repousava nos pelegos encardidos,
tivera a ntida impresso de ouvir uma voz, alguma pessoa falando
muito prximo dali, era capaz de jurar que no estavam ss. Bateu
de leve no brao do major que dormia quase junto de seu corpo.
Puxou a sua manga com mais fora. Major, sussurrou, tenho a
certeza de que ouvi gente falando aqui muito perto, sou capaz de jurar
que ouvi, cuidado, no fale alto. Virou-se e no encontrou o corpo de
Juanito que devia estar ali. Major, o ndio no est mais aqui, onde
teria ido? Heise tirou a garrucha que guardara sob os pelegos,
engatilhou os dois ces, de que lado ouviu as vozes? Philipp pensou um
pouco, para falar a verdade no sei dizer bem que ouvi e nem de que
lado teria ouvido, acordei com essa sensao, era algum que falava.
Nisso sentiu a presena do ndio, a sua mo, no enxergava nada na
escurido total que os isolava, Juanito ciciou ao major, havia quatro
ou cinco cavaleiros ali perto, Heise pediu a Philipp que pegasse a
espada que o ndio havia trazido, era melhor que fizessem a volta pelo
taquaral, deixar os cavalos, se necessrio reiniciar a marcha a p,
era bem possvel que os homens fossem a vanguarda de alguma tropa
inimiga. Com Juanito  frente - ele rastejava como cobra - eles
comearam a rastejar tambm, deslizando pela relva molhada.



        Frau Masson apareceu na porta: ento o pai no entrava para
ver a cara do filho? um belo menino, deve pesar mais de quatro
quilos. J escolheram o nome? Daniel Abraho entrou tmido,
primeiro observando o rosto lvido da mulher, depois o embrulho de panos
brancos e, no fundo dele, a carinha enrugada da criana. Perguntou:
Jacob? Catarina disse, por mim seria Daniel Abraho, mas tu podes
decidir. Ele ficou ainda algum tempo a olhar o menino, meneou a
cabea, no, no quero que seja Daniel Abraho, eu quero que ele
se chame Jacob. Catarina ajeitou o beb, pediu ao marido que fosse
buscar os outros filhos, queria que conhecessem o irmo Jacob.
Minutos depois ele voltava com Carlota, de roupa domingueira, Mateus
carregando uma arapuca vazia e, no colo, Joo Jorge a choramingar,
Juliana afagando o menino que chamava pela me. Catarina recebeu o
beijo dos filhos, mostrou o irmozinho, fechou os olhos, sentia-se
tonta, esgotada, precisava dormir um pouco. Frau Masson mandou que
todos sassem, a me precisava repousar e ela queria comer alguma
coisa, estava em jejum, nem que fosse um pedao de po com
manteiga.
        S, Catarina puxou os panos finos, queria olhar o filho, era muito
parecido com Philipp, o nariz, a boca, o formato da cabea, s os


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cabelos mais escuros, lisos. Sentiu necessidade de chorar um pouco,
mas no conseguiu. Seus olhos permaneciam secos, doloridos,
aconchegou-se  criana, roou de leve com a ponta dos dedos na
cabecinha nua, era preciso cuidar bem dele, arma em punho, o inimigo
andava sempre por perto, invisvel, ameaador.



-        No acredito que essa gente seja caramuru - disse Heise.
        Philipp retrucou que seria muito difcil reconhecer algum
naquela escurido. Mesmo amigos, se matariam. Juanito parecia
enxergar apesar da noite espessa, rastejou sorrateiro at os cavalos, voltou
s pressas, os homens j haviam encontrado os animais. No
precisou dizer mais nada, os cavalos relincharam, algum gritou nervoso:
cuidado, h soldado aqui por perto. Houve uma pequena correria,
esporas tilintaram, ruido de espadas e de passos no terreno molhado,
em seguida o silncio.
-        Entreguem-se, esto cercados!
        Heise cochichou ao ouvido de Philipp, que ficasse quieto, eles eram
poucos, no sabiam de nada, gritavam por gritar, os cavalos bem
que podiam andar soltos por ali, sem ningum. Philipp bateu no
brao do major, ele que prestasse ateno no ndio, ele estava
realmente inquieto e essa gente tem um faro muito apurado. Foi quando
tiveram um sobressalto, uma voz forte, quase em cima deles,
comandou: larguem as armas e caminhem nesta direo. Heise cutucou o
rapaz, segurou Juanito, aos poucos descolou-se do cho, ficou de
p: no atirem, sou o Major Oto Heise, somos apenas trs. Sentiu
a ponta de uma espada na barriga, Philipp viu-se agarrado pelos
braos, logo a seguir tocava a vez de Juanito ser subjugado por outras
sombras que se moviam com rapidez.
-        Alemes - gritou algum.
        Um pequeno fogo comeou a ser feito perto de onde estavam,
Heise percebeu que seria um grupo de pelo menos dez soldados,
talvez batedores de um batalho ou de uma companhia. Foram
levados aos trancos, um soldado riu, ento pegamos trs coelhos sem
dar um tiro. Trouxeram laos de couro cru e com eles comearam a
amarrar os prisioneiros. Estavam agora mais perto do fogo, todos os
examinavam como animais raros. Um ndio, vejam l! Outro gritou:
vamos passar o filho das ervas pelas armas. Juanito foi empurrado.
caiu, foi chutado nas pernas e braos. Heise protestou, exigia que
esperassem um oficial superior. Um deles avanou, perfilou-se, fez
continncia: pronto, meu general, eu sou aqui a maior autoridade, posso
passar pelas armas todos os trs. E nem mais uma palavra. Primeiro
esse indiozinho torto, nada de espera. Ficaram por um momento na
escuta, ouvia-se distintamente o tropel de cavalos que se aproximavam,


96


um dos soldados montou de um salto e partiu a galope ao encontro
dos que chegavam e momentos depois voltou entre meia dzia de
cavaleiros, um oficial se dirigiu a Heise, quem era ele, de onde
vinha, de que lado estava.



Catarina dormiu, as crianas j estavam na cama, Frau Masson
havia ido embora. Juliana procurava ajeitar a cabea entre os
braos cruzados sobre a mesa. Ouvia-se na casa a ladainha de Daniel
AbrahO que se trancara na sua toca. Emanuel fechava um palheiro,
olhos vermelhos de sono. Imaginava que ali ao lado, entre aqueles
paninhos brancos, podia estar Maria Luza, notou Juliana apoiada na
mesa, teve vontade de tocar em seu brao, dizer a ela que prestasse
bem ateno, afinal nascera a filha deles, deviam sentir-se felizes.
Deixou escorregar-se de encontro  parede, sentou-se no cho,
largou o cigarro apagado, o pensamento adejava sem rumo, dormiu.
Daniel Abraho silenciou, no se via mais as luzes que filtravam do
alapo, s os cachorros,  distncia, uivavam penosamente.



      - Sou o Major Oto Heise, dos Lanceiros Imperiais, este  o
soldado Philipp e o ndio  um ordenana.
      - De que lado esto?
      - Estamos com os republicanos, acabamos de nos separar das
tropas de Lima e Silva que seguiu para Rio Grande, para ajudar o
cerco.
        O        outro no disse nada, parecia um fantasma, iluminado
fracamente pela pequena fogueira que custava a pegar, a lenha mida
soltando fumaa. Apeou, acercou-se do major, pegou de seu queixo,
movimentando a cabea de um lado para o outro.
      -Major Oto Heise, sei quem , mas acho que no  ele, deve
ser algum homem do Dr. Hillebrand.
        Virou-se rpido, e este ndio? Nunca vi alemo misturado com
ndio. Com a ponta da bota fez com que Juanito rolasse na grama
molhada. Philipp quis saber de Heise o que haviam falado. O oficial
deu um pulo, gritou, no quero uma palavra dita nesta lngua
miservel, nada de tramias.
      - Este rapaz queria apenas saber o que se passa.
      - Pois ele que espere calado.
        Heise e Philipp permaneceram de p, juntos, os demais soldados
sentaram-se na grama, ao redor do fogo que agora aumentava as
suas chamas. o tempo parecia no andar, os presos sentiam as
pernas dormentes, olhavam penalizados para Juanito que permanecia
deitado, rosto voltado para o cho. O dia se anunciava por uma


97


luz muito tnue no horizonte quando o resto da tropa apareceu numa
colina. Todos se puseram de p, alguns foram ao encontro dos que
chegavam. Heise notou que vinham alemes, um deles esporeou o
cavalo, avanou a galope, boleou a perna e correu clere para os
dois que se apoiavam mutuamente.
      -Major Heise, o que se passa?
      - Stepanousky, pensei que Deus no estivesse olhando por ns.
        O        recm-chegado gritou para o mais graduado da tropa: coronel,
este  o Major Oto Heise, nosso companheiro. O comandante chegou
mais perto, mandou que desamarrassem os homens. O oficial
perguntou: o ndio tambm? Todos, berrou o coronel. Outros alemes se
acercaram de Heise e de Philipp. Sou Fried Reidorff. Sou Valentim
Oestereich. Heise espremeu os olhos, incrdulo: Oestereich de
Jerebatuba? Ele mesmo. Pois este rapaz aqui  filho de Daniel Abraho.
Valentim pegou o rapaz pelos ombros, meu Deus do cu, mas ento
aqui temos o menino Philipp? Abraou o rapaz, mas que diabo faz
nesta guerra, meu filho? Depois caminhou at o ndio, vejam s,
Juanito,  de no se acreditar nos prprios olhos.
        Mos livres, pulsos ainda doloridos, Heise perguntou se no
haviam trazido alguma coisa de comer, estavam quase desmaiando de
tanta fome. Claro que havia comida, iriam fazer alto, ficassem
descansados que havia comida para dois batalhes mais.
        Manh alta, Stepanousky passou a informao para os novos
companheiros:
      - Estamos seguindo na direo de Porto Alegre, vamos fazer
juno com as foras de Bento Gonalves para retomar a cidade.



        Daniel Abraho acabara de fazer o seu melhor e mais bonito
serigote. Nele inscrevia, a fogo, em letras gticas, o nome de Jacob.
      - Peo a Deus que faa deste menino um verdadeiro homem -
disse levantando os olhos para o alto.



98



VI


1 Ominuano penetrava pelas frestas, sibilando, a salinha iluminada
pelas chamas fortes do fogo, Catarina a embalar o pequeno
Jacob, empurrando o bero de madeira crua, lavrado por
Emanuel. Os outros filhos dormiam, ela no escutava a voz do marido sob
o alapo de onde saa, ainda, um pouco de luz. Seu pensamento
errava por paisagens desconhecidas, a sombra errante e fugidia de
Philipp, ora a dormir sobre a terra molhada, imensos charcos, a cama
era o limo das guas podres onde boiavam pelegos mofados e murchos,
o frio atravessando os ossos; ora Philipp a cavalo, um vulto debaixo
da grande capa tocada pelo vento, um ponto perdido numa estranha
plancie deserta, grandes e serenos pssaros boiando em nuvens de
chuva. Afagava, agora, os seus cabelos, ele estava ali, encolhido a
medo em seu colo, a pele macia e o doce calor que de seu corpo
emanava. Fugia das suas mos, Philipp com cinco anos, seis, no alto
daquela imensa figueira cheia de grandes braos, o menino a balouar
nos galhos mais finos, as feras sem rosto e sem forma na busca de
Daniel Abraho, o bicho acuado no fundo do poo, soldados
apontando as suas armas, rondando raivosos, ela derrubada, costas
sangrando de encontro  terra spera, o bafio do monstro, o grande cu
girando sem parar, por que os negros no terminavam de assar os
pedaos de charque? ento que apagassem o braseiro que enchia de
fumaa o galpo que escondia as armas.
        Saiu da modorra, levantou a pelcia que protegia o rosto de
Philipp, tateou de leve, era a seda enrugadinha da pele de Jacob, as
narinas arfando, Jacob que poderia ser Philipp, vontade doda de
aconchegar o outro que estava na guerra. de t-lo nos braos, de chorar
sobre seus cabelos, de abrig-lo bem contra os ventos impiedosos e
finos, e quedar-se ali por perto, arma engatilhada, vigilante, nervos
retesados ao sinal do primeiro inimigo.


99


        Colocou o filho no bero, novamente, deitou-se, puxou as
cobertas, mos e ps gelados, sentinela desvalida, naquele momento, a
lembrana confusa dos lanches subindo e descendo o Rio dos
Sinos, as mercadorias chegando, as trocas, as remessas regulares, o
mensageiro a bater na porta, Frau Catarina, apreenderam um dos
lanches, levaram tudo, mataram um homem, corra a avisar Herr
Grndling, ele sabe como resolver esses problemas. Catarina, no breu da
noite, estava de olhos bem abertos. Quem diria, Grndling um scio
cuidadoso, manobrando com os homens do governo sitiado, o
corredor das guas garantindo o livre caminho das suas mercadorias at
Porto Alegre, a chegada das musselinas, das agulhas, do sal e da
farinha, de tudo aquilo que vinha pelas escunas do porto de Rio Grande.
        Foi chamada  realidade do dia-a-dia, em meio de um leve susto,
pela sombra inesperada de Juliana no umbral da porta da cozinha, ps
descalos, um cobertor grosseiro sobre os ombros, como um poncho.
Catarina levantou a luz fraca do lampio.
        - Algum bicho te mordeu?
        Juliana passou a mo magra pelo rosto, no conseguia dormir,
sentia ainda dores nos olhos. A senhora acha que pode ser alguma
coisa ruim?
        - Tens lavado os olhos com a erva-de-santa-luzia?
        - Acabou. Emanuel me disse que hoje consegue mais por aqui
mesmo enquanto no chega a encomenda do Porto. Mas estou
passando infuso de cip-suma. A senhora acha que pode adiantar?
        - No sei, minha filha, mas para muita gente adiantou. Uma
pena o Dr. Hillebrand andar metido pelas picadas, logo ele que no
entende nada de guerra. Podia estar aqui tratando dos seus doentes.
era a sua obrigao.
        Pediu que ela tivesse pacincia, aquilo passaria. Juliana agitou as
mos na frente do rosto, vejo tudo como se houvesse uma cortina
de fumaa, veja a senhora, mexo com os dedos assim, mas  s a
sombra que percebo, nem parece que os meus dedos tm unhas, isso
 horrvel, Frau Catarina, tenho medo de no enxergar mais, de ficar
cega como a filha de Herr Trem. A moa comeou a chorar em
silncio, Catarina levantou-se, calou os chinelos, botou sobre os
ombros
um xale de algodo, abraou Juliana, vamos, o que  isso, vou fazer
algumas compressas de cip-suma, um pouco de calor  bom. Levou o
lampio para junto do fogo, fez com que Juliana sentasse na
banqueta ao lado, avivou as brasas, colocou gua numa panela. Imagina,
levantar-se assim numa noite destas, passar pela rua, queira Deus
que no pegue uma doena de pulmo, um espasmo, podia ter
chamado.
        Juliana permaneceu de mos cruzadas sobre as pernas, cabea


100


imvel, depois obedeceu Catarina apoiando a cabea na parede, rosto
voltado para cima, o calor bom das compressas, a mo quente de
Catarina segurando seu rosto, suas palavras que pareciam vir de longe,
"se no melhorar nesses dias vamos at Porto Alegre, l um mdico
nos vai dizer qual o melhor remdio, quem sabe alguma pomada vinda
da Europa, e se volta quando j estiver boa".
        Catarina acompanhou a moa at a porta de seu quartinho, voltou
sentindo o frio que lhe fustigava as pernas nuas, puxou o bero de
Jacob para junto de sua cama e deitou-se, puxando as cobertas at
o queixo. Precisava dormir, mais algumas horas e o dia estaria
chegando.
        Quando servia o caf fumegante para o marido e para Emanuel,
a noite ainda no desaparecera de todo. Daniel Abraho comia
calado, tinha os olhos inchados da noite, o cabelo desfeito. Emanuel
disse a Catarina que ele mesmo levaria o caf para Juliana, ela
amanhecera muito cansada, na certa dormira pouco, devia ser aquela
doena dos olhos, ele no sabia mais o que fazer.
      - Ela anda assustada, eu sei, e o pior  que o nosso caro Dr.
Hillebrand anda pelas picadas, em guerra.
      - E o que se pode fazer, Frau Catarina?
      - Eu disse a ela, se for preciso vamos a Porto Alegre, l h
bons mdicos e bons remdios. E os lanches andam a mesmo,
subindo e descendo rio, no custa nada dar uma chegada at l.
      - A senhora acha que pode ser alguma coisa grave?
      -No acredito, ela  moa, forte e doena dos olhos no d
assim sem mais nem menos. Mas isso s os mdicos  que podero
dizer.
        Acabou de falar e saiu da sala, foi preparar as crianas para a
escola, no fundo preferia evitar de falar sobre aquelas coisas com
Emanuel, o rapaz andava nervoso, Juliana piorava, ele a insistir que
a mulher nunca mais lhe poderia dar filhos. E que tinha uma coisa
a ver com a outra? lhe dissera um dia Catarina ante a insistncia
dele.
        Ficava muito tempo ao lado de Juliana. trocando as compressas,
os olhos vermelhos, inflamados, perguntava se tinha dores, "se no
fosse essa nuvem branca que fica sempre diante de mim at que a
doena no seria das piores, as dores no andam fortes, s nos
ltimos dias sinto umas ferroadas l no fundo, quase dentro da
cabea". Um dia, olhos cobertos, recostada na cama, Juliana perguntara
por Philipp, ele no havia mandado dizer nada, ningum viera trazer
notcias suas e nem dos outros rapazes que haviam sumido, muitos
deles perto dali, ao p da serra, nem o Dr. Hillebrand aparecia.
Catarina Custou a responder, mudava as compressas, o papel das mu-


101


lheres  esperar os homens que vo para a guerra, isso todos sabem,
Philipp andava para os lados de Rio Grande, fora a ltima notcia
que haviam trazido, o Major Oto Heise estava preso, no se tinha
notcias dele e nem de outros oficiais, ela perguntava sempre aos
homens que vinham daqueles lados, por acaso no sabiam do soldado
Philipp Klumpp Schneider e do seu amigo Juanito, um ndio de ombro
torto? quem ia saber de um soldado entre tantos mil, tanta me
perguntando pelos filhos, tanta mulher a chorar pelos maridos que no
voltavam, sabe,  a guerra, sempre foi assim, minha filha.
        Foi buscar gua mais esperta, uns pedaos mais de cip-suma,
Emanuel ficou de receber esta semana um pouco mais de erva-de-santa-
luzia,  mais indicado para esses casos em que h pus, a infuso seca
a inflamao, depois de poucos dias sarava, voltava-se a enxergar
como antes da doena, no ficavam marcas, era como tirar com a
mo.
        Catarina passou pela oficina, Daniel Abraho suspendeu por um
momento o que estava fazendo, perguntou por Juliana, se ela estava
melhor, havia feito muitas oraes, naquela noite, pela sade dos
olhos dela. Catarina disse que recm acabara de aplicar as
compressas de cip-suma, mas pelo que havia observado, a coisa piorava,
continuava a supurar, o jeito seria levar a menina at Porto Alegre.
        Quando voltava, Catarina estranhou: h muito que Daniel
Abraho no perguntava por Philipp.



2 Isaas Noll se perguntava, s vezes, se Herr Grndling no estaria
mandando demasiado no emprio. Frau Catarina em So
Leopoldo, o outro a fazer preos, a despachar mercadorias, a dar
ordens e a punir empregados. Aoitara com as prprias mos um
negro, bebia um pouco mais e ameaava qualquer um com os punhos
fechados, chegara um dia a dar de mo numa espingarda para correr
dali um pobre-diabo que voltava para dizer que o pedao de charque
que levara tinha bicho, Grndling examinou a carne, bicho aonde ?
quer desmoralizar o meu negcio? quer me botar na rua da
amargura, seu cachorro? Pois vai levar um tiro nas pernas para nunca mais
pensar em voltar nesta casa! O homem sumira em disparada, o pedao
de charque ficara cado no cho, Isaas esperou que Grndling se
fosse, examinou o charque, os bichos pululavam.
        Ao cair da noite, reunia no escritrio dos fundos os seus amigos,
s os do seu grupo, bebiam em meio da maior algazarra, caam de
bbados, arrastavam mulheres que perambulavam pelas redondezas


102


e com elas dormiam em cima dos fardos de musselina. Mas o
dinheiro na caixa subia, a coisa ia bem demais para tempo de guerra.
        Ele, Cristiano Richter, Engele e Gebert pulavam dos seus duros
colches de palha, noite escura ainda, atrelavam os cavalos nos
carroeS, descarregavam OS que haviam chegado na vspera, traziam
sacos, abriam caixas, embalavam mercadorias - Grndling cobrando os
despachos, quantos sacos de batata? quantos de milho, quantas
arrobas de manteiga, de linguia, de toucinho?
         luz de um grande candeeiro, ao cair da noite, ele sempre
chegava com o dinheiro, esparramava-O sobre a mesa de largas tbuas,
fazia uma diviso rpida, embolsava o que dizia ser dele, mandava
guardar as papeletas de requisies e l se ia, estrada a fora, seguido
pela matalotagem que no o largava nem para dormir. Isaas confidenciava
aos outros: abriram uma casa de mulheres s para eles,
Grndling quase nem v os filhos, deixou l as crianas entregues a uma
pobre mulher velha e uma negra que se arrasta, nem sempre dorme
em casa, isso l  vida que algum leve? Engele passava um pano
na cara, disse para os outros:
      - A vida que eu queria levar, dinheiro no bolso, mulheres e
boa bebida.
        Richter ouviu surpreso, pois muito me admira, acho que  uma
vida boa demais para quem est envolvido numa guerra que no
acaba mais, numa cidade cercada, a gente comendo o po que o diabo
amassou e Grndling sempre a dizer que est prestando um grande
servio ao Imprio.
      -No fim - disse Gebert - ele vai exigir uma bela esttua
em qualquer praa central.
      - A cavalo e de espada na mo - completou Engele.
        Ficaram um pouco sem saber o que dizer, Isaas fabricando
com vagar um palito, sua grande e afiada faca lascando um graveto,
vez que outra espreitando curioso os amigos, no sei no, esta coisa
de entrar mercadoria e sair mercadoria, Grndling chegando e saindo
com dinheiro no bolso, bebendo como uma esponja, mulheres todo o
santo dia, no sei, para mim tudo isso est bom demais para durar.
Calou por algum tempo, os outros intrigados, continuava a falquejar
o graveto sem pressa, depois prosseguiu arrastado: esses barcos
subindo e descendo o rio como no melhor dos mundos, enquanto os
soldados se matam, fuzilam gente, enforcam, degolam, s ns fazendo
negcio, eu pergunto, at quando?
      - A que vem essa conversa? - disse Gebert.
      - Ontem vi soldados e um sargento espreitando a gente de
longe, andaram depois mais perto, sorrateiros, espiam, sei l, podem
muito bem estar tramando algo.


103


      - E acha que soldado pode assaltar?
        Isaas parou um pouco com o trabalho de faca, limpou o nariz,
olhou para os companheiros:
      - Soldado, ? Qualquer dia desses os bandidos botam as
portas abaixo saqueiam, matam e ns aqui dentro feito ratos.
        Engele disse,  melhor dizer logo o que sabe, pelo menos a
gente no arrisca a pele por esse safado do Grndling ou se manda
pedir mais gente para Frau Catarina. Isaas pediu a ele que calasse
a boca, que ouvisse, se  que estava interessado em saber de alguma
coisa. Fez uma pausa breve, prosseguiu, para mim esses bandidos
esto por atacar a qualquer momento, quem sabe esta noite ou na
noite de amanh, Grndling vai estar longe, como sempre, na casa
das raparigas, ele sabe que a gente dorme aqui, que cada um tem
uma espingarda debaixo dos pelegos da cama.
        Terminou o palito, guardou a faca na bainha, levantou-se lpido:
      - Pois meus amigos, quem vai dormir fora hoje sou eu, no
vejo mulher h mais de duas semanas.
        Os outros se movimentaram, Richter disse logo que ele teria
um companheiro, Engele levantou a mo, pois contem comigo, Gebert
sugeriu, vamos passar as trancas nas portas, a ultima mulher que me
caiu nas mos deve estar esperando o primeiro neto. Todos riram,
Isaas bateu palmas, pois minha gente vamos tratar de arrumar as
coisas, a noite est chegando, devemos sair daqui pelos fundos, um a
um. que ningum desconfie que o emprio vai ficar sem ningum.
        Houve um rebulio, Gebert e Richter correram para os fundos,
Engele pediu a eles que trouxessem as armas. Virou-se para Noll
que agora limpava os dentes, afinal bem que poderiam dormir na
espelunca da negra Maria, havia pouca mulher, mas se chegassem cedo
dava para todos. Isaas concordou, aprovava a idia, eles que fossem
dormir l.
      - E tu?
      - Vo vocs. Eu durmo na Rua da Margem, tenho l a minha
patrcia, odeio essas mestias fedorentas.
        O        outro deu de ombros, tanto fazia. Gebert e Richter voltavam,
deram a Engele a sua espingarda, depois ajudaram a passar as
trancas nas portas e janelas, encheram um pequeno saco com
mantimentos, pelo menos hoje essas mulheres no passam fome, d para fazer
um bom cozido  castelhana. Engele ento disse aos outros dois que
Isaas no os acompanhava, ia dormir com aquela menina da cidade
baixa.
        Foram todos para os fundos, Jsaas disse que cada um devia
sair escondido pelas rvores combinando um lugar certo de
encontro, enquanto isso ele ia determinar aos escravos que ficassem
atentos,


104


que abrissem os olhos e depois trataria de sair tambm  socapa,
os negros iam ficar pensando que todos eles estavam l dentro.
        Dia clareando, meio bbados, eles tornaram a encontrar-se nas
imediaeS do emprio, caminhavam juntos, corao acelerado a cada
passo, estaria tudo como haviam deixado? E que diria Grndling se
soubesse que eles haviam abandonado a casa durante a noite? Por
fim avistaram o emprio, tudo como aparentemente haviam deixado,
nenhum sinal de violncia, a no ser que houvessem arrombado pelos
fundos. Mais perto, notaram a presena de um homem sentado junto
a um palanque de amarrar cavalos, reconheceram Pedro Heit, o
relojoeiro. O homem, ao v-los, caminhou ao encontro do grupo, Engele
disse, que diabo quer o Heit por aqui a essas horas? Encontraram-se,
Isaas perguntou o que havia, Heit disse, bati at doer a mo, no
havia ningum l dentro, pensei que diabo pode ter acontecido, a
gente nunca sabe, acontece que o menino filho de Frau Schneider fora
visto preso num dos pores do Arsenal da praia.
      - Philipp?
        Quase todos haviam feito a pergunta ao mesmo tempo,
entreolharam-se, preocupados.
      - Esta noite?
        Heit confirmou com a cabea, disse depois que muita gente havia
sido presa, boatos por toda a parte, mas pouco se sabia do que
realmente estava acontecendo. Engele quis saber se Juanito fora visto
junto com Philipp. Heit disse que no, nem haviam falado nisso.
Depois, eles quase nunca prendem ndio. Indio eles matam.
        Fizeram a volta at os fundos, Isaas abriu a porta, convidaram
Heit para entrar, relancearam os olhos para tudo em redor,
enxergavam pouco, estava muito escuro, ento Engele abriu uma porta
grande, entrou a luz da madrugada, estava tudo em ordem, houve um
alvio geral, sorriram. Cada um sentou a um canto, sonolentos, que
diabo de noite que havia voado, a noite mais curta do ano, graas a
Deus que ningum havia assaltado a casa. Heit arregalou os olhos,
algum teria ameaado com assalto? Isaas disse que no, mas nunca
se sabia ao certo o que pode acontecer com um emprio fechado,
aqueles malditos negros ainda roncando debaixo das rvores. Deu,
ento, um forte pontap num caixote que estava no meio da pea,
gritou que fossem abrir o resto, que iniciassem a limpeza, no estava
ali para ouvir de Grndling os desaforos que por certo diria se
chegasse no emprio e encontrasse a casa daquele jeito, batia palmas,
vamos, todo o mundo. Heit perguntou, meio constrangido: eu
tambm? No, por certo que no, meu caro, estou falando com esses
vagabundos que passaram a noite de farra e agora pensam que vo
tirar o dia para dormir.


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        Richter abria as grandes folhas da porta da frente, virou-se para
Isaas:
      - E como se houve com a nossa patrcia da Rua da Margem?
Agachou-se rpido, livrando-se de um pedao de madeira
atirado por Isaas. Heit no compreendia o que estava se passando,
perguntou timidamente:
      - E que vo fazer com o menino Philipp?
        Eles ficaram srios, Noll acercou-se de Heit, botou a mo no
seu ombro:
      -Muito obrigado pelo aviso, pode voltar tranqilo, algum
vai agora procurar Herr Grndling, estou certo que tiramos o rapaz
de l.
      - Um caf fresquinho? - perguntou Gebert.
        Isaas disse: no  coisa de perguntar,  de fazer. Heit apressouse,
vo me desculpar, gostaria muito de tomar um caf com os
amigos, mas preciso abrir a minha casa, minha mulher est me
esperando. Despediu-se de cada um, desejou felicidade, fazia votos de que
conseguissem soltar o menino de Frau Catarina.
        Noll passou a mo pelos cabelos emaranhados, que diabo, aquela
menina era de virar a cabea de qualquer cristo, se no houvesse
calado as botas e pulado pela janela, na certa ainda estaria quela
hora em cima dela, uma doida varrida, com fria de negra escrava.
Os outros escutavam calados, Isaas achou que eles duvidavam, que
talvez ele estivesse exagerando, pois quero dizer uma coisa a vocs,
os pais dela vieram numa das primeiras levas, da Baviera, o av havia
sido uma figura importante em Augsburg, chegou a ver Napoleo a
menos de uma jarda, ao lado de MaximiLiano I.
      -Mentira da cadelinha - disse Richter.
        Isaas no gostou, fingiu no ouvir, tratem de arranjar essa coisa
toda e a porcaria desse caf que no sai nunca? Virou-se para os
outros, srio:
      - Vocs acreditaram na histria desse Heit?
        Richter achou engraado, e a troco de qu esse Heit viria aqui
para inventar qualquer histria? O caso  que Philipp bem que podia
estar preso por ali e Grndling precisava de ser avisado com urgncia.
Gebert retornou com o bule de caf, pediu que vissem as canecas,
ouvira parte da conversa, disse:
      - Outro dia falaram por a que o Major Heise estava na
Presiganga e que at von Salisch havia sido preso. O menino Philipp seria,
por acaso, diferente?
        Isaas tomou apressado o caf, cuspiu no cho, foi o pior caf
que tomei em toda a minha vida. Pegou no chapu, vou procurar Herr
Grndling, essa coisa no est me cheirando bem. Ordenou: Gebert,


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me prepara um cavalo, aquele baio ligeiro. No chegou a terminar a
ordem, ouviram que se aproximava uma carroa, correram at a
frente, viram Grndling entre os que chegavam. Encontraram-se a
meio caminho, Isaas passou a ele as informaes de Heit, curioso
por saber qual seria a reao do patro, concluiu seco:
      - O menino Philipp preso, o ndio desaparecido.



3- Tenho o direito de fazer esse pedido, como uma pessoa
sempre fiel  causa da legalidade, capito - disse Grndling ao
comandante do Arsenal, um paulista gordo, calmo, olhos geis.
O homem estava em mangas de camisa, calava chinelos,
suspensrios largos prendendo as calas a meia canela. Examinou
demoradamente Grndling.
        - E pode me dizer por que tanto interesse por um simples
soldado, afinal no  o primeiro e nem ser o ltimo.
      - Trata-se do filho de um velho casal amigo meu, um menino
ainda, nem sabe por que anda metido nessa coisa. Se fosse um
soldado mesmo eu no me atreveria a pedir favor algum, afinal seria
apenas um inimigo da nossa causa.
        O        capito coou a cabea, o senhor no fundo est me criando
um problema srio, na verdade isso no depende s de mim, h
autoridades superiores.
        Grndling sorriu, no diga isso, capito, o senhor aqui  Rei e
Presidente, ningum tem a relao dos presos, levo o rapaz e mando
trazer ainda hoje mesmo uma carroa de mantimentos fresquinhos
para o senhor comemorar com sua gente, ovos deste tamanho, uma
lingia de porco como h muitos anos o senhor no v igual. E
isto fica entre ns, amigos so para essas horas, aquele emprio la
no tem portas para o senhor.
        Pouco depois saa do Arsenal acompanhado por Philipp, magro,
ar sonolento, roupa em petio de misria, a pele encardida, rosto
ferido. Caminhavam calados, ambos sem saber o que dizer, Philipp
a claudicar.
      - Alguma coisa no p?
      - Uma inflamao, bolha arrebentada - respondeu o rapaz
sem deixar de olhar para a frente.
      - Vamos direto para a minha casa, um mdico precisa olhar
para essas coisas, no gosto tambm dessa ferida na cara.
        - No preciso de mdico.
      - Claro, pode ser que no precise, mas posso garantir que de
um banho o menino est muito necessitado. gua no faz mal a
ningum e nem  coisa de mulher.


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        Philipp agradeceu, mas preferia ir direto para o emprio, queria
ver os amigos, saber da famlia, precisava seguir para So
Leopoldo. GrndLing parou, abriu os braos, o menino est ficando
maluco? no h jeito de passar pelo rio sem revista e logo um soldado
alemo. Seria degolado como um peru. Agora, posso afirmar que a
sua famlia est bem, tenho notcias recm-chegadas de l, fizemos um
acordo, agora trabalhamos juntos.
        -         mentira sua, no acredito.
        - Ora vamos, disse Grndling, tentando pegar de seu brao, no
deve levar as coisas assim como uma mula, os tempos so outros,
muita coisa mudou enquanto esteve na guerra, ns os alemes
precisamos nos unir cada vez mais, est tudo muito difcil no s para
mim como para a tua me.
      - Que sabe de So Leopoldo?
      - Est nas mos dos Farrapos, h muita tropa rebelde por l,
o Dr. Hillebrand foi obrigado a esconder-se nas picadas, est  frente
de tropas de patrcios nossos.
        Atravessaram a Praa da Matriz. Caminhavam agora pela
esburacada Rua da Igreja, a casa de Grndling, o enorme porto, no fundo
do quintal a calea onde as crianas brincavam um deles, o
novo, a cavalo num dos varais apoiados no cho. Philipp ainda
relutava, indeciso, Grndling puxou-o delicadamente, vamos comer
alguma coisa, gritou para dentro, a negra Mariana botou a cabea
para fora de uma janela, queria Frau Metz, entraram, a mulher veio
espiar, meio assustada, o dono da casa ordenou: prepare alguma
coisa para o meu amigo Philipp, quero um banho bem esperto, v
aquelas minhas pomadas para ferida.
        Philipp olhava para tudo, meio espantado, era uma casa rica,
tudo muito limpo, o assoalho brilhando, cortinas nas janelas. Teve
vontade de dar meia volta e sair correndo, mas o p ardia, o estmago
contrado de fome lhe dava nuseas, envergonhava-se de parecer um
mendigo naquele palcio de mveis muito polidos. Grndling tirou
uma garrafa do armrio, um gole no faz mal a ningum, afinal a
gente ainda vive, respira, bebamos pela sade dos nossos amigos.
        Antes de emborcar o copo na garganta fez uma parada, olhou
de esguelha para o rapaz, notou que ele mal segurava o copo na mo
suja e ferida.
      - E o nosso ndio?
        Philipp bebeu um pequeno gole, caminhou capengando at a
janela, viu l embaixo as guas tranqilas do Guaba, o cu claro, os
urubus nas suas lentas evolues, muitos deles pousados nos telhados
mais prximos. Voltava  escurido de uma noite qualquer, agora ja
perdida no tempo, quantos dias, quantas semanas, meses j haviam


108


passado? o estampido dos tiros a pOUCOS metros, as lnguas de fogo, as
pataS dos cavalos fugindo campo a fora, os gritos de Juanito, o ronco
de extertOr do ndio, depois a pancada na sua cabea, a terra
rodopiando, uma grande e pesada nuvem de silncio e de assombrao.
        Engoliu depressa a bebida forte do copo, voltou-se para
Grndling.
      - Acho que um banho me vinha bem, estou empestando a
sua casa.
        Mariana e outra negra passaram carregando jarras de gua
quente, ouvia-se que enchiam uma banheira, voltavam e retomavam
espiando de soslaio o rapaz esfarrapado que bebia igual ao patro,
como se fosse da mesma classe. Depois de uma pausa embaraosa,
Philipp respondeu:
      - JuanitO morreu em combate.
        Entrou logo no quarto. A gua da banheira fumegava, comeou
a despir-se, as meias rasgadas custaram a desgrudar dos ps feridos,
as ceroulas no tinham mais cor, a cala de pano riscado guardava
ainda o barro e o estrume de um tempo muito longo.
        Mergulhou um p, o calor aplacou a dor dos ferimentos, entrou
de todo na banheira, afundou o corpo. a gua transbordava e escorria
pelo assoalho; nada mais importava. Agora, era s a vontade
incoercvel de fechar os olhos, dormir. Banhou o rosto, os cabelos duros e
espigados, apenas os olhos e os joelhos  flor dgua, o nariz tocando
as rtulas, o tero clido e aconchegante de Catarina, o sono, o
esquecimento.



4 Daniel Abraho permaneceu na sua toca alm do costume,
Catarina ficou um pouco preocupada. andou ali por perto, viu que
        o lampio estava aceso, ele devia estar lendo o Novo Testamento,
quem sabe dormira mal, nem se dera conta de que era hora de
trabalhar. Cuidou um pouco mais das coisas da cozinha, acendeu o
fogo, tornou a espiar a porta do alapo, bateu de leve nas tbuas:
-        Est sentindo alguma coisa?
        Ouviu a voz abafada do marido, me deixa em paz, preciso orar
a Deus pelo nosso filho Philipp. Catarina no disse nada, foi preparar
o caf para Juliana, viu Emanuel j na oficina lidando com uma
grande roda. Philipp estaria mesmo precisando daquelas oraes
urgentes do pai? A idia ficou martelando na sua cabea, Daniel
Abraho s vezes via coisas que os outros mortais no enxergavam, sentia-se
desamparada, triste. Deixou a gua e o leite sobre o fogo bem aceso,
foi at a oficina, passou por alguns trabalhadores, acercou-se de
Emanuel:


109


        - Daniel Abraho parece que vai ficar um pouco mais na cama,
deve ter dormido mal.
        Sentou-se numa tora, ar preocupado, Emanuel achava que
poderia ter acontecido alguma coisa de ruim com Philipp? O rapaz
limpou as mos no avental, olhou intrigado para Catarina, acho que a
senhora no deve preocupar-se, afinal ele est ao lado de Juanito e do
Major Heise, qualquer coisa e se saberia logo, essas notcias correm
logo, voam. E se houvesse algo os rapazes dos bateles diriam, eles
no tinham interesse de esconder nada.
        Ela sorriu enigmtica, encarou Emanuel:
        - Pensei que soubesse, mas h cinco dias no chega um barco
de Porto Alegre.



        Grndling fazia esforos para conter-se, permanecia de p frente
ao inspetor do governo, o homenzinho remexia no seu cigarro de
palha, tinha a camisa de algodo suja e puda, as unhas negras, tratava
o alemo como um pria:
        - Pois , o governo resolveu no enviar mais nada para aquela
gente, no tem mesmo cabimento estar a abastecer o inimigo.
        Grndling contestou, mas pelo amor de Deus, ns mandamos
quinquilharias e recebemos de l a comida que est sempre faltando
na cidade.
        O inspetor soltava longas baforadas, no sei se o senhor Grndling
sabe, mas a Armada Imperial comeou a trazer alimentos de Rio
Grande, no  l muita coisa, mas o suficiente para manter os nossos
soldados em forma. E a populao? perguntou Grndling.
        - A gente da rua sabe o que faz nesses casos, planta uma hort,
come fruta do quintal, defende-se, meu caro, defende-se - e dando
uma chupada forte no cigarro apagado - e por favor, quando sair
mande entrar o tenente que est a fora,  assunto urgente.
        Grndling saiu sem dizer uma palavra. Ao encontrar o tenente
do lado de fora fez um sinal vago, mandando-o passar. Era um
sujeito baixo, roupa indefinida, cara inditica, um cinturo de couro
apertando o casaco largo. J na rua, virou-se para a velha casa de
onde acabara de sair, cruzou os braos dando uma figa e cuspiu
grosso na terra avermelhada. Que fossem todos para o inferno!



        Catarina s voltou quando ouviu o leite derramado chiar sobre
a chapa quente, comeou a preparar o caf, viu quando Emanuel
aproximou-se da porta enquanto ela cortava grossas fatias do po
escuro. Ele disse com voz sumida:
        - A senhora sabe, Philipp me preocupa tambm, j pensei at


110


em dar um jeito de chegar a Porto Alegre e procurar os dois, saber
notcias, quem sabe l no emprio.
        Catarina disse que deviam ter pacincia, de nada adiantava sarem
pelo mundo todo  procura de algum, a terra era muito grande, Deus
sabia olhar pelos seus filhos e Philipp estava sob a sua proteo.
Emanuel disse:
        - Mesmo assim penso muito em ir e s no fao isso com medo
de deixar Juliana nesse estado, a senhora sabe, ela passa todo o tempo
em que estou com ela segurando as minhas mos, diz que no enxerga
mais, no adianta abrir a janela e nem acnder o candeeiro.
        Catarina parecia alheia ao que ele dizia. Emanuel prosseguiu, a
senhora tem notado os olhos dela? esto ficando sem cor, opacos,
os banhos de erva j no adiantam nada, passa um pouco a
ardncia, a dor, mas quando acorda no meio da noite as plpebras
permanecem fechadas, coladas pelo pus seco, eu j no sei o que
fazer.
        Catarina no quis olhar para o rapaz, tratava de arranjar,
nervosa, as coisas todas sobre a mesa.
        - A gente precisa saber enfrentar todas essas coisas, meu filho.
O desespero no  cristo.
        Ergueu da mesa a bandeja de madeira com o caf do marido e
caminhou at o alapo, sempre acompanhada pelo rapaz, agachou-se,
bateu com o n dos dedos na tampa, esperou que Daniel Abraho
abrisse a meia-folha e apontasse a cabea desgrenhada, olhos piscando
para a luz do dia que filtrava pela janela: toma o teu caf, fica
descansado, o Emanuel d conta do recado, o trabalho diminuiu muito.
Ele pegou a caneca de caf quente e a gamela com o po, olhou
bem para a mulher e para o rapaz, sua voz estava emperrada, quero
que saibam que Philipp no pecou e nem morreu, porque o salario
do pecado  a morte e o dom gratuito de Deus  a vida, Philipp vive,
Catarina - seus olhos derramavam grossas lgrimas, a mulher virou
o rosto para o lado, para a janela de onde se avistava a luz do dia,
para as rvores, disse para ele, toma o caf antes que esfrie, depois
descansa; eu tambm sei que Philipp est bem.



        Uma voz forte se fez ouvir do outro lado da porta, Philipp
reconheceu a voz de Griindling que dizia, aqui tem roupa nova para
trocar, depois vamos queimar esses trapos.
        Teria dormido muito tempo? Olhou as pontas dos dedos,
estavam murchas. A gua esfriara. Viu um pedao de sabo sobre uma
banqueta ao lado, pegou-o, era perfumado e macio, comeou a
esfreg-lo devagar nos cabelos, no rosto, no pescoo. Novamente
Grndling: posso entrar? No esperou resposta, empurrou a porta:


111


        - Mas ento o meu jovem dormiu na banheira, pois fez muito
bem, nada como um bom banho para tirar o cansao do corpo.
        Colocou o pacote enorme que trouxera sobre uma cmoda,
sentou-se tranqilamente, pois eu acho que ainda precisa descansar mais,
esquecer um pouco essas coisas da guerra, o que passou, passou. Fez
uma pausa, continuou: temos muitos problemas pela frente, conto
contigo, agora o governo resolveu no mandar mais nada para a
colnia, diz que no se deve mandar abastecimento para o inimigo.
Veja, os nossos patrcios da colnia inimigos do governo! O que eles
querem mesmo  matar de fome a gente desta cidade, eles andam
rondando os nossos armazns vazios, uma cambada de inimigos, eu digo
para eles que esto no lugar errado, que batam na porta do Palcio,
que peam s autoridades que deixem a gente buscar comida para
eles. Bem, eu acho que para eles tanto faz.
        Philipp esfregava o sabo no corpo, desajeitado, no sabia o
que fazer tendo Grndling  sua frente, tirou da gua o p ferido,
a chaga apustemada, um vergo roxo que ia dos dedos  canela,
as bordas esbranquiadas. Grndling disse, mas espera a, isso  coisa
sria, rapaz, e ainda caminhando daquele jeito, feito louco. Vamos
sair logo desse banho, vou buscar um mdico, termina perdendo o
p.



        Daniel Abraho parecia no escutar, depositou a caneca e o po
sobre o cho, fez um sinal para que eles se aproximassem, oremos: 
Senhor, grande mdico do corpo e da alma. Tu que feres e que
tambm saras, ns te pedimos que olhes com favor para o teu servo.
Rogamos que lhe poupes a vida e restabeleas o seu vigor. Compadece-te
do teu servo Philipp, ele est em tuas mos.
        Retomou a caneca e o prato e desapareceu na toca escura.
Catarina pediu a Emanuel que retornasse ao trabalho, era melhor
que no contassem com Daniel Abraho. Disse para ele, vou cuidar
um pouco de Juliana, ver como ela est. Emanuel ainda caminhou at
a porta sentindo a mo dela sobre o seu ombro, mo que irradiava
calor e confiana, ele a sentir que qualquer coisa desabava sobre a
sua cabea, nada que pudesse ser detido, nem por sua vontade, nem
pela vontade daquelas palavras obscuras que Daniel Abraho
costumava recitar com os olhos iluminados. Deus sabe o que faz - pois
se tirasse os olhos de Juliana estaria punindo algum que no merecia.
"Nada  feito em vo e nem Deus castiga as pessoas por prazer".
Primeiro a filha, agora os seus prprios olhos.
        A oficina estava agitada e barulhenta, mas ele no escutava e
nem via nada.


112


        - Doutor, este  o nosso doente, quero que cuide muito bem
dele.
        Enquanto o mdico, culos na ponta do nariz, examinava o
ferimentO, Grndling observava o rapaz, a sua bela cabea, o trax forte
e desenVOlvido, o nariz bem feito, o talhe de rosto denotando
resoluo e fora de vontade. Lembrava o perfil da me, talvez os
mesmos olhos, o queixo vigoroso.
        - Quando foi isso, meu filho?
        Ele disse que no se lembrava muito bem, quem sabe quinze
dias, um ms, nem se fora o estribo, se algum pontao de lana ou
corte de espada. O doutor pediu uma bacia com gua limpa, panos,
abriu a maleta-de-fole, tirou vidros e latas, vamos ver o que se pode
fazer de melhor numa ferida assim como esta, tantos dias na terra e
no estrume, essa gente do exrcito no tem mdico e nem medicamentos?
Philipp deu de ombros, se havia nunca chamou por um.
Grndling foi at a cozinha e momentos depois a negra trazia a bacia com
gua e os panos pedidos.
        - O senhor no tem um schnapp dos fortes para o rapaz se
distrair um pouco? Preciso espremer a ferida.
        Philipp estendeu a mo, no se incomode, Herr Grndling, no
preciso de bebida nenhuma, o doutor que faa aquilo que achar
melhor. Ah, meu filho, disse o mdico, um gole nunca  demais,
mesmo para os heris. Eu, por exemplo, no consigo espremer uma ferida
sem tomar um ou dois goles reforados.
        Grndling j servia conhaque para os dois, olhou a garrafa
contra a luz da janela, restava pouca coisa, enfiou o gargalo na boca e
depois limpou os lbios com a manga do casaco. Como nos velhos
tempos, disse ele rindo alto. Depois pediu licena, queria estar um
pouco com os filhos, no quintal, andava afastado das crianas nos
ltimos tempos. Sabia que ia sentir-se mal se visse o mdico apertar o
ferimento apustemado, na certa vomitaria e logo ali na frente do
rapaz que parecia indiferente aos preparativos todos.



        Juliana, ao ouvir a porta abrir-se, perguntou se era Emanuel.
Catarina disse, sou eu, sentou-se na beirada do catre, segurou as mos
da moa, deves estar com fome, mas primeiro vou trazer um pouco de
gua fervida para lavar os teus olhos e depois um copo de leite.
Emanuel est trabalhando, s Daniel Abraho  que resolveu no sair
da cama, ele anda um pouco perturbado nesses ltimos dias, para
mim  a falta de notcias de Philipp. Juliana perguntou:
-        E ningum traz notcias dele?
        Catarina respondeu que no, com a retomada de Porto Alegre
pelos caramurus as coisas haviam se tornado mais difceis, at mesmo


113


os lanches, rio acima, rio abaixo, no podiam navegar. Mas ele
volta, estou certa disso, qualquer coisa aqui dentro me diz isso.
Juliana apertou forte a mo de Catarina:
        - Acho que no vou enxergar mais quando Philipp vier. A
senhora me promete dizer direitinho como ele est? Sei que vai
voltar um homem bonito, sabe, ele  muito parecido com a senhora,
at no jeito de dizer as coisas.
        Catarina desprendeu-se das mos da moa, levantou-se
apressada, disse por dizer, Emanuel est muito contente com as ltimas
encomendas, imagina, oito serigotes s para o Porto, pedido feito pelo
pai dele. E isso apesar de toda essa guerra maldita. J volto logo.
        Ao passar por perto do alapo, imaginou o marido l embaixo,
indiferente ao cheiro de mofo e do leo queimado do lampio -
feito um bicho - ouviu a sua voz rouca na ladainha de todos os
dias,ouviu as batidas secas da enx sangrando a madeira de lei, o
canto de um pssaro que fizera ninho no beiral da cozinha. E quando
tentava avivar o fogo com novas achas de lenha, sentiu que a
fumaa entrava pelos seus olhos, com ardncia, fazendo-a chorar.



5 So Leopoldo perto, talvez meia hora de marcha, ou menos,
esporeou de leve o cavalo, reconhecia o caminho como um cho
amigo, as rvores, a noite grande, cu coberto de estrelas, os pios
agourentos das corujas. As primeiras ruelas, a praceta Tringulo, a
Rua So Pedro e a casinha dos Hartel, a Rua Sapucaia onde morava
o Fredrico Fayete, a Rua Formosa dos rapazes do velho Estevam
Seubert, o Cemitrio Protestante na estradinha da Conceio, a Praa do
Cachorro, por fim a Rua do Sacramento. Seu corao batia mais
forte, um n apertava-lhe a garganta, pressentia, dentro das casas,
as luzinhas fracas dos lampies.
        Viu a sua casa, o grande porto do emprio, notou os puxados
construdos para os fundos, a erva ruim apontando dos beirais velhos.
A porta da rua, a janela baixa, algum l dentro ouvira o rudo
abafado das patas do cavalo na areia fofa. Uma tnue luz bruxuleou l
dentro, ouviu um arrastar de ps, a voz de sua me que varou a noite,
angustiada, pressaga, trmula:
-        Philipp?
        Adivinhara. Estaria assim, esperando meses e meses, desde
quando? Por certo o pai nada pressentira, enfurnado na sua toca de
bicho, o lampio, a Bblia, os trapos encardidos da cama
subterrnea. Novamente o grito espantado, desta vez quase que com a alegria
da certeza:


114


        - Philipp!
        ApeoU, largou as rdeas - o animal afastou-se espantado -
ficou por instantes paralisado, ouvido atento, sua me agora arrastava
os chinelos, os Ps de um banco rascara o assoalho, os passos de
uma outra pessoa, talvez Emanuel, um co latiu. Quis responder e
no teve voz, mas precisava dizer: me, me, estou aqui, sou eu, teu
filho Philipp. Caminhou lentamente, era como se reconhecesse a terra
sob suas botas, o cu era o mesmo, a noite, as rvores, a rua
descampada, os muros. Parecia enxergar atravs das paredes. A saleta de
entrada, o fogo no canto, o telheiro, o quartinho dos irmos. Como
estariam eles? Carlota, Mateus, Joo Jorge. E Juliana j com um filho,
o pai, mais velho, encurvado pela enx e pelo alapo. O cheiro dos
lombilhoS, da madeira das carroas, da cola e do couro cru.
        A sola das botas na terra enchia agora de rudos a noite
silenciosa. Ouviu a tranca sendo arrancada das presilhas da porta. A
meia-folha que se abria, a luz mais forte do candeeiro empunhado
bem alto, a mo, o brao, os cabelos, o rosto fantasmagrico de
Catarina.
      - Philipp, meu filho, pelo  amor de Deus, eu sabia que eras
tu, Deus  grande.
        Quente e forte o abrao, as lgrimas da me molhando a sua
barba. As mos dela passando nervosas pelo seu rosto, ento o meu
filho de barbas, o meu filho vivo. Depois calou-se, abraada a ele,
como a no querer acreditar. O lampio j nas mos de Emanuel que
olhava espantado. Ento era Philipp mesmo - tocava nos seus
braos enrodilhados em Catarina, o tato no pano spero que viera da
guerra, o rosto de Philipp em lgrimas. Daniel Abraho espiando pela
metade da porta aberta, Catarina repetindo, meu filho, meu filho.
Ele disse com voz embargada: ora me, sou eu mesmo, no me
aconteceu nada, e as crianas? Viu Daniel Abraho: meu pai como
est? Ele respondeu, eu ouvi a voz de Cristo me dizendo que
voltarias, eu ouvi.
        Philipp desprendeu-se dos braos fortes da me, caminhou
devagar em direo do pai, entrou, abraou-o desajeitado, sentiu de
encontro ao rosto a barba dura, as mos speras do pai que alisava
seus cabelos. Depois o abrao de Emanuel, mudos os dois, mos
espalmadas a bater nas costas.
      -Mas est um outro homem, engordou - disse Philipp
afastando de si o amigo, sem largar seus ombros.
      - Outro homem, eu? Deixa disso. Vejam, Philipp de barbas,
deve ser furriel depois de toda essa guerra, ou capito, sei l, mas 
O        mesmo Philipp de sempre.
Catarina limpava os olhos, deixa disso Emanuel, traz lenha, va-


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mos aquecer gua para um caf, ele deve estar morrendo de fome
tambm, vamos, te mexe, temos um po de milho feito hoje, parece
que a gente adivinhava, eu sabia, qualquer coisa aqui dentro me dizia
que o meu filho ia chegar. Daniel Abraho disse, os desgnios de
Deus no falham. Philipp pegou do lampio e entrou no quarto das
crianas, iluminou o rosto de cada um, Mateus mudou tanto, vejam
s a Carlotinha, o Joo Jorge at parece outro. E este aqui? Catarina
estava atrs dele:  teu irmo Jacob. Philipp afastou as cobertas,
examinou bem a carinha rosada do irmo, mas ento a famlia ficou
maior, e que belo rapaz  o Jacob.
        Catarina movimentava-se sem parar, nervosa, alegre, foi para a
beira do fogo, atiava as chamas, tropeava na camisola comprida,
retornava para junto do filho, senta, descansa, depois desta viagem
ficar a de p, deixem ele descansar, batia nas suas costas, passava as
mos no seu rosto.
        De repente ela ficou com uma chaleira suspensa, virou-se
assustada para o filho, ele adivinhou logo o motivo do seu gesto:
        - Juanito desapareceu na guerra.
        houve um silncio geral, ela tornou a colocar a chaleira sobre a
chapa, EmanueL puxou um banco para Philipp, Daniel Abraho
acocorou-se ao lado da porta. Ela ento perguntou, sem olhar o filho:
        - Morreu?
        -  quase certo. Sim, Juanito morreu.
        - Est com Deus - disse soturno Daniel Abraho.
        Ouvia-se a gua a ferver, mas onde est este p de caf,
exclamou Catarina, enquanto Emanuel abria um pequeno armrio.
        Juliana assomou  porta, mos tateando, os cabelos escorridos,
a grande bata encobrindo o corpo franzino, cabea erguida, olhos
presos a um ponto fixo. O marido estendeu a mo para ela,
ajudou-a a encontrar Philipp, suas mos envolveram o rosto do rapaz
que parecia no acreditar, olhar aterrorizado passando de rosto em
rosto, como a perguntar se era verdade, Juliana a dizer: ento Philipp
voltou, Deus ouviu as nossas preces, eu sempre sonhei com este dia,
como deve estar diferente com essa barba. Emanuel deu a Catarina
um pequeno embrulho de papel, est aqui o p, virou-se para Philipp:
        - Juliana foi atacada por uma doena dos olhos, ningum aqui
ainda sabe que doena , j se fez de tudo.
        Philipp agarrou firme a mo da moa, abraou-a, isso no h de
ser nada, vamos encontrar um mdico. Juliana sorriu triste, os olhos
baos, eu at que j estou acostumada, passei a conhecer a casa
palmo a palmo e no adianta, o Dr. Hillebrand est na guerra, no
apareceu mais.


116


        Catarina disse, ela me ajuda at na cozinha, costura, lava roupa,
acende o fogo. A princpio, retornou Juliana, eu chegava a queimar
as mos, mas agora isso no acontece mais, a gente se acostuma com
tudo, eu agora me guio com os olhos de Deus. Philipp olhou para o
pai, depois para Emanuel, no sabia mais o que dizer a Juliana que
agora sentara-se a seu lado, examinando seu rosto com as mos,
percorrendo com dedos leves o nariz, a testa, as orelhas, os cabelos,
a barba cerrada.
        - No posso imaginar Philipp com esta barba, deve ter ficado
parecido com o pai.
        S ento Catarina percebeu a semelhana entre os dois, encheu
uma caneca com o caf fumegante, Emanuel cortava um naco de po,
sentou-se ao lado do filho, vou arrumar agora a tua cama, deves estar
muito cansado.
      -No vou mentir, estou mesmo - disse ele chupando com
cuidado o caf quente - mas eu daria tudo para no dormir esta
noite.
      - Deves ter muito o que contar - disse Emanuel.
      - Alguma coisa, a gente termina esquecendo.
        Daniel Abraho levantou-se devagar, passou pelo filho, alisou
seu cabelo, vou rezar agradecendo a Deus pela volta do meu filho.
Saiu meio trpego, limpando os olhos. Philipp achou-o alquebrado,
mais velho do que esperava. Catarina aguardou que ele sumisse pela
porta, ouviram o barulho da porta do alapo, o ringir das
dobradias.
        - Teu pai tem feito muitas oraes por ti, acho que todas as
noites e todos os dias. Com a tua volta ele pode melhorar, Deus
precisa olhar por ele tambm.
        Perguntou ao filho se tinha achado o pai muito envelhecido.
Philipp disse um no muito sem convico, no prestara ateno a isso.
Enquanto bebia o caf e mastigava o po que lhe lembrava tempos
distantes, observava em redor, Emanuel um homem feito, cara
marcada; Juliana desfigurada, a doena deixara os seus olhos opacos e
mais abertos, o corpo afinara, emagrecera muito, parecia outra moa.
A me ainda era a mesma, estava mais rija, talvez mais forte, notava
a sua preocupao em fingir que cuidava das coisas inexistentes sobre
o fogo, no se queria trair, como sempre costumava fazer em horas
e momentos assim. Disse para ela, cheguei a sonhar com o gosto e
com o cheiro deste po, com as laranjeiras do fundo do quintal, at
com o cheiro da madeira recm-cortada. Lembrou-se dos grandes
carroes que passavam na frente da casa, fazendo tremer a casa toda,
sacudindo as panelas em cima da mesa, o rascar da enx na oficina, a
conversa dos homens nos balces do emprio.


117


        Catarina saiu, foi arranjar a sua cama, ajudada por Emanuel.
A seu lado ficou Juliana, segurando forte a sua mo.
        - De algum tempo para c eu sempre quis saber como estaria
o Philipp que eu conheci, depois de toda essa guerra que afinal
terminou me levando a luz dos olhos.
        Ficaram os dois calados, ela ainda disse, agora eu sei, me alegro
por Frau Catarina que vai voltar a ter prazer na vida. Philipp ouvia a
voz da me na outra pea, perguntando a Emanuel pelos lenis,
pedindo mais um cobertor. Juanito estava presente no calor de Juliana. E
quando, finalmente, foi deitar-se, as mos de Catarina puxando as
cobertas, aconchegando-o, dizendo coisas que ele aos poucos no
entendia mais, percebeu em algum lugar a voz autoritria do Major Heise,
o retinir de espadas, a dor lancinante do p ferido, a figura enevoada
de Herr Grndling andando pelos corredores da casa da Rua da
Igreja, o gosto da bebida forte que ele costumava servir, as noites sem
fim que passara nos escuros pores do arsenal dos inimigos. Seus
cavalos, agora, andavam em coluna por um e ele sentia, reconfortado, o
calor amigo do joelho de Juanito que se confundia com o negrume da
noite, que surgia e desaparecia como um fantasma.
        S acordou, manh alta, com o choro forte de uma criana
estranha que se espantara com aquele desconhecido de grandes e eriadas
barbas.
        Era o pequeno Jacob.



118



VII


1 O        pedreiro Joo Moog, com fios brancos nos cabelos ralos,
limpava o suor da cara com um grande leno. A noite chegava, a
Praa do Cachorro deserta, os primeiros lampies a piscarem atrs
dos postigos abertos, ar pesado, cu sem nuvens. Moog viu o filho
do velho Renner, Jorge Felipe - mesmo nome do pai - seu irmo
menor Pedro, aprendiz de sapateiro, imberbe, grandes olhos azuis;
tambm Frederico Pfingsten, estabanado nos seus vinte anos, grossas
calas de l naquele caloro de seca. Logo adiante avistou Philipp
que andava meio sem rumo, camisa empapada de suor no peito. Fez
um sinal para eles, a mo em forma de concha, acenando. Os rapazes
se aproximaram.
        - Que tal a gente tomar umas cervejas para matar o diabo
deste calor? Eu pago.
        Philipp apertou a mo dele, grossa e mida, depois apontou para
os outros, uns meninos ainda, isso de beber cerveja era perigoso. Moog
riu, pois o prprio Philipp no era muito mais velho, que diferena
havia entre eles?
        - Uma guerra, Herr Moog.
        Claro, eu sei, uma guerra, repetiu o pedreiro, o menino andou
na guerra, foi ferido, claro, o menino tem trinta anos mais do que esses
dois bebs a, mas que diabo, a cerveja aqui de So Leopoldo,
de cerveja mesmo s tem o nome,  uma gua e se no estiver bem
fresca sabe a mijo. Avistou um outro rapaz, Jos Rohde, filho de
Carlos, no mais velho do que os outros, gritou por ele, que viesse,
iam todos beber pelo fim da guerra. O rapaz aproximou-se, tmido,
desconfiado, beber cerveja? Moog repetiu: cerveja nada, uma gua
choca que se pode dar s crianas de peito e, depois, ningum aqui
 mais criana ou ser que algum de vocs ainda no tem plos entre


119


as pernas? Todos riram, Moog levantou-se e apontou para a frente,
como se empunhasse uma espada.
        - Pois em frente, soldados, o inimigo nos espera na primeira
tasca!
        Philipp perguntou a Pfingsten se ele por acaso no trazia algum
dinheiro, O rapaz sacudiu a cabea. Jos Rohde ouviu a pergunta
e apressou-se a dizer, eu tambm no tenho dinheiro nenhum. Philipp
sorriu, mesmo assim vamos, eu tenho algum que d. E olhem,
desconfio que Moog no tem dinheiro para um schnapp. Renner
confidenciou: ele deixa os filhos em casa com um pedao de charque
e gasta o pouco que tem na cerveja. Philipp fez um sinal de
indiferena, ele  maior de idade e sabe o que faz, afinal, beber uma
cerveja neste calor s pode ser bom mesmo.
        Ouviram um tropel de cavalos que passavam pelas barrancas
do rio, Philipp disse:
        - Deve ser um piquete de vanguarda do Major Morais.
        Caminhavam para a pousada do Joo Schulter, um lugar  beira
do Rio dos Sinos, onde um brao de gua morria podre,
alimentando o agrio forte e vioso. Quando a cerveja azedava o velho
emborcava os potes naquele banhadal, os fregueses aliviavam a bexiga
na porta dos fundos e de l gritavam para o dono da casa: amanh
me faz uma salada de agrio fresquinho, seu velho porco. E pensam
que  de duvidar? disse Moog. O rapaz Renner urinava escorado na
porta e os outros entraram em fila,  espera de fazer o mesmo. Depois
sentaram todos numa mesa comprida, suja, Schulter olhou bem para
o grupo, Moog por acaso sabia que era proibido servir bebida para
aqueles meninos? Moog apontou para Philipp:
        - Cala a boca, velho doido. Este menino aqui veio da guerra
e j matou mais inimigo do que muita gente que at hoje s conseguiu
sangrar porco para fazer morsela.
        Philipp disse, eu nunca matei ningum. Moog perguntou: e
como sabes disso? de noite a gente atira e nem sabe aonde acerta.
Todos riram, o rapaz Renner levantou a caneca recm-servida, vamos
beber pela paz eterna dos soldados mortos pelo guerreiro Philipp.
        A cerveja estava morna e grossa. Moog deu uma cusparada no
cho, porcaria de cerveja. Chamou Schulter, bebe com a gente, se
esta droga estiver envenenada vais morrer como um co. O dono
da casa empinou uma caneca: melhor cerveja do que esta no se
faz nem em Porto Alegre. Claro, contestou Moog passando as costas
da mo na boca, em Porto Alegre, tambm, s se bebe mijo. E
gritou, mas um mijo melhor, seu filho de uma vaca.
        Os rapazes no conseguiam beber o liquido espesso e amarelo.
Jos Rohde disse que preferia beber aquela gua do rio que chegava


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at ali, era capaz de vomitar o xarope fedorento. Moog levantou-se,
foi at a porta de frente, de l gritou para os companheiros:
        - Pois faam o que eu fao, joguem esta porcaria para os
sapOS.
        Aproximou-Se de Schulter, diz logo quanto devemos, mas
cuidado, se quiser roubar chamamos o delegado e vais explicar o roubo nas
grades. Schulter riu, pois se no beberam nada, no pagam nada.
Isto  que  falar, gritou Moog, homem honesto est aqui e se chama
Schulter. Vamos embora, pessoal.
        O calor estava mais pesado, o cu sem estrelas, o rio invisvel
marulhando forte, tudo deserto em redor. Pedro Renner perguntou ao
irmo mais velho se no seria melhor voltarem para casa, deviam
levantar cedo, caa de sono. Moog passou o brao em torno dos ombros
do rapaz, chamou o irmo, os outros se acercaram dele, Philipp quase
no via o grupo. O homem confabulou, bem que podiam deitar mais
tarde, o que era um dia no ms, um dia no ano, e depois era capaz
de apostar que nenhum deles ainda estivera com uma mulher debaixo
do corpo. Ningum disse nada. Ele insistiu, conheo um lugar aqui
perto, subindo a margem do rio,  uma pocilga de uma velha megera,
tudo fede, mas a gente sempre encontra l umas meninas deixadas
a por aquela gente que foi mandada para Torres e de qualquer
maneira nem se precisa de casa, temos o matinho, faz-se a coisa debaixo
das rvores, de noite todos os gatos so pardos. Pfingsten disse que j
ouvira falar nesse lugar, mas que ficava longe, no chegariam antes
de uma hora de caminhada.
      -Nem isso, meus filhos, e vale a pena, pega-se a menina e
se faz tudo ouvindo grilo e sapo e, o que  mais importante, elas
se contentam com qualquer moedinha de cobre.
-        E a velha? - perguntou Philipp.
      - Pois uma outra moedinha e a cadela se d por satisfeita.
        Os irmos Renner ficaram falando baixo, Jos Rohde perguntou
a Philipp se valia a pena mesmo ir at l. Philipp disse em voz alta,
de maneira a ser ouvido por todos:
      - Pois eu acho que vale, afinal aqui ningum mais  criana.
      - Bravos! - berrou Moog batendo palmas - Assim  que
um soldado veterano deve falar.
        Abraou Philipp, comearam todos a caminhar, tropeavam no
caminho tortuoso, de vez em quando enlameavam as botinas nos
charcos de gua podre que vazava do rio. Andavam em silncio, Pfingsten
perguntou em voz baixa:
      - E se uma patrulha daquele tal major d com a gente por
aqui?  bem capaz de achar que somos caramurus.
Moog pediu a ele que calasse a boca e no dissesse tolices. Todo


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o        mundo sabia que ele era farrapo e que a maior garantia que eles
todos tinham era Philipp que recm viera da guerra onde lutara sob
as ordens do Major Heise. E por falar nele, onde anda o homem,
Philipp?
      - Desapareceu, ningum mais viu o major, uns dizem que ele
foi morto, outros garantem que ele foi deportado para a Corte.
      - E tu, o que achas? - perguntou Moog.
      - Pois no sei, os imperiais davam uma barra de ouro para
botar a mo no major.
        Moog interrompeu a caminhada, examinou bem o lugar onde
estavam, depois disse, acho que agora a gente envereda por ali, a
casa da velha  um pouco mais adiante. Embarafustaram por um mato
ralo, Pedro Renner gritou para os que iam  frente, cuidado com os
ndios, h muito bugre onde h cheiro de mulher. Depois acercou-se
do irmo, sussurrou ao seu ouvido: alguma vez j estiveste com
mulher? Jorge Felipe mandou que ele calasse a boca, no era de
perguntas. Philipp abria os galhos com os braos, sentia-se confuso, e se
os meninos soubessem que ele nunca estivera e nem se deitara com
uma mulher? Sentia as tmporas latejando, suor frio na palma das
mos, abenoava a noite escura, sem Lua.
        Quando chegaram ao p do casebre no viram sinal de vida, tudo
escuro. Andavam agora com cuidado, Moog praguejou, logo hoje
essas cadelas sumiram. Ficaram um tempo  escuta. Assustaram-se,
de repente, com uma voz esganiada, era a dona da casa, devia estar
sentada debaixo de alguma rvore, a megera costumava ficar ali
naquelas noites quentes, a abanar-se contra os mosquitos, destratando os
homens que no apareciam, eles agora no gostavam mais de mulher.
Moog gritou: onde est essa gente? A megera casquilhou uma risada,
pois vo chegando, as meninas esto todas por a, quem no procura
no acha.
      - Trago uns rapazes de boa famlia, fique sabendo - disse
ele.
      - Pois as minhas meninas tambm so de boa famlia, podem
at casar, mas sempre  bom experimentar primeiro, assim vo na
certa.
        Seu riso parecia o de uma galinha choca. Pedro permanecia
colado ao brao do irmo mais velho. Pfingsten perguntou a Philipp
se o melhor no seria voltarem, aquilo no lhe agradava em nada,
no se via ningum, sabe l que espcie de mulheres seriam aquelas,
era at arriscado. Philipp no respondeu, ouvia rumores estranhos
pelas cercanias, vozes abafadas, a fala ininteligvel de Moog a uma
certa distncia, Rohde chamando pelos irmos Renner, venham aqui
por este lado, onde diabo vocs se meteram? Ouviram o tropel de


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gente que corria, quebrando galhos, uma risada, Rohde dizia em
altos brados: os safados dos Renner fugiram, vejam s, segurem a
esses dois, peguem.
        Philipp distanciou-se um pouco, de repente algo lhe dizia que
no estava s, as macegas se mexeram, a voz ntida de alguma
menina, a mo quente segurando o seu brao, ela dizia: aqui, aqui,
Philipp prendeu sua mo, ela gemeu, Pfingsten gritou para os
outros, Philipp j pegou a dele, o rapaz enxerga no escuro. Um outro
gritou, peguei. Philipp arrastou a sua presa para uma encosta
empedrada, poucas rvores, uma tnue claridade, ento pde ver a
silhueta da menina, os cabelos compridos, sentou-se no capim alto,
puxado por ela, no conseguia ver o seu rosto. Ela ficou ao lado
dele, tmida, apenas a mo descansando sobre o seu joelho.
-        Qual  o teu nome?
-        Apolnia, nome da minha av que nasceu na Prssia.
      - E como  que tu sabes disso?
-        Minha me me contou.
-        E onde est a tua me?
-        Morreu.
        Philipp calou-se, suava de escorrer gua pelo pescoo. Ela tentava
limpar o rosto dele com a ponta do vestido que o rapaz imaginou sujo
pelo cheiro acre. Ela quis saber o nome dele.
        - Pois Philipp era como se chamava um tio meu que ficou
na Alemanha, ele no quis vir, disse que isso aqui era terra de
ndio e de feras.
        Ele pediu que ela falasse mais baixo, no queria ser localizado
pelos amigos. Eles j haviam encontrado os seus pares, menos Moog
que se mostrava irritado.
        - Raios, onde se meteram essas cadelas?
        A voz em falsete da velha se fez ouvir novamente, trata de
procurar, h mulher por a para mais dez homens. Ele disse: ah, peguei,
finalmente peguei, mas no sei nem a cor que a diabinha deve ter.
A velha retrucou, s tenho menina da nossa raa, negra no entra
aqui; e trata de no soltar a tua que vale muito dinheiro.
        Philipp perguntou a Apolnia se ela tambm valia muito dinheiro.
A menina disse, no sei, ela sempre  quem recebe. E no ganhas nada?
Casa e comida, sussurrou ela. PhiLipp tateou o rostinho mido,
lembrou-se do gesto de Juliana tentando reconhecer a sua fisionomia,
estava ele tambm cego, sentia uma angstia, um mal-estar que lhe
contraa a boca do estmago. Sua mo correu pelo ombro magro,
desceu at o peito, parecia um peito de rapazinho, o pequeno Seio
mal apontando, o mamilo duro e espevitado. A mo dela penetrou na
sua roupa, gil, hbil, quente, perguntou se no estava incomodando,


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ele era casado? No, nem pensava nisso. Ela chegou onde queria,
Philipp tentando virar o corpo; estou vendo que tu no me queres,
gemeu triste, no fica com medo que ningum chega aqui, eles j esto
acomodados, escuta. Ouviram os gemidos fortes de outra mulher, a
voz de Rohde repetia, assim no, assim no, esta mulher  maluca.
        Por um instante ela se separou dele, Philipp viu que tirava a
roupinha que mal cobria o corpo. Tornou a encostar-se nele, ento o
meu amor ainda est vestido? Vamos, eu te ajudo. Tinha experincia,
a roupa molhada de suor custava a desgrudar do corpo. Ento ela
passou a mo pelo seu corpo, disse, como tu s forte. Moog, no
muito longe, gritou: quem  esse homem forte a?
        Philipp botou a mo aberta sobre a sua boca, fala baixo, eles
esto nos ouvindo. Ela o obrigou a deitar-se de costas, ele via no
alto a ramagem das rvores, os pedaos mais claros de cu, a mozinha
dela ligeira e sbia, a sombra da mulher cavalgando seu corpo, o suor
dela pingando sobre o seu rosto, ela se aprofundando nele, uma dor
gostosa e estranha, os gemidos contidos a fazer coro com outros mais
distantes, os palavres de Moog, a voz da velha: uma vez s, nada de
me enganarem, depois me vm com a histria de quem est com
pouco dinheiro, eu estou vendo tudo.
        Apolnia, agora, estendera o seu corpo sobre o dele, rosto molhado
sobre o peito, os cabelos longos tapando-lhe a respirao. Puxou-a
para si, braos cruzados nas costas magras, uma dor que sentia nas
entranhas, a bola de fogo expelida como um raio, o giro da terra e
das rvores, a escurido total, o grito da menina que o ensurdeceu
por momento. O desmaio repentino do corpinho molhado que tinha
entre os braos, a exausto, o choro fininho, lgrimas que caam do
rosto dela e que molhavam o seu peito ofegante.
        Ela escorregara para a grama spera, aquietara-se nua, um
brao ainda sobre ele, respirava forte.
-        H um grilo aqui perto - disse Philipp.
        Ela disse, h milhes de grilos por aqui. Por que ele no
contava alguma coisa da guerra, um soldado sempre tem o que contar.
Em quantos combates estivera, fora ferido alguma vez? Ele disse, eu
nunca estive na guerra, Moog  que inventa essas coisas. Sabe, eu
mal passei dos vinte anos e eles no aceitam rapazes na guerra.
      -No faz mal, eu gosto de ti assim mesmo. Se eu tivesse um
filho, algum dia, ele nunca iria para a guerra.
        Philipp pensou num filho. E se dali sasse um filho? Ela estaria
falando num filho dos dois? Ficou aterrado.
      - Achas que deixei um filho dentro de ti?
        A menina riu baixinho, que idia! s vezes ficava numa mesma
noite com trs homens e nunca ficara esperando filho. Certa vez seguiu


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um regimento que ia na direo de Porto Alegre, junto com muitas
outras mulheres, s para divertir os soldados nas noites de
acampamento. Mas as outras tambm saqueavam os soldados mortos e eram
corridaS a chicote pelos oficiais e pelos sargentos, terminou voltando.
No valia a pena, tinham que comer as sobras dos paneloes virados
no campo, eles nunca tinham dinheiro para pagar e se no remexessem
nos bolsos dos mortos voltavam como tinham seguido. Philipp
perguntou a ela se achava que a guerra estava por acabar, falavam muito
nisso, se dependesse dele, podia estar certa, cada um voltaria para a
sua casa, iam plantar, criar os bichos, a colnia j nem tem o que
comer, pouca gente a plantar, ele bem que sabia de tudo.
        - Sei l - disse ela - em tempo de guerra  quando h
soldado e quando no se arruma dinheiro pelo menos um pouco de
comida sempre aparece.
        Philipp ento procurou as calas, vasculhou um dos bolsos, tirou
dele algumas moedas, guarda estas para ti. No adianta, disse ela,
a velha me toma tudo. Esconde aqui por perto, olha, debaixo desta
pedra, aconselhou ele.
        - Pois vou tentar fazer isso.
        Beijou as suas mos, seus braos, seu peito, recomeou a
apalp-lo de leve, disse que ficava muito contente porque ele havia
gostado dela, que ainda a estava querendo, olha aqui, no adianta dizer
que no, deitou-se de costas, puxou-o para cima de si, ela fremia,
movimentava-se, ele sentia o gosto de barro e de capim, esmagava a
pobre menina sobre a terra.
        Algum tempo depois, enquanto ele vestia a camisa, ela chorava e
pedia que ele no fosse embora. Era como se ele fosse o pai que ela
nunca tivera.



2 As janelas abertas para o dia ensolarado, l embaixo as guas
do Guaba, mais parecendo uma grande e serena lagoa, Grndling
sentado numa das poltronas de braos pudos, Albino sentado
sobre os seus joelhos, cabelos compridos, um rapazinho, camisa de
seda palhinha, calas justas, curtas, presas  altura da barriga da
perna, ps descalos.
        Numa outra poltrona Jorge Antnio vestido a rigor, suor
escorrendo pelo rosto bem feito, cabelos penteados, imvel, exceo dos
olhos angustiados que iam do pai para o pintor Cmara, este a
executar com esmero o seu retrato a crciom, volta e meia a pedir
aprovao de Grndling que se mantinha calado, atento, pensamento a
voar pelo tempo, o nariz era de Sofia, as orelhas pequenas, o jeito
de sorrir, muitas vezes a postura ao sentar-se.


                                     125


        Reparava no retrato, Cmara acabando, a esfuminho, o
sombreado do rosto sob os cabelos, os olhos j bem vivos e brilhantes.
      - Est bastante parecido. O senhor no acha que falta
qualquer coisa na boca, no sei, talvez no queixo?
        O        artista ouviu calado, levantou-se, permaneceu um momento
afastado, olhos espremidos a analisar o retrato e o modelo, tornou a
sentar-se, apagou alguns detalhes da boca, recomeou a desenhar, a
mo gil, Grndling admirado com o seu engenho, era homem para
estar na Corte, retratando as grandes damas do Pao, o imperador, a
reproduzir os ricos mantos de seda e de brocados. E l vegetava o
infeliz a pintar panos de boca de teatrinhos de segunda categoria, ou
paisagens das cercanias, os remansos de Itapu, os negros da Rua da
Praia, os seus balaios, as meias de velhos sobrados.
      - Agora sim, acho que acertou em cheio,  bem a boca de
Jorge Antnio, ele est muito parecido.
        O        menino mantinha-se espigado na poltrona. Perguntou se j
podia sair daquela posio e olhar o trabalho.
      - S o professor poder dar licena - disse o pai.
        O        desenhista consentiu prestimoso, o menino pode levantar-se
quantas vezes quiser, o senhor seu pai foi quem achou melhor manter-se
a o tempo todo, eu sei, essas posies cansam at mesmo as pessoas
adultas. Jorge Antnio no entendia o que o pintor falava, Grndling
disse a ele que podia sair da cadeira, que ficasse  vontade. Ele correu
para a frente do retrato, ficou algum tempo pensativo, surpreso,
voltou-se para o pai:
      - Parece o retrato de outra pessoa.
        Grndling no respondeu, continuou de olhos fixos no desenho,
depois disse como se estivesse falando com algum que no estivesse
ali na sala: um bom retrato, os mesmos olhos, a mesma boca, um
trabalho digno de ser assinado por qualquer grande pintor. Era Sofia
retratada, o rapaz tinha os seus traos e se fosse uma pintura a
cores os olhos teriam aquele mesmo azul transparente, translcido,
o formato alongado que lembrava os velhos ancestrais europeus.
        Disse ao artista, meus cumprimentos, est um belo trabalho, o
menino gostou muito dele. Volte amanh, ser a vez de Albino, vou
mandar prepar-lo como convm. Meteu a mo no bolso e entregou
a Cmara um punhado de moedas, depois acertamos o preo final, isso
 s para comprar mais material e beber alguma coisa fresca contra
esse calor. O pintor agradeceu e perguntou se podia deixar tudo ali,
como estava, assim ganhava tempo no dia seguinte.
      -Mas  claro, os rapazes no tocaro em nada.
        Naquela noite esperou ansioso que os filhos fossem para a cama,
que a negra Mariana terminasse de arranjar os trens da cozinha e


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que Frau Metz apagasse o candeeiro de seu quarto. Colocou o retrato
recm-feito entre dois lanipioeS, ajeitou-se na poltrona, garrafa de rum
 mo, tirou as botinas e acendeu um charuto.
        o        rapaz ficara levemente diferente, mas era ele, a cara mscula
conciliando os traos duros com os olhos de Sofia, com as curvas dos
seus lbios. Mandaria, pelo primeiro navio, as medidas para
encomendar uma bela moldura trabaLhada, folheada a ouro, num
especialista do Rio, quem sabe uma moldura oval. Dependuraria o quadro
entre o relgio parado e a janela. Do outro lado ficaria o retrato de
Albino, ao lado do armrio com cristais. Encheu o copo, olhou a
bebida contra a luz, experimentou o seu paladar, estalou a lngua.
Fazia muito calor, mariposaS entravam pelas janelas e vinham morrer
 boca das mangas lavradas dos lampies belgas. Havia luar, chegava
at ali o cantocho dos negros em algum terreiro prximo.
        Jorge Antnio de expresso serena, a gola rendada emergindo
do veludo negro do casaco, a fileira de botes de madreprola em
casas bordadas. Esta  Sofia, padre, minha mulher. Padre Nunes de
Souza, morto por um coice de mula no adro de sua igreja de So
Leopoldo. Ele falara, naquele dia, nas boas prolas compradas por um
comerciante, uma delas seria a sua mulher, ele deixara a frase
bonita inscrita num livro, onde andaria o livro? No ligue para os
tapetes, padre. Sim, chovia muito, o homenzinho calara os seus
chinelos. Sulzbach, Zimmermann, Schilling, Tobz, ora vejam s, a
senhora Izabela com o seu grande chapu de feltro, as enormes abas
sacudindo como copas de rvores  brisa, o decote exagerado, o
par de seios murchos da pobre Izabela que havia deixado, naquele dia,
as suas mulheres entregues ao deus-dar. Sofia entrando como uma
rainha na sala, os belos ombros nus, o vestido mandado de presente
pelo seu bom amigo Schaeffer, as flores de laranjeira, a saia
armada com crinolinas, longa, at os ps. Sofia grvida de Jorge
Antnio, a saia aberta nas costas, a voz pesada do padre, estamos aqui
reunidos para unir pelo Sagrado Matrimnio da Santa Madre Igreja,
Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Grndling, solteiro,
catlico, alemo. As mariposas batendo no seu rosto, presas ao suor
viscoso, debatendo-se em desespero, a algaravia dos negros agora mais
forte, Sofia Spannenberger, de pais luteranos, quem seriam eles? a
Igreja concede dispensa a casamento entre catlico e no-catlico,
desde que haja para isso razes fortes. Riu-se para o rapaz imvel no
quadro, bebeu um grande gole. Sofia balbuciando um fraco e hesitante
"aceito", depois im Namen des Vaters, des Sohnes und des heiligen
Geistes, amm. Agora me tragam o meu vinho-do-reno especial, da
regio do Mosela, do Sarre. A porta do quarto aberta com o p, a
casa silenciosa, Sofia se desfazendo da grinalda, as mos dele arre-


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bentando as casas, os botes saltando, ela a dizer "o meu amor comeu
tanto", os seios nus, ele passando a boca semi-aberta pelos bicos
arroxeados. Hoje  a nossa grande noite; no, a grande noite havia
sido aquela outra, quando acabavam de voltar do teatro, ela despida
sobre os seus joelhos, outras noites, outros dias, trancados naquele
mesmo quarto, ah, nem todos os matemticos do mundo seriam
capazes de contar a durao exata de cada minuto, de cada segunndo
daquelas horas que escorriam como azeite dentro do tempo, os dias
chegando e sumindo sem que as suas luzes atravessassem as portas
e nem as janelas do seu reduto. Bom trabalho esse seu, mestre
Cmara, os olhos do menino so os olhos dela, a boca, o nariz. Cuidado,
meu amor, com o beb. Pois Mestre pintor, parabns pelo retrato
do beb que sara do ventre de Sofia, ela ainda viva e palpitante,
meiga e suave, uma Sofia que nem ele prprio chegara a conhecer
integralmente. Sua imagem escorria por entre os seus dedos como
gua da fonte. Sofia imersa no quarto em penumbra, a luz lhe fazia
mal aos olhos, pois vira o rosto para o outro lado e escuta a carta
que acabo de receber do nosso grande amigo Schaeffer, na verdade
eu no posso te mentir, ele morreu, coragem, no quero que chores. O
Dr. Hillebrand e a sua velha maleta-de-fole, interrompeu a leitura,
bateu nas suas costas, Herr Grndling, lamento muito, sua esposa
est morta h quase meia hora. E que sabem os mdicos a respeito
da morte e da vida? Pois Sofia continuava ali, viva integral, ela o
olhava amorosa e serena atravs dos olhos escuros, do rosto negro,
da sombra disforme de Jorge Antnio grudado naquele papel onde as
mariposas batiam ruidosamente, suicidando-se.
        A garrafa de rum cara das suas mos, o copo estava cheio de
mariposas, a noite continuava quente e abafada, nenhuma aragem, nem
a mais leve brisa que fosse.
        Pois mestre Cmara, volte amanh, sem falta, o meu pequeno
Albino estar ali naquela mesma cadeira, imvel, fixo no tempo,
imorredouro.



3 Grndling sara, mas tivera o cuidado de deixar sobre a mesa uma
garrafa de aguardente velha para o mestre inspirar-se. Albino
substituir o irmo, a mesma pose, a mesma altivez. Frau Metz
cuidara bem da roupa, uma camisa branca engomada, gola de bilro,
penteara os cabelos longos e sedosos do menino. A negra Mariana
espiava da porta dos fundos e admirava Albino como um dos
anjinhos da Igreja de Nossa Senhora do Rosrio, to alvinho, to cor-de-
rosa, fraquinho e desprotegido. O artista trabalhava com rapidez e


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inspirao, j tinha a figura quaSe toda esboada, detinha-se agora nos
olhos, temia que Herr Grndling chegasse naquela hora, na certa
comearia a fazer observaeS num trabalho que mal se iniciara.
Suspendeu o desenho apenas para um gole de aguardente, dava um passo
atrs, ganhava perspectiva, corria a retocar, a esfumar, corrigia
traos. Depois de um gole entreviu no ptio o outro irmo, brincava
com bugigangas, e sem saber por que, ficou com pena dos dois
alemezinhos, sempre confinados naquele velho casaro, longe dos
outros meninos, entregues aos cuidados daquela negra velha que mal
conseguia arrastar os ps no assoalho de largas tbuas, arredios s
ordens severas da gorda governanta, sempre a rondar pela casa, as
chaves todas dependuradas na cintura, a tilintarem a cada passo. Ento
sorriu para Albino que retribuiu timidamente. No se compreendiam,
falavam lnguas diferentes. Para corrigir a posio do menino fazia
gestos ou assumia a posio do modelo. Trabalhava agora na boca,
logo depois no nariz, os irmos se pareciam, s vezes Lhe parecia estar
repetindo o desenho da vspera.
        Ouviu quando Grndling entrara pelo porto das caleas, a sua
voz forte falando com o filho mais velho. Com ele um amigo. Seus
passos ressoaram fortes na escada dos fundos, logo a seguir irrompeu
na sala, ruidoso, dirigiu-se para o amigo que seguia atras, veja aqui,
Tobz, mestre Cmara trabalha na sua outra obra-prima, deixei uma
garrafa para aumentar a sua inspirao. Notou que ela estava a menos
da metade, exclamou fingindo consternao:
      -Mas o meu caro professor est desenhando ou apenas
matando a sede?
        Cmara sorriu, no diga uma coisa dessas, Herr Grndling, em
primeiro lugar a minha arte. Grndling encaminhou-se para Albino
que permanecia. impassvel, movendo apenas os olhos. E como est
se portando esse modelo? Vamos ver aqui de mais longe, o professor
acha que se deve olhar  distncia. Caminhou at a janela, ladeou
ligeiramente a cabea, examinou bem o trabalho, pois devo dizer que a
coisa est melhor do que eu pensava. Cmara a dizer que o retrato
recm estava comeado, no se podia fazer uma idia desde logo.
- Veja aqui, Tobz,  o meu Albino em pessoa. Vou mandar fazer as
molduras no Rio, assim ovais, revestidas de ouro em folha, quero
Ornatos executados por mos de mestres.
Bateu palmas, bebida para dois, ningum consegue agentar mais
esse calor, ainda se chovesse, v l. Tirou o casaco, desapertou o
colarinho e, como fazia sempre, o seu cacoete de atirar longe as
botinas. Puxou Tobz pela manga, veja aqui o meu Jorge Antnio, re-


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trato feito ontem mesmo,  ou no  um artista que devia estar na
Corte, ganhando a peso de ouro? Tobz exclamou, admirado:
-        Est uma perfeio,  o menino em pessoa.
      - Um homem  o que ele  - disse Grndling enchendo os
copos - e cada dia se parece mais com a me. Veja os olhos, a
boca.
      - Pois acho o rapaz mais Grndling - disse o outro admirando
o retrato. - Para mim, parecido com a me, se me permite,  este
que a est, e tem muito pouco do pai.
      - So opinies - disse Grndling sentando-se na sua poltrona
predileta - mas no fundo os dois se parecem demais com a me.
        Fez sinal para o artista, que continuasse o trabalho, que no
ligasse para a presena deles ali, queria era o retrato pronto o mais
breve possvel. Albino como que petrificado, sentia-se invisvel na
grande sala, adivinhava apenas o que o irmo estari fazendo no ptio,
uma dor aguda nas costas da posio incmoda, empertigada a que o
forara o desenhista. Grndling e Tobz admirando a percia de
Cmara, o rascar nervoso do creiom sobre o papel spero, de vez em
quando o retinir de copos, o zunir das asas das grandes moscas que
entravam pela janela, importunando o modelo.
      - Pois ento D. Pedro II j pode ser imperador - disse
Grndling sorrindo.
      - Pois fiquei sabendo disso ontem, pelo foguetrio -
respondeu Tobz.
      - Para mim ele vai terminar com essa guerra, isso no interessa
nem a ele, nem  Corte, nem aos rebeldes.
        Os dois se encaminharam para uma janela, garrafa em punho,
Grndling denotava preocupao com algo que o outro no sabia bem
o que fosse. Esse novo Presidente, o tal de Marechal Soares Andria,
no vai conseguir nada e nem esse deputado que veio da Corte para
tentar a pacificao. Vo dar com os burros ngua. E alm do mais
no querem abrir o caminho do Rio dos Sinos, mal se consegue, na
calada da noite, fazer passar um lancho com carne de porco e
alguma fruta. E isso mesmo nem est vindo, Catarina  mulher de
cabea dura, j mandou avisar, se no mandamos mercadorias em
pagamento ela no abre mo de um nabo. O emprio aqui quebrado,
j tentei passar alguma coisa por Itapo, mas os desgraados no
fecham os olhos nem para dormir, essa maldita esquadra imperial a
rondar sem descanso. Veja aqui, Tobz, mais seis meses assim e
ficamos sem dinheiro nem para a comida. O outro mostrava-se
preocupado, atento. Acho que Herr Grndling est exagerando um pouco,
 claro, a situao no est boa e isso ns todos enxergamos, mas


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um jeito qualquer se termina dando, j samos de situaes bem
piores. Grndling caminhava agora de um lado para o outro, mos s
costas, pois prefiro morrer na misria a ter que pedir qualquer coisa
para quem quer que seja; prefiro meter tudo isso aqui de dentro
num navio e me tocar para o Rio de Janeiro, l o campo  maior, 
um comrcio atrasado, s de portugueses e mestios.
        Tobz virou-se para o interior da sala, ficou olhando para tudo
como a avaliar as coisas, pensativo.
        - No sei, no. Desconfio de que na hora de encaixotar essas
coisas muita gente que eu bem conheo vai pensar duas vezes.  uma
casa que no se larga como uma camisa usada.
        - No  bem assim - disse Grndling - quando a gente leva
as coisas que esto dentro de uma casa, leva tambm todas as
recordaes que nela existem. As recordaes, meu caro, a gente carrega
aqui no peito, ou aqui na cabea.
        Mestre Cmara afastara-se do quadro, estudava, torcia a cabea,
cerrava os olhos.
        - J terminou?
        Ele disse que no, faltava ainda muita coisa, algumas sombras,
no estava gostando do cabelo, a camisa estava apenas esboada,
no tinha volume.
        Grndling concordou. No seria melhor prosseguir amanh? A luz
j est ficando fraca.
        - Era o que eu ia dizer, Herr Grndling.
        S ento o pai falou com o filho: cansado? Pronto, vai esticar
as pernas e os braos com o teu irmo, mas antes tira esta camisa,
ela deve ser usada ainda amanh. O menino saiu devagar, estava com
os musculos entorpecidos, Frau Metz surgiu, passou a ajud-lo a
despir a camisa engomada. Mestre Cmara tomou um ltimo trago, hoje
no foi de todo mau, modstia  parte, eu estava inspirado, confesso
que isso no tem acontecido muito seguido; sabe como , o artista
depende de sua inspirao, no  como os demais trabalhadores, a
inspirao  a nossa matria-prima. Fez sinal de que ia deixar tudo,
novamente, acenou mudo e saiu. Tobz disse que tambm precisava
ir embora, no andava com a sade muito boa ultimamente, Sentia
palpitaes, dores no peito, mos formigando. No podia adivinhar o
que fosse.
        - Falta de bebida - disse Grndling.
        - Ou bebida demais - respondeu Tobz, j descendo a pequena
escada da frente.
        Grndling bateu palmas para dentro, gritou que precisava comer
mais cedo, ia sair.


131


4 Catarina arranjou as coisas de Philipp sem proferir uma palavra.
Se o filho devia retornar  guerra, depois de todo aquele passado
junto da famlia - com as tropas passando, muitas vezes, pelas
proximidades da vila - ento era porque o seu destino era aquele
mesmo, era a vontade de cima. Emanuel encilhava um cavalo,
enquanto Juliana preparava, com habilidade, um caf quente, guiando-se
pelos olhos das mos. Daniel Abraho deu ao filho um exemplar da
Bblia, a sua prpria Bblia, no devia separar-se dela em nenhum
momento.
        Montados nos seus cavalos, os companheiros de Philipp o
esperavam na frente da casa. Frederico Bornemann, de grande chapu
negro de abas largas e poncho cor de caf, rodeado de franjas. Joo
Franke, de bon, botas de couro cru. Jorge Lemmertz, marido de
Elisabeth Kuwer, viva de Altenhofer, morto em combate ao lado dos
farroupilhas. E ainda Martin Luft, recm-sado da cadeia, com as
marcas do aoite no rosto crestado pelo tempo.
        Juliana veio trazer caf para o grupo, Emanuel alcanou a
caneca para cada um deles, depois ela sentou-se perto deles, perguntou
para onde iam, pois falavam que a guerra j estava perto de acabar,
falava-se em armistcio.
      -No acabou, no - disse Franke - isso  boato dos
legalistas para a gente abandonar a luta.
      - E agora, vo acompanhar Bento Gonalves? - perguntou
Emanuel que se aproximara da mulher e pegara de sua mo.
      -No - disse Lemmertz - vamos nos encontrar com o
comandante Jacinto Guedes.
      - O mesmo que j bateu o legalista Alves Pereira - acrescentou
Luft com orgulho.
        Philipp beijou Catarina na testa, abraou o pai e Emanuel,
despediu-se das crianas, Carlota j uma mocinha de seios salientes sob
o vestido de algodo descolorido. Depois acercou-se de Juliana, pegou
das suas mos, vou deixar o Emanuel entregue aos teus cuidados,
fiquem descansados, ns voltamos logo.
      - Estou com medo - ela disse, agarrando-se ainda mais a
manga de Philipp.
        Ele sorriu, desprendeu uma das mos, alisou o cabelo dela, isso
no  coisa que a mulher de um farrapo diga na frente de tanta
gente, podem pensar que  verdade.
        Todos riram. Catarina continuava de longe, encostada na
portalada da oficina, o pequeno Jacob, j pelos seus nove anos, agarrado
na sua saia como fazia antigamente Mateus, agora segurando faceiro
as rdeas do cavalo do irmo que ia partir para a guerra.
        Todos montaram, os cavalos nervosos, a escarvar o cho de terra


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batida, Philipp empunhando uma velha espingarda de muitas
batalhas, abanou para a me que parecia de pedra, fisionomia
impassvel, disse adeus para Juliana, esporearam os cavalos e partiram.
        Depois de breve e afoita correria, estugaram o passo dos cavalos.
Bornemann aconselhou cautela, seria uma viagem demorada, o
principal era poupar a cavalhada. Luft perguntou a Philipp como ele se
sentia ao retornar, depois de tanto tempo, para a guerra; no estava
com medo de no voltar mais? Philipp encostou o seu cavalo na
montaria do amigo, se estivesse com medo no tinha vindo, bem que
poderia ter ficado em casa, ajudando na oficina, fazendo o que tinha
de fazer, ningum ia para a guerra obrigado. E ele, como se sentia?
Luft sorriu desajeitado, estou para o que der e vier. Fez uma pausa,
disse: estou com medo de que esta luta acabe antes de se encontrar
o comandante Guedes, os soldados que vieram dos lados de Porto
Alegre garantem que a paz est para ser assinada nestes dias, hoje ou
amanh, quem sabe dentro de uma semana; vai ser o trabalho de ir
e de voltar com o rabo entre as pernas.
        Philipp gritou que no acreditava em conversa fiada e que cada
um fosse disposto a dar tiro, se quisesse voltar vivo para casa. Depois
perguntou se todos haviam trazido provises de boca.
        - Pega-se por a - disse Lemmertz.
        Ento ele levantou bem alto um embornal de pano grosso:
        - Minha me e Juliana botaram comida aqui dentro que d
para todos os homens do Comandante Guedes pelo prazo de um ano.
        Houve uma alegria geral, Franke sugeriu se no seria o caso
de fazerem o primeiro acampamento e dar cabo de uma pequena parte
das provises de Philipp. Ento eles deram gritos de guerra, apoiavam
a idia do primeiro acampamento.
        Philipp prosseguiu a passo, distanciou-se dos outros, disse sem
voltar-se:
        - Pois acampem, eu desejo felicidades.
        Esporeou o cavalo e partiu a galope. Eles tinham hora certa para
encontrar o grosso das tropas.



5 Era um sbado, manh cedo. Mestre Cmara viera concluir o
retrato de Albino, trabalhara com afinco, aplicara-se no
acabamento da obra. Grndling, depois de haver recebido o trabalho
Como concludo, mandou que Cmara os colocasse lado a lado sobre
Uma grande cmoda. Apertou a mo do artista, passou-lhe o dinheiro,
e agora fica para almoar comigo, mandei preparar algo especial
para assinalar o dia de hoje. Acanhado, Cmara esquivou-se, tinha um


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compromisso para a tarde, precisava ainda fazer muitas coisas,
pequenos detalhes a tratar.
        - Pois se so pequenos detalhes podem muito bem esperar. O
senhor fica para almoar, precisamos conversar,  de seu interesse,
estou certo disso.
        Cmara acedeu, meio assustado, sentou-se atabalhoadamente 
mesa,- sempre a pedir desculpas, no sabia o que conversar com o
dono da casa que parecia inteiramente alheio  sala quente, distante
daquela mesa, a dizer coisas disparatadas, sem nexo, no ouvia e
nem respondia ao que o artista falava. A negra Mariana levou as
travessas e trouxe, por ltimo, um licor preparado por ela mesma, com
folhas de anis, O desenhista bebeu o licor esverdeado, estalava a
lngua, arregalava os olhos, nunca tinha provado coisa igual em toda a
sua vida. Temeroso, observava Grndling que monologava e que nem
tocara na bebida. Cmara levantou-se, respeitoso:
      - Bem, agora, se me d licena...
        - Sente-se - ordenou o dono da casa, batendo com a mo
espalmada sobre a mesa.
        Grndling ficara vermelho, depois sorriu olhando em redor, como
se estivesse cercado por muitas pessoas; o artista deixou-se escorregar
para a cadeira, novamente, mos tranadas sobre o joelho.
      -Mas eu j almocei, j terminei os trabalhos, o senhor j me
pagou, e muito generosamente, no .......
- Cale-se.
        O homem sentia o suor escorrer testa abaixo e nem se valia do
leno, atnito, surpreso, estaria Grndling bbado? Ele no raro se
excedia na bebida e os amigos  que sofriam com as suas grosserias,
com a sua prepotncia. Ficou calado, olhando para o cho. Grndling
comeou a caminhar para l e para c: ento o senhor j terminou
os seus trabalhos, j recebeu o seu dinheiro e j almoou, pois no.
Nisso estamos de acordo. Cmara conseguiu articular um apagado: 
o que estava dizendo ao senhor, Herr Grndling.
      -Mas agora venha c, junte as suas bugigangas, pegue de todos
esses papis, esses carves, o cavalete, e me acompanhe.
        Cmara obedeceu sem pestanejar, suas mos tremiam, teria
enlouquecido o homem? O dono da casa encaminhou-se para o seu
grande quarto batido de sol, os vidros coloridos das janelas enchendo
de tons alegres o cho de madeira.
      - Ento? Trouxe as suas tralhas todas? Arme esse cavalete,
prepare o papel, pea a Deus inspirao, o senhor vai comear o trabalho
mais importante de sua vida.
        Foi at a porta, gritou em alemo para dentro, queria silncio,
que ningum incomodasse, que tomassem conta das crianas.


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Dirigiu-se  Frau Metz, olho vivo no trabalho da negra Mariana, aquele
diabo estava ficando caduca ou de miolo mole: trate de cuidar da
casa. Fechou a porta, deu duas voltas na grande chave, colocou-a no
bolso da cala. Abriu o guarda-roupa que ocupava quase toda uma
parede, tirou dele dois clices de cristal e uma garrafa de conhaque
ainda fechada. O senhor vai sentir, agora, um aroma dos deuses, um
pcrfume digno dos reis, pegue este clice, cuidado, no quero que perca
uma gota,  a nica garrafa que resta em todo o Brasil, se o imperador
mandar algum vasculhar a sua adega no encontrar bebida igual.
        Cmara segurou o clice, mos trmulas, devagar Herr Grndling,
no gaste cera to boa com defunto to ruim, eu no mereo isso,
poupe para os seus amigos. Olhava para ele como a querer apreender
seus traos principais, Grndling preparava-se para ser retratado,
tinha os olhos pequenos demais para o tamanho do rosto, a barba
redonda, o cabelo solto, nariz grosso e ventas largas; na certa ele
gostaria de figurar entre os dois filhos, uma galeria de toda a famlia,
pensou na encomenda de mais uma moldura folheada a ouro, cimeira
de inflorescncia majestosa, dois arremates laterais em forma de fita,
ele de trs-quartos, sobre o peitilho da camisa bordada uma gravata
plastro, luzidia.
      -Muito bem, arranje as suas coisas e pea a Deus que o
ilumine.
        Ofereceu uma cadeira ao artista, sentou-se num canap forrado
de palhinha, tirou as botinas, enxugou o suor do rosto com um grande
leno quadriculado.
      - O senhor prefere de frente ou de trs quartos? - perguntou
Cmara.
      - Como achar melhor, pode ser de frente, no, acho que assim
meio de lado, mas pouca coisa, no muito, o suficiente para se ver
a curva do nariz, a forma do queixo.
      - Ento trs quartos, Herr Grndling, acho a melhor posio
para um retrato.
        Grndling deixava o pensamento voar, um retrato para a
posteridade, um belo retrato, o rosto de algum que fora gente no meio
de mestios e de negros, que tivera dignidade no meio de tanto
servilismo. No canto direito, embaixo, a assinatura do artista e a data.
No, a data no. Um retrato sem poca, sem tempo, pintado no
sculo dezenove como poderia ter sido pintado um sculo antes, quem
sabe dois. O tempo no interessa mais. Voltou  realidade:
      - Importa a data de um quadro?
        Cmara foi apanhado de surpresa enquanto preparava o seu
material e observava os traos mais caractersticos de Grndling.
      - A data?


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      - Sim, importa a data num quadro? Onde anda o senhor com
a cabea que no ouve o que a gente fala? Quero saber se botar
a data em que um quadro foi feito  importante, se  indispensvel.
      - Bem, a data quase sempre  importante, pelo menos o ano
em que foi executado. No dos meninos, por exemplo, eu escrevi 1840.
Posso escrever a mesma coisa no seu. Ou prefere no botar data
nenhuma? - fez uma pausa, confuso - o senhor  quem manda,
Herr Grndling.
        O        dono da casa ficou quieto por alguns momentos, bebeu
lentamente um gole de conhaque, aspirando o seu perfume, fez um sinal
para que o artista sentasse: vamos comear.
      -Mas eu pediria ao senhor que viesse um pouco mais para a
luz, est quase no escuro, assim eu no vejo bem as suas feies.
Por favor, Herr Grndling, puxe a sua cadeira um pouco mais para
aqui.
        Grndling no ouvia. Pois comece de uma vez, homem, o que
est esperando? Oua bem, preste ateno, faa um rosto oval, sim,
oval como o de Albino. O nariz pode ser quase o mesmo, um pouco
mais fino na parte de baixo, as mas do rosto mais salientes, sim,
pouca coisa mais. Parou de falar, olhou para o artista que permanecia
quieto, sentado na ponta da cadeira, olhos muito abertos.
      - Que est esperando para comear?
      - Herr Grndling, por favor, no estou entendendo.
      -No precisa mesmo entender, no quero que entenda coisa
nenhuma, faa o que estou mandando, vamos, comece, estou pagando
para que faa o retrato e no para perguntar.
      -Mas comear o qu, Herr Grndling? pelo amor de Deus.
        Viu espantado quando ele caminhou em sua direo, olhos
esbugalhados, as suas mos de ferro pegando a camisa de algodo que
rasgava, o seu bafo quente de conhaque.
      - O retrato de Sofia, quero um retrato dela, quero Sofia viva
para ficar entre os seus dois filhos, e faa um retrato maior para
moldura redonda, larga, trabalhada,  isto que estou mandando fazer,
Herr Cmara, ou quantas vezes quer que eu repita isso? ou s as
coisas que se manda fazer a chicote, como os negros,  o que o
senhor entende? Um retrato de Sofia para ficar ao lado do relgio dela
para que s ela oua o carrilho marcando as horas, entendeu agora,
Herr Cmara?
        Largou o homem que caiu trmulo sobre a cadeira, limpou as
mos, bebeu mais, comece de uma vez antes que eu perca a pacincia,
j disse, rosto oval, o nariz como o de Albino, vamos!
        Cmara segurava a camisa rasgada, sentia-se febril, estmago
contrado.


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      - O senhor no ter, por acaso, algum retrato dela, mesmo que
no seja muito bom?
      -No. Comece a desenhar.
        Ele obedeceu, virou-se para o papel branco, levantou a mo
trmula, traou riscos no ar, a seguir comeou a traar de leve, fino,
um oval de rosto, a forma aproximada do que poderia ser a cabeleira,
base do pescoo, uma gola apenas sugerida. Parava, de vez em
quando, para observar as reaes de Grndling. Ele disse: assim, agora
o nariz e os olhos, no, um nariz mais fino, os olhos maiores. Cmara
esforava-se para imaginar uma mulher bonita, de feies delicadas.
Aumentou um pouco os olhos, traou uma boca delicada, lbios
arqueados. Grndling deu um soco na perna, assim, a boca  quase esta
mesma, os lbios inferiores mais carnudos, pouca coisa mais, vamos;
agora reforce as sobrancelhas, com cuidado, trabalhe, homem, trabalhe.
        Parecia possudo por mil demonios, por que Deus nao lhe dera
o dom do desenho, das artes? Traaria o retrato de Sofia viva,
palpitante. Bebeu outro gole. Cmara prosseguia, s vezes hesitante, outras
vezes decidido, procurava lembrar-se dos traos dos filhos,
acrescentava aqui e ali algum detalhe mais pessoal de Albino, a implantao
dos cabelos, os zigomas, fez os cabelos longos, depois parou,
extenuado.
-        No posso, Herr Grndling, simplesmente no posso.
        Largou o lpis, levantou-se, estava decidido a sair, ir-se embora,
aspirar um pouco de ar fresco, sufocava naquele quarto fechado.
Grndling pulou em sua direo, o senhor est muito enganado se pensa
que vai abandonar a obra recm-comeada, no pense em sair deste
quarto enquanto no terminar definitivamente este quadro, entendeu
bem? enquanto no terminar este quadro vai continuar sentado nessa
cadeira, trabalhando, ouvindo com ateno o que digo. Volte para seu
lugar, no me faa perder a pacincia.
        Frau Metz ouviu os gritos do patro, acercou-se da porta:
-        Precisa de alguma coisa, Herr Grndling?
      - Suma-se, j disse. Dei ordens para que ningum me
incomodasse, suma-se!
        Cmara ouviu o ruflar dos ps da velha fugindo corredor a tora.
Ficara mais uma vez sozinho e abandonado com aquele alemo de
quase dois metros de altura, barba agressiva, olhos injetados, mais
parecendo um doido. Voltou calado para o seu lugar, recomeou,
retocava, apagava, corrigia pequenos detalhes, apagou os traos da
gola alta, Grndling gritou que seu vestido devia ser de brocado, com
decote grande e rasgado, parte dos seios  mostra. Sabe, Sofia tinha
belos seios, seios que nenhuma dessas megeras que o senhor conhece
jamais teve a ousadia de sonhar; pois faa um vestido como este


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foi at o guarda-roupa, abriu as suas pesadas portaS, arrancou de l
um cabide com um belo vestido azul, de pedrarias. Quero a gola deste
vestido que o meu velho amigo Schaeffer mandou de presente para
ela; Schaeffer tinha bom gosto, era homem acostumado s grandes
Cortes da Europa, no vivia afundado na merda desta terra de negros
e de escravos. Pois a tem o senhor o vestido. E o que mais quer?
        Cmara examinou bem a gola do vestido, o corte em ponta do
decote, retornou ao papel e reiniciou o trabalho, de vez em quando
conferindo os detalhes.
        - Isso, assim mesmo, agora o senhor est sabendo fazer as
coisas, comeou a entender.
        Cmara reclamou timidamente, estava ficando escuro, estava
vendo mal. Grndling comeou a acender os candeeiros de sobre as
mesinhas de cabeceira, levou-os para junto do artista.
        - Assim poder ver muito bem e se achar que ainda falta luz
mando buscar todos os lampies de Porto Alegre.
        Fez uma pausa, acercou-se do quadro, examinava-o com ateno,
virou-se para o artista:
        - Mas o senhor nem pense em sair daqui sem terminar o
retrato de Sofia. Est ouvindo bem? No sai daqui sem terminar a
obra.
        Cmara empenhava-se no acabamento do vestido, deixou livre o
pescoo esguio, no decote sombreou o par de seios, sabia que aquilo
seria de agrado de Grndling, exagerou os seus contornos. Ele
aplaudiu, perfeito, eram assim mesmo os seios de Sofia. Agora o rosto; as
linhas do queixo esto duras demais, apague isso. Vamos, faa
novamente. Assim, esta curva aqui um pouco mais atenuada, menor, isto, o
lbio superior mais fino. Saiba, Sofia tinha a boca mais bonita que j
vi em toda a minha vida.
        Esperou que Cmara completasse os retoques, aprovou, agora os
olhos, os traos esto muito duros, eles eram mais compridos,
alongados, assim, como os olhos de Albino.
        Voltou-se para beber mais, abriu a camisa no peito, sorriu
satisfeito.
        - Se for preciso ficaremos aqui toda a noite, todo o dia, outra
noite, tome nota disso, vamos ficar aqui neste quarto a vida inteira,
se for preciso. Portanto, continue.
        Frau Metz acercava-se da porta nas pontas dos ps, colava o
ouvido na madeira, ouvia Grndling a falar, comeava a perceber o
que estava se passando, o patro parecia enlouquecido, estava fora de
si, temia pelo infeliz do pintor preso naquele quarto, teve vontade de
bater de leve, quem sabe faria um caf forte para eles, servia alguma
coisa de comer, o pobre homem obrigado a desenhar o rosto de uma


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pessoa morta h tantos anos, nem mesmo ele, Grndling, conseguiria
lembrar-se em detalhes como fora o rosto de Sofia. Pensou em chamar
os amigos, quem sabe Tobz, ou Zimmermann, ou todos eles, o patro
bem que poderia terminar por cometer uma loucura com o infeliz
que se conServaVa mudo.
        O        dia amanheceu cedo, galos cantando forte pelas redondezas, as
crianas foram levadas para o quintal, Frau Metz movia-se com leveza,
nervoSa, preocupada, era preciso preparar um caf reforado e bater
na porta. Voltou a escutar, ouvia a voz autoritria do patro ainda
comandando o trabalho do artista, ele misturava improprios com
recomendaes, reparos, est fazendo os cabelos de uma prostituta, apague
isso de uma vez, no me faa perder a pacincia, vamos, assim, eles
descem pelo ombro suavemente, eu j disse mil vezes como eram os
cabelos de Sofia, no encubra a ponta da orelha, eles caem de leve
sobre a testa, isto, desenhe agora os brincos.
        Frau Metz retornou para os fundos, olhou pelos meninos, deu
ordens a Mariana.
        Grndling abriu uma gaveta, vasculhou diversas jias, voltou
triunfante, estes brincos, to fcil, coloque nela estes brincos, eram
os seus preferidos. Um breve silncio. Que est esperando? Tem os
brincos na sua frente, comece.
-        Posso descansar um pouco? - gemeu Cmara.
-        Depois, agora desenhe os brincos.
        Ele esmerou-se no trabalho, rosto junto ao papel, os arabescos
do brinco reproduzidos com fidelidade. Perfeito, gritou Grndling,
quando o senhor quer as coisas saem com as mos de artista. O outro
disse, com voz sumida:
      -Mas isso  uma coisa que eu estou vendo, Herr Grndling.
      - Pois continue, o que no enxergar eu vou descrevendo,  a
mesma coisa. Tome um gole para reanimar.
        Grndling mandou que ele sasse da frente, queria ver de longe
como estava ficando o retrato. Nada mau, mas ainda falta muita coisa,
precisamos trabalhar, agora Sofia comea a ganhar feies mais
parecidas com ela mesma, mas aqui nos olhos h qualquer coisa que no
est bem, esta sobrancelha um pouco mais longa, no escurea tanto,
ela possua uma pele branca como leite, rosada quando se emocionava,
parece que estou ouvindo a sua voz.
        Fez uma pausa, tornou a sentar-se, monologava. s vezes chego
a acreditar que ela vive, acordo de noite e sinto o seu calor, ouo a
sua voz, a mo dela nos meus cabelos, ela curvada, bordando,
contando pequenas histrias para Jorge Antnio dormir, sentada aqui 
beira desta cama. E para onde vo as pessoas que morrem? Sacudiu
a garrafa vazia, o meu caro artista terminou bebendo a garrafa inteira


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do meu melhor conhaque, mas no me importo. Meus parabns,
mestre Cmara, meus parabns, este  o retrato dela, agora com esse
fundo escuro os cabelos dela ganharam brilho, sua pele ficou mais
clara.
      - Herr Grndling, vou trazer um caf bem forte - murmurou
Frau Metz com voz apagada.
      - Desaparea daqui, sua megera!
        Ao cair da noite, a casa mergulhada em silncio, a porta do
quarto abriu-se lentamente, no se ouvia mais a voz de Grndling, o
artista surgiu l de dentro, trpego, passou como um fantasma pela
governante muda, no a viu, desceu os degraus da porta da rua,
movimentou o trinco e desapareceu.
        Quando a velha espiou a medo para o interior do quarto, viu o
patro estendido na cama, as roupas em desalinho, cabea afundada
no travesseiro, e sobre o cavalete, deslumbrante, luminosa, bela, Sofia
viva, seus tristes olhos sorrindo.



6 Somos quantos alemes, afinal? Franke no sabia e nem tinha
idia sobre isso. Nem Luft. Lemmertz afirmou que no passavam
de trinta, se tanto. Havia um tenente brasileiro que reclamara da
presena dos alemes, eles no precisavam de estrangeiros, os
imperiais iam continuar a dizer que os farrapos se valiam do brao
estrangeiro para combater o governo. Lemerrtz contou isso para Philipp
e perguntou: ento no era da gente voltar e desaparecer, eles que
se arranjem, que se matem.
        Philipp ouviu os comentrios do companheiro, no disse nada,
continuou no seu trabalho de tranar alguns fios da sincha velha que
se desfazia. Lemmertz provocou-o: ento, que me dizes disto? a gente
aqui arriscando a pele e esses mal-agradecidos a dizer que no
querem estrangeiros, no precisam de ajuda,  de mandar tudo longe.
Philipp ainda ficou mais algum tempo calado, depois disse:
      - Pois eu no sei o que eles dizem, no ouvi nada e se ouvisse
no entendia. No estou aqui por eles.
        - Olha, disse Franke, eles enchem a boca com essa histria mas
vai ali perguntar para o comandante se podemos ir embora? Luft
pediu para os amigos chegarem perto, queria contar a conversa que
tivera com o sargento Goltermann, era o comandante designado do
peloto, havia chegado dos arredores de Porto Alegre, estava bem
informado. Afastaram-se um pouco, olharam para ver se no haveria
algum por perto, ento Luft disse:
      - Chegou notcia de que a paz est por ser assinada.


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        - ConverSa - disse Lemmertz.
        - Pois garantem que  verdade e falam at que o Baro de
Caxias vai assinar pelo imprio, junto com Canabarro, pelos Farrapos.
        - E por acaso no teriam j assinado? - perguntou irnico
philipp.
        Luft riu meio sem graa, seria o cmulo a gente morrer numa
batalha depois de assinada a paz. Todos riram.
        Philipp voltou para junto dos seus arreios, pensou em Oto Heise,
no que lhe dissera o soldado Gottlieb, que o major fora tirado da
Presiganga, passara por vexames e depois fora jogado s guas do
Guaba com as mos amarradas s costas. Pensou com dio, rilhando
os dentes, era assim que os bandidos tratavam os combatentes
inimigos e ainda mais com um homem do prestgio e do valor de Heise.
As noites interminveis de marcha sob chuva e vento, o joelho amigo
e fiel de Juanito, a noite de Pedras Brancas, o olfato do ndio a
denunciar a presena do inimigo, a maneira resignada como suportava
o sofrimento, os pontaps, nem uma palavra de revolta, de dor, s
os olhos de cachorro, encolhido sobre o capim molhado, a respirao
ofegante, o temor de que Philipp sofresse alguma coisa, co-de-guarda
seguindo o seu rasto. Que teria acontecido a Juanito? os bandidos no
eram de abater um ndio com um tiro, isso era morte de soldado.
Como animal teria merecido morte lenta, tiros nos ps, nas mos,
pontaos de espada no vazio, relho de couro cru vergastando a pele
das costas, a sola das botas pisando o seu rosto. Lemmertz bateu no
seu brao:
        - Pensando em qu, meu velho?
        Ele voltou  realidade, havia mais soldados alemes por perto,
os homens preparavam os seus cavalos, vozes esparsas de comando,
incompreensveis para eles, que estava se passando? Aproximou-se um
graduado seguido de mais dois soldados, suas botas-de-fole eram
imensas, chegavam  altura dos joelhos, sobre os ombros um pala de cor
indefinida. Luft disse,  o Sargento Julius Goltermann, nosso
comandante. Philipp disse, j o conheo. Os cavalos estacaram, o
sargento gritou:
      - Preparar para montar, ateno rapazes, marcha batida dentro
de dez minutos.
        Passou por Philipp: meu amigo Jacobus, do Porto, me falou
de voc e disse que  um bom soldado. E fique sabendo que agora
vai comandar o seu grupo, cabo Philipp.
        Os outros esperaram que ele se afastasse, cercaram Philipp,
perfilaram-se em continncia com fingido ar marcial, cabo Philipp,
as suas ordens, morreremos em nome da ptria. Philipp girou a sincha
sobre a cabea, tentando atingi-los, eles correram e de l gritaram em


141


coro: cabo Philipp! Calaram-se, o sargento estava de volta, cruzou
por eles, no estou vendo ningum a preparar os cavalos, o que se
passa? Eles trataram de obedecer, o sargento deu uma cusparada no
cho, afastou-se novamente, arrastando as esporas na terra solta. Eles
se reagruparam, Franke disse: o sargento  duro mesmo, aqui o Luft
disse que j conhece histrias sobre ele,  um tipo meio maluco, briga
como vinte, diz que ainda chega a general se esta guerra durar mais
cinco anos. Lemmertz acrescentou, conheo Goltermann, fao votos
que chegue mesmo a general, vai ser o primeiro general analfabeto da
histria. Todos riram, Bornemann disse em voz baixa:
      - Pois se pensam assim, esto todos muito enganados. Sei por
boca de gente muito sria que mais da metade dos generais que andam
por a assina o nome em cruz.
        Trataram de preparar os cavalos, j colocavam os pelegos sobre
os lombilhos, mediam o comprimento dos loros, ajustavam os freios
e brides. Goltermann retornou, exigiu rapidez, que montassem logo,
formao por seis, revista do comando geral. Estabeleceu-se confuso,
gritos de tropeio, cavalos empinando com o freio nos dentes, soldados
tentando equilibrar-se nos arreios e embaraados com as lanas, outros
sem conseguir os ps nos estribos, o sargento a gritar histrico, por
fim ordenou:
      - Cabo Philipp, ponha os seus homens em forma!
        Alguns minutos depois o alto comando passava em revista as
tropas, montavam uns belos cavalos, vestiam uniformes e alguns
ostentavam dragonas douradas. Franke, ao lado de Philipp comentou:
      - Repara que eles esto com a cara assustada, o inimigo a
ser atacado chama-se Menna Barreto.
      - Eles so muitos?
      - E quem pode saber?
        Goltermann passou por perto, formar filas, silncio, no quero
nenhuma conversa, nosso peloto segue na vanguarda. Quando j se
encontravam em marcha Franke disse para Philipp,  sempre assim,
na frente devem ir os alemes, so os que morrem primeiro.
      - Carne para canho, como dizia o comandante Oto Heise -
disse Philipp.
        Naquele instante passavam frente ao comando geral que havia
se postado  margem, assistindo o desfilar da tropa. Jacinto Guedes
de cara fechada, atrs dele o Estado-Maior, alguns velhos militares
com espada desembainhada, longas barbas, Guedes com o peito
estufado, chapu duro de abas largas, grande leno em volta do pescoo.
Philipp cochichou para Bornemann: o homem me parece bom. O outro
disse, fao votos que estejas certo.
        O terreno para a frente era de grandes e suaves coxilhas, capo-


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netes, s vezes mato cerrado, sangas e riachos, um cu azul
pontilhado de lentos urubus. Luft olhou para os bichos, fez uma figa
para o alto: no contem comigo.
        Naquela noite acamparam no alto de um pequeno morro, os
alemes divididOS como sentinelas nas beiras dos caminhos, nos fios de
gua, distanciando-se tanto que chegavam a sentir-se sozinhos,
perdidos naquela imensido toda, solitrios, engolfados nos seus prprios
pensamentos.
        Philipp dispusera os seus homens, deixou que o seu cavalo
prosSeguisSe pisando macio na relva mida, no enxergava nada  sua
frente, boiava no meio da escurido, como Juliana, com a vantagem
de ser guiado pelos olhos do cavalo, como se fossem as mos dela,
geis, nervosas, tocando nas coisas, paredes, mesas, cadeiras, bancos,
tateando as pessoas e os bichos, ela sem olhos estendendo roupa nos
varais, passando roupa a ferro, pregando botes, penteando os cabelos
compridos onde se adivinhava j, aqui e ali, alguns fios brancos.
Emanuel sem tocar no assunto, sem falar na cegueira da mulher, paciente
quando ela esbarrava num lampio, espatifando-o no cho, numa das
vezes o azeite pegando fogo, passando para a barra do seu vestido.
Ele acorrera pressuroso a abafar as chamas com as prprias mos
que ficaram cobertas de bolhas, ele a dizer que no havia sido nada,
podia acontecer com qualquer um. Juliana dissera "eu no vi o
lampio" e Philipp lembrava-se agora que havia ficado muito
espantado, todos sabiam que ela estava cega e Juliana julgando que podia
esconder a verdade, s vezes dizia "eu ainda enxergo luzes, alguns
contornos, as sombras", mas Emanuel confidenciava, ela est
completamente cega, no tem mais cura.
        Deu de rdeas, perdido nos seus pensamentos, distanciara-se em
demasia, e se estivesse em campo inimigo? Sentiu que o cavalo
apressava o passo, viu ento que estava voltando, era deixar o animal
seguir. Naquele resto da noite mal chegou a dormir, foi sacudido por
Franke "cabo, os seus homens esperam pelo seu comandante". A
marcha reiniciou antes do sol nascer, as ltimas estrelas
desaparecendo, as brasas das fogueiras ainda vivas, homens e animais nervosos,
Goltermann na frente de todos, repetindo alerta, a coisa  para hoje,
rdea curta - e p firme nos estribos.
        O        sol do meio dia enchendo de claridade sinistra a aproximao
da tropa inimiga, as ondas de poeira bordando a barra do horizonte,
na distncia. Os oficiais que passavam a galope dando ordens, vozes
de comando, a cavalhada estendendo-se em linha dupla, o sargento
Goltermann de espada em punho, aos gritos que o seguissem, deveriam
fazer uma ampla manobra para cobrir os flancos, os soldados com


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arma de fogo avanaram, Jacinto Guedes sem abrir a boca, dando
ordens por sinais, logo depois avanando para a vanguarda, a galope.
        Quando as primeiras ondas de soldados inimigos chegaram mais
perto, Philipp notou espantado que eram diferentes de quase todos
os outros que conhecera, vestiam fardas e no trajes civis, as golas
vermelhas, seus comandantes com dragonas vermelhas e douradas,
lanas ostentando bandeirolas com as cores do Imprio, cavalos bem
aperados. Ao lado deles os seus companheiros pareciam um bando de
maltrapilhos. Eles eram lustrosos, tocavam cornetas de som claro e
estridente, as armas rebrilhavam ao sol e pareciam milhares, chegavam
em ondas sucessivas, os cavalos se batiam e muitos deles rodopiavam,
os homens prosseguindo na luta, a p, vinham os cavaleiros e os
trespassavam com a lana. Philipp era levado pelo cavalo veloz, estava
num grupo de lanceiros, corria agora ao lado de Lemmertz, era preciso
gritar, um oficial brandia a sua espada no ar, a mesma linha de
corrida, eles davam uma grande volta, era preciso agora atacar pelo
flanco direito, Franke de lana bem empunhada, presa debaixo do
brao, o sargento a fazer sinal de que deveriam abrir, tomar distncia,
ocupar mais terreno, o inimigo abrindo-se em trs, l vinham eles, o
terreno desaparecia sob as patas, se entrecruzavam, havia cerradas
descargas de fuzis ao redor, a lana de bandeirolas fremindo, veloz,
direta, o impacto do golpe seco, o ferro entrando peito adentro,
Philipp arrancado de cima do cavalo, deixando no corpo do inimigo
a arma certeira. Cavalos passaram por cima dele, levantou-se tonto,
desorientado, mos vazias, dois inimigos caindo sobre ele, ainda
vislumbrou Franke correndo em seu auxlio, um outro soldado
brasileiro, a dor do primeiro golpe no ombro, um outro sobre a orelha,
algo de forte, de frio, de mido atingindo as vsceras, as carnes
repuxadas como pano resistindo agulha rombuda, aquele sangue quente,
vermelho, tingindo a camisa, o cu descrevendo uma ogiva, as rvores
prximas subindo, a terra spera ferindo o seu rosto, a grande nuvem
baixando como neblina, os olhos opacos, as imagens disformes, as
sombras irreconhecveis, a escurido.
      - Sargento, Franke, Lemmertz, estou cego, no vejo nada!
        Quanto tempo havia passado? A boca seca, uma dor aguda e
persistente na cabea, algum respirando a seu lado, Franke? No ouvia
a prpria voz. Um companheiro alemo pediu a ele que ficasse quieto,
imvel, o inimigo ainda rondava pelas cercanias, davam tiros de
misericrdia nos inimigos feridos que encontravam ainda com vida. Onde
estamos? A voz disse "no Cati", perdemos a batalha, mataram o
sargento Goltermann. Quieto, eles esto indo embora, no se mova. Um
pouco depois Philipp tentou levantar a cabea, no conseguia, o corpo
todo dormente e a dor insuportvel no ventre. Fez um esforo, levou a


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mo at a cintura, estava tudo molhado, pegajoso, estou muito ferido?
Pode falar a verdade, no estou com medo. O companheiro disse
que no sabia, a noite cara muito depressa, ele tambm estava com
uma perna quebrada, tateou pelo corpo de Philipp, retirou a mo num
repente, horrorizado:
      - Fica como est, esse teu ferimento no  brincadeira, espera
que vou ver se acho alguns panos.
        Rastejou, buscava alguma coisa, entre as touceiras de capim
grossos encontrou um corpo, sacudiu-o, estava morto, mesmo sem
enxergar conseguiu rasgar-lhe a camisa, retornou, deixa eu ajudar a
estancar essa hemorragia, nossos amigos devem aparecer de volta antes
do dia chegar, eles devem trazer um mdico,  melhor no sair de
onde ests, calma, a gente s morre quando a hora  chegada.
        Philipp sentiu vontade de dormir, apertou os olhos, no via nada,
a noite estava muito escura, no havia uma estrela em todo o cu
imenso. A voz disse: s nos faltava agora que comeasse a chover, ia
ser uma mistura muito boa de sangue com barro, estou aqui com uma
ponta de osso para fora da perna, acho que esta no tem mais jeito,
se me safar mando fazer uma perna de pau. Perguntou: como  o teu
nome? Philipp no respondeu, aquela voz estava muito distante, seria
preciso gritar e ele no tinha foras. Cerrou os dentes, Grndling
andava por perto e no devia saber que ele estava sentindo muitas dores.
Catarina lavava as feridas com gua morna, grandes panos molhados,
no foi nada, um simples arranho, ouviu quando ela pedia a
Emanuel que trouxesse mais lenha para o fogo, queria gua bem esperta,
Juliana passava pela saleta tateando, trazia tiras de lenis velhos,
disse "ainda bem que esta maldita guerra terminou", ele agora est
salvo. S no conseguia escutar as oraes do pai, algum bloqueara o
alapo, pois gostaria de ouvir aqueles trechos da Bblia que so
ameaas e que ao mesmo tempo nos trazem paz e segurana, como se
alguma voz descesse do alto e falasse pela boca de Daniel Abraho. As
Sete Pragas. Os Selos, as ondas de fogo, os raios, as grandes ondas do
mar engolindo a terra e varrendo de sua superfcie os pecadores,
homens como ele, Philipp, que trespassavam o prximo com o ferro
empunhado com ira e com dio. E por que, meu Deus, matar?
-        Cala a boca, algum nos pode ouvir.
        Era a mesma voz, a voz de algum que ele no sabia quem era,
uma voz sem nome e sem cor. Gemeu fundo, cortou a respirao ao
sentir uma dor violenta no peito, abriu os olhos, apalpou em redor,
encontrou o corpo do companheiro, mas ainda estamos aqui, no
veio ningum? Ento vo nos abandonar, no sabem que estamos
morrendo? Quieto, disse o outro passando a mo calosa pela testa de


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Philipp. Estou com mais medo da chuva, agora, ns dois estamos com
febre.
        Philipp passou mais uma vez a mo pelo ferimento e sentiu que
de um ponto qualquer saa sempre, sem parar, alguma coisa quente,
uma pasta pegajosa que descia sem pressa e colava a grama alta s
suas virilhas; esvaziava o seu ventre dolorido, seu peito, sua cabea,
sabia que a morte chegava assim, as coisas em redor desaparecendo
e aos poucos, muito lentamente, chegava o sono incoercvel, tranqilo,
suave, definitivo.



146



SEGUNDA PARTE



VIII


1 Quando abriu os olhos doloridos, Philipp sentiu o corpo
dormente, as plpebras como se fossem duas capas de chumbo,
sentia-se envolto numa espessa nvoa onde pssaros escuros boiavam,
sem asas, leves, lentas evolues, subiam, eram perdidos pontos que
espocavam e fragmentavam-se, caindo em forma de chuva seca,
fustigante, agulhas penetrando em suas carnes. Ouvia vozes em redor, seus
companheiros. Ou seriam inimigos? Tentou passar a mo sobre o rosto,
seu brao no obedecia, precisava arrancar de si algo fluido, opaco,
algo que dificultava a sua respirao, que o impedia de enxergar,
que o esmagava contra o solo. Algum a seu lado disse: no senhor,
espere um pouco mais o mdico que foi buscar recursos, no se mexa.
Fazia esforos para ver, mas tudo era bao, impreciso, tinha idia
apenas de que era dia, um dia nem muito claro e nem to sombrio,
as manchas que percebia deviam ser daqueles mesmos pssaros negros
a boiarem lentos. Fazia frio, mos amigas estendiam sobre o seu
corpo uma coberta qualquer, a voz disse, fique como est, no faa
nenhum movimento, s um pouco mais de pacincia, os ferimentos no
so dos piores. Philipp quis falar,e no conseguia abrir os lbios,
estavam grudados, secos, a lngua grossa, engolia com dificuldade. A
mo amiga passou alguma coisa molhada em seu rosto, limpou os
lbios, um pouco de gua chegou  lngua pesada, fez um novo
esforo, tentou dizer alguma coisa. No faa esforo, disse a voz,
descanse. Ele conseguiu, finalmente: estou morrendo, diga, eu sei.
      - Espero que no, meu tenente, acho que ainda no vai ser
desta vez.
      - Sargento Goltermann?
      - Sargento Barth, meu tenente.
Barth? no se lembrava dele, mas lhe parecera a Voz de
Goltermann, um Goltermann sem rosto, impessoal. Falou ainda em Fran-


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ke, em Bornemann. Tateou em volta, encontrou um brao, uma outra
mo pressionou a sua,  voc, Lemmertz? E o resto do pessoal?
      - Calma, tenente, aqui  Ziedler, vamos tratar desses
ferimentos e depois partir devagar, afinal perdemos a praa de So Borja.
Calma, dentro de pouco o cirurgio-mor est aqui.
        Mos vigorosas, muitas mos, a respirao forte dos
companheiros que o arrancavam do cho mido, s ento sentiu uma dor
lancinante na perna, na altura da coxa, carregavam-no com cuidado, mas a
sensao era de que estava sendo dilacerado, que o esquartejavam.
Voltou a ser depositado em outro lugar, sobre cobertores, talvez sobre
pelegos. Seus olhos embaciados percebiam um pouco mais de luz e
de sombras, eram seus companheiros, ouviu distante ordens de
marcha, seu corpo estremeceu, solavancos fortes repercutiam dentro de
sua cabea, devia estar numa carreta, as rodas a rechinar no terreno
irregular, o tamborilar de muitas patas de cavalo pelos arredores.
        Conseguiu erguer a mo e pass-la sobre os olhos, esforava-se
para enxergar. O companheiro pediu licena e comeou a passar,
levemente, um pano molhado sobre as suas plpebras, o senhor deve
estar vendo mal as coisas, isso  natural. O dia estava muito claro,
a luz feria os seus olhos. Viu a sombra do outro, os contornos mais
precisos, a farda, perguntou: So Borja? A voz confirmou, Estigarribia
chegara de surpresa, a praa de So Borja cara, mas o Coronel Menna
Barreto ainda tivera tempo de evacuar seus homens, no havia como
resistir.
      - Quem  voc?
      - Sargento Conrado Maurer, meu tenente. Dentro de duas horas
vamos encontrar recursos mdicos, esse ferimento dentro de quinze
dias est fechado - fez uma pausa, ouviam forte o rechinar dos eixos
sem graxa - milagre mesmo, me disseram, foi ter sado com vida
do Cati e isso me confirmou o Capito Joo Franzen.
        Cati, Franzen, Conrado Maurer, os paraguaios invadindo So
Borja, levas de milhares e milhares, a fuga desordenada a princpio,
os ltimos combates na retaguarda, o ferimento inesperado - ligava
umas coisas s outras, estavam na guerra contra os paraguaios,
Sargento Maurer, morreu muita gente nossa? A voz disse, nenhum homem,
eles se preocuparam mais no saque do que no inimigo. E o meu
ferimento? Uma lana atirada de passagem, seu cavalo caiu e achamos
que o senhor tinha morrido, mas voltamos mais tarde, j noite escura,
e trouxemos o senhor para lugar mais distante.
      -No quero que mandem dizer  minha famlia que fui ferido
-        recomendou Philipp, sentindo retornar a dor na perna.
      - Fique tranqilo, tenente, mesmo porque a gente nem conta
com estafetas, esta de nos tomarem So Borja no estava nos planos.


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      -No aconteceu nada com o Comandante Menna Barreto?
      -No, est dirigindo a retirada em boa ordem.
      - E as tropas dos generais Neto e Canabarro?
      - Ficaram onde estavam, dizem que no confiavam muito nos
seus soldados, ia ser derrota na certa.
      - Quantos dias de cerco?
      - Cinco, no total, meu tenente.
        Mal conseguia descerrar as plpebras, a luz era muito intensa,
via melhor a figura do sargento, as laterais rsticas da carreta, as
costas de algum que ia no banco da frente.
      - Posso perguntar uma coisa?
      -Mas  claro, tenente.
      - Esse ferimento no est comeando a gangrenar?
      - Que  isso, tenente, o senhor s pensa no pior, j botaram
reMdio, mais adiante o mdico vai examinar melhor.
        Sentiu um agradvel torpor, apertou os olhos, entrou num limbo
de paz, que estaria fazendo Augusta quelas horas? Amanda, mocinha,
ajudando a me a cuidar dos irmos: Daniel armando aranucas para
apanhar os passarinhos que pousavam no quintal; Joana de poucas
palavras, decidida, era a av Catarina nos seus dias. George e
Guilherme assistindo de longe as manobras do irmo mais velho na casa
mida, os dois montados nos seus joelhos como se fossem cavalos
de guerra, George lembrando a cabea do av Daniel Abraho que
olhava para o neto e dizia que "este vem com a espada da justia para
fazer o bem na terra, este vai ser um instrumento de Deus". Est
bem, dizia a av, repreendendo, cuida agora dos teus serigotes: ele
retomando  enx, amuado, mandando buscar as peas de couro
para trabalhar, "todos devem saber que a Justia Divina j se
aproxima e se anuncia, os homens sero punidos, os maus, os ateus, os
que fazem pouco das palavras de Jesus": Juliana levando gua para
os empregados, eles agora eram mais de vinte, haviam construdo dois
novos galpes s para construir carroas.
      - Esses solavancos vo terminar me arrancando a perna.
      - Estamos fora da estrada, tenente,  o caminho mais curto.
      - Esses corvos esto adivinhando carnia?
        Maurer olhou para o alto, sorriu, s se for carnia de paraguaio.
aqui o meu tenente  um osso duro de roer. Se contam com esta
carnia, vo morrer de fome. Muita dor, tenente? Philipp no
respondeu, mantinha os dentes cerrados. Sabe, Tenente Philipp, a
ferida foi lavada com gua-de-guerra, infeccionar  que no vai; e
depois, a natureza sabe o que faz.
      -No chegamos nunca.


149


      - Pois olhe, acho que estamos chegando, foi o senhor falar
e parece que eles ouviram.
        A tropa havia feito alto, a carreta no se moveu mais, cessara o
rechinar irritante, cavaleiros passavam a galope dando ordens de alto
e instrues de como acampar, um deles aproximou-se da carreta,
e como passa o tenente? Maurer gritou que ele estava bem, perguntou
pelo mdico, o outro respondeu que haviam contatado com outra tropa,
o cirurgio j estava chegando para tratar o tenente; depois gritou
para os soldados que viessem ajudar a tirar Philipp da carreta; ele
sentiu os homens se acotovelando, as mos fortes que o sustentavam,
a perna amparada, vislumbrou um oficial que se debruava sobre ele,
ento vamos ver essa perna, tragam uma bebida forte, vamos ter
de tratar isso a frio, tenente, no h outro jeito. Enquanto falava ia
retirando de cima da ferida os panos ensangentados, pediu que
fervessem gua, abriu um vidro grande, enquanto isso limparia as bordas
do ferimento com gua-de-guerra.
      - Tenente Philipp Schneider, pois no?
        Philipp acenou com a cabea, olhos apertados, o ferimento,
exposto, recebia o ar frio da tarde, era como se fossem agulhas picando
as suas carnes, O mdico colocou a mo sobre a testa de Philipp, um
pouquinho de febre, isso  natural. O tenente pediu gua. Deram-lhe
na concha de um meio-porongo, os lbios secos pareciam rachados, a
gua escorria pela barba, molhava o pescoo, refrescava a cabea
quente. Queria dormir, sentia-se fraco.
      - Perdi muito sangue, doutor?
        - Algum, ele disse, mas teve muita sorte que o ao no atingiu a
femural, caso contrrio quem estaria trabalhando eram os sapadores
e no ele. Mas o tenente podia ficar descansado, no seria daquela
vez que a sua famlia iria ficar sem o seu chefe. Muitos filhos? Philipp
fez um esforo, sim, muitos filhos, cinco ao todo, trs homens e duas
mulheres.
      - De que famlia  a sua mulher?
        Augusta  filha de Andr Krumbeek e de sua mulher Ana Maria,
de So Leopoldo. O mdico exclamou: Krumbeek, o comerciante?
Ora vejam l, as pedras se encontram, conheo muito Herr Krumbeek,
ele foi um dos que chegou aqui no "Wilhelmine" e depois na sumaca
"Delfina".
      - Pois ento o tenente  casado com uma filha dele? - disse o
mdico enquanto prosseguia cuidando da ferida. - E Krumbeek j
com cinco netos.
        Chegaram trazendo a gua pedida, o mdico abriu a sua
sacola de ferramentas, vamos botar essas coisas a dentro dgua, sempre
 bom. Um sargento alcanou a bebida encomendada pelo mdico.


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        -         uma aguardente mandada pelo prprio Coronel Menna
Barreto, feita em So Borja mesmo.
        Philipp bebeu alguns goles pelo gargalo. Engasgou-se, tossiu.
      - Quero mais, doutor, com esse frio  a nica maneira de
aquecer o corpo.
      - Quanto quiser, tenente.
      - Como se faz com os perus, doutor.
        O        mdico riu-se, mais ou menos como os perus, mas com
alguma diferena. O lquido escorria pela garganta como pimenta-brava.
Fazia-se noite? ou Philipp  que via as coisas com menos nitidez,
o cho rodopiando, um balano de barco em guas revoltas, ao longe,
muito distante, a voz cava, confusa, de Daniel Abraho, saa do
alapo de mistura com as rstias de luz do lampio fraco, Catarina
lidando junto ao fogo da saleta, Juliana a caminhar de um lado para
outro, as duas mos estendidas para a frente, sem esbarrar em mais
nada, era como se no fosse cega. O pai lia a Bblia, enquanto l fora
as crianas corriam e gritavam. "E Jesus, voltando-se e vendo-a, disse,
tem bom nimo, filha, a tua f te salvou. E desde aquele instante a
mulher ficou s". Agora metiam ferros em brasa nas suas carnes,
arrancavam a perna doente, era cortada em postas, um arroio
vermelho, de sangue quente, a correr pelas pedras, rebordos coagulados,
as varejeiras esverdeadas zumbindo, entrando pelos seus ouvidos, o
rudo cortante da serra atravessando a madeira nova, a voz do pai,
"retirai-vos, porque no est morta a menina, ela apenas dorme".



2 O Tenente Leopoldo Bier tinha a cabea enrolada em trapos, o
fardamento irreconhecvel, perfilou-se desajeitadamente perante o
        Major Cronhardt Grndling, do Servio de Intendncia, impecvel
na sua apresentao, como se as tropas dos Voluntrios da Ptria
houvessem derrotado o inimigo: Grndling olhou o tenente de alto a
baixo, o senhor devia ser obrigado pelo governo a indenizar essa farda.
ela no serve para lavar um cavalo doente. Bier examinou-se bem.
sorriu, cabe ao meu caro major arranjar uma farda digna do Imprio
e, se no fosse muito difcil, pediria tambm uma cabea nova, esta
minha est bastante avariada, mas ainda pego esses ndios do
Estigarrbia. GrndLing fez um gesto de enfado, esse porco saqueou a
praa de So Borja, vem logo depois e nos corre de Itaqui como se
a gente fosse ndio como eles. O tenente disse: eram cinco contra
um, major. Grndling no ouviu, remoa o seu dio, sentia-se
envergonhado, gritou que ele, pessoalmente, nada tinha a ver com a derro-


151


ta, no estava na linha de frente, sua obrigao era a de abastecer
a tropa.
      - Pois estou de mos abanando, eles ficaram com tudo, os
mantimentos, os agasalhos, a munio, as armas, cavalos, mulas e cachaa.
Sim senhor, com a cachaa.
      - J sei - disse Bier - o senhor com isso quer dizer que
no tem um fardamento decente para mim, que daqui para a frente
devo andar como um mendigo.
      - Bem, para vestir um santo preciso despir outro. Assim que
eu encontre no campo um tenente morto, da sua estatura, da sua
arma, tiro-lhe o fardamento e acabou-se o mendigo das tropas
imperiais.
        Bier fez uma continncia ridcula, deu meia-volta e afastou-se.
Grndling, esfregando as mos, ficou ainda algum tempo vendo o
rapaz desaparecer entre os outros, depois foi examinar dois
carroes cheios do que haviam conseguido salvar da pilhagem dos
paraguaios, em cada um deles dois soldados na bolia, ele prprio, de um
salto, subiu para a primeira delas, gritou para o outro: vamos,
cuidado com os cupins. O grosso da tropa fazia a retirada a p, s o alto
comando montava cavalos trpegos, feridos eram transportados em
macas. Olhou para trs, odiando. Muitos companheiros haviam ficado
l, s margens do Botu, uma semana depois da derrota de Itaqui.
O Sargento von Steuben passou a caminhar ao lado do carroo, disse
alto para Grndling ouvir bem: pelo menos dois paraguaios passaram
desta para melhor com a minha pontaria. Eu vi, major, um deles
recebeu a bala no peito, caiu como um passarinho, sabe, quando eles
recebem uma pedrada no papo, fecham as asas e vo direto para o
cho. Eu ouvi at o barulho do baque, ou pelo menos tive essa
impresso. O outro estava mais perto. Ah, o outro, major! A bala
acertou em cheio na cabea dele, o sangue jorrou por entre os olhos,
ele gritava "mi madre, mi madre" e eu aqui contando s para mim,
mais um, um a menos, preciso de outro, eles corriam feito lebres,
arrastavam-se, eu a mirar,  aquele. Meu Deus do cu, demorasse o
combate um pouco mais e aposto que derrubava meia dzia mais.
Grndling olhou bem para ele:
      - Continue, s assim vou poder enxergar todo o exrcito
paraguaio posto por terra.
        Depois disse, pode ficar tranqilo que ainda vou arranjar um
belo trofu para o amigo, talvez uma condecorao imperial para o
seu peito. O sargento no ouvia direito, custava a acompanhar a
marcha do carroo, estava descalo e tinha um ferimento na
altura do joelho.
        Ao anoitecer, fizeram alto. Os alemes se juntaram, prepararam


152


uma fogueira s para eles, a soluo era dormirem uns colados aos
outros, no havia barracas, nem cobertores. Uma voz disse: vou
tentar pegar alguma caa, algum quer sair comigo? Uma voz
respondeu: e que caa pode haver por aqui se  s campo aberto? a
no ser que seja tatu, ou coruja. O outro disse, que seja, uma pre
serve, uma perdiz ou, com muita sorte, uma anta gorda. Quase todos
riram, uma anta por aqui, sem rio? O Tenente von der Oye aninhou-se
ao lado do fogo, disse para von Reisswitz:
      - Pois l ficaram Roeding, Strobach e Leisten.
        - J fiz as contas: vo pagar dez por um.
        - Strobach com cinco filhos. Outro dia, depois do rancho, ele
me dizia que a filha mais velha estava fazendo doze anos. E que
mais dois ou trs anos j ia comear a escolher um dos pretendentes.
      - Pois , ja no escolhe mais, com a morte do pai vai ser criada
de casa, vai trabalhar na terra para comer ou vai ser puta, claro,
h muito soldado por a precisando de mulher, j fez doze anos,
deve estar taluda.
        Von der Oye bateu nas costas do outro, calma, no seja to
pessimista, nem sempre as coisas correm assim. Von Steuben veio
juntar-se a eles, o assunto voltou a ser os mortos. Grndling
postara-se frente ao fogo, mos espalmadas, eu, se fosse vocs,
procurava dormir enquanto o fogo vai alto, esta madrugada deve gear. Os
outros calaram, olhos fixos nas chamas.
        Grndling sentou-se sobre um pelego que trouxera do carroo,
envolveu as pernas com os braos, descansou o queixo sobre os
joelhos. Perguntou, em voz baixa, que dia da semana era aquele, von
Steuben respondeu e enrodilhou-se. Ouvia-se o chiar do fogo na lenha
verde, a luz desenhando arabescos nos corpos dos homens, Grndling
fechou os olhos doloridos, viu o filho Jorge Antnio, seu ltimo
neto j devia ter chegado, ou quem sabe a sua ltima neta, quando
saira de Porto Alegre Clara estava esperando para julho, a barriga
em ponta, deve nascer mulher. Sentiu saudades de Joo Frederico e
de Dorotia, os mesmos olhos, os mesmos traos delicados da av.
Daria tudo para estar l, sua presena havia sido til das outras
vezes, Jorge Antnio caminhando sem parar pelo corredor comprido
da casa da Rua da Igreja, agora a casa deles, a casa grande dos
netos. Albino acompanhando o pai na casa nova, na cidade baixa,
entre grandes rvores, um riacho delimitando os fundos, o salso-
choro, o belo porto de ferro com grades trabalhadas, dois lees
de pedra encimando as pilastras. Se fosse menina, a neta se chamaria
Sofia. Joo Nicolau, se fosse homem. O av, Pedro Hausmann,
estaria la, ele sabia bem o que fazer nessas horas. O fogo abrandava,
o        sono tambm chegava, rasteiro como o vento frio que atravessava


153


as roupas e abanava nervoso as touceiras altas de capim-melado. Tobz,
quase chegando aos setenta, por certo estaria na sua tosca cadeira de
rodas, rodopiando pela velha casa de madeira que Grndling lhe dera
depois da doena, quando estivera entre a vida e a morte, as
alucinaes da febre, ele a gritar "salve o pobre Schirmer, Herr Grndling,
eles matam Schirmer", depois chorava, falava em Sofia, ela est aqui
do meu lado, Herr Grndling, ela no morreu. A cadeira rodopiando,
os olhos esbugalhados a espiarem pela janelinha sem vidros, ansioso
pela chegada do negro enviado por Jorge Antnio, carregado de sacos
e pacotes, o po negro de centeio, os pedaos de fumo, garrafas de
cerveja e de aguardente. Recebia tudo, vasculhava os embrulhos,
depois gritava para o escravo: agradece ao patro pela esmola, corre
daqui negro imundo, no me aparece mais. Depois alisava com a
faca a palha seca de milho, cortava o fumo, esfarinhava-o, acendia o
cigarro tosco, tirava grandes baforadas de fumo, bebia goles de
cachaa e dormia de cabea pendente. O velho Tobz, coitado. Grndling
sentia os ps gelados dentro das botas, o frio da terra subindo pelas
ilhargas, o pensamento agora rondando Albino, suas roupas bem
talhadas, as camisas engomadas, punhos de renda, as boas guas-de-
colnia importadas, os sapatos de bico fino ou as botinas de
gspeas cinzas, os olhos de Sofia boiando na cara rosada, quase imberbe.
Grndling cravou as unhas na terra, lembrou-se do que preferia no
mais lembrar-se, da noite em que o levara, com Tobz e Zimmermann,
 casa das mulheres importadas do Uruguai, a escolha da mais limpa
e mais bonita delas, os dois trancados no quartinho, na saleta da
frente os amigos bebendo pela virgindade que morria e o belo e
indiferente Albino na cama com a fmea, examinando nervoso as carnes
da mulher, os seios pequenos, o ventre liso e esticado. O pai
levantando o copo para homens recm-chegados, sabem o que o meu filho
est fazendo dentro daquele quarto? Pois perguntem  paraguaia
Izabela o que o pai desse rapaz a dentro fazia h muitos anos com as
mais lindas mulheres do Brasil, a casa quase vinha abaixo e tanto
fazia eu dar dinheiro ou no dar nada, era a mesma coisa, valia o
homem. Os estranhos levantaram tambm os seus copos, pois  sade
do jovem seu filho! A porta abrira-se, num repelo, a jovem surgiu nua
como em sonho, cabelos desfeitos, gritou para todos: que bom
encontrar tantos homens nesta casa. Livrara-se das mos vidas dos
mais prximos, acercou-se de Grndling, olhou bem na sua cara,
empinou os peitos na altura de seu nariz, pois saiba que seu filho
est l na cama polindo as unhas, no quis desmanchar os cabelos,
nem tirou o casaco. Houve um silncio constrangedor, ela voltou,
parou no limiar da porta, alisou o ventre, os quadris, disse com ar
sedutor:


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      - Eu quero um homem. Levem esse menino para casa, o
pobrezinho.



3 H muito que os pequenos galpes haviam sido postos abaixo,
agora eram as grandes oficinas, uma grande forja espalhando
fagulhas, muitos homens lidando com ferro e com madeira, a
grande casa de Joaquim Kurtz e de sua mulher Carlota, um quarto para
cada filho, o quarto maior, com duas janelas, para o primognito Daniel
Abraho, agora com dezoito anos, a dizer que j tinha idade para ir
lutar, o tio Philipp no tinha sentado praa com menos idade do que
ele? Catarina, pele crestada, mandando o rapaz calar a boca, aqui
ningum mais vai para a guerra antes dos trinta anos, j se foi o
tempo das crianas se matarem umas s outras. E Carlota s gerara
filhos vares, depois de Daniel Abraho mais trs, Joo Conrado e
Librio. O av a dizer que Deus sabia quando criava as coisas e
os homens, estava escrito que Carlota s teria filhos homens, era essa
a sua vontade - e quando repetia isso entalhava com mais vigor
os seus belos serigotes, agora disputados pelos compradores que
exportavam as peas para o Rio de Janeiro, diziam que o prprio
Imperador D. Pedro II tinha um e com ele costumava ordenar que
aperassem o melhor animal das suas cavalarias.
        Um pouco alm, a casa de alvenaria de Philipp, Augusta
cuidando dos filhos enquanto o pai desaparecia mais uma vez naquelas
guerras que no acabavam mais. Um dia, em conversa com a sogra,
ela dissera que estava preparada para receber a notcia da morte do
marido, muitas outras mulheres j haviam recebido a mesma notcia
e se desgrenhavam e uivavam, corriam para o poo, jogavam-se nas
guas do rio; ela queria estar preparada, tinha os filhos para criar,
Amanda j com quinze anos, depois Daniel, Joana, George e o
pequeno Guilherme que fizera sete anos naquele ms. Quando as
crianas vinham da escola, depois de passarem pela casa da av e pedirem
a bno  velha que sorria pouco, ao av que no dizia nada, juntavam-se
com os primos, filhos de Mateus; Dorotia com dez anos. Brbara e
Francisco, este manquitolando com o pezinho torto, caindo sempre que
corria, juntado do cho pelos braos vigorosos de Catarina, depois o
colo de Daniel Abraho que aplacava o choro esculpindo num pedao
de madeira qualquer a figura de um bicho, a falar sempre coisas
incompreensveis para o menino, pois se Deus assim determinara o
pequeno haveria de possuir virtudes para compensar o pezinho eqino,
talvez at estudando para ser pastor de almas. Francisco dormia quando
o av recitava a Bblia, "o Senhor saberia olhar pelo seu pequeno
filho".


155


        Naquela tarde Catarina tinha o rosto afogueado, apesar do vento
frio que soprava pelas frinchas, as oficinas desertas. Daniel Abraho
apareceu sob o telheiro dos fundos, grossa roupa de l domingueira,
Logo depois Emanuel, j cinqento, roupa preta, grossas botinas de
couro, gente que ia e vinha pela frente das casas, as negras
carregando gamelas cobertas por alvas toalhas bordadas. Catarina
examinou o marido de alto a baixo, alisou-lhe com os dedos os cabelos
revoltos, pediu que terminasse de limpar as unhas, que diriam os
convidados se vissem o pai do noivo com as mos daquele jeito, mos de
trabalhador da terra e que nem lavadas haviam sido. Ela ento
desapareceu no seu quarto, precisava trocar de vestido, lavar-se, pentear
os cabelos. Ouviu a voz de Emanuel, na rua:
        - Precisam ver o noivo, Jacob est igual a Philipp nesta idade.
Catarina passava o pente nos longos cabelos, formava um coque
no alto da cabea. lembrou-se daquele dia triste quando haviam trazido
Philipp de Porto Alegre, acabava de sair da Santa Casa,
magro, desfigurado, quase irreconhecvel, as grandes cicatrizes na
barriga, as longas noites em que eles no conseguiam dormir, Philipp
suava e tinha pesadelos, ela segurando forte as mos dele, pedindo
aos cus que velassem pelo filho que se tornara homem e que, homem,
envelhecera como o pai, fios grisalhos na barba cerrada.
      - Est na hora, Frau Catarina - gritou Emanuel.
        Quando saiu de casa, juntando-se a um grupo, deu o brao para
Juliana: voc ficou muito bonita neste vestido novo. Juliana sorriu,
eu sei que a senhora s quer me deixar alegre, mas d no mesmo,
para mim tanto faz. Se me disserem que o meu vestido  branco, para
mim ele  mesmo branco, mesmo que seja de outra cor. Depois
cochichou ao ouvido de Catarina:
      - S fico triste por no poder ver Jacob, justamente no dia do
seu casamento, e nem Sofia Maria.
        Catarina caminhava tesa, respondeu como se estivesse falando
consigo mesma:
      - Em compensao tiveste a graa de no ver com teus
prprios olhos o corpinho afogado de Joo Jorge, mal acabava ele de
fazer quinze anos.
        Juliana prosseguiu calada e, pelo tato, agarrada ao brao de
Catarina, sentiu que ela ruminava as lembranas daquele dia, quase
vinte anos atrs, o homem gritando da porta da rua "Frau Catarina,
seu filho desapareceu nas guas do Rio dos Sinos, que desgraa!". Ele
havia ido tomar banho com os amigos, caminhavam pelo vau at quase
a metade da corrente, de l voltavam tentando adivinhar os baixios, as
guas fortes, o rapaz desequilibrado, os outros tentando prestar ajuda,
tudo em vo, as pessoas viram da margem o menino carregado pela


156


correnteza, as mos, os ps, os cabelos, depois a sombra de algo
que revoluteia por esconsas paragens, um pedao de Catarina arrancado
de sbito, os dias de angstia, os batedores vasculhando as margens
distantes, ela junto ao rio, sem dormir, sem uma lgrima, e por fim
a notcia para Daniel Abraho que se metera na toca como a nunca
mais querer enxergar a luz do dia. Juliana apertou o brao de
Catarina, a senhora agora s deve pensar em Jacob,  um grande dia
para todos, Maria Luza no pode ver sombra de tristeza no seu
rosto. Eu sei, estava pensando em Joo Jorge, que Deus o tenha
no seu reino.
      - E como diz Herr Schneider, contra a vontade divina no
prevalecem lgrimas e nem mesmo oraes.
        Quando entraram na casa recm-construda, a cal ainda fresca,
muita gente ja se apertava pelos corredores. Era uma casa grande,
toda branca, as portaladas em talha caprichada de Daniel Abraho e
de Emanuel, o forro de tbuas largas formando um losango em cada
pea, candeeiros vindos de Porto Alegre, as mangas lavradas, mveis
em madeira crua, a grande cama de cavina, slida, larga, alta.
Daniel Abraho chegou logo depois, entre o pai da noiva, Pedro
Martens, comerciante de peles selvagens, seguido pelos seus homens de
oficinas, entre eles o velho Jacobus, mal podendo andar, olhos
cobertos pela catarata impiedosa, encurvado. Uma calea chegou,
levantando a poeira da rua, cavalo baio fogoso, dela descendo Jorge
Antnio e a sua mulher Clara, filha do dono de uma farmcia em
Porto Alegre, alem de cabelos presos em dois coques laterais,
encobrindo as orelhas. Algum sussurrou para Catarina:
      - Acabam de chegar o filho e a nora de Herr Grndling.
        Catarina foi at a porta, recebeu o casal, perguntou se havia
recebido notcias de Herr Grndling. Jorge Antnio disse que sim.
Depois acrescentou, a senhora sabe, as tropas brasileiras no foram
bem sucedidas na fronteira, haviam sido derrotadas em So Borja e
em Itaqui. Ela disse, meu filho est no exrcito de So Borja. Jorge
Antnio replicou, meu pai no de Itaqui. Ambos ficaram por um
momento sem dizer nada, ento ele bateu de leve no ombro de Catarina,
a senhora pode ficar tranqila, recebi notcias de l, os dois esto
bem, no h nada o que recear, j devem estar reunidos com as
demais tropas. Catarina perguntou por Joo Frederico, pela menina
Dorotia e pelo mais novo, Joo Nicolau. Clara agradeceu, as crianas
estavam muito bem, mas com muitas saudades do av. Convidou o
casal para entrar, caminhou  frente. Ao passar pelo marido, que
prendia entre as mos a sua velha e desbotada Bblia, disse em
tom suave:
-        Vamos passar para a sala, o pastor j est a.


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        Daniel Abraho olhou para Jorge Antnio e para Clara, parecia
no os reconhecer, ento o filho de Grndling estendeu a mo:
      -Meus cumprimentos, Herr Schneider. Sou filho de Grndling
e acabo de dizer a Frau Catarina que tanto meu pai quanto Philipp
esto bem, no houve nada com eles.  em nome deles que trago um
abrao nosso para Jacob e para a menina Sofia Maria.
        Catarina sorriu:  verdade, no me havia dado conta, Sofia Maria
tambm tem o nome de sua falecida me, lembro-me bem dela -
ficou por um momento constrangida - foi uma das moas mais
bonitas no seu tempo. "Gosto de errar sozinha, doutor Hlllebrand.
Esse homem no vai mandar matar mais ningum. J causou muita
desgraa. Saia da frente, estou pedindo pela ltima vez". Afastaram-se
de Daniel Abraho que prosseguiu mais atrs, Catarina com ar
distante. "A senhora est enganada. Grndling no sai de casa h quase
dois meses. Esteve todo esse tempo ao lado da mulher que morria".
"O senhor est mentindo!" As portas do belo casaro abrindo as suas
portas, o caixo saindo carregado por poucos amigos, Grundling de
fundas olheiras, abatido: "no esperava que a senhora viesse. No sei
como agradecer".
        Assustou-se com a voz de Jorge Antnio:
      - Passe, Frau Catarina, o senhor tambm, Herr Schneider, hoje
 um grande dia.
        O        reverendo parecia apenas aguardar pela chegada dos dois,
estendeu as mos, o casal ajoelhou-se, Catarina notou que muita gente
ficara do lado de fora, tentando espiar pelas janelas. O pastor, voz
grave e arrastada, dizia:
        -        "Diz o Senhor Deus: no  bom que o homem esteja s;
far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idnea".



4 A grande sala ficava numa mansarda, as traves do teto
aparentes, um grande lampio duplo pendente da tora central,
gravuras em spia cobrindo as paredes de tijolo  vista, grandes
almofadas de veludo esparramadas pelo cho coberto de pelegos
brancos, um canap de cetim vermelho sob a janela pequena e alta, uma
poltrona de couro lavrado, espaldar encimado por uma grande guia
de asa partida. Recostado nela, ao p de um aquecedor a carvo,
envergando um roupo azul de largas listas brancas, chinelas de l,
calas de veludo, Albino lia. Suspendeu a leitura quando ouviu que
batiam  porta, outras batidas impacientes, gritou para baixo se no
havia ningum em casa para abrir a porta. Ouviu o arrastar de
chinelos da velha empregada, ela gritou "J estou indo, um momento,


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por favor". A grande chave rascou na fechadura, ouviu vrias vozes,
sabia quem chegava, gritou que subissem e tentou prosseguir a leitura,
assim o encontrariam como sempre. Apareceu no limiar da escada
em espiral a cabea ruiva de Henrique Mller, pode-se entrar? ou o
nOSSO caro sulto no deseja que ningum interrompa a sua leitura?
Albino fez um gesto lento mandando que subisse. Depois de Henrique
chegaram os outros, todos jovens, entre os vinte e os vinte e cinco
anos, alegres, agitados, esfregando as mos pelo frio que traziam da
rua. Augusto Oppenhagen, Jorge Breitenbach e Carlos Barnatski.
Rodearam o pequeno fogo, despejaram dentro dele um resto de
carvo que havia ao lado, Augusto quis ver a capa do livro, o dono
da casa adiantou:
        -        "Um Drama no Mar", de von Koseritz.
      - Ah, lendo os "Brummers", muito bem, deve ser muito
instrutivo.
        Albino espreguiou-se, perguntou se eles queriam beber alguma
coisa, havia conhaque, vinho branco-do-reno, licor de laranja. Eles
tiraram copos de um pequeno armrio em forma de oratrio, ao
fundo um crucifixo, Henrique Mller bateu palmas, ora vejam,
vamos comear a nossa velha missa. Sentaram-se pelo cho, Carlos e
Jorge de mos estendidas para o braseiro, Henrique acercando-se de
Albino:
      - Venho agora mesmo da Cmara Municipal. Enquanto os
nossos irmozinhos morrem na guerra os nossos ilustres pr-homens
acabam de votar uma lei redentora.
      - Recrutamento geral - disse Breitenbach.
      -No tentem, ningum ser capaz de adivinhar.
        Albino pediu com enfado que ele dissesse logo que diabo de lei
era aquela, ningum ali tinha bola de cristal e nem estavam
interessados no que decidia a Cmara.
      - Pois a nossa Rua da Praia passa a chamar-se Rua dos
Andradas, em homenagem aos patriarcas da independncia.
        Todos riram  solta. Albino cruzou as pernas com elegncia,
por mim tanto faz chamarem a Rua da Praia de Rua dos Andradas,
ou de Rua D. Pedro II, ou Jos Bonifcio ou quem mais eles
queiram. Eu, da minha parte, vou continuar a cham-la de Rua da
Praia at morrer. Houve concordncia geral, motivo para um novo
clice de bebida, para um brinde todo especial  eterna Rua da Praia,
Albino sentenciou com fingido ar solene: que se entortem as bocas de
quem, daqui para a posteridade, chamar de Rua dos Andradas 
nossa querida e potica Rua da Praia, ns, reunidos em Cmara
Extraordinria, decretamos esta praga pelos tempos a fora.
Augusto Oppenhagen pediu silncio, se me derem licena eu


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gostaria de saber se h algum programa para esta noite, mas um
programa que valha a pena, francamente, esta terra parece que est
morrendo, j no h mais teatro, nem bailes, nem aniversrios.
      - E que fim levou a troupe do Lus Livreiro? - perguntou
Albino.
      - Bem - disse Augusto - esta ainda anda por a, mas o
povo est pedindo que ela seja remetida para a frente de batalha
para alegrar os paraguaios. Ningum suporta mais o nosso querido
Lus Livreiro.
      - Ah, j sei - gritou Barnatski - o maestro Medanha d
um concerto, hoje, na Sociedade Musical Rio-Grandense.
        Todos olharam para Albino, que ficara pensativo. Na falta de
coisa melhor, disse ele depois de esvaziar o seu copo, todos ao
concerto do nosso caro maestro Medanha; pelo menos gente fina estar
l, envergando as suas velhas casacas ruas. Virou-se para Mller,
corre l e compra os ingressos, enquanto isso nos sobra tempo para
os preparativos. Silenciaram, ouvidos atentos, um rudo qualquer na
distncia, Breitenbach subiu numa banqueta para espiar pela
pequena janela da mansarda. Ouvia-se agora, nitidamente, os sons
desencontrados de uma banda. Ele desceu, limpando as mos.
      -Meus caros, para mim, vem a a banda "Firmeza e
Esperana".
      - E como sabes que no  a "Euterpe"? - perguntou Albino.
      -Muito simples, meu caro fidalgo, o trombone desafina menos.
        A banda aproximou-se, passava agora pela frente da casa,
Albino tapou os ouvidos, os outros fizeram o mesmo, por fim a
barulheira sumiu dobrando ruas e vielas. O dono da casa empurrou os
amigos para a escada, vamos, vamos todos nos preparar para a
noitada do maestro Medanha. Enquanto os rapazes desciam a escadinha
estreita, ele segurou Augusto pelo brao, era o mais jovem deles,
recm umas penugens apontando no queixo, um leve buo dourado:
      - Tu ficas, est muito frio a fora.
        Augusto sorriu, constrangido, retornou para junto do fogo de
brasas.
      - E no vai  Sociedade Musical, como ficou combinado?
      -No. Quando eles voltarem a Fusa dir que j samos, que
j fomos ao concerto. No estou com disposio para sair, para
sapecar a cara nesse frio danado.
        O rapaz anuiu em silncio, acercou-se do topo da escada, botou
as mos em concha na boca e gritou para baixo:
        - Vo vocs, eu saio logo, vou esperar por Albino.
        Breitenbach ainda respondeu: espero que no nos deixem a ver


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navios na porta do salo, trato  trato. Augusto gritou, vo e no
incomodem, cuidado com uma pneumonia.
        Ouviram risos, o barulho da porta da rua batendo com
estrondo, a algazarra deles na rua. Albino abraou o amigo, passando
o brao pelos seus ombros, puxou-o para perto do pequeno fogo,
sentaram-se entre almofadas, sobre os pelegos brancos. Estava com
uma garrafa na mo, perguntou pelo clice de Augusto, encheu-o
at as bordas, isso  para compensar esse braseiro que est quase
em cinzas. Enquanto o rapaz bebia, Albino disse:
        - A noite, hoje, no est para sair.



5 Grndling no estava bem certo, mas corria a notcia de que
marchavam ao encontro de novas tropas. Por certo no seria uma
retirada, von Steuben mostrava-se desolado, tudo se combinava
para arrasar o moral dos homens, inclusive a chuva fina e gelada
que trespassava os uniformes, molhava os ps, dificultava a viso.
O Tenente von der Oye ia ao lado de Von Reisswitz, retornou ao
assunto da vspera, no se conformava com a morte de Strobach, um
homem daquele valor, morto como um co, como negro, a mulher
sem saber de nada, os filhos esperando o pai.
        - As mulheres sempre esperam pelo pior - disse von Reisswitz.
        O tenente pegou do brao do companheiro, seus dedos pareciam
tenazes: pois quando terminar esta guerra suja juro pelo que h de
mais sagrado que vou ser o primeiro a procurar a famlia dele,
vou ajudar aquela infeliz a criar aquelas crianas. Como  mesmo o
nome da maiorzinha que fazia doze anos naquele dia? O outro disse
que no sabia. Von der Oye soltou um palavro, soqueou a prpria
mo. Grndling aproximou-se deles, vinha com a roupa colada ao
corpo, gritou para os amigos:
        - J avistamos gente nossa, h uma coluna mUito grande de
alemes.
        Ouviram as ordens de alto, von Reisswitz sentou-se num charco,
tanto faz mais gua, menos gua, no agento mais as bolhas que
tenho nos ps, estas malditas botinas de pau, e se tudo continuar
assim vou at a presena do imperador e digo a ele, sem rodeios,
que para mim chega, quero voltar para casa, no tenho nada a ver
com esta guerra. Os outros riram.
        - E ns, como vamos continuar na guerra sem a sua
proteo?
        Viram ao longe os comandos juntos, as tropas em redemoinho,
Uma aparente desordem no encontro alegre, os amigos a se
procurarem, grandes abraos trocados ainda em cima dos cavalos, os


161


que vinham a p sentavam-se no cho, deitavam-se, espojando-se.
Grndling caminhou ao encontro dos seus compatriotas, a maioria
deles sem os seus cavalos, reconheceu o Tenente Ziedler, abraaram-se,
o major deu dois passos atrs, olhou-o de alto a baixo:
      -Mas que sorte, estamos inteiros. Houve muitas baixas?
        O        tenente informou que no, apenas um morto. Ah, sim, e um
ferido muito seu conhecido, o Tenente Philipp Schneider. Grndling
mostrou-se surpreso, Philipp ferido? com gravidade? Ziedler fez com
a mo um sinal de mais ou menos, um ferimento de lana na perna,
parece que uma fratura, mas foi medicado ontem, est sem febre e s
no comeu ainda porque ningum aqui comeu coisa alguma tambm.
Ou vocs tiveram mais sorte do que ns? Grndling pediu para ver
Philipp, caminharam os dois, com dificuldade, em meio da tropa
em confuso, aproximaram-se do tenente que ainda estava no
carroo, coberto por panos molhados, Philipp parecia dormir, o cabelo
a escorrer gua, grandes olheiras na cara plida. Abriu os olhos com
dificuldade, viu a cara barbuda de Grndling junto a si, tentou sorrir.
      - Pois me pegaram, Herr Grndling, e pela segunda vez.
      - Segunda vez?
      - Sim, no est lembrado da primeira? Em Passo do Leo,
major.
      - Ah - disse Grndling batendo com a palma da mo na
testa. - Isto faz tanto tempo que nem me lembrava mais. E ainda
na Guerra dos Farrapos, veja l.
        Pediu licena e levantou parte das cobertas, afastou alguns panos
das ligaduras, franziu as sobrancelhas, o local no  dos melhores
para um ferimento desse tipo, disse ele procurando descobrir no rosto
de Philipp algum sinal de preocupao ou de medo. Mas o ferido
sorria.
      - Fao uma aposta com o meu caro major que mais uma
semana e estou montando de novo e dou de rdeas e vou direto  casa
daqueles paraguaios cobrar esta dvida.
      - Enquanto isso vou tratar de conseguir uma licena para
voc
recuperar a sade em casa.
      - Essa no - disse Philipp cortando qualquer outro argumento.
- No vou chegar em casa de maca e nem carregado por ningum.
Em casa chego com os meus ps.
        Grndling no disse nada, mas lembrou-se de Catarina, ela
estava ali, transfigurada no filho, os dois eram vinho da mesma pipa.
      - Bem, se no quer, nada peo.
      - Obrigado.
      - De vez em quando os velhos pensam que os homens de


162


quarenta anos ainda so os mesmos meninos de antigamente. E se
quer saber, faz muito bem em decidir assim.
        Despediu-se com um aperto de mo, voltou acompanhado pelo
Sargento vom Steuben, disse a ele, preocupado:
      - Trate de arranjar alguma coisa para o ferido comer, eu vou
tentar conseguir alguma roupa e cobertas secas.
      - J esto carneando, major, olhe l.
        Grndling parou, cabea voltada para onde von Steuben apontava,
no disse nada e nada via. Por mais que lutasse contra os prprios
pensamentos, no conseguia livrar-se da transposio da imagem de
Philipp pela de Albino, seu filho estirado naquela carroa, ferimento
aberto, a voz calma e estica, olhos serenos, a voz embargada e
roufenha, os seus companheiros em redor, eles diziam em coro: Major
Grndling, ele morre como um verdadeiro homem. Von Steuben
notou o alheamento do major, seu ar distante:
      - Passa-se alguma coisa, major?



6 Albino parecia dormir, os galos da vizinhana cantavam, ces
latiam, as poucas brasas do aquecedor estavam encobertas pelas
cinzas, a madrugada ia alta. Augusto permanecia sentado numa
almofada, costas apoiadas na parede, acordado. Ouviu a voz de
Albino, abafada pelas cobertas:
      - Est muito frio, aviva esse braseiro.
        Depois levantou a cabea, os cabelos em desalinho, mostrou-se
surpreso, mas ento ainda ests acordado at agora, que diabo anda
se passando contigo? Augusto disse que no era nada, simplesmente
perdera o sono. Ou por acaso  proibido algum ficar aqui na tua
casa acordado? Albino sentou-se no sof baixo, arranjou os cabelos
com os dedos, mandou que o amigo preparasse uma bebida qualquer,
algo bem forte que compensasse aquela sala gelada. Perguntou que
horas eram. Augusto olhou para o relgio de Albino que estava
sobre uma mesa baixa, disse que faltavam quinze minutos para as
cinco horas e l fora ainda era noite fechada.
      - Eles teriam ido ao concerto do Maestro Medanha? -
perguntou Albino.
      -No sei - disse Augusto, - mas eles j esto acostumados,
nem esperam mais quando a gente combina.
        Houve um silncio entre os dois, enquanto Augusto derramava
bebida em dois copos. Alcanou um deles para o amigo e foi tratar
de refazer o braseiro, assoprava, remexia nas pequenas brasas
perdidas entre as cinzas, depois voltou a sentar-se no mesmo lugar,
bebeu um gole grande, disse para Albino:


163


      - J deves ter esquecido, mas hoje  dia de procisso.
        Albino forou uma expresso de quem se concentra, bateu na
cabea, era verdade, estavam em plena Semana Santa, ele era membro
da irmandade, ia ser um dia cansativo. Ficaram os dois observando
o carvo que reacendia, em seguida Albino acomodou-se na cama,
puxou as cobertas, chamou o amigo para junto de si, que diabo,
no vais passar este resto de noite a sentado feito um boneco de
engono, quando chegar a hora de levantar a Elisa sabe o que fazer.
      -No estou com sono, palavra - disse Augusto.
      - O sono chega quando o corpo aquece - disse Albino
puxando o amigo pela mo.
      - Ento primeiro vou beber este resto de conhaque, preciso
de aquecer por dentro.
        Empinou o copo, entrou para debaixo das cobertas, sentiu o
calor mido de Albino, afundou a cabea no grande travesseiro de
penas, uma almofada coberta em parte pela ponta do lenol. Detesto
procisso, disse Augusto, cruzando os braos sob a cabea. As
roupas dos padres cheiram a mofo, a roupa suja, estou a te jurar que
eles fedem. Nem tanto, disse Albino, conheci um padre, eu tinha o
qu? treze anos, era meu professor, cheirava a gua-de-colnia,
tinha as unhas sempre limpas, tomava banho com sabonete
estrangeiro, deixa eu me lembrar, era um cheiro que lembrava camomila.
conheces camomila? Augusto disse, conheo alfazema. No  a mesma
coisa, replicou Albino. Esticou o brao, abriu uma pequena gaveta na
mesinha, tirou de dentro dela um saquinho de pano, levou ao nariz
do amigo, isto  alfazema,  muito diferente de camomila. Ouviram
um galo cantar, Albino levantou-se a meio corpo, assoprou a boca
da manga do lampio, se a gente no dorme estaremos os dois com
grandes olheiras pela manh. Augusto sentiu o calor da mo do
amigo, apertou os olhos, queria que o dia clareasse.
        A velha Elisa mexia-se ao redor da mesa, servia a primeira
refeio, cortava grossas fatias de uma broa aucarada, os dois
amigos ainda se espreguiavam, roupas amarfanhadas. A governanta
repreendeu Albino, ento preferiam ficar naquela mansarda dos diabos,
a cama ali embaixo arrumada, lenis engomados, o sof grande
preparado para o amigo e os dois naquela sala fria e incmoda. Pelo
menos que no houvessem dormido bbados, por acaso no sabiam
que era a Semana Santa?
      - Foi bom falar nisso - disse ela - as tuas roupas da procisso
esto no armrio da direita, limpas e bem passadas, os sapatos como
novos.
        Ele que tratasse de se apresentar  altura, pela sua posio na
irmandade tinha que ser um dos primeiros a chegar, e no s por isso,


164


tambm pela posio do pai. Albino bebeu um gole de ch, estava
preocuPado, no havia recebido nenhuma notcia do pai, na certa j
estaria em territrio paraguaio.
        - Vou rezar por ele, pedir a proteo de Nossa Senhora dos
Aflitos.
        Virou-se para o amigo que no dera uma palavra, Augusto
bebia um copo de leite:
        - Bem que podias fazer um esforo e me acompanhar hoje
neste ato religioso. No te envergonhas de ser ateu?
        Augusto, sem olhar para ele, disse no. Passou um grande
guardanapo na boca, levantou-se, se me ds licena vou embora, no
quero servir de estorvo ao nosso eminente cardeal, hoje  dia das
ladainhas. Elisa permaneceu onde estava, bandeja nas mos, olhar
espantado para o rapaz. Albino no ligou para a brincadeira,
caminhou para ele, bateu-lhe de leve nas costas, no se preocupe, Frau
Elisa, este moo j sabe que quando morrer tem um lugar reservado
no inferno, ento no deve mais contar comigo, estarei noutro lugar,
se Deus quiser. E num gesto brusco, teatral, apontou para a porta da
rua:
-        Suma-se, no quero hereges nesta casa!
         tarde, da janela de sua casa, Augusto viu quando a
procisso passava. Sua me colocara nas janelas grandes colchas de seda
roxas, enquanto velas ardiam em cada peitoril. Nas outras casas, a
mesma coisa, algumas com colchas de renda.
        O andor era carregado por muitos homens e a irmandade vestia
as suas opas coloridas, vivas, brilhantes, em vermelho, verde, azul e
branco. Albino levava nas mos, contrito, um grande rosrio de mbar
que fora de sua me e que ela jamais deveria ter tocado, esquecendo-o
num fundo de ba, entre leques de sndalo e estolas de arminho. Por
um momento ele levantou a cabea e espiou para cima, viu Augusto
ao fundo da janela, sentiu vontade de fazer um sinal qualquer, abanar,
mas apenas sorriu quando seus olhares se cruzaram.
        Quando passou pela Rua da Praia, rumo  Praa da Alfndega,
notou entre a multido respeitosa, eles tambm de preto, descobertos,
os seus amigos Mller, Breitenbach, Jos Wildt e Carlos Barnatski.
Baixou a cabea, concentrou-se no tero, a ladainha vinha l de trs,
em eco, um padre gordo inflava as bochechas na cantoria
interminvel.
        Na praa houve a concentrao, os negros todos a um canto,
acuados, grandes olhos curiosos, estremecendo todos com a chegada
da figura de Judas, um tipo vestido de vermelho, a tocar sua grossa
corneta. Frente a ele, o estandarte roxo, imenso, sustentado com
dificuldade, quatro guias pendentes, quatro irmos nas pontas das guias.


165


        Albino no escutava o sermo, vociferado por algum que
ameaava com os tremendos castigos do cu, com o diabo, com as
labaredas eternas do inferno. Ele flutuava distante, pernas trmulas,
sentia-se cansado da noite indormida, aquela multido colorida o
esmagava, era empurrado, o ar frio que subia das pedras chegava nas
suas carnes como agulhas, joelhos entorpecidos, se pudesse trataria
de fugir, de encontrar com os amigos, iriam todos para a mansarda
aconchegante, o seu mundo. Tudo o mais lhe era indiferente,
estranho, desprezvel. Na outra semana levaria os sobrinhos  Igreja das
Dores, passaria pela porta do Colgio Santa Isabel, deveria
cumprimentar D. Ponciana friamente, a diretora no simpatizava com ele,
era uma mulher dura e autoritria, sempre a querer saber se Albino
trazia mesmo autorizao de Herr Jorge Antnio Grndling para levar
as crianas. No caminho os pequenos lhe mostravam, em meio a
correrias e algazarras, as pobres e feias flores de cera e de veludo
que a professora lhes ensinava a fazer. Parecia ouvir a voz da cunhada
em meio ao sermo tonitroante, est na hora de casar, termina ficando
solteiro, conheo uma moa feita sob medida para um Grndling.
        Ao terminar o sermo levantou os olhos e entreviu os amigos
na Rua da Ladeira. Entre eles, cabelo revolto, Augusto que
abandonara o refgio de sua janela embandeirada e que agora conversava
alegre entre os outros.



166



Ix


1 O        fogo aceso, Catarina acabando de fazer as contas do emprio
doPorto. A noite comeava a chegar antes das seis horas, nas
oficinas os homens ainda trabalhavam. De onde estava, ela ouvia
o som agudo da bigorna, os olhos embaralhando a escrita, os ps
gelados, batidas fortes na porta. Levantou-se, abriu o trinco, entraram
os netos, discutiam, Amanda carregando pela mo o primo Francisco,
o pezinho torto arrastando no cho. Dane, o mais velho, filho de
Carlota, empurrou Dorotia que vinha enrolada numa manta de l,
entraram com o vento frio. Catarina fechou a porta, e o que andam
fazendo com este tempo na rua?  hora de criana estar na cama,
cheguem aqui para perto do fogo, Francisco vem c, tem uma sopa
de legumes,  uma sopa muito boa para as crianas que perambulam
pela rua feito filho de ningum. Pegou o neto no colo, passou a
mo no cabelo espigado, limpou a carinha suja e vermelha de frio,
chamou a neta:
-        Amanda, serve um pouco de sopa para ele.
        A neta encheu um prato com o caldo fumegante tirado da grande
panela preta de cima da chapa, disse para a av que a sopa dele
estava em casa s esperando que voltasse, a tia Maria Luza nem
sabia que ele estava ali. Dane e Dorotia correram para junto do fogo,
queriam provar um pouco da sopa, a que eles tinham em casa era
muito ruim. Catarina fez cara de zangada, pois ia contar para a
me deles, ento onde se viu dizer uma coisa dessas, o que eles no
queriam era comer em casa.
        - Vamos, encham os pratos, tem sopa que d para cinco famlias.
        - E no vai faltar para o vov Daniel Abraho? - disse Do-


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      -No vai faltar coisa nenhuma, tragam os pratos aqui para a
mesa, cuidado que vo queimar a boca, assoprem primeiro, devagar.
        Ficou com Francisco ao colo, passou uma toalha em redor do
peito do menino, encheu a primeira colher e assoprou para esfriar o
caldo. Dane chupou uma colherada e disse para a av:
      - Quando ser que o meu tio vai voltar? Com este frio juro
que ele daria duas medalhas de guerra por um prato de sopa quente,
destes aqui.
        Catarina ralhou com ele, na guerra eles davam sopa quente para
todos os soldados, ele que tratasse dos estudos e do trabalho, Philipp
sabia se cuidar. Depois suspirou fundo, s Deus sabia quando uma
guerra ia acabar e essa contra os paraguaios recm se iniciava.
        Dane passou as costas da mo na boca, sabe vov, eu disse
para a minha me que eu vou l para o Porto ajudar o tio Jacobus no
emprio, ele est muito velhinho e precisa de um ajudante. Ela olhou
para o neto, ficou pensativa, perguntou se ele ia agentar l longe
da me e se ela sabia dessa idia dele. Dane disse que ela sabia e
que o pai at falara que estava bem na hora dele pensar num trabalho
srio, de homem, e que no Porto podia ajudar a av muito melhor.
      - E quando est pensando em seguir?
      - Este ms - disse Dane terminando de tomar a sopa. - A
senhora acha que o tio Emanuel podia ir comigo e ficar l uns dias
para me ensinar bem as coisas?
        Catarina fez que sim com a cabea, Emanuel ia ficar muito
satisfeito com a ida de algum que pudesse dar uma olhada pelo pai,
ainda mais depois da ltima doena, o velho ficara quase sem poder
falar, na certa coisa do espasmo. Ento o rapaz disse:
      - Isto at no me chamarem para a guerra.
      - Pois no vo chamar - disse Catarina enrgica - o
governo no vai querer que fiquem aqui s mulheres.
        Terminou de dar a sopa para Francisco, botou o menino no
cho, disse para todos eles que terminassem de comer e que fossem
para casa, os pais deles deviam estar esperando, j era noite. Amanda
perguntou se no podiam pedir a bno ao vov Daniel Abraho,
Catarina disse que fossem correndo at as oficinas, que no demorassem.
Saram todos para os fundos, ela foi at o fogo, ficou mexendo na
panela com uma grande colher de pau, botou um pouco mais de gua
e algumas pitadas de sal, o vapor tinha o cheiro forte de couve.
Provou e retornou  mesa, onde ficou cortando grossas fatias de po
de milho.
        Um pouco depois chegavam Daniel Abraho e Emanuel,
esfregavam as mos nos aventais, Catarina apontou para a mesa:


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      - Sentem, vou servir a sopa. Um pouco mais e as crianas
tinham comido a metade.
        Emanuel disse que elas j haviam ido para as suas casas
depois de pedir a bno para o av, sentou-se no banco, alisou o
cabelo.
      - A senhora acha bom que Daniel v para o emprio do Porto?
      - Acho bom para ele e para teu pai. Jacobus no tem mais
sade para cuidar de tudo aquilo l.
        - Pelo pai acho bom - disse ele - mas o menino vai
estranhar muito viver naquele ermo, longe da famlia, dos primos e
dos avs.
      -Na idade dele Philipp j estava na guerra e era um homem,
no vejo nada de mais em que ele siga o exemplo do tio, mesmo porque
trabalho no mata ningum,  at bom para as pessoas.
      - A senhora  quem sabe - disse Emanuel comeando a tomar
a sopa. - Assim que ele quiser partir, vou at l com ele.
        Daniel Abraho olhou para Emanuel e disse que podiam ir
descansados, Deus iria com eles.
        Catarina sentou-se  mesa, ao lado deles, ouvia-se apenas o rudo
dos trs chupando a sopa quente das colheres. Ento ela disse para
eles que havia tomado uma deciso, uma coisa na qual vinha
pensando h muito tempo, mas sempre a deixar que o tempo corresse, ora
uma coisa, ora uma doena, o trabalho cada vez maior, mas agora
estava decidida, eles todos iam passar uns tempos nos fundos, mandaria
derrubar aquela casinha velha, os filhos viviam a reclamar, o telhado
deixava entrar gua e o vento filtrava-se  vontade pelas frestas e
desvos. Daniel Abraho arregalou os olhos: derrubar esta casa?
Depois ficou srio, juntou as duas mos, ele achava que a mulher
podia construir uma nova casa, estava no direito dela, pois at que a
ajudaria; mas uma coisa ele queria dizer, ela que escutasse,
levantou-se, parou na porta dos fundos, abriu os braos, mas que se
fizesse a casa dali para a frente, daquele lado para o outro, que
no tocassem na sua moradia, s ele e Deus sabiam por que a sua
casa era aquela, viessem os tempos que viessem. Catarina,  beira
do fogo, botou mais algumas toras de lenha, remexeu nas brasas,
voltou-se:
      - Vou fazer uma casa nova e nela vais ter um quarto de gente.
os teus netos esto ficando moos, ningum quer mais saber do av
dormindo debaixo da terra como um animal, e nem sabem mesmo
explicar por qu.
        - Na minha casa ningum toca - disse ele com voz rouca.
        Catarina olhou para Emanuel que se mostrava preocupado.
Depois disse com naturalidade que a casa nova no ia ser construda na-


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quele dia e nem no dia seguinte, eles tinham tempo pela frente para
discutir o assunto. Daniel Abraho deu as costas e sumiu, eles ouviram
o baque surdo da porta do alapo. Emanuel perguntou:
      - A senhora no acha que se pode dar um jeito, fazer a casa
nova e quem sabe construir um outro lugar para ele, tantos anos
assim e de uma hora para outra tirar Herr Schneider de seu lugar?
      -No. Quero construir uma casa nova exatamente para que
ele comece a viver uma vida nova. No te preocupa, conversando a
gente chega onde quer.
      - A senhora  quem sabe.
        Saiu da mesa, deu boa noite e carregou para os fundos o prato
de sopa e uma grande fatia de po para Juliana. Explicou: ela j
est ficando boa da constipao, mas achei melhor que no sasse
da cama nestes dias de minuano. Catarina disse sem olhar para ele:
      - Antes de deitar eu ainda levo um ch de limo com
bastante mel. Ela precisa de um bom suador.



2 Von der Oye aparava a barba, disse que um fardamento novo
levantava o moral, mesmo depois de uma derrota, como era o
caso, e que se um dia chegasse a general trataria de dar aos seus
homens, todos os dias, fardamentos novos. Philipp esforava-se para
acertar os primeiros passos, apoiado num cajado rstico, a perna
ferida ainda doa, virou-se para o amigo, pois eu, se um dia chegar a
general, vou preferir dar aos meus soldados muita arma e munio,
fardamento no ganha guerra. O outro ficou por algum tempo
admirando as tentativas de equilbrio de Philipp, quem diria, uma semana
atrs eu era capaz de jurar que voc ia ficar dois meses, no mnimo,
estirado numa enxerga; vou at passar a contar esse caso como
milagre.
      -Nem na artria e nem no osso - disse Philipp - a pontaria
deles no  das melhores.
      - Ou tens um santo muito forte. A coisa parecia to feia que
algum chegou a sugerir que o melhor a fazer, naquele dia, era te
deixar para trs. Carregar um ferido em retirada  sempre perigoso
e motivo de atraso.
      - Pois eu esperaria at ficar bom e largava atrs do regimento.
        Nem bem havia terminado de fechar a boca desequilibrou-se e
caiu redondamente no cho. Von der Oye correu em seu socorro,
ajudou-o a levantar-se, perguntou se no cara sobre a perna machucada,
Philipp gemeu um pouco, disse que no fora nada, me alcana aquele
danado basto, ele no fez o trabalho que lhe competia. Caminhou um


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pouco mais, depois sentou-se sobre os varais de uma carroa,
afogueado, bateu com o cajado no cho:
      - Em dois ou trs dias mais, j posso montar. Aposto esta
muleta contra um pedao de costela gorda assada nas brasas. Vamos l.
      - Est fechado o negcio. J estou sentindo o cheiro da carne
no espeto.
        Aproximou-se de Philipp, ajudou-o a levantar-se, comearam a
caminhar na direo das fogueiras, a soldadesca em rebulio, os
homens voltados para a limpeza das armas. Oficiais a cavalo, ao longe,
pareciam estudar o terreno, depois desapareceram por detrs da
coxilha mais alta. Ziedler e Griindling vieram ao encontro dos dois,
perguntaram como estava se sentindo o ferido. Philipp sorriu, no fora
daquela vez ainda que os paraguaios se tinham livrado de um bom
inimigo e nem se dariam ao luxo de dormir tranqilos. Viraram-se ao
mesmo tempo: ao longe aparecia um magote de cavaleiros, carruagens
de duas parelhas, uma grande escolta dividida em duas alas, lanas em
riste, bandeirolaS tremulando ao vento. Acercou-se deles von
Reisswitz, num belo cavalo baio de crinas longas, apeou-se e correu para
Philipp:
      - Ento, como est se sentindo?
        Philipp pediu que no se preocupasse com ele, queria saber quem
estava chegando com tanta segurana e tanto aparato. Grndling
respondeu pelo outro:
      - Os homens do 16.o Corpo de Voluntrios da Ptria podem e
devem sentir-se orgulhosos: est chegando o Imperador D. Pedro II
e com ele sua comitiva.
        Ajudaram Philipp a caminhar mais depressa, colocaram-se ao lado
de uma das ltimas barracas, viram sair ao encontro dos recm-chegados
o Baro de Porto Alegre, o General Caldwell e, logo depois, o
Visconde de Tamandar. Philipp no queria perder nada do que seus
olhos podiam ver, procurava identificar entre eles, ainda distantes, a
figura do imperador, imaginava que viesse com seu grande manto de
prpura, sua coroa de pedras preciosas e na certa montado num belo
e fogoso cavalo branco. Von der Oye disse, l vo, tambm, flores
e Mitre. Depois apontou para as tropas formadas para receber o
imperador, reparem naquelas blusas de flanela encarnada,  gente dos
batalhes de infantaria de voluntrios e de linha. Grndling chamou a
ateno para os homens do Quinto Batalho, para seus uniformes
verdes e disse que eles pareciam muito disciplinados. Philipp apontou,
vejam, eles esto se encontrando ao lado daquele pomar de laranjeiras
e seguem agora para a barraca do Baro de Porto Alegre. Von der
Oye faz um sinal de irritao, tanto aperto de mo, tantas
apresentaes, mas ningum nos diz quando vamos atacar esses paraguaiOS


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que se encastelaram em Uruguaiana, que adianta plantar barraca
aqui desta distncia, ficar olhando o inimigo atravs dos binculos?
Ou eles aqui no sabem que aquela gente s sai de l debaixo de
bala e de carga de cavalaria? Grndling pediu a ele que tivesse calma,
eles estavam l embaixo consumindo toda a comida e mesmo que
ningum atacasse terminavam por hastear uma bandeira branca.
Apontou para a cidade sitiada:
      - Vejam l, os nossos barcos cortando o rio, na outra margem
os argentinos, aqui brasileiros e uruguaios. E sabem quantos ns
somos? Pois tomem nota, meus amigos, somos mais de quinze mil
homens. E mando cortar esta mo se eles tm l dentro mais do que cinco
ou seis mil. Meus caros, eles esto perdidos e os nossos generais
sabem disso.
        Von Reisswitz disse, que Deus oua as suas palavras e que
todas elas encerrem a mais pura verdade; estamos cansados de ser
minoria. Depois sorriu e apontou para os outros.
      - Philipp, von der Oye e eu devemos escolher o mesmo
paraguaio, um segura o bicho pelo pescoo, outro pelos ps e o terceiro
enfia a espada at o cabo.
        Grndling bateu nas costas de Reisswitz, fao votos de que as
coisas se passem assim e que no seja o paraguaio a segurar os trs
pelo pescoo e utilizar o primeiro galho de rvore  mo. Viram passar
por perto um grupo de oficiais uruguaios, quepe amarelo-macela,
outros com grandes chapus e fitas encarnadas, com letreiros. Entre
eles um argentino ostentando, nas mangas, grandes laos de galo
estreito de ouro. Reisswitz comentou:
      - J teriam contado ao imperador sobre os desastres de So
Borja e das margens do Mbutu?
        Olharam para o cu escuro, grossas gotas de chuva comeavam
a cair, Philipp pensou nos braseiros e na carne assada, entreolharam-se
e procuraram a primeira barraca. Von der Oye correu a buscar o
churrasco, voltou com a respirao opressa, um pouco mais e ningum
ia comer nada hoje. As facas estavam afiadas, Philipp disse que sempre
que comia carne assada sob a chuva se lembrava dos tempos de
menino, numa longnqua e perdida estncia perto do mar, de onde
se podia avistar o Uruguai.
        Ziedler chegava logo depois, roupa encharcada, trazia debaixo
do brao um espeto e protegido por um pedao de pano um grande
naco de carne tostada. Sentou-se ao lado dos companheiros e disse:
      - O nosso imperador no  homem de ter medo de chuva.
Agora mesmo ouvi as ordens dadas para prepararem os cavalos que
ele quer passar em revista as tropas de cavalaria do Baro do Jacu.
      - A Segunda Diviso Ligeira - disse Grndling.


172


        O        churrasCO foi dividido e enquanto mastigavam a carne
espiavam, volta e meia, pela abertura da barraca a ver se a chuva diminua,
ouvindo o chapinhar das patas dos cavalos que cruzavam por perto,
gritos distanteS e o relinchar dos animais  soga. Grndling foi at
a porta da barraca e ficou algum tempo a espiar a linha de
carretilhas onde se instalara o Quartel Imperial, no alto da maior coxilha,
de l a viso abarcava o pampa ao redor e, mais abaixo, o casario
mido de Uruguaiana, envolto na bruma de chuva, como se estivesse
a afogar-se nas guas escuras do rio.
        Grndling retornou, sentou-se ao lado de Philipp que ainda
comia.
        - Bem, o imperador chegou, as tropas esto prontas, temos
trs vezes mais soldados do que eles l em Uruguaiana e estou a
apostar que ainda esta noite se receba ordens para atacar.
        Ficou a riscar o cho com a ponta da faca engordurada, depois
bateu nas costas de Philipp:
        - Sendo assim, o tenente vai esperar aqui at que um de ns
venha l debaixo busc-lo. Vai encontrar uma cidade limpa de
paraguaios, uma cama macia para dormir tranqilo e, quem sabe,
alguma mulher que se venha a descobrir em algum poro, uma mulher
branca, das nossas.
        Reisswitz levantou o dedo, fica para Philipp a segunda mulher
branca, a primeira agarro com unhas e dentes.
        Philipp no disse nada, limitou-se a olhar para os
companheiros e a continuar tentando arrancar o pouco de carne que ainda se
mantinha agarrada  costela.



3 A mo segurava desajeitadamente um grosso lpis de
carpinteiro, sobre a mesa um pedao de papel pardo, meio amarrotado,
com manchas de gordura. Fmanuel seguia atento as explicaes
de Catarina; Juliana, ao lado do marido, mantinha-se atenta ao que
ela dizia, aos detalhes e pormenores que adivinhava.
        Domingo de sol fraco, oficinas mergulhadas em silncio, os
restos do almoo ainda permaneciam sobre o fogo frio. Catarina
permaneceu um momento na escuta, depois disse, Daniel Ahraho deve


173


estar dormindo, tenho notado que ele passa muito tempo acordado
durante a noite, acho que est aproveitando agora que  domingo e
que os netos esto explorando os matos para os lados de Estncia
Velha.
        No quadrado que antes havia rabiscado, ela passou outros dois
traos:
      - Aqui se assenta o alicerce de pedra, o muro levanta mais,
pedra sem barro e sem argamassa, assim o vento entra e no deixa o
assoalho apodrecer,  preciso que o ar entre e que saia, os barrotes
devem correr nesta direo, pode-se botar quatro apoios de pedra,
assim o piso no sacode quando caminhar algum.
      - As paredes vo ser de madeira? - perguntou Emanuel,
interessado.
      -No, s as divises, com tbuas caiadas. Foi o que eu ouvi
Herr Mhlen dizer, acho que as paredes todas vo ser de tijolos e
por aqui  preciso cruzar barrotes de madeira, talvez ligados ao
telhado.
      - Herr Mhlen no ficou de vir hoje para conversar sobre isso?
      - J devia ter chegado - disse Catarina.
        Ela continuou absorta olhando os traos imprecisos, riscou mais
alguns, Emanuel e Juliana calados. Logo depois ouviram um cavalo
aproximar-se, Catarina disse, deve ser ele. Foi at a porta,
confirmou,  ele mesmo.
      - Entre, pensei que no viesse mais.
      - Desculpe, Frau Schneider, mas ainda tive de passar na casa
dos Silermagel, com as ltimas chuvas, o trabalho atrasou, eles
querem ir para a casa nova at o fim do ms e no sei ainda se vai
ser possvel.
        Cumprimentou Emanuel e Juliana, viu o papel sobre a mesa,
ento a senhora j est desenhando a casa, vejo que o meu servio
no vai ser mais necessrio. Catarina apanhou o papel num gesto
rpido, amassou-o, no era nada, estava apenas dizendo a Emanuel
como pensava que a casa podia ser, de acordo com o que haviam
conversado na ltima semana. Ofereceu uma cadeira ao recm-chegado,
sentou-se tambm, espalmou as mos, agora  s o senhor
quem vai falar.
        Joo Mhlen tirou do gibo um mao de papis grosseiros, pediu
licena a Catarina para usar o lpis que estava sobre a mesa,
estendeu uma folha maior, alisando-a com a mo calejada, Catarina espiou,
no havia risco nenhum no papel. Pelo que vejo o senhor no
trabalhou muito a nossa casa, esta semana.
      - A senhora se engana, Frau Schneider. Eu primeiro trabalho
com a cabea e s depois  que boto a coisa no papel. Veja aqui.


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        Mostrou outros papis menores com nmeros e contas, folheou
todos, disse: aqui esto todas as medidas, fiz a conta das pedras e
dos tijolos, da madeira e dos pregos, s no fiz ainda clculos sobre
o custo da mo-de-obra. Emanuel sorriu, nem precisa fazer, conte
com a gente aqui de casa, todos querem ajudar, at Mateus e Jacob.
o construtor disse, eu sei, eu sei. Depois concentrou-se na papelada,
aparava as folhas, falava sozinho, baixo, ningum entendia, por fim
bateu na mesa, vamos comear por aqui, veja a senhora, temos na
frente - riscou firme no papel - quase dez metros, daqui at aqui,
livrando o muro e o porto das oficinas. Da frente aos fundos temos
nove metros, o muro de arrimo passa junto do poo, aqui o terreno
cai um pouco, sobra um poro que bem pode servir para guardar
um pouco de lenha seca no inverno ou mesmo alguns trastes velhos.
A senhora ainda no disse nada, mas eu pergunto, fazemos a
cozinha no corpo da casa ou separada? Catarina sacudiu a mo, a
cozinha devia ficar no corpo da casa. Bem, ento eu mudo o plano
aqui dos fundos, deixo o poo no meio e levanto a cozinha deste
lado, se a senhora quiser se levanta aqui uma cobertura para o poo.
Catarina disse, isso depois se v. Pois muito bem, continuou Herr
Mhlen, esta  a frente, aqui tem as paredes da frente aos fundos,
so nove metros, esta parede divide a casa em duas partes, passa bem
pelo meio, amarrada no barrote mais forte.
        Levantou a mo com o lpis e mostrou, a parede sairia do meio
do telheiro atual, vinha por ali, cruzaria quase por cima da
portinhola do alapo de Herr Schneider, terminava na altura da janela e
da porta de entrada. Trs peas deste lado direito, de quem est de
dentro de casa, nos fundos a cozinha e na frente da cozinha a sala
de jantar. Catarina disse, no precisa fazer parede entre essa sala e
a cozinha, afinal d tudo na mesma. Mhlen interrompeu-a, tenha a
santa pacincia, Frau Schneider, j que vamos fazer uma casa nova
no vejo por que misturar sala com cozinha e nem a senhora precisa
disso, o terreno  grande, ainda se fosse gente pobre, de pouco
recurso para comprar tbua e prego, mas no, devia at ser a melhor
casa de So Leopoldo, as dos seus filhos at que so melhores e
nelas no economizei material e nem Emanuel as suas lavraturas.
        Depois ficou algum tempo riscando embevecido o que comeava
a parecer uma casa, Catarina admirada por sua agilidade, Emanuel de
boca aberta, voltou-se para Juliana: Herr Mhlen est desenhando
a casa, agora se v o telhado, ele risca as janelas, agora uma porta
grande,  uma bela casa.
        O        construtor ia falando como se fosse para ele mesmo, dando
explicaes de por que era assim e no de outro jeito, estes dois
vrtices das paredes laterais so de madeira como os do telhado;


175


o telhado leva ripas finas e pregadas em cima delas as chapas de
pinho de doze por vinte e cinco, no precisa mais do que um
centmetro de espessura, a gua escorre e no entra, o caimento forte no
deixa. Estas paredes a gente enche de tijolos, depois so rebocados
e caiados, as janelas eu quero fazer de guilhotina, de seis vidros com
postigos inteirios por fora. Estes alizares de madeira a gente
tambem pinta de branco, de fora nem se nota, as portas e janelas eu
recomendo que sejam pintadas de escuro.
        Catarina pediu licena para interromper, estava gostando muito
da casa, no podia ser melhor, mas Herr Mhlen no achava melhor
pintar portas e janelas de azul-anil? Explicou, na Europa eles dizem
que o azul espanta, alm dos maus espritos, as moscas. Ele disse
tanto faz, a casa vai ser sua, a senhora  quem vai morar nela,
pois se quer as janelas e as portas de azul, j vou escrever aqui azul
e ningum pode dizer que no sabia e nem que no foi avisado.
Catarina segurou a mo de Juliana:
        - Escuta aqui, minha filha, a casa vai ter quatro quartos, um
deles para ns, um outro para vocs dois, um para quando chegar
visita de longe e outro para as crianas ficarem em dia de chuva ou
de muito trio e ainda para a gente guardar coisas velhas.
        - Um quarto para ns? mas ns temos o nosso l nos fundos
Frau Catarina.
      - Aquele tambm vai abaixo,  uma pea muito pequena e
velha,
tem buraco por todos os cantos.
        Mhlen aproveitou a interrupo para perguntar:
        - E por falar nisso, Frau Schneider, o que ficou resolvido com
relao ao, como  que POSSO dizer, ao quarto, ao poo de Herr
Schneider?
      -No h a resolver, vamos entulhar o buraco e sobre vai
passar o assoalho da casa nova.
      -Mas ele me disse que preferia morrer a sair de l, que no
queria saber de quarto e nem de janela.
      -No se preocupe, com o tempo tudo se resolve, deixe a
coisa comigo.
        Houve um breve silncio, Catarina perguntou se a casa no ia
ter sto, ou algo assim parecido.
      - Bem, sobre isso eu gostaria de ouvir a sua opinio. Para
fazer sto refora-se os barrotes das tesouras e alm do forro bota-se
assoalho. Ento precisa de uma escada para chegar at l. Ela podia
ficar aqui no primeiro quarto, ou aqui no ltimo, ou ainda na cozinha,
no sei aonde a senhora prefere essa escada.
        Catarina examinou bem o desenho, passava o dedo, lentamente,
pela planta baixa, estacou num ponto:


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      - Acho melhor aqui na cozinha, pode-se descer ou subir a
qualquer hora do dia ou da noite, no incomoda ningum.
        Ouviram a voz abafada de Daniel Abraho.
      - Acho que ele est chamando pela senhora, oua, disse
Emanuel levantando-se e indo at a porta dos fundos.
        Catarina pediu licena, levantou-se apressada, ao passar a porta
ouviu distintamente os grunhidos do marido, era uma voz estranha,
roufenha, como de algum que estivesse sufocado. Ela abriu num
repelo a portinhola, espiou para baixo, o lampio estava com a
luz muito fraca, Daniel Abraho falava sem cessar, assustou-se com
a figura da mulher que surgia no alto, "fora com satans", tateava
com as mos trmulas em busca de algo, suava, olhos arregalados,
"onde est a cruz, a minha cruz?". Catarina sentou-se na borda do
assoalho, desceu os pequenos degraus, passou a mo pela testa do
marido.
      - Daniel Abraho, acorda, ests tendo um pesadelo.
        Sentiu que ele estava febril, procurou um pano, enxugou seu
rosto, falou com voz mansa, precisas sair um pouco, andar, por que
no aproveita o restinho de sol l fora e caminha, respira ar puro,
isto aqui no  lugar para um homem viver. Ele parecia olhar sem
ver, balbuciava palavras ininteligveis, depois disse:
      - Catarina, s tu Catarina? No deixa que me enterrem aqui,
eles no podem fazer isso, chama Emanuel, eles no podem fazer isso,
onde est Philipp, quero ver meu filho.
        Emanuel j estava no alto, trazia nas mos um copo de gua,
alcanou-o a Catarina, ela Levantou a cabea do marido:
      - Bebe um pouco,  gua fresca, bebe.
        Ele ainda ficou algum tempo desconfiado, olhou bem para a
mulher, por que abriram a tampa? este ar frio que vem de cima me mata,
vocs querem mesmo me matar? Ela fez um sinal para Emanuel
fechar a portinhola, acomodou a cabea do marido contra o peito,
recostou-se na parede forrada com madeira escura, disse a ele que
procurasse ficar quieto, acalmar-se, no havia perigo nenhum, l em
cima estavam Emanuel e Juliana, no havia nada a temer.
      - E Philipp?
        Catarina respondeu que o filho ainda estava na guerra e que a
guerra mal comeava, ningum sabia quando os soldados
comeariam a voltar, era coisa de que no se falava. Alisou os cabelos dele
como se tivesse entre os braos a cabea de um filho, como se fosse
Philipp ou Mateus, Carlota ou Jacob. Ou como se tivesse ao colo o
neto Francisco. o pezinho aleijado protegido por suas mos. Disse
para ele:
      - Amanh vamos at a casa de um tal Joo Jorge Maurer, um


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homem que tem feito muitas curas com as suas ervas, fica logo depois
de Hamburgerberg, ao p do morro Ferrabrs.
      -No quero remdios de ningum, estou me sentindo bem,
no estou doente.
      - Ests com febre e no tens dormido. Se os remdios no
fizerem bem, mal no vo fazer. E depois, fica aqui perto, no se
trata de nenhuma viagem.
        Ele gemeu, entregando-se. Catarina olhava para a chama do
candeeiro que bruxuleava soltando fumaa negra e logo a seguir a toca
mergulhou na escurido. Ele disse, no enxergo nada. Catarina passou
a mo grossa sobre seu rosto, acalmou-o, eu tambm no, depois,
vou buscar mais leo para o lampio, procura dormir, mesmo
porque no h mais sol l fora, a noite est chegando, o frio tambm.
        Emanuel despediu-se de Mhlen, pediu desculpas, ele na certa
compreendia, fechou a porta e levou Juliana para os fundos. Falou
baixo:
      -No faz barulho, acho que eles esto dormindo l embaixo,
Herr Schneider anda muito agitado ultimamente, pode at estar doente.



4 O 16.o Corpo de Voluntrios da Ptria estava colocado no
extremo oeste da formao dos aliados. Havia atrs do
acampamento de Philipp uma casinhola de pau-a-pique cercada de
laranjeiras, nas suas duas pequenas peas jaziam meia dzia de feridos,
entre eles um oficial italiano que se dizia haver lutado ao lado de
Garibaldi na Europa.
         noite, enquanto o imperador recebia para o jantar os
comandantes Mitre, flores e Paunero, cercado de nobres e de chefes de
Estado-Maior, Philipp fazia demonstraes de agilidade para provar
que estava curado e de que nada mais o impediria de participar do
assalto iminente ao reduto paraguaio, emparedado na cidade sitiada.
Grndling havia bebido um pouco mais pelo frio, sentara-se sobre
pelegos ao lado da grande fogueira, e ao redor de Philipp, aos gritos
de entusiasmo e de incentivo, reuniam-se os amigos, Ziedler, von
Reisswitz, von der Oye, Joo Franzen Filho, o cirurgio-mor Henrique
Grave e os sargentos Barth, Shann e Bienbeck. Depois Philipp cansou,
fez um sinal de que iria sentar um pouco, procurou a companhia de
Grndling.
      - J vejo que em lugar da bebida o melhor remdio contra o
frio  o exerccio - disse Grndling.
      -Na verdade ainda  o melhor - disse Philipp - mas o


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diabo desse ferimento ainda me d umas pontadas que me fazem suar
frio.
      - Eu acho mesmo que esses exerccios terminam por prejudicar
a prpria cura.
      -No acredito, o que eu quero  ir em frente e no ficar aqui
feito um invlido enquanto as tropas estiverem tomando a cidade.
        O        mdico Grave aproximou-se dos dois, agachou-se para ficar
mais perto, disse que tinha algumas novidades para contar. Philipp
antecipou-se: o ataque  esta madrugada. No, disse Grave, o pior
 que ningum sabe nada a esse respeito.
      -Merda - exclamou irritado Philipp - j estamos h um
ms aqui cercando essa gente, somos mais do dobro do que todos eles
somados e ainda esto com medo de retomar Uruguaiana. Esta  que
 a verdade.
      - Pelo que sei e ouvi dizer - prosseguiu o mdico - no
so os brasileiros que esto com medo, mas os castelhanos. O General
Paunero se desculpou dizendo que os seus soldados precisavam
proceder  limpeza das armas. Imaginem vocs, limpar armas agora, s
portas da cidade, esses paraguaios a tremerem l dentro como varas
verdes, cercados por todos os lados e at por gua, Tamandar fazendo
os seus barcos passearem para l e para c.  o cmulo.
        Grndling no dizia nada, deixou o queixo cair sobre o peito
e logo depois ressonava. Philipp afastou-se e logo depois estava
reunido com Ziedler, Franzen, Barth e Shann. Sem fazer bulha foram
para a proteo das laranjeiras, ao lado da casinha escura, em runas,
Shann querendo saber de que se tratava, Ziedler a pedir que ouvissem
o que Philipp tinha a dizer, era bom que ouvissem, ele j estava de
acordo. PhiLipp ainda perguntou se no havia ningum por perto,
Ziedler disse que precisavam ter cuidado com Grave, era o nico que
poderia passar por ali caso precisasse olhar algum doente. Ento Philipp
puxou os companheiros para mais perto de si, revelou que tivera
uma idia, um plano, que no entendia por que os trs exrcitos, com
mais de quinze mil homens bem armados, continuavam ali amarrados,
indecisos, enquanto nas outras frentes havia escassez de homens. Na
certa se portavam assim porque desconheciam a situao do inimigo,
julgavam os paraguaios ainda muito fortes e da a demora, o tempo
precioso que estavam perdendo. Franzen quis saber quais eram os
seus planos, no entendia onde Philipp queria chegar e nem o que
estava pretendendo, afinal havia generais em profuso por ali, era
mesmo o que no faltava, e no seriam eles, simples voluntrios
subalternos, que poderiam dar ordens de avanar. Philipp escutou sem um
gesto, depois disse:
      - Ordens de avanar, no - falou ainda mais baixo, tentando


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adivinhar algum por perto - mas quero saber se vocs esto
dispostos a formarem comigo uma patrulha, nesta madrugada ainda, irmos
at as linhas avanadas deles e conseguir informaes concretas e assim
acabar com essa vergonhosa indeciso.
      -Ns? - disse Shann espantado.
      - Pelo menos, ns - disse Philipp - pois se voc no quiser
ir  s voltar e tratar de dormir, como os outros. Mas escuta aqui,
bico calado, nem um pio.
        O        outro titubeou um pouco, finalmente disse que se eles
achavam que podiam ir, ento ele iria tambm. Mas vamos a p? No,
disse Philipp, levamos os cavalos para mais longe e de l samos em
direo da cidade. Quando chegarmos mais perto, sim, a vamos a p
e se os sentinelas no estiverem de olhos bem abertos vamos entrar
reduto adentro e colher o maior nmero de informaes possvel.
Ziedler esfregou as mos, afinal se vai fazer alguma coisa, termino
ficando maluco neste marasmo dos diabos.
      - Essa gente - ciciou ele - pensa que fazer guerra  comer
um banquete por noite na barraca do imperador,  ficar discutindo
queni ataca primeiro, quem deve disparar o primeiro tiro, se os
brasileiros, se os castelhanos.
      - Claro - disse Philipp - o imperador no vai aceitar outra
condio seno a de que as suas tropas tomem a iniciativa.  a maior
autoridade aqui presente.
      -Mas quando? - perguntou Ziedler.
        Philipp determinou que Shan e o Tenente Ziedler levassem os
cavalos para um local mais distante, apontou a direo, e ele e os
outros se encarregariam de levar os arreios e as armas. S arma
branca, sublinhou.
        Quando Philipp passou por perto da fogueira, na volta, viu
Grndling ressonando e alguns soldados italianos conversando junto
de uma rvore baixa, desfolhada. Foi at  sua barraca, reuniu o
seu material e saiu por trs, procurando no despertar a ateno de
ningum. E quando caminhava na direo do lugar combinado
lembrou-se de Augusta e das crianas e pensou se algum dia ainda os
veria de novo. Mas imaginou seu pai lendo a Bblia e fazendo as
suas oraes, na certa estaria pedindo proteo para ele e para seus
companheiros.



5 Albino disse que estava com vontade de beber pela memria dos
que morriam na guerra contra os paraguaios, que at j havia
escolhido o local, iriam todos  penso da Ernestina, na Rua da
Alegria. Breitenbach aregalou os olhos, na Rua do Arco da Velha?


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L mesmo, redargiu mal-humorado Albino, abotoando a carreira de
botes de madreprola do seu jaqueto de veludo azul. Tinha
olheiras profundas no rosto plido, enquanto Augusto mantinha-se sentado
num dos almofades, a um canto da mansarda.
      -No ser melhor beber por aqui mesmo ou acabou a bebida
nesta casa? - disse Barnatski.
      - Vamos beber na Ernestina - repetiu Albino.
      - Est bem, meu caro fidalgo, vamos beber na casa da
Ernestina se vossa alteza assim ordenar.
      - Que horas so? - perguntou Albino.
        Breitenbach foi at  escada, desceu um pedao, espiou para
baixo e gritou que eram quase oito horas. Mller, que folheava um
jornal velho, disse que era muito cedo, que na Rua da Alegria as
coisas comeavam l pelas onze horas, meia-noite. Albino disse:
      - As coisas, em geral, comeam quando eu chego. Podemos ir
s onze como s dez ou mesmo agora - fez uma pausa. - Mas
vamos s onze.
        Breitenbach notou Augusto, estranhou, o nosso caro amigo ali no
me parece muito disposto, deve estar com receio de respirar o mesmo
ar daquelas senhoras prostitutas da Ernestina; pois no h o que
temer, elas no falam a nossa lngua e nem a megera da dona da casa.
No fundo, nos fazem aquelas festinhas pelo dinheiro.
      - E depois, h muito pouco homem nesta Porto Alegre
abandonada - disse Mller.
        Augusto levantou-se com preguia, alisou os cabelos, passou as
mos pela roupa tirando p e desfazendo dobras, mostrava-se
entediado, por fim virou-se para Albino e disse peremptrio:
      - Vocs hoje no contam comigo, vou para casa, no estou
disposto.
      - J disse que vamos todos - disse Albino sem olhar para o
amigo.
      - Pois eu tambm j disse que no estou disposto e vou embora.
Divirtam-se bastante, so meus votos - replicou Augusto
enfrentando o outro.
        Albino virou-se rpido, segurou a camisa de Augusto e gritou
colrico:
      - Vamos todos!
      - J disse e repito, no vou. Largue a minha roupa e no
grite comigo, no sou seu criado.
        Albino levantou a mo e deu uma estalada bofetada no rosto de
Augusto que, surpreso, desequilibrou-se e teria cado se no fosse
Breitenbach que tratou de ampara-lo e ainda gritou para os dois,
mas o que  isso? pelo amor de Deus, se portam como dois negros da


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Rua da Praia. Augusto cobriu o rosto com as mos, Breitenbach ainda
o ajudou a sentar-se no sof da parede, voltou-se para o dono da
casa:
        - Francamente, jamais esperava que voc fizesse uma coisa
dessas, tanto mais que est na sua prpria casa e com um amigo de
tantos anos.
        Por um momento ficaram todos calados, depois Mller disse sem
convico, eu se fosse voc pediria desculpas ao Augusto, afinal isso
no tem explicao, ainda mais entre amigos, entre pessoas bem
educadas. Albino esfregava as mos, nervoso, ajoelhou-se aos ps do
amigo:
        - Augusto, pr favor, peo desculpas, no sei onde estava com
a cabea, devo estar ficando louco.
        Segurou forte a mo do amigo, roou de leve com os dedos no
rosto avermelhado, nas marcas latejantes do golpe, Augusto, peo
mil perdes, est aqui o meu rosto, pronto, te vinga, bate  vontade,
por favor me bate, eu mereo.
        Breitenbach encaminhou-se para a escada, com licena, eu me
retiro, s onze vocs me encontram na Ernestina, agora sim me
deu vontade de beber at cair. Desceu seguido de Mller e de
Barnatski, esses tambm confirmando que estariam juntos com Breitenbach,
afinal era melhor todos terminarem bebendo juntos,
encomendariam bebida para uma dzia de bons bebedores.
        Augusto permanecia impassvel, tentando no olhar para o dono
da casa, cobrindo metade do rosto com a mo. Albino foi encher dois
copos, enfiou um deles na mo do amigo, vamos l, meu querido
Augusto, um brinde pela nossa amizade, pelo amor que coisa
nenhuma deste mundo poder acabar; devia estar louco para fazer uma
coisa dessas e justamente na frente dos outros, no sei o que se passa
comigo, estou com nojo de tudo, de todas as coisas, estou com nojo
de mim, promete que me perdoa, vamos, quero uma palavra tua,
uma s.
        Augusto mantinha a expresso dura, recusava-se a falar,
teimava em desviar os olhos, em no o encarar.
        - Que  isso, meu querido, est aqui o meu rosto, bate nele,
tens todo o direito de vingana, ela  toda sua, vamos.
        Levantou a mo inerte de Augusto e com ela bateu no prprio
rosto, enfrentando a resistncia do amigo que terminou por levantar-se
num repelo, fazendo meno de encaminhar-se para a escada e sair.
Albino correu e obstruiu o caminho.
        - No, embora no vais, quero antes o teu perdo, exige o que
quiseres, me humilha, cospe no meu rosto.
        Meteu a mo no bolso do jaqueto, tirou um punhado de moedas


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de prata e enfiou-as no bolso de Augusto. Esquece isso, antes de
mais nada somos amigos, juro por tudo o que h de mais sagrado
que jamais repetirei uma coisa dessas, mas compreende, fiquei fora de
mim, jamais iria naquela espelunca sem que voc fosse tambm, no
sinto prazer na companhia de mais ningum. Augusto disse com voz
quase inaudvel "meu pai proibiu a nossa amizade". Albino pegou
das suas mos, seu pai o qu? no acredito, seu pai no quer mais a
nossa amizade? foi isso o que voc disse? mas pelo amor de Deus,
ISSO  mentira sua, fala Augusto, diz que ests mentindo, que isso 
s para me ferir,  vingana, no posso acreditar.
      - Deixa eu sair - disse Augusto tentando abrir caminho.
        - Peo, eu lhe imploro pelo que mais quer nesse mundo, pelos
seus pais, pelos seus irmos, escuta aqui, tenho naquela gaveta duas
moedas de ouro que o meu pai me deu e que foram presente do
Major Schaeffer, sabes quem foi o Major Schaeffer, era como se
fosse um irmo do meu pai. Pois elas so tuas a partir de hoje.
        Augusto permaneceu onde estava enquanto ele abria a gaveta e
de l tirava as moedas envoltas num leno de seda branco. Voltou
triunfante, exibindo-as, vs, so suas e com elas selamos a nossa
amizade que jamais ser desfeita. Abriu a mo de Augusto e introduziu
nela as moedas, fechando-lhe os dedos com fora. Augusto retornou
ao sof, sentou-se mudo e abatido, como se estivesse cansado.
      - Amigos para sempre? - disse Albino ajoelhando-se ao lado
dele, pegando em suas mos.
        Augusto fez apenas que sim com a cabea, depois pegou o copo
que ficara sobre a mesinha ao lado e emborcou na garganta toda a
bebida. Albino sorriu, vejo que estou perdoado, onde esta o meu copo,
quero beber tambm, assim.
        Ouviram a voz da governanta ao p da escada:
        - O senhor Albino vai querer comer alguma coisa antes de
sair?
        Ele gritou que no, que ela podia ir dormir, no queria mais
nada. Depois voltou-se para o amigo que permanecia absorto no sof,
tirou o jaqueto, a camisa rendada, os sapatos.
        - Vou trocar de roupa, vamos encontrar os outros s onze,
conforme o combinado, eles ficaro sabendo que continuamos amigos
como sempre, que no houve nada demais.
        Buscou a garrafa que ficara aberta e empinou a bebida na boca,
bebeu grandes goles, parte do lquido escorreu peito abaixo, trauteou
um pequeno trecho de uma ria conhecida, vamos l meu caro e
querido Augusto, um pouco mais de alegria neste rosto, vamos passar
uma esponja em tudo o que ficou para trs, a vida comea agora entre
ns dois, somos escravos um do outro. Queres beber um pouco mais,
assim no gargalo como fazem os marinheiros e as putas?  o selo do


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amor eterno. Augusto sacudiu a cabea, disse que no queria beber
daquele modo e nem sabia. Pois bebo eu por ns dois, at enxergar
o meu amigo pelo fundo da garrafa, atravs dele vou ver um monstro,
o monstro Augusto. Abriu uma gaveta da cmoda e dela tirou uma
camisa engomada. Uma das camisas que meu pai mandou buscar no
Rio de Janeiro, l aqui as minhas iniciais bordadas em seda, A.G.
que significam Albino Grndling, irmo mais novo do operoso e
genial Jorge Antnio, dirigente de grandes emprios, casado com a bela
e inexpressiva Clara Hausmann, pai glorioso de trs filhos, glrias do
av Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Grndling, oficial das
foras imperiais que agora se cobrem de medalhas no campo de
batalha. V, no somos nenhuma famlia de negros e nem de
mestios. Vamos beber um pouco mais para enfrentar esse frio de cachorro
que anda pelas ruas. Eis aqui um conhaque especial, selo negro, est
h mais de vinte anos dentro desta garrafa. Como eu, h trinta e trs
anos dentro desse outro garrafo, dentro desta casa, dentro dessa
imensa merda que no tem sada.
        Augusto permanecia mudo e quieto, meio assustado com o
desabafo do outro. Viu-o enfiar a camisa, calar os sapatos e vestir o
mesmo jaqueto azul. Albino colocou-se na frente do espelho, j
meio tonto, demorou-se a pentear os longos cabelos sedosos. Virou-se
para Augusto, estou bem? No vais sentir vergonha de andar ao lado
de um perfeito cavalheiro, algum que afinal deve ser respeitado,
algum que tem um pai que se bate como um bravo na guerra contra
Os paraguaios. Puxou Augusto pelas mos, dirigiram-se ambos para
a escada. Antes de comear a descer os degraus ngremes, pediu:
        - Por favor, ajuda-me a descer esta maldita escada, acho que
bebi um pouco alm da conta. Preciso do teu amparo - sorriu
passando a mo na cabea do amigo - sempre precisei.
        Desceram com uma certa dificuldade, atravessaram a sala
principal e quando Augusto abriu a porta ambos sentiram a lufada forte
do vento frio que vinha da rua. Albino pediu que ele passasse a chave
na fechadura e que ficasse com ela no seu bolso. Sou capaz de
perder essa chave e depois precisamos acordar a Elisa na volta. Passou
o brao sobre o ombro do amigo e iniciaram uma hesitante caminhada
pelos becos e ruas escuras, o vento fino levantando p e folhas secas,
cu nublado e ameaador.
        Quando Augusto entrou na casa de mulheres tinha a roupa
molhada e a fisionomia transtornada. Dirigiu-se para a mesa onde j
se encontravam os outros, olhou vago para cada um deles, sentou-se
numa das duas cadeiras vazias, tirou do bolso uma chave e duas
moedas de ouro, jogando tudo sobre a mesa, para espanto de todos,


184


deixando cair a cabea de cabelos desgrenhados sobre copos e
garrafas.
-        E o Albino, onde ficou Albino?
        Mller sacudiu o recm-chegado, repetiu a pergunta vrias
vezes. Augusto ergueu a cabea, olhou para eles como se os
desconheceSSe, teve um esgar imbecil e depois sorriu estranhamente.
-        Albino?
        - Sim, ele ficou de vir contigo. Que aconteceu, afinal o que
houve? - disse Breitenbach.
        - Matei Albino, acabei de matar Albino. Sabem, ele est no
fundo do Riacho Dilvio, ele agora no pode mais bater em ningum,
ele est afogado.



6 Philipp tinha o rosto colado ao capim spero, guiava-se pelos
pequenos e cintilantes focos de luz que tinha  frente, sabia que
os companheiros o seguiam de perto, podia escutar a respirao
de cada um deles. Esperou que chegassem mais perto. Sussurrou, s
tu, Ziedler? Franzen, Barth, Shann, cheguem mais para c. Vamos
contornar pela direita, esto vendo aquela luzinha mais avermelhada?
 direita fica a mureta do cemitrio,  onde eles devem ter a guarda
mais frouxa. Vamos  frente, agora mais juntos, cada um deve sentir
o corpo de outro, ningum mais pode abrir a boca, eles so capazes
de ouvir, lembrem-se, eles so ndios. Lembrou-se de Juanito, daria
um brao para contar com ele naquela noite escura, olhos e deslizar
de tigre. Bateu na mo do que estava mais prximo, era Ziedler,
continuou a rastejar colado ao cho, mo direita empunhando forte
a espada desembainhada. Sem armas de fogo no correriam o perigo
de um disparo acidental. Seria o fim de todos eles.
        S pararam qando deram de rosto no muro do cemitrio.
Ficaram ainda um certo tempo quietos, a ouvir atentos, ganhando a
certeza de que nenhum soldado inimigo estaria de sentinela por ali.
Ouviam vozes, mas seguramente a uns trinta metros, percebiam at
algumas palavras indecifrveis. Philipp deu dois toques na mo de
Ziedler e logo o sinal foi passado adiante. Levantaram-se cautelosos,
o muro era baixo, no mais que um metro, as pedras irregulares e
pontiagudas feriam as mos que tateavam no escuro. Comearam a
escalada silenciosa, procurando evitar qualquer retinir de metal,
alcanaram o outro lado, tornaram a colar-se ao cho e no se
moveram. Dois sentinelas, fazendo chegar at eles o cheiro acre dos seus
cigarros de palha, passavam naquele momento pelo lado de fora,
conversavam em voz alta, prosseguiram descuidados.


185


        Mais dois toques, o rastejar cuidadoso, procuravam agora
contornar as sepulturas cobertas de mato, vinte metros alm havia uma
boa posio para espiarem seguros os movimentos das tropas dentro
da cidade. De repente Philipp sentiu falsear o seu brao de apoio,
havia um buraco junto de si, seu corpo escorregava para dentro dele,
sentiu a mo de Ziedler que segurava forte sua tnica, tentando
impedir que escorregasse; outras mos vieram em seu socorro, mas as
beiradas de terra mida comeavam a desmoronar e ele sentiu que
afundava junto com a terra esboroada at chegar embaixo,
desesperado com o fedor nauseabundo em que mergulhava, as mos en-
terravam no frio da lama podre, panos, tateou um rosto
descarnado, virou-se para cima, ciciou para os companheiros que havia cado
numa sepultura aberta, h um morto aqui, acho que muitos outros.
Os amigos ajudaram-no a sair, ele estendia a mo para a frente,
depois abaixou-se e a esfregava nos arbustos, acho que enfiei esta
mo nas vsceras de um morto qualquer, est tudo podre a dentro.
Shann sussurrou, mas eles no tm terra para cobrir os seus mortos?
Ouviram vozes novamente, emudeceram, esperaram que o silncio
retornasse e prosseguiram com cuidado at o muro dos fundos.
Levantaram-se devagar, espiaram, permaneciam colados uns aos outros,
viram uma rua comprida e reta, pequenas fogueiras atraam chusmas de
soldados maltrapilhos, nenhum deles empunhando armas; falavam uma
algaravia incessante, muitos deles bebiam qualquer coisa em canecas
escuras. Pelos cantos e junto s paredes das casas outros
dormitavam sentados, cabeas apoiadas sobre os joelhos juntos, cingidos
pelos braos cruzados.
        Philipp esfregava continuamente a mo esquerda de encontro 
roupa, tentava livrar-se do que achava ser o sangue e os restos do
cadver em que afundara a mo, enquanto no despregava os olhos
do movimento dentro da cidade. De uma porta saiu um grupo, eram
quatro homens carregando, pela forma, um corpo dentro de uma
espcie de manta, dois outros mais com archotes, dirigiam-se para o lado
deles onde havia um velho porto que dava passagem para o
cemitrio onde estavam. O grupo vinha com dificuldade, o da frente
empurrou com o p o porto que bateu forte de encontro ao muro.
Passaram em silncio, os que levavam o fogo alumiavam a frente,
at que chegaram  cova onde Philipp cara. Ouviram um baque
surdo, tinham despejado o morto l dentro. Mas recolheram o pano
para o levar de volta.
        Um dos soldados com archote ainda permaneceu junto ao
buraco, chegava o fogo bem perto da terra, chamou os outros, falavam
baixo entre si, um deles saiu correndo, voltou logo depois com mais
trs companheiros armados, mais dois traziam mais archotes, Philipp


186


sussUrrou ao ouvido do que estava mais prximo "eles descobriram
os nossos rastos". Outros vieram, um deles gritava para dentro da
cidade com a mo em concha protegendo a boca, houve uma correria
desenfreada, os que dormitavam junto s paredes levantaram-se meio
tontos e corriam em busca das armas.
        Philipp e os companheiros estavam protegidos dos focos de luz
por uma quina de pedras e traves de madeira encostadas umas as
outras. Os paraguaiOS faziam muito barulho e agora corriam em massa
para o pequeno porto quebrado, atropelando-se. Barth disse para
Philipp que ainda havia tempo de fugirem colados ao muro, rumo ao
norte, antes que se aproximasse algum deles com uma das tochas
fumegantes. Shann estava como que paralisado, gaguejou que se
movessem um brao sequer seriam descobertos como ratos num paiol
vazio. Philipp ainda tentou empurrar decidido os companheiros, mas
dois paragUaiOs j estavam quase junto deles, gritaram histricos e
um grupo avanou apontando as suas armas, baionetas caladas, a
luz das tochas dando a cada um deles o aspecto de fantasmas. Para
Philipp eram os prprios mortos que haviam sado do buraco onde
cara. Os cinco imveis, olhos muito arregalados. Uma dezena de
baionetas muito agudas a comprimir as costelas de encontro s
pedras do muro. Um archote foi passado lentamente pela cara de cada
um, Franzen teve a certeza de que o iriam cegar a fogo, enquanto os
ferros entrariam carne adentro, aos gritos guerreiros de homens
ensandecidos, raivosos. Foi quando chegou um outro, espada em punho,
dragonas esfarrapadas dependuradas nos ombros, gritava mais forte,
era uma voz de comando, chegou-se bem perto dos alemes, ia
segurando ferozmente o queixo de cada um, enquanto soldados os
desarmavam. Ziedler ia dizer qualquer coisa quando recebeu violenta
bofetada na boca, o oficial agora falava de dedo em riste, afastou seus
homens e apontou o porto para o grupo de inimigos, empurrando-os
com vigor, com uma fora insuspeitada para homem to pequeno e
to magro. Philipp notou que da boca de Zicdler o sangue escorria
forte, saiu  frente, caminhavam trpegos num terreno irregular e
escuro, em meio a um corredor de soldados maltrapilhos que cuspiam
neles e batiam-lhes com a folha da espada nas costas, braos e pernas.
Foram levados para uma espcie de praceta em runas, centenas
de homens surgiam de todas as esquinas, cada vez mais archotes
iluminando a cena, Philipp pensou se as suas tropas no estariam la
de cima vendo toda aquela balbrdia, aquelas dezenas de fogos deviam
parecer a eles, do alto, um pequeno incndio, algo de anormal numa
cidade sitiada, quem sabe estariam estendendo os homens para o
ataque final, o ataque que no saa nunca, que estava deixando os
homens nervosos, afinal um ms ao redor daqueles soldados maltrapi-


187


lhos e famintos. Eles sentiam que no havia mais comida na cidade,
os soldados vinham e revistavam os seus bolsos, na certa buscando
um pedao de po, um naco de charque ou algo para mastigar.
        Cada um foi cercado por trs e quatro homens, tratavam agora
de amarrar as suas mos s costas, utilizando para isso finas tiras de
couro cru, com laadas to fortes que penetravam nas carnes e eles
sentiam o sangue escorrer pelos dedos. Ziedler disse, esto quebrando
os meus pulsos, so uns animais. Barth comeou a chorar, a gente
com tropa capaz de entrar aqui com boleadeiras e ningum tem
coragem de dar uma ordem. Philipp chutou a sua perna com fora,
Barth o olhou espantado, que vo eles pensar de um soldado que
chora na frente do inimigo, disse Philipp com raiva, se nem chegou
ainda a hora do fuzilamento? O outro ficou momentaneamente quieto,
surpreso, olhou sofrido para Philipp, pronunciou um apagado
"fuzilar?". Depois deixou o queixo cair sobre o peito, mantinha-se de
p apoiado pelo corpo de Philipp e de Shann. A tnica de Ziedler
estava coberta de sangue, disse para os companheiros:  at
engraado morrer aqui debaixo dos olhos de mais de quinze mil homens
bem armados e que s no avanam por medo, olha para esses
miserveis, esta tudo a morrer de fome, nem botinas eles tm mais,
bastava acenar l de longe com algumas costelas gordas. Olharam para
os lados escuros do rio e distinguiram pequenas luzes boiando. E
Tamandar deste outro lado sem atacar, disse Barth com dio. Rilhou
os dentes, um tiro s para esses lados e os paraguaios fugiam como
corvos. Depois perguntou para Philipp se achava mesmo que eles iriam
ser fuzilados.
        -         o que eu faria no lugar deles - respondeu ele quase sem
mover os lbios.
        Os cinco foram amarrados numa grossa rvore, um pltano sem
folhas. Ao redor deles se postaram uns vinte homens de armas
apontadas, muitos com lanas e espadas. Aos poucos foram sentando na
terra solta do cho, pareciam agora no ter pressa, era como se
guardassem cinco vacas transviadas. Philipp repetiu com voz quase
apagada, eles vo nos fuzilar ao amanhecer. Ento notou que
numerosas outras patrulhas batiam pelas redondezas, na certa estavam
desconfiados de que pudessem encontrar ainda mais soldados inimigos.
      - E o pior - disse Philipp, -  que ningum sabe que estamos
aqui, esto certos de que estamos a dormir nas barracas. Quando se
derem conta, de manh, vai ser muito tarde.
      - E a ordem de ataque no era para hoje? - perguntou Shann.
        Philipp devia ter sorrido, seus companheiros no enxergavam seu
rosto escondido pelas sombras. Disse, eles esto por atacar todos os


188


dias, mas sempre acontece alguma coisa, vo adiando, sei l, devem
atacar depois que toda essa gente miservel tenha morrido de fome.
        Notaram que outros corpos eram retirados das casinholas
dentro daqueles panos pretos e a seguir levados para os lados do
cemitrio. Philipp falou entredentes, aquele buraco onde eu ca j deve estar
cheio de cadveres.  de gente que est morrendo dentro dessas
casas. Houve um silncio. A voz de Philipp parecia vir de longe, cava,
soturna, os outros o ouviram sem acreditar:
      - Eu sei, esto morrendo de clera.
        A noite era enorme e fria, no acabava mais. Barth perguntou a
philipp se estavam no dia 16 de setembro. Ele disse, 18. Barth ainda
pensou um pouco mais, depois disse com voz trmula:
      - Eles podiam esperar um pouco mais, dentro de vinte dias
me fuzilariam j com trinta e cinco anos.
      - Sorte, ento, tenho eu - disse Philipp - consegui viver
onze anos mais do que tu.
        Notaram, de repente, meio apavorados, que o dia se anunciava
na barra do horizonte, exatamente do lado dos seus canhes.



189



X


1 Jorge Antnio parecia de pedra, ps cravados no barro, cabea
descoberta e fustigada pela chuva fina e persistente, braos
cruzados enquanto a seu lado um policial, com divisas de sargento
na manga, dava ordens aos seus homens encarapitados numa
pequena e insegura canoa, um deles segurando um lampio. Muitos negros,
na margem, remexiam com varas o fundo das guas do Arroio
Dilvio em busca do corpo de Albino. Atrs de Jorge Antnio, formando
um pequeno grupo, Breitenbach, Barnatski e Mller calados,
acompanhando nervosos a faina de toda aquela gente, ouvindo as ordens
do sargento que em determinado momento aproximou-se do irmo
mais velho, limpou a gua do rosto:
      - Eu pergunto, meu caro senhor, se esse rapaz Augusto no
teria inventado uma histria qualquer depois de uma grande
bebedeira, afinal o seu irmo  bem capaz de estar num outro lugar,
at mesmo dormindo na casa de algum amigo.
        Jorge Antnio virou-se para os trs rapazes que estavam logo
atrs de si, perguntou se eles tinham ouvido o sargento. Breitenbach
disse que sim, mas Augusto no estava bbado quando afirmou que
matara Albino, nem eles haviam bebido demais, pois acabavam de
chegar. Jorge Antnio pediu ao sargento que continuasse, por favor,
nas suas buscas, no poderia voltar para casa sem levar uma certeza.
Depois falou para os rapazes, estava certo de que Augusto matara o
amigo depois que este havia descoberto o roubo das moedas de ouro,
ao sarem de casa; talvez houvesse ameaado Augusto ou ento
Augusto, vendo-se descoberto, s encontrara essa sada. Mller protestou,
Augusto seria incapaz de uma coisa dessas, as moedas deviam mesmo
ter sido dadas para ele pelo prprio Albino, eram os dois melhores
amigos do grupo.
      - Vocs viram Albino dar essas moedas a ele?


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      -No - disse Barnatski - ns samos e os dois ficaram
sozinhos.
      - Pois vou acusar esse bandido de roubo e de assassinato -
ameaou Jorge Antnio perdendo a calma aparente.
        Apesar do frio e da chuva dois negros foram obrigados a entrar
gua adentro para vasculharem o fundo do arroio com os ps. Mais
pessoas haviam trazido lampies, alguem de dentro da canoa gritou,
acho que por aqui no h corpo nenhum. O sargento armou as
mos em concha e berrou que continuassem as buscas, que fossem
mais para baixo, havia um pouco de correnteza.
        Parou uma calea, Clara desceu correndo para junto do marido,
chorava convulsamente, foi abraada por ele. Eu disse que ficasses
em casa, terminas doente com um tempo desses. Ela continuou
soluando, cabea enterrada no seu peito, ento o marido comeou a
lev-la de volta subindo uma pequena rampa escorregadia. Vai para
casa, fica l, assim que eu souber de alguma coisa vou te avisar,
volta, as crianas podem acordar, terminam se assustando.
        Quando a calea desapareceu, engolida pela chuva, ele voltou
para o mesmo lugar, os rapazes s suas costas, falou em voz baixa
e dura:
      - Eu sabia que vocs andavam desviando Albino do bom
caminho, ele s queria saber de bebidas, de boas roupas, nem a famlia
ele visitava mais e o resultado de tudo est a, para mim so todos
culpados.
        Os rapazes permaneceram em silncio, ouvia-se apenas o rudo
das longas varas batendo nas guas, vozes que ordenavam "mais ali,
um pouco para este lado, os negros que no fiquem a parados,
movam-se". Jorge Antnio retomou a fala, cada um vai pagar pelo que
fez, vou tirar tudo a limpo, esse miservel vai morrer de podre na
cadeia, todos os dias vou l cuspir na sua cara, toda a famlia dele
vai pagar caro por esse banditismo, isso eu juro pela memria da
minha me. Virou-se para os rapazes, avanou sobre eles desferindo
socos e pontaps, chegou a derrubar Breitenbach. O sargento veio
correndo, esbaforido, mas o que se passa, Herr Grndling, pelo
amor de Deus, no piore as coisas, tenha calma. Segurou Jorge
Antnio, auxiliado por mais dois policiais que haviam chegado logo
depois dele.
      - Eles so culpados tambm pela morte de meu irmo, so
criminosos iguais ao outro, vou matar um por um, juro que vou.
        O        sargento auxiliou Breitenbach a levantar-se do barro,
aconselhou a eles que fossem para as suas casas, mais tarde seriam chamados
para contar direitinho a histria toda, uns rapazes de boa famlia
metidos num crime hediondo, era melhor que estivessem na guerra onde


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tantos rapazes da idade deles defendiam a ptria em vez de levarem
aquela vida ociosa e de bebedeiras. Um dos policiais foi com eles
at o nvel do caminho onde havia muitas carroas paradas, vazias,
mandou-os embora e depois voltou. Disse ao sargento que os rapazes
j se tinham ido e que, na sua opinio, achava melhor suspender
as buscas at o dia clarear. No iam encontrar nada naquela
escurido, at os negros j estavam se recusando a trabalhar naquelas
condies. O sargento perguntou a Jorge Antnio se podiam
suspender as buscas. Ele disse que no, pagaria a todos em dobro, mas s
sairia dali depois de encontrarem o corpo do irmo.
      -Mas nem sabemos se ele realmente foi morto - disse o
sargento abrindo os braos.
      - Pois eu sei que ele foi morto e precisamos achar o
corpo disse Jorge Antnio em seu portugus atravessado e difcil.
        O        sargento deu de ombros, pois vamos continuar, somos pagos
para isso e recebemos ordens do Chefe de Polcia, fique tranqilo.
Ordenou aos homens: continuem, no parem o servio, temos que
achar o corpo.
        Algum deu um grito que j era esperado, mas que a todos
encheu de pavor:
      - Est aqui, achamos!
        Houve um rebulio, Jorge Antnio correu pela margem, o
sargento saiu atrs dele, ordenava que usassem a corda, que a canoa
chegasse mais para perto, pediu mais lampies, os negros comeavam
a sair de dentro dgua tremendo dos ps  cabea, tinham as roupas
coladas no corpo, um outro negro que ficara de fora alcanou para
eles uma garrafa que comeou a passar de boca em boca. Quatro ou
cinco candeeiros se juntaram sobre um mulambo coberto de barro.
Um soldado puxou para cima o corpo que fora arrastado de bruos,
jogaram um balde de gua sobre ele, surgiu do monturo a cara
branca de Albino, olhos escancarados, cabelos cobertos de musgo e
de limo, no rosto de pedra a expresso era de espanto ou de medo.
        Jorge Antnio olhou rapidamente, voltou o rosto, respirou
fundo e agachou-se ao lado do corpo do irmo, tirou um leno do bolso
e comeou a limpar a terra e o limo viscoso que tapavam a boca e
as narinas, depois fechou os terrveis olhos esgazeados, levantou-se.
foi amparado por dois amigos que acabavam de chegar, virou-se para
a escurido para que no o vissem chorar, ele, um Grndling, e atravs
da cortina de lgrimas a nebulosa e perdida figura da me, o menino
Albino sentado ao colo dela numa pomposa roupinha de veludo preto,
alva camisa engomada de rendas e botes de madreprola, Albino
montado no varal da calea no fundo da antiga casa da Rua da
Igreja, ele tomando a primeira comunho num dia de muito sol e


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de calor, os negros vendedores de melancia  porta da igreja, olhos
e dentes branCoS, a pele das caras negro-azuladas, reluzentes de suor,
o        potrinho baio que o pai lhe dera e que estava arisco e nervoso no
fundo do ptio, sacudindo as crinas claras, as longas pernas
desgraciosas e as delicadas patas tamborilando no cho duro e seco de vero.
Albino chorava de alegria, o pai abraou os dois, sua barba ruiva
reluzia contra O CU azul e o sol quente que demarcava em sombras
fortes os altos muros de pedra.
        Quando chegou em casa Clara estava na porta, corpo enrolado
numa grande mantilha de l, ansiosa, e ento? Jorge Antnio sacudiu
a cabea, ele foi encontrado no fundo do arroio, Eichner e Schulze se
encarregaram de tudo, no sei agora o que vou mandar dizer ao nosso
pai.
        Entrou, tirou o casaco e as botinas, Clara j havia trazido um
par de chinelos, disse ao marido que precisava trocar toda a roupa.
Ele foi para o quarto seguido por ela, sentou-se numa pequena cadeira,
deixou cair os braos, eu sabia que um dia isso ainda poderia
acontecer a Albino, podia terminar nisso que a est, achava que o trabalho
tinha sido inventado para os negros, seus amigos eram todos iguais,
s bebida, mulheres e roupas finas e o pior  o escndalo, o falatrio,
essa gente imunda, esses mestios todos que vo passar a comentar
nas nossas costas, que vo rir de ns.
        Clara chorava baixinho enquanto ajudava o marido a trocar
de roupa, depois trouxe uma toalha e comeou a esfregar os seus
cabelos empapados de gua da chuva. Bateram na porta do quarto,
ficaram surpresos, Clara disse que talvez fosse a vizinha do lado,
Teresa, mulher do Mateus Luft, que ficara ali lhe fazendo
companhia assim que soubera da desgraa. Ele fez um sinal para que ela
mandasse a vizinha embora, no queria ser visto naquele estado. Clara
entreabriu a porta, a vizinha estendeu uma bandeja, trago uma xcara
de ch para Herr Grndling. tem mel e limo para evitar constipao.
Clara agradeceu, pegou da bandeja e tornou a fechar a porta. Veio
para o ldo do marido, este ch vai te fazer muito bem. queira Deus
que no apanhes uma doena com toda essa chuva e ainda mais
ficando por tanto tempo com os ps enterrados na lama.
      -No sei o que mandar dizer ao pai, mas preciso escrever
para ele, contar o que houve, sei que vai ser um sofrimento muito
grande, no fundo acho que ele tambm temia o que pudesse
acontecer para o Albino.
        Bateram forte na porta de entrada, batidas ocas de punhos
fechados, Jorge Antnio saiu do quarto perturbado, algum j havia
aberto a porta, ele ouviu distintamente a voz do sargento, "preciso
falar Urgente com Herr Grndling". Jorge Antnio gritou que ele podia


193


entrar, o sargento enfiou a cara molhada pela fresta da porta e pediu
desculpas, no podia entrar, suas botas estavam cobertas de lama.
      - Afinal, o que houve? - perguntou o dono da casa, penteando
os cabelos revoltos com os dedos.
      - Augusto, Herr Grndling, Augusto.
      - Prenderam esse bandido?
      -No, Herr Grndling, ele foi encontrado na casa do seu irmo,
na mansarda, matou-se com um tiro de garrucha na boca.



2 Ziedler gemeu, Phulipp olhou angustiado para ele, os paraguaios
que estavam mais perto olharam tambm, mal sados do breve
sono, mas ele disse para o amigo que no era nada, tinha quase
dormido, o corpo escorregara um pouco e os tentos de couro cru
haviam penetrado nas carnes doloridas dos pulsos. Philipp disse que
no conseguia mover com as pontas dos dedos, sentia agulhadas de
fogo nas feridas causadas pelos tentos, tinha as mos inchadas. Disse
em voz um pouco mais alta, de maneira que os outros o pudessem
ouvir, que todos deviam estar sentindo as feridas, era natural, as
carnes inchavam e as tiras apertavam cada vez mais. Depois olhou
para o cu, perscrutou o horizonte que era visto por entre dois
telhados em runas, as nuvens estavam baixas e pesadas.
        Ele disse para os companheiros que seriam mais de oito horas,
mas que o dia no teria sol. As sentinelas permaneciam ainda
sentadas, alguns dos soldados dormiam deitados de corpo inteiro na
terra batida, havia algum movimento maior no fim de uma das ruas,
um grupo se destacava, agora, mal sados de um prdio maior. Philipp
chamou a ateno dos outros, acho que l vem um graduado com a
sua gente, a nossa hora deve estar chegando, eles se parecem com
um bando de hienas. O grupo aproximou-se, a maioria ostentava
gales, mas seus fardamentos eram miserveis. Bem ao centro um tipo
mais moo, o nico que no levava gales, mas envergava um
fardamento azul-escuro, quepe do mesmo pano, gola e canhes
encarnados. Os demais discutiam entre si, ele caminhava  frente, calado,
mos soltas, a espada arrastando e deixando um risco na terra.
      - Aposto as minhas duas mos podres como aquele de punho
encarnado  o prprio Estigarrbia - disse Philipp.
      - Estigarrbia? - estranhou Barth - no pode ser,  muito
moo e parece to miservel como os outros.
      - Vocs reparam numa coisa? - disse Ziedler - ningum a
atia fogo, no vejo sinal de comida.
        - Olha, eu acho que eles no tm mais nada para botar na


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boca, esto com cara de esfomeados, esses soldados esto morrendo -
disse Shann.
        O        oficial de gola encarnada parou, os outros formaram uma roda
em torno dele, falavam como periquitos. Philipp perguntou "quem 
que disse a que a nossa gente ia atacar essa madrugada?". Sorriu
triste, quando entrarem aqui Vo encontrar cinco mil cadaveres. Fez
um breve silncio, acrescentou, cinco mil e cinco. Entreolharam-se,
voltaram a cabea para o mesmo lado, no viam movimento
nenhum por entre a nesga de terra divisada entre os telhados.
      - O imperador deve estar reunido na sua barraca com os
generais aliados, cada um pedindo mais tempo para o preparo dos seus
homenS, enquanto tomam um bom caf quente com fatias de carne
assada - disse Philipp amargurado.
        Um daqueles oficiais destacou-se do grupo, encaminhou-se para
o lado deles, chamou os soldados que apenas levantaram a cabea,
outros arrastaram os ps descalos em sua direo; o oficial gritou
qualquer coisa, agora todos olhavam para ele e muitos se
aproximaram, sem continncia e nem postura. O oficial falava, falava,
apontou para o grupo de prisioneiros, ento meia dzia deles caminhou
para a rvore, Philipp sentiu o bafio azedo das suas bocas, os homens
comearam a cortar a corda maior que a todos jungia, Shann gemia
baixinho, Ziedler no pde conter uma praga, as feridas queimavam
como brasa, Philipp disse entredentes que fossem homens, que
soubessem morrer com dignidade na frente daqueles miserveis ndios,
uns pobres-diabos famintos e doentes. Disse para os amigos, eles
cheiram a podre.
        Foram empurrados para o centro do largo que devia ter sido
uma pequena praa, ainda se via a marca dos antigos canteiros.
Esparramados por todos os lados viam-se barcos dos mais variados tipos,
desde canoas semiconstrudas, o cavername de madeira quase verde
ainda, sem revestimento, estranhas balsas improvisadas com velhas
cmodas sem gavetas, com proas e quilhas feitas de galhos grossos de
rvores, at barcos revestidos de couro cru de boi e alcatroados, e
uma grande jangada de tbuas de forro sobre pipas e quatro frascos
esverdeados de farmcia. Philipp disse, eles estavam pensando em
fugir pelo rio, reparem nas embarcaes, mas com isso eles morriam
afogados a vinte metros da margem. Ziedler bateu com os cotovelos
em Philipp, olha l, uma banheira velha sustentada por quatro
pedaos de pau, meu Deus, essa gente est desesperada, bastava fazer
rebentar um obus num telhado qualquer de uma dessas casas e eles
desapareceriam como lebres. Barth batia os dentes, disse a Philipp que
estava com febre, o outro disse "os nossos males acabam dentro de
mais um pouco".


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        Ouviram um tiro, viraram-se assustados. Um cavalo velho e
magro dobrou os joelhos e caiu lentamente por terra, sangrando na
cabea. Vrios soldados caram sobre o animal ainda vivo e
comearam a tirar-lhe o couro com afiadas facas, todos exmios carniceiros.
Outros tratavam de refazer algumas fogueiras, mas a lenha verde
desprendia uma fumaa escura e s pegavam fogo os pedaos de mveis
que iam sendo tirados das casas velhas, a maioria sem portas e nem
janelas. Barth perguntou que horas seriam, Shann respondeu que se
falasse pelo seu prprio estmago o dia estava a meio e nem
atacavam as suas tropas e nem chovia para que a gua fria pudesse
lavar e refrescar a febre dos pulsos cortados e inflamados.
        As postas da carne de cavalo j estavam chegadas ao fogo, os
soldados aguardavam por perto, facas em punho, olhos fixos nos
espetos sangrentos. Ouviram-se outros tiros, Zedler disse, esto
liquidando com o que sobrou da cavalhada roubada em So Borja e Itaqui,
esses miserveis. Muitos outros soldados apareciam de outras ruas,
saam das casas, apoiavam-se nos companheiros, mal se sustendo em
p, lvidos, olhos esgazeados, famlicos. Philipp lamentou, se tivessem
podido voltar e dizer aos seus comandantes em que estado se
encontrava a praa sitiada, na certa tomariam coragem e era s
aparecer na ravina mais prxima uma linha de cavalaria e todos ali se
renderiam de joelhos, talvez alguns at morressem de susto ao ouvir
o primeiro toque de clarim ordenando atacar.
        Um oficial menor reagrupou um magote de soldados estonteados.
formou uma primeira linha de oito homens com um joelho em terra,
mais oito atrs, de p, empunhavam velhas clavinas e espingardas de
pederneira, Philipp esboou um sorriso triste vendo a formao do
peloto de fuzilamento aprontando-se  frente deles, sentiu o latejar
dos pulsos feridos, as dores que subiam forte cotovelos acima, fechou
os olhos, o tempo desaparecia, sentiu-se leve, impondervel, era o
imperador do Brasil que ele entrevia pelas dobras da saia da me,
os negros escravos armando a rede entre um casebre descolorido e
uma pequena rvore, as franjas brancas, os fios vermelhos tranados;
a figura enevoada do imperador esparramando-se na rede, a
cobertura de palha seca ondulando e ameaando ruir, sua me ralhando,
"este no  o imperador,  s um amigo do teu pai"; o homem da
rede deixando cair sobre as pernas uma grossa corrente de ouro, o
anel reluzente no dedo indicador, as grandes e belas botinas de couro
curtido, a camisa muito limpa, as mos alvas de dedos finos como se
fossem de senhora rica; o cesto aberto pelos escravos e um ndio que
lhe entregava uma bela, redonda e lustrosa broa de milho; o ndio
seguindo os seus passos, a correr pelo campo para salvar os borregos
da fria dos caracars que lhes furavam os olhos; o ndio ao lado do


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poo, os soldados batendo nele com as coronhas das suas espingardas;
a sombra do ndio nas longas noites entre inimigos; uma profunda
sensao de falta de ar, de angstia, Philipp gritou: Juanito!
        Abriu os olhos, os soldados preparavam as suas armas, o oficial
j havia desembainhado a sua espada, Ziedler perguntou se ele estava
sentindo alguma coisa, Philipp disse que no, tivera uma viso, real,
palpvel, agora estava bem, os outros juntavam-se mais a ele,
ombros colados, os tiros seriam despejados a meia altura, ventre e peito,
na hora de "fogo" levantariam o queixo para evitar que o chumbo
entrasse pelos olhos, que deformassem o rosto. Ento o oficial
virou-se de costas para eles, os soldados do peloto fizeram o mesmo,
naquele momento pulava um pedao de trincheira, mais parecendo uma
vala e que circundava a cidade, o oficial de quepe e fardamento azul-
escuro, ladeado por mais quatro outros companheiros, um deles
empunhando uma lana com um trapo branco preso no lugar da
bandeirola com as cores nacionais.
        Ento a cena pareceu a eles um sonho, algo inacreditvel, os
soldados do peloto de fuzilamento correram para ver a caminhada
do seu comandante-em-chefe rumo s tropas inimigas; Philipp e
Ziedler viram no alto da primeira coxilha a linha negra, agitada das suas
tropas, batalhes iniciavam pelas pontas um avano lento, as baterias
chegavam ao alto puxadas por parelhas de cavalos, os quais eram
logo desatrelados e seus homens tratavam lpidos de instalar as peas.
Estigarrbia prosseguia impvido na sua marcha para a derrota, pelo
grupo cruzavam indiferentes os primeiros magotes de cavalarianos com
suas lanas ainda erguidas. Philipp viu Shann dobrar os joelhos e cair
redondamente ao solo, cara enfiada na areia solta, as mos roxas e
sanguinolentas presas s costas; Ziedler tinha os olhos cheios de
lgrimas, encostou o rosto no ombro do amigo, perguntou se no podia
chorar um pouco, por certo que no era de medo; Philipp cerrou os
dentes e conseguiu dizer a todos eles que podiam chorar, mas depressa
que os companheiros que chegavam podiam achar que estivessem
chorando de medo, e isso no era verdade. Viram saltar o fosso os
primeiros soldados, os paraguaios atiravam longe as suas armas e muitos
deles, guindados pela mo de um cavaleiro, se aboletavam na garupa do
inimigo e com ele desaparecia de volta, fugindo da cidade sitiada, em
meio a gritos e ordens confusas. Ento Philipp deixou escorregar o
corpo e caiu sentado, as pernas dormentes no mais o sustinham, os
outros fizeram o mesmo, Shann ainda permanecia na mesma
posio, devia ter desmaiado. O primeiro amigo a avist-los, o cirurgio-
mor Grave, apeou do cavalo num salto, correu para junto deles:
        - Philipp, Ziedler, mas pelo amor de Deus, que loucura
fizeram vocs?



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        Passou as mos nos cabelos de Philipp, agachou-se s suas costas
e depois de olhar as feridas dos tentos nos pulsos disse a eles:
lamento muito, lamento muito mesmo, mas vai doer um pouco para
cortar essas firas.



3 Emanuel e Juliana sentados no banco junto  parede; ao lado
deles, bem juntos, Carlota e o marido, Joaquim Kurtz. Mateus e
Maria Luza de p, ao lado do fogo; Dane junto  porta, ainda
com a mesma roupa com a qual chegara do Porto, relho e chapu de
abas largas nas mos. Augusta, ladeada por Amanda e Daniel, olhos
vermelhos, cabelos em desalinho. Daniel Abraho sentado num
tamborete, olhar distante, Bblia presa entre as mos. O fogo semi-
apagado com as panelas negras sobre a chapa, Catarina sentada junto 
mesa, blusa branca de mangas arregaadas, passando os olhos, de vez
em quando, pelo grupo. Era um domingo, chegavam at ali os gritos
e as conversas das crianas reunidas nas oficinas mortas.
        Sobre a tbua da mesa uma carta de muitas folhas de papel
amarelado, Catarina disse que havia chamado os filhos para que
soubessem do que se passava com o irmo deles na guerra. Era uma
carta de Herr Grndling, eles haviam estado juntos na rendio de
Uruguaiana, e sabe Deus para onde mais iriam, cumpria-se a vontade
do Senhor.
        -  uma letra muito difcil, esta de Herr Grndling - disse
ela procurando desculpar-se dos tropeos.
        Ajeitou-se na cadeira, aproximava e afastava o papel dos olhos,
mais difcil ainda porque deve ser uma carta escrita em cima dos
joelhos, num acampamento, e nunca sobra tempo aos soldados para
escreverem cartas.
        Com a ponta da blusa que puxara de dentro do cs da saia
enxugou os olhos, a gente vai ficando velha, vai ficando mais fraca,
Herr Grndling diz aqui que tem o corao partido pela notcia que
recebeu da morte do filho Albino, que Deus sabe o que faz nos seus
altos desgnios, que a vida para ele est perdendo todo o sentido,
que foi melhor que isso contecesse sem que Sofia estivesse viva, que
ela no suportaria uma dor to grande.
        Calou-se um pouco, enquanto percorria o papel com os olhos.
Depois disse, Philipp est bem agora, ele diz que o nosso filho foi
sempre um bravo soldado, mas que escapou por muito pouco de morrer
fuzilado pelos paraguaios. Conta que quando as tropas aliadas entraram
em Uruguaiana l encontraram Philipp com mais quatro
companheiros, mos atadas s costas, no meio de uma praa destruda, onde


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estavam para ser passados pelas armas; que foram salvos porque o
general comandante dos paraguaios havia se decidido pela rendio e
que se no fora pelos ferimentos nos pulsos, causados pelas tiras de
couro cru com que haviam sido manietados, nada de mais se poderia
lamentar; mas os ferimentos, naquela altura, estavam arruinados e
chegou-se a pensar que os rapazes poderiam vir a perder as mos,
mas tal no aconteceu graas aos cuidados do cirurgio-mor Grave
que tudo fez, dia e noite, para curar as feridas; que encontraram
Uruguaiana arrasada, milhares de paraguaioS morrendo de clera e
de tifo, as casas saqueadas e que o nico lugar onde foi possvel
receber o imperador, a igreja em construo, tinha l dentro doentes
esperando a morte, mas mesmo assim foi rezada uma missa pela
vitria dando graas a Deus por no ter havido uma chacina, por no
ter morrido nenhum homem dos nossos, o que prova que o Senhor
est do nosso lado.
        Daniel Abraho levantou o brao, tinha os olhos vermelhos,
depois abriu a Bblia:
        - O Senhor sempre esteve do nosso lado, ao lado do nosso
filho, esteve sempre com a nossa gente.
        Tirou do bolso um pequeno livro negro, uma fita encarnada
separava as pginas, abriu onde queria, leu com voz soturna, oremos:
" Deus que s o autor da paz e amas a concrdia, no conhecimento
de ti est a vida eterna e servir-te  liberdade perfeita. Defende-nos,
teus humildes servos, contra as investidas dos nossos inimigos, para
que ns, confiando inteiramente em tua defesa, no temamos o poder
de nenhum adversrio; pelo poder de Nosso Senhor Jesus Cristo, Teu
Filho, nosso Senhor, amm".
        Todos repetiram o amm; neste momento entrou o menino
Francisco puxando o pezinho deformado, correu e aninhou-se no colo
de Maria Luza que o abraou em lgrimas. Augusta permanecia
erecta, agarrada  mo da filha mais velha, parecia no chorar, mas
as lgrimas abriam, de cada lado do rosto, um quase invisvel sulco,
cada um deles terminando nas comissuras dos lbios tremulos e
cerrados.
        Catarina esperou que o marido terminasse de falar, olhos sempre
atentos  carta procurando decifrar certas palavras obscuras, havia
termos que ela nunca vira, acostumada que estava com as palavras
ligadas s coisas e aos produtos do emprio e das oficinas, aprendera
um pouco mais quando da morte do filho Joo Jorge, quando Carlota,
j com o primeiro filho, Daniel Abraho, o Dane, passara longas
horas e largos dias ensinando a me a ler, ela precisava, para
conforto prprio, valer-se da Bblia nas horas de desespero, nas noites


199


que no acabavam nunca, nas noites em que o sono no chegava
nunca.
        Catarina esperou pelo silncio de todos, recomeou: que Deus
foi injuriado pela presena de um tal padre Duarte, um dos cabeas
da expedio inimiga, que instigara o saque e os massacres nas
praas de So Borja e de Itaqui e que, ao aproximar-se do imperador
brasileiro, tratou de pedir, em prantos, que lhe fosse dada proteo
a ele e ao seu pas, esse um homem que s vinha praticando o mal em
nome de Deus, e que o padre Gay, estando ao lado do Estado-Maior
Imperial, revoltou-se com a presena e com o cinismo daquele
sacerdote pecador, avanando sobre ele a proferir injrias e at o
ameaando com um chicote, um espetculo triste para a Igreja, dois
ministros de Deus atracados como selvagens ou como ndios, diante dos
olhos de todos, dos grandes generais e do prprio imperador que se
mostrou desgostoso com a cena. Depois os soldados vencidos foram
obrigados a desfilar perante os oficiais aliados e caminhavam um a um,
como se no fossem soldados, mas mendigos, numa procisso que
no acabava mais, todos eles carregando alguma coisa do saque,
uma panela amassada, um pedao de cadeira, uma porta de armrio,
uma gaveta de cmoda, peas de roupas de senhoras, pedaos de
ferro arrancados das grades de janelas e de portes, outros levavam
guarda-chuvas rotos, sombrinhas de seda, caixas e sacos, os soldados
de cavalaria levavam sobre a cabea todos os seus arreios; e como isso
demorasse muito, o imperador resolveu entrar na cidade enquanto os
oficiais inferiores assistiam ao desfile dos paraguaios prisioneiros a fim
de verem se no carregavam armas e nem munies. Na cidade
nenhum habitante, todos haviam fugido ao aproximar-se a horda inimiga
e muito bem agiram, pois seriam na certa trucidados. Philipp foi
removido para fora da cidade, que havia o perigo do contgio do clera,
ficou numa boa barraca de campanha e l foi tratado com carinho; nos
primeiros dias recebia gua na boca e comia pelas mos dos amigos;
seus companheiros Ziedler, Shann, Barth e Franzen tambm, sendo que
logo no dia seguinte o prprio imperador quis ver os feridos e saber
bem de toda a histria, repreendeu-os pela indisciplina, mas relevava
a falta pela inteno generosa e herica de prestar um servio to
arriscado para a causa brasileira, mandando citar os nomes deles com
elogio a ser registrado. Devo dizer que Philipp, no momento em que
escrevo estas linhas, j usa as duas mos com certa facilidade estando
os cortes quase cicatrizados.
        Maria Luza abaixou-se, remexeu nas brasas que ainda restavam
no fogo e botou mais lenha, assoprando com fora. Disse para todos,
enquanto isso vou esquentar gua para um caf, j sabemos que o pior
j passou, que Deus no deixou de olhar para os seus filhos. Mateus


200


resolveu ajudar a mulher, foi at a parte de trs da casa e de l
trouxe um balde de gua do poO, enchendo a chaleira e uma das
panelas, levando as outras para a sala do lado, empilhando-as no cho.
Retornaram os dois para os seus lugares, Daniel Abraho pediu que
Catarina prosseguisse na leitura da carta. Ela demorou ainda um
pouco para decifrar alguma palavra que a confundia, disse: no
entendo esta linha, mas no faz mal, mais aqui diz Herr Grundling
que ficou muito triste com o estado em que ficou a cidade, os
paraguaios haviam cavado em torno dela uma comprida trincheira muito
primria, sustentada a terra por tbuas velhas e tijolos sem argamassa;
tinham s cinco peas de artilharia, se  que se pudesse chamar
aquilo por esse nome, imaginem, canhes de 8, um deles fundido em
Barcelona no ano de 1788, outro em Douai, em 1790, outro em
Sevilha, no ano de 1679, e os reparos, pelo que se observou, pareciam
todos feitos naquelas mesmas pocas remotas; eles pretendiam fugir
pelo rio e Philipp e seus companheiros j tinham notado isso quando
feitos prisioneiros, mas na certa haviam temido a vigilncia da
esquadra de Tamandar. Houve um "Te-Deum" rezado pelo proco de
Itaqui que, como no tinha paramentos, terminou usando os que
havia encontrado na mala do padre paraguaio; a banda de msica do
"Niteri", que o visconde passara para o "Onze de Junho", executou
muito mal os hinos dos trs pases aliados. E que o que salvou
mesmo Philipp foi a chegada, nesse dia, do vapor de guerra "Tramanda"
trazendo muitos mdicos, remdios e material para o servio dos
hospitais de campanha. Acontece que no havendo feridos de
combate, muitos saram queimados pela exploso de um paiol deixado
pelos paraguaios, pois ao despejar-se as patronas caa dos cartuchos
muita plvora que, por qualquer atrito inesperado, incendiou-se,
explodindo o resto de munio. Dez homens ficaram com queimaduras
muito feias, dois morreram logo, calcinados. Foi um espetculo
terrvel e que causou horror mesmo aos homens mais acostumados 
guerra, pois os feridos tinham as cabeas deformadas e gritavam de
dor sem parar, enquanto os mdicos tentavam aplicar algodo e
ligaduras em volta das chagas; foi uma vitria sem herosmo e isso nos
entristece muito, alm da minha tristeza pessoal pelo fim que teve o
meu Albino e que s em saber disso perco o sono durante a noite
e s vezes, no fosse Jorge Antnio e os meus netos, penso que
seria melhor no voltar mais, ficar perdido por estas terras ou quem
sabe por terras do Paraguai depois que eles forem derrotados e que
Deus faa justia e se compadea de todos ns.
        Catarina foi interrompida por Daniel Abraho que se levantara
e abrindo o pequeno livro de capa preta trovejou na sala a sua voz
colrica, em meio ao temor respeitoso de todos; o pequeno Fran-


201


cisco a olhar espantado para o av; "Onipotente Deus, d-nos graa
para que possamos libertar-nos das obras da escurido e colocar sobre
ns mesmos a armadura da luz". Fechou o livro, olhou em redor,
estava emocionado e fraco; foi amparado por Mateus, saram os dois,
pai e filho, em direo dos fundos. Catarina dobrou as folhas de
papel e disse que precisava levar aquela carta para o filho de Herr
Grndlng, em Porto Alegre, ele devia saber o que escrevera o pai,
devia saber que estava bem, so e salvo.
        Continuaram todos calados, num silncio opressivo, ouvia-se
apenas o chiar da gua posta a ferver sobre a chapa do fogo. Catarina
alisava a carta, depois cruzou os braos e sobre eles deitou a cabea,
iniciando um choro abafado como no fazia h longos e longos anos.
Mas em parte era de alegria por saber que Philipp vivia e, por outro
lado, pelos sofrimentos e pela dor que ele sofrera ao ver de perto
a morte, imaginando as clavinas dos paraguaios apontadas para o
corao de seu filho.



4 Catarina enxugava a testa com um leno xadrez, estava postada
no meio da rua, olhava para o alto, mo em pala sobre os olhos,
que o sol enchia o cu azul de intensa claridade; dali ela podia
ter uma viso melhor das quatro paredes j levantadas, seis homens
tentavam erguer um grosso barrote de madeira de lei. Encarapitado no
alto, torso nu, Joo Mhlen dava ordens, sustentando a ponta de
uma corda que ajudava a erguer a trave. As crianas, enxotadas pela
av que no queria nenhuma delas ali por perto, brincavam longe, os
maiores um pouco mais perto, atemorizados pela maneira confiante
com que o velho Mhlen se equilibrava sobre os barrotes, enquanto
alguns homens, a meia altura, enchiam os vos com tijolos e
argamassa de barro vermelho.
        O        barrote foi suspenso, ficou atravessado sobre dois outros,
formando um tringulo em cima do qual o velho Mhlen sentou-se
exausto, suor a escorrer pela cara, costas lustrosas. De l gritou para
Catarina:
        -  preciso cobrir logo antes que caia uma dessas chuvas de
vero, depois a coisa fica mais difcil.
        Ela fez um gesto de mo como a dizer que aquilo no tinha
Importncia, afinal no havia mais nada dentro da casa antiga, a
toca de Daniel Abraho tinha uma cobertura provisria contra as
intempries, o sol quente no batia l, chuva no entraria tambm.
Calou-se, atravessou o vo desprotegido da porta da frente, caminhou
entre pilhas de tijolos e de pedaos de madeira e acercou-se do


202


alapo, batendo nele com o n dos dedos. Daniel Abraho, sai um
pouco, precisas de sol, est quase na hora de comer, Augusta j
mandou avisar. Ele empurrou a portinhola, abriu uma pequena fresta,
olhos apertados contra a luz forte, no estou com vontade de sair,
estou pedindo a Deus que proteja todos os seus filhos dos pecados do
mundo que est mudando e por isso o castigo dos cus vir, mais
cedo ou mais tarde, o Livro Sagrado nos fala dos novos tempos.
        Catarina terminou de abrir a pequena tampa, o marido recuou
como se tivesse sido empurrado por mos invisveis, sentou-se a um
canto mais protegido, mos estendidas como a querer impedi-la de
entrar. Ela apenas ficou pensativa, agachada, disse que traria comida,
de que procurasse descansar, o dia seguinte seria de trabalho nas
oficinas. Ele perguntou por Emanuel, a mulher disse que ele andava
por a, acompanhando Juliana num passeio curto at o rio, Juliana
gostava de ouvir o barulho das guas batendo nas estacas do trapiche
e os gritos dos rapazes quando conseguiam pescar alguma coisa.
Ento ela deixou cair a tampa, saiu pensativa, virou-se para o alto:
      -Mestre Mhlen, j pode descer, o senhor hoje come com a
gente, Augusta mandou convidar.
        Ele agradeceu, disse que havia trazido comida de casa e que
assaria um bom pedao de charque com os seus homens, nem sabia
mais comer dentro de casa, havia at esquecido, comida para ele
tinha que ter gosto de sol. Catarina disse, o senhor  quem sabe,
vou mandar trazer gua bem fresca para todos.
        Quando chegou  rua viu aproximar-se uma carroa, na bolia
dois homens, reconheceu Rmerding e Schmidt, empregados da Casa
Trem da Picada Bom Jardim. Eles pararam a carroa e ficaram a olhar
para a construo, l do alto Mhlen abanou para eles, Schmidt
gritou: um dia desses o senhor ainda despenca a do alto. Desceram da
carroa e foram ao encontro de Catarina de mos estendidas:
      - A senhora no quer mandar nada para Porto Alegre?
Estamos com a carroa quase vazia, temos l um bom carregamento
de Kopp e Rech para trazer, a senhora sabe, um pouco de papel e
muita ferramenta.
      - Se no se incomodam, vou querer, sim - disse Catarina
apertando a mo dos dois. - Preciso mandar oito serigotes para o nosso
emprio e quatro fardos de fumo e de couro para solas.
        Acercou-se da carroa, olhou para dentro dela: se no vo
carregar mais nada acho que isso cabe a, mesmo porque o peso no 
dos maiores.
      - E que fosse - disse Rmerding - os cavalos so fortes
e de tiro longo. Tem certeza de que no quer mandar mais nada?
        Ela pensou um pouco, bem, no  todo o dia que isso acontece,


203


acho que cabem a mais dois eixos de carroa que pediram de l para
trocar por outros que esto gastos e trincados, carroas l de casa
mesmo. Eles disseram que iam comer qualquer coisa e antes de
partirem, na primeira hora da tarde, passariam ali para carregar. Mhlen
gritou do alto que ela fosse para casa almoar, ele e os seus
homens ajudariam no carregamento quando os dois voltassem.
        A carroa partiu e Catarina encaminhou-se para a casa de Philipp,
chamando os netos espalhados pelo largo, cabelos ruivos como
pequenas fogueiras ao sol do meio-dia, entre algumas cabras e ces
vadios que corriam junto deles.
        Augusta esperou que as crianas lavassem as mos e a cara
suada, deu um copo de gua fresca para a sogra. Catarina disse, manda
um dos meninos levar uma bilha de gua fresca para Herr Mhlen
e seus homens. Augusta gritou por um deles e comeou a servir os
pratos tirando a comida das grandes panelas de cima do fogo.
      - Fique quieta aqui com as crianas, eu mesma vou levar o
prato de Herr Schneider e a gua para os homens.
        Catarina disse, ele no quis sair da toca, ando preocupada com
Dniel Abraho, est doente, est piorando muito, mas se recusa a
procurar algum que lhe possa dar remdio, tratar da sua sade.
      - E quando vo at a casa daquele Maurer, em Hamburgerberg?
      -No dia em que ele se convencer.
        Augusta ainda ficou um certo tempo parada, indecisa, Catarina
meteu a colher na comida e encheu a boca, depois fez sinal para a
nora levar a comida e a gua.
        Em abril, a casa pronta, Catarina andava como um fantasma pelo
casaro, o tamanho das peas davam-lhe a impresso de estar em
casa alheia; Emanuel e mais alguns homens da oficina arrastando
os mveis toscos encomendados por Dane no Porto; o grande fogo
de tijolos amarelados e a chapa de ferro com duas aberturas, o cano
que subia reto pela parede, atravessava o forro e saa entre as
plaquetas de pinho da cobertura. No segundo quarto o assoalho por
terminar, bem  mostra o alapo da toca de Daniel Abraho, as tbuas
empilhadas a um canto, cavaletes, uma caixa de ferramentas.
Emanuel aproximou-se, a senhora no achava melhor chamar o Dr.
Hillebrand, h dois dias que ele no sai nem para trabalhar, parece que
perdeu a vontade ou deve estar ficando muito fraco.
      - Para mim, quero que saiba, o Dr. Hillebrand morreu.
        Emanuel pediu desculpas, havia se lembrado do mdico apenas
porque estava preocupado por Herr Schneider. Em outras vezes,
mesmo doente, ele nunca abandonara o trabalho, j lavrara lombilhos
ardendo em febre. Catarina ouviu de cenho franzido, sentou-se num
tamborete de couro, mos apoiadas nos joelhos.


204


      - Pede a Mateus que te ajude a preparar a calea deles, vamos
levar Daniel Abraho a esse Joo Maurer que est fazendo curas
milagroSas com ervas. Saindo daqui dentro de uma hora pode-se estar
de volta antes da noite.
        Emanuel saiu apressado, ela acercou-se do alapo, chamou pelo
marido. Abriu-Se uma fresta lentamente, ela viu apenas os dedos
escalavrados de Daniel Abraho.
      -No quero nada, me deixem em paz.
      - Apronta-te, vamos sair.
      -No quero sair, j disse para me deixarem em paz.
        Ela puxou a tampa com rapidez, prendeu-a com o p, falou com
voz mansa e pausada:
        -         para o teu bem,  para fazer a vontade de Deus. Emanuel
foi aprontar a calea do Mateus, vamos at Hamburgerberg, precisas
tambm de remdio para o corpo, que a alma a Deus pertence.
        Ele permanecia encolhido como um bicho do mato, olhava
desconfiado para a mulher, cofiava lentamente a barba forte, acalmou-se
um pouco mais, depois subiu a pequena escada, relanceou em redor
como se de repente descobrisse que estava em lugar desconhecido e
hostil.
      - Eu sei que vocs querem me tirar daqui para fechar a minha
morada, eu sei, quando me trouxerem de volta no vou mais poder
entrar.
        -  verdade, vamos fechar sim, isto no  lugar para um ente
de Deus morar,  at uma ofensa ao Senhor que tudo v, teus netos
no querem saber de um av que dorme debaixo da terra.
        Examinou-o bem, troca de roupa, alisa esse cabelo enquanto vou
tirar tudo o que est a embaixo. Vais passar a dormir num quarto
como o de qualquer pessoa filha de Deus.
      -No, as minhas coisas eu mesmo tiro a de dentro, ningum
mais vai entrar a no ser eu.
        Apontou para um malo: quero botar dentro dele tudo o que
estiver l embaixo. Catarina disse que achava tima a idia,
enquanto isso ela ia preparar-se para a pequena viagem.
        Quando retornou, o marido estava sentado no tamborete, o malo
fechado, apenas o velho lampio a leo ficara de fora, negro pela
fumaa de tantos anos. Tinha a Bblia entre as mos, olhava firme
para a escurido da toca. Catarina, com o p, empurrou a tampa do
alapo, botou a mo no ombro do marido, eu sei, no  nada fcil,
mas nunca  tarde demais para algum tomar uma atitude, fazer
alguma coisa pensando nos outros, lembrando-se do prximo. Abotoou
a sua camisa, foi buscar um casaco grosso, o vento frio do outono


205


j andava pelos campos, por entre as rvores do mato, poderiam
voltar muito tarde, dependendo de como estivessem os arroios.
        Emanuel entrou, acompanhado de Mateus, disse que o coche
estava l fora, haviam atrelado nele o melhor cavalo.
        - Eu vou com a senhora - disse Mateus. Depois virou-se para
o        pai que permanecia imvel - o senhor pode vir descansado, 
uma viagem bem curta, quase um passeio, e dizem que esse homem
 melhor do que os prprios mdicos.
        Catarina havia jogado sobre os ombros um xale de l, pegou do
brao do marido e, ajudada pelo filho, caminharam em direo da
porta da frente. Daniel Abraho, antes de sair, voltou-se e ficou
algum tempo a olhar para todos os lados, parecia achar tudo
estranho, Catarina disse:
        - Com essa casa vamos passar um inverno menos frio.
        Subiram para a calea, apertaram-se no assento estofado em
pano vermelho, Mateus pegou das rdeas e chicoteou o animal. Disse
para o pai que ainda permanecia mudo, esta  a melhor calea de toda
a regio, nem em Porto Alegre eles tm melhor. Ao passarem pelas
ruas centrais muita gente parava espantada, ento at que um dia
haviam conseguido tirar de casa, arrancar da sua toca, o pobre do Daniel
Abraho Schneider. Segurava forte a mo do marido e no via nada,
a no ser o grande cu aberto sobre eles e, s vezes, os pssaros que
em bando levantavam das ramadas  beira do caminho. Era como se
ela tambm andasse naquela manh pela primeira vez depois de muitos
anos a cu descoberto, o sol batendo nas suas roupas, na pele
gretada do marido que mantinha um ar de espanto, de alheamento.
        Chegaram a uma casa cercada de cinamomos, nos fundos de um
pinheiral fechado, o poo na frente, quase junto ao muro baixo de
pedras; era uma casa grande, de madeira velha. Num descampado
lateral eles viram muitas carretas, carroas e cavalos bem ajaezados,
gente que entrava e saa, outros que conversavam animados envergando
roupas domingueiras. Mateus estranhou, deve haver alguma coisa,
no  possvel tanta gente. Catarina olhava para tudo intrigada, um
pouco temerosa, quem sabe a casa no  esta, Jorge Kober me disse
em janeiro que ele morava neste caminho, mas numa casa pequena,
junto de mais duas de amigos seus.
        Um homem aproximou-se, deu bons dias, perguntou se no iam
descer, eram bem-vindos.
        - Por favor - disse Catarina -  aqui que mora Herr Maurer,
o que receita ervas?
      - Pois  justamente quem est se casando hoje, minha senhora.
Depois chegou-se mais perto, fixou Catarina, tirou o chapu
preto e perguntou intrigado:


206


      - Por acaso no  Frau Catarina Schneider?
        Ela olhou para Mateus, apertou ainda mais a mo do marido,
respondeU com a cabea que sim. Ento desam, disse ele sorridente,
sou Joo LudovicO Hpper, j estive comprando no seu emprio de
So Leopoldo e vendi alguma coisa no de Porto Alegre. Estou certo
que Joo Jorge Maurer vai ficar muito orgulhoso com a sua presena,
ele conhece a senhora de nome.
      - Fico muito agradecida - disse Catarina - mas
devemos voltar num outro dia qualquer, quem sabe no fim de maio,
o senhor sabe, no sabamos do casamento, eu trazia o meu marido
para uma consulta, este  meu filho Mateus.
        O        homem ficou um pouco confuso, mas no custava nada
descerem para dar um abrao nos noivos; ele casa hoje com uma das
filhas mais moas do falecido Andr Mentz e da viva Maria Elisabeth
Mller, a menina Jacobina. Eles vo ficar muito felizes com isso.
Ento viram apontar na porta da casa um homem jovem,
aparentando menos de trinta anos, estatura baixa, barba e cabelos louros, olhos
azuis. O homem disse:  Joo Jorge, o noivo. Fez um sinal para ele
que se encaminhou curioso para a calea, como a querer reconhecer
as pessoas que nela estavam. Hpper adiantou-se, disse a ele, imagine
que esto aqui Herr Schneider, sua mulher e seu filho, no sabiam
do casamento, vinham consultar.
        Maurer no disse nada, sentia-se que no estava  vontade na
roupa nova, fez um cumprimento com a cabea, Hpper explicou, na
verdade eles nem sabiam do casamento, Frau Schneider trazia o
marido para uma consulta, ele est se sentindo doente, mas eu expliquei
que era o dia do casamento e que Frau Schneider podia descer,
consultava noutro dia.
        Os trs permaneciam na calea, Maurer pediu que descessem,
pelo menos ficariam conhecendo a sua noiva, era da famlia Mentz.
Mateus saltou primeiro, deu a mo para o pai que desceu com uma
certa dificuldade, seguido de Catarina que observava Maurer com
interesse. Ele disse, sei que Herr Schneider  do mesmo ofcio, eu
tambm trabalho com madeira, um pouco na lavoura, mas agora os
doentes quase no me deixam tempo para essas coisas. Voltou-se para
Daniel Abraho:
      - O senhor no se incomoda se tiver de esperar por mais
alguns dias? Pode ser no fim da prxima semana.
        A noiva surgiu na porta, trajava um vestido branco singelo, os
cabelos puxados para o alto num coque largo, movia-se com vagar,
rosto extremamente plido. Catarina olhou para ela, disse para Maurer
que voltasse, a moa estava esperando e os convidados enchiam a casa.


207


Maurer fez um sinal, a moa aproximou-se lentamente, olhou
indiferente para os desconhecidos, ele disse:
      - Esta  Jacobina - e virando-se para ela - esses amigos
vinham consultar, no sabiam do nosso casamento, mas voltam na
prxima semana.
        Ela estendeu a mo, fazia ligeiros sinais com a cabea,
perguntou com voz sumida se no queriam entrar um pouco, estavam todos
em festa. Daniel Abraho que no havia dado nenhuma palavra
durante a viagem disse para Jacobina:
      - Deus ouve as splicas dos seus servos enfermos e s Ele nos
d ajuda e misericrdia, s a Ele rendemos graas.
        Jacobina fez um gesto rpido, lhos brilhantes, segurou as mos
de Daniel Abraho, vejo que o senhor tem f e s na f encontramos
salvao. Foi Deus quem guiou os seus passos at esta casa.
        Catarina olhou para Mateus, sentia-se um pouco indisposta,
talvez o sol forte sobre a cabea ou o ajuntamento de pessoas sob a
ramada, das rvores, o zumbido forte das varejeiras, o rosto plido da
moa que no largava as mos de Daniel Abraho. Nisto ouviram uma
mulher gritar autoritria da porta:
      - Jacobina, os convidados esto aqui dentro e por que no
entras?
        Ela ainda sacudiu de leve as mos de Daniel Abraho, por favor
volte breve, venha que esta casa tambm  sua, aqui o senhor
encontrar o remdio que procura, algum me diz isso. Despediu-se de
Catarina e de Mateus e voltou area, sempre lenta, sem olhar para
trs.
        Quando a calea, de retorno, chegava s primeiras ruas de So
Leopoldo, Catarina disse:
      - Estranha criatura essa Jacobina, ela me pareceu doente e
triste.
      - Ora me - disse Mateus, fustigando o animal - a senhora
v coisas que os outros no enxergam. Como poderia estar triste uma
moa no dia do seu casamento?



        5 Havia muito fumo no ar. Espantados com a carnificina, os
prprios urubus sobrevoavam a grande altura, no ar o cheiro de
plvora e de carne queimada. Philipp havia tirado a tnica rota,
depois tirou tambm a camisa e agachou-se  beira de uma pequena
sanga, lavando-a calado, sem olhar sequer para Grndling que
falava com ele, rodeado de outros alemes, enquanto por perto grupos
especiais removiam os cadveres e muitos outros cavavam sepulturas.


208


Ziedler, com a cabea enfaixada, advertiu Philipp que o ar estava
muito frio para ficar sem camisa, ia terminar ficando doente. Grndling
disse, eu at vou rezar por isso, assim voltamos os dois para a
retaguarda,  sempre melhor voltar com um soldado doente do que
voltar s.
      - O senhor no consegue convencer o comando de ficar pelo
menos at o fim do ano? - disse Shann.
      - Fiz tudo o que podia, no consegui nada.
        Aproximou-se de Philipp: trata de ir escrevendo as cartas para
a famlia, mais um ms e estou em So Leopoldo, devo passar por
l antes de ir para a minha cadeira de balano em Porto Alegre,
como o pobre do Tobz que nunca mais levantou daquela cadeira.
Sorriu triste, bateu nas costas de Philipp,  bom vestir outra camisa,
agora mesmo surpreendi um daqueles urubus olhando guloso para as
tuas carnes brancas. Todos olharam para o alto.
      - Enquanto houver fogo e fumaa eles no descem - disse
Ziedler, - mas depois at que nos fazem um favor, seno a peste
chega primeiro.
        Shann sentou-se num caixote meio queimado, tinha o
fardamento imundo e a cara escura de fogo de plvora; olhou desconsolado
para os companheiros, j estou comeando a achar graa nisso
tudo, s vezes tenho uma vontade doida de rir s gargalhadas, mas
terminam me mandando embora por maluco. Grndling interrompeu,
 melhor ser mandado de volta por louco do que por velho, como eu.
Ziedler perguntou, que idade tem o senhor? Ele disse, pelos meus
clculos, se no estou muito enganado, se j no cheguei aos setenta
j devo andar muito perto.
      - Setenta? - estranhou Shann.
      - Setenta - concordou Grndling - mas os meus pais, meus
avs e a maioria dos meus tios, que eu saiba, morreram todos ao
redor dos oitenta. Ora vejam s, ainda tenho dez anos pela frente.
        Philipp terminou de lavar a camisa, agora a torcia com fora,
indiferente  gua que escorria pelas calas. Sacudiu-a bastante,
depois deixou-a estendida sobre os varais de uma carroa semi-
destruda.
      - Por que no enfia a tnica? - perguntou Ziedler.
        Philipp ficou por instantes a olhar para ele, depois para todos
os outros, pegou da tnica, jogou-a sobre Ziedler, v a essa roupa,
est crivada de piolhos e de bichos, isto aqui virou um inferno,
j no somos gente, tenho os braos e as pernas picadas por pulgas
do tamanho de um percevejo, os percevejos so do tamanho de
baratas. Esticou o brao, vejam aqui debaixo da pele: so bichos, nem


209


sei os nomes deles, a pele chega a sangrar quando se coa e
comicha como agulhas de fogo.
      - Estamos todos dentro da mesma canoa - disse Grndling
- olha aqui para a minha barriga, v a pele do meu peito, tenho as
pernas em ferida, em carne viva.
        Shann passou a mo no rosto, vocs falam nesses bichos, chego
a me sentir mal s em lembrar o Conrado Maurer caindo naquela
sanga l, perto do rio, caiu botando sangue pela boca e com um
rombo deste tamanho nos intestinos; no chegou nem a bater naquela
gua podre, caiu direto nas goelas daquele crocodilo ou seja que bicho
for. Ziedler disse, Maurer no deve ter sentido nada, caiu morto.
      - Vi homens bebendo gua parada - disse Philipp, nas
margens do Estero Bellaco, passavam a mo por cima para tirar um
pouco do limo e depois enfiavam a boca naqueles ninhos de ovos de
mosquito da febre amarela.
        Shann disse, o resultado  que h centenas deles a queimar de
febre tifide, de disenteria, estive ontem em duas barracas e  um
horror ver esses infelizes estrebuchando, j quase sem cablos, os
olhos no fundo, disseram por a que chegam a enterrar muitos deles
ainda vivos.
        Von Steuben aproximou-se do grupo, havia perdido uma das
pernas das calas, trazia sobre o torso s a tnica aberta e
chamuscada, um p descalo e enfaixado em trapos, caminhou em
direo de Philipp, vejo que o amigo no agentou as pulgas e os
piolhos, pois olha, j botei a minha camisa fora, as costuras dela
fervilhavam. Virou-se para Grndling e disse, lamento muito, major,
fiquei sabendo da notcia h poucos instantes, mas  melhor voltar
logo e sair aqui deste inferno, isto aqui  lugar para bicho e para
ndio. Sentou-se num tronco de rvore; fiquei sabendo tambm que
morreu o General Sampaio e que o nosso comandante-em-chefe est
ferido, o General Osrio.
      - Sabe o nmero das nossas baixas? - perguntou Philipp
acomodando-se ao lado dele.
      - Ainda no h nmeros certos, mas j ouvi falar em oito mil
entre mortos e feridos.
      - Deve haver um exagero - disse Grndling - pois se
tivemos oito mil baixas os paraguaios devem ter tido o dobro, no que
no acredito.
      - Isso s se vai saber com o tempo - concluiu von Steuben.
        Grndling virou-se para os outros: von Steuben foi citado por
ato de herosmo, agarrou uma granada acesa que havia cado entre
a pea que comandava e uma outra da Primeira Bateria, jogando-a
para fora da amurada. Explodiu trs segundos depois que saiu das


210


suas mos. Von Steuben baixou a cabea, veja s, major, no fiz por
herosmo, se deixasse a granada ali ela terminava por explodir e matar
aqueles rapazes e a mim tambm.
      - O General Mallet no ia citar ningum que no fosse
merecedor - disse Philipp batendo nas costas do companheiro.
      - Se isso tivesse acontecido no meu tempo - disse Grndling
-        mandava a negra Mariana abrir duas garrafas de rum da Jamaica
para comemorar.
        Von Steuben sorriu: lamento, meu major, acho que cheguei
muito tarde. Grndling passou as mos no cabelo grande e quase
todo branco, concordou com a cabea, depois disse com ar de
dissimulada revolta ntima:
      - Ao contrrio, meu filho, eu  que cheguei muito cedo neste
mundo.
        Ouviram o toque de rancho, a seguir a correria da soldadesca
aos gritos de entusiasmo. Shann deu um soco no ar, quero ver se
hoje, pelo menos, vamos ter um pouco de carne, no me lembro
mais do gosto que essa coisa tem. Von Steuben tranqilizou o
companheiro:
        - Vi entrar pelo norte uma boa tropa, no contei, mas eram
bem umas cinqenta cabeas.
        - Ento vamos para a carne - disse Shann dando o exemplo
com vivacidade.
        Os demais seguiram atrs, Grndling e Philipp por ltimo,
caminhavam como se estivessem cansados, sem pressa, cabeas baixas.
        - Devo seguir na madrugada de amanh com um comboio de
feridos, acho bom escrever as cartas esta noite ou quem sabe nesta
tarde mesmo, o dia foi tirado para descanso, para lamber as
feridas deste Tuiuti que vai passar  histria, meu caro.
        Philipp mordiscava um talo de grama, no sei escrever direito,
escrevendo no consigo dizer o que quero. O senhor  que poder
dizer a eles de tudo o que se passou at agora, mas no convm
contar os lados ruins, Augusta no precisa saber dessas coisas; queria
tambm que conversasse um pouco com os meus filhos, diga a eles
como sou, quem eu sou, nunca tive muito tempo para que me
conhecessem melhor, sabe, essa vida que a gente leva,  bem possvel
que eles pensem que eu j no me lembre de casa, mas na verdade
eles esto sempre comigo, estou chegando naquela idade em que um
homem fica a pensar se tudo o que fez no foi em vo, se no
teria sido melhor viver uma outra vida, desculpe, estou falando
demais.
        Grndling bateu com a mo aberta no ombro do amigo, e que
diria eu, meu filho, que estou ficando para semente? que perdi a


        211


minha Sofia to cedo, ela que nem chegou a me conhecer direito?
que quando voltar para casa vou encontrar quatro paredes vazias
Albino morto, Jorge Antnio com a sua vida, sei l, chego a invejar
a triste sorte do Maurer, j que me resta pouca coisa na vida.
        Havia uma aglomerao muito grande, resolveram sentar-se 
sombra de uma pequena rvore de folhas amareladas; Grndling
agachou-se e passou a mo esparramada nas folhas cadas: como vs,
estamos no outono, no  das estaes mais alegres. Philipp passava
as mos nas pernas feridas, disse para Grndling que conversasse
um pouco mais com Amanda, devia estar uma mocinha feita, qualquer
dia ia receber a notcia de que estava por casar, era melhor assim.
Conte algumas histrias para Daniel, para Joana, para George, meu
Deus, quantos filhos, George deve ter feito dez anos,  uma idade
toda especial, tem coisas na vida da gente que se passa nessa idade
e a gente nunca mais esquece; e ainda tem o Guilherme, este eu
acho que saiu ao av Daniel Abraho.
Ficou um pouco pensativo, no sei como ir o meu pai, queira
Deus que a minha me continue a mesma, forte como sempre.
Grndling interrompeu-o: sobre isso no tenhas a menor dvida, conheo
muito bem a fibra daquela mulher, deves ter sempre muito orgulho
de ser filho dela, criou os filhos, cuidou do marido doente, fez os
negcios prosperarem como pouco homem seria capaz de fazer.
        Philipp disse, mas a idade vai minando as pessoas, vai nos
curvando a espinha, no se enfrenta mais as coisas como antigamente.
        -        isso tambm  verdade, basta olhar para mim.
      - O senhor no aparenta a idade que tem, vale por dez desses
rapazes que andam por a a correr de um lado para outro sem
saberem bem o que fazem e nem o que pretendem. E quando morrem,
morrem sem saber por qu.
      -Mas o comando do meu Regimento no pensa assim, tanto
que est me mandando embora como se joga no lixo uma laranja
chupada.
      - Eles sabem muito bem quem merece descansar depois de
tantos anos de lutas.
        Grndling sacudiu a cabea:
      -No sei, no. Houve uma poca em que eu sempre pensei
que o melhor na vida de um homem era ganhar dinheiro, muito
dinheiro; depois a gente aperta esse dinheiro na mo e sente que ele
no passa de cinza.
      - Acho que deve pensar diferente - disse Philipp notando o
ar de profundo abatimento do major - deve pensar que agora volta
para junto do filho e da nora, para junto dos netos, afinal eles
tambm no lhe conhecem mais.


212


        Grndling descansou o corpo contra o cho. OS dois cotovelos
cravados no capim chamuscado, olhava para o cu lmpido, para os
bandoS de urubus que planavam a grande altura. Pois estou curioso
em rever Jorge Antnio e Clara, Joo Frederico que j deve ter
feito Cinco anos, Dorotia que no vejo h dois anos, est agora
com trs, e quero conhecer tambm o ltimo dos meus netos, chama-se
Joo Nicolau.
        Deixou a cabea repousar no cho, sobre as mos cruzadas.
notava-se no rosto uma expresso de angstia e de cansao.
      - Sabe, os meus netos todos conservaram muitos dos traos da
av, preciso no chorar quando estiver com eles no colo.



213



XI


1 Quando Mateus pulou da calea e estendeu a mo para Daniel
Abraho notou que o pai estava mudado, fisionomia tensa,
dedos crispados segurando o encosto do banco. Catarina ainda
empurrou de leve, vamos descer, est na hora de tirar a poeira do
corpo, aconteceu alguma coisa? O marido virou-se para ela, no
quero descer, me levem para bem longe, eles fecharam a minha casa.
Mateus bateu na sua perna:
      - Que  isso, pai, desa.
        Catarina despregou as mos crispadas que ferravam a madeira,
o filho pegou de seu brao, Daniel Abraho comeou a descer
devagar, seu corpo tremia como se estivesse doente, olhos fixos na
fachada da casa nova, perguntou a Catarina por Philipp, onde est o
meu filho? se ele estivesse aqui no deixava fazer isso comigo, eu
no quero entrar numa casa que no  a minha. Foi sendo levado
pela mulher e pelo filho; Emanuel, que aparecera na porta, ficou
onde estava, apreensivo, logo depois chegava Juliana que se postou
atrs do marido e olhava como se tivesse olhos, disse com voz quase
imperceptvel: ele no quer entrar, no  isso? eu tinha medo que
fosse assim, no se muda uma pessoa de um dia para oUtro.
Ouviram a voz autoritria de Catarina:
      - Vejo que no acreditas mais em Deus e te apegas s tuas coisas
aqui na terra como se elas fossem santas, conheces a palavra do
Senhor e isso torna o pecado ainda mais grave.
        Ele parou indeciso, esboou um gesto de quem vai falar, deixou
cair os braos, reiniciou sozinho a caminhada, passou por Emanuel e
pela sua mulher, subiu os degraus que levavam  sala, parou, abriu os
braos:
      - Esta no  a minha casa, no  a morada do Senhor.
        Prosseguiu at chegar ao quarto onde havia deixado a portinhola


214


do alapo, olhou para a arca preta, caminhou frentico por toda a
pea, batia com os ps nas tbuas rsticas, sapateava, vocs me
enterraram a embaixo, estou soterrado vivo, meu Deus, por que
fizeram isso para mim que nunca fiz mal a ningum, que sempre
pedi pelos meus semelhantes? Virou-se para a mulher, preciso falar
com meu filho Philipp, quero que chamem Philipp. Catarina fez com
que ele sentasse num banco, ficou de mo pesada sobre seu ombro,
Mateus acercou-Se dele:
      - Philipp est na guerra, meu pai, e o senhor sabe disso, sabe
que quando ele voltar no vai querer o seu pai metido num buraco
como se fosse um excomungado, um pecador.
      - Que pecado cometi eu, Santo Deus?
      - O pecado de temer a luz do sol - disse Catarina
afastando-se dele e fechando os tampos da janela - de odiar a luz do dia,
de preferir as trevas. Eu te pergunto, de quem so as trevas, quem
 a prpria escurido?
        Ele cobriu o rosto com as mos, sacudia a cabea em desespero,
Catarina fez um sinal para o filho que saiu silenciosamente do quarto,
fechou a porta atrs de si, ela puxou o tamborete, sentou-se ao lado
do marido e passou o brao sobre seus ombros. A pea havia ficado
quase no escuro, ela divisou a Bblia sobre a cama alta que havia sido
colocada a um canto, foi busc-la, disse para ele, aqui est o Livro
Sagrado, ele  a tua morada e o teu abrigo. Ele segurou a Bblia num
gesto rpido, corriam-lhe as lgrimas pela barba, com um pequeno
leno Catarina enxugou os olhos do marido.
      - Vou acender o lampio, est ficando muito escuro.
      -No - gritou ele - no quero luz, no preciso de luz, estou
bem assim.
      - Esqueceste as tuas oraes?
        Ele falava agora com a cabea erguida, seus olhos brilhavam
na semi-obscuridade: ilumina a nossa escurido, Senhor, por tua
infinita misericrdia livra-nos de todos os perigos e ameaas desta noite,
por amor do teu nico Filho. Catarina uniu as mos, sentia-se fraca
e desamparada, disse com voz trmula: ilumina tambm as nossas
mentes, ns te suplicamos,  Deus, e te pedimos para que nos
conduzas a toda a verdade, olha para teus filhos, d a todos ns um
pouco de paz. Ele apalpou o brao da mulher, Catarina, Catarina
pede a Deus tambm para que olhe pelo nosso Joo Jorge que est
a seu lado, para que olhe por Philipp na guerra, para que no nos
desampare. Ela chorava sem rudo, pegou da mo dele, vem comigo;
ajudou-o a levantar-se, caminharam os dois at a cama. ela pediu
que ele sentasse ali, depois forou o seu corpo at que o sentiu
deitado; procura descansar um pouco, o desespero e a revolta fazem


215


mal a Deus. Tirou as botinas dele, buscou de cima do malo um
cobertor, colocando-o sobre o corpo do marido que se mantinha
tenso e alerta. Ele perguntou, ests chorando? Ela disse: um pouco,
mas  porque eu sei que estamos sob a proteo divina. Houve um
silncio muito grande, Daniel Abraho por fim estava calmo.
      - J no me lembro de nenhuma orao e isso  um castigo.
      - Dorme, procura dormir, ests cansado, na nossa idade 
natural que a gente esquea muitas coisas, mas isso no  crime e nem
 pecado,  a velhice que chega.
        Aconchegou o cobertor s costas dele, passou a mo por sua
testa, alisou seu cabelo, levantou-se devagar, saiu p ante p fechando
a porta atrs de si com cuidado, procurando no fazer o menor rudo.
Encontrou junto  porta o filho, Emanuel e Juliana, os trs tentando
adivinhar as palavras pronunciadas por eles dentro do quarto. Catarina
cruzou o indicador sobre os lbios, fez sinal para que se afastassem,
foram todos para a cozinha onde as panelas chiavam sobre o fogo.
      - Ele dormiu? - perguntou Mateus.
      - Acho que no, est muito cansado, est esgotado com tudo
o que se passou durante o dia de hoje, ele no consegue compreender
certas coisas.
        Mateus foi at o fogo, encheu uma caneca com o caldo quente
de uma das panelas, sentou-se  mesa, ficou assoprando o vapor,
olhou para a me que sentara na outra ponta, braos apoiados no
tampo ainda novo.
      - A senhora nunca me contou nada por que o meu pai passou
a viver nessa toca, eu tambm nunca perguntei, mas por alguma coisa
foi, por pouco  que no deve ter sido. Foi na guerra?
        Ela estava pensativa, passando os dedos sobre as tbuas da
mesa, disse ao filho que preferia no falar, no remexer no passado, o
que estava morto enterrado devia ficar, o tempo era um bom remdio
para todos os males.
      -Nem sempre - disse ele, insistindo - muitas vezes nos
livramos dos fantasmas abrindo uma janela e deixando que por ela
entre um pouco de sol. Meu pai tem o corpo so, a cabea  que est
doente.
      - Pode ser, meu filho, houve tempo em que ele era um homem
igual aos outros, levava uma vida normal, sonhava com uma vida
melhor, em trabalhar muito e criar os filhos, queria muitos filhos,
mas ento aconteceu a desgraa.
      - A desgraa?
        Emanuel fez com que Juliana sentasse no banco comprido, ao
lado de Mateus, ele prprio sentou-se tambm, queixo apoiado nas
mos, sentiu que Catarina mergulhava num passado remoto, que OS


216


olhos dela eram naquele momento como os de Juliana, abertos sem
nada enxergar. L fora o dia desaparecera de todo, o lampio
dependurado numa trave bruxuleava inseguro, a luz amarelada que saa da
boca do fogo desenhava uma faixa irregular nas pedras do piso.
Catarina deu a impresso de que comeara a falar s para si, comeava
a dizer coisas desligadas, o tempo parecia no contar, um ar de
alheamento como se falasse de outras pessoas, de alguma gente estranha
e morta, de um passado que se perdera por caminhos desfeitos.
        Mateus ficara atento, caneca abandonada sobre a mesa, intocada,
Juliana apoiada no brao do marido. Catarina mal se fazia ouvir,
estava tensa e trmula.
        - Havia um regato, os soldados acampados num bosque, o mar
ficava logo ali adiante, a fronteira perigosa, dela vinham caixotes,
depois se viu que eram armas, Harwerther no revelara nada, Daniel
Abraho perguntou um dia que mercadoria era aquela, ele disse
mercadoria, meu velho, para o Major Schaeffer e seu amigo no se deve
perguntar nada e alm do mais pagam bem. Num dia os soldados
chegaram e abriram os caixotes e deles tiraram espingardas e mais
espingardas, pacotes de munio, Daniel Abraho escondido dentro do
poo, eles queriam enforcar o dono da casa, bateram em Juanito,
quebraram os ossos do pobre ndio, bateram nos escravos e depois
outros vieram; Philipp denunciava a aproximao deles do alto de uma
figueira, o pai sem poder sair do poo, cavando uma toca para no
morrer dentro dgua, Mayer desaparecido, Carlota era ainda muito
pequena, de colo, eu tinha medo de que eles me levassem a menina,
ou carregassem Philipp, Daniel Abraho escondido no poo, os
soldados jogando o balde l dentro e tirando uma gua barrenta; e se
descessem para limpar o fundo do poo? eu pensava e nem mesmo de
noite eu conseguia dormir, um filho em cada brao, apavorada, tinha
medo de perder os dois. Aquelas noites no acabavam nunca e no
meio delas eu ia levar comida e gua limpa para Daniel Abraho,
ele sabia l embaixo de que se fosse descoberto terminaria
dependurado num galho daquela mesma figueira em que j haviam enforcado
o antigo dono daquelas terras; no eram como as terras daqui, elas
no acabavam nunca, a vista no alcanava o fim, por todos os lados
elas encontravam o cu e com ele se confundiam ou terminavam
dentro das guas do mar; e todos os dias o medo dos soldados, nunca se
sabia de onde eles vinham e os dias passando e de noite eu a levar
comida para Daniel Abraho at que abrimos um poo novo e sobre
a boca do velho eu botei troncos de rvore, lenha, era um poo que
no dava mais gua. Muito tempo depois consegui que ele se
animasse a sair um pouco protegido pela escurido e desse uns passos, a
Princpio como um entrevado, ele havia desaprendido a andar; e


217


quando os soldados acampavam ali por perto eu ficava caminhando ao
redor do poo velho com medo que eles descobrissem o que havia
l dentro e ento um soldado surgiu da escurido, me agarrou com
mos de ferro, rasgou a minha roupa bem ali ao lado do poo, Daniel
Abraho ouvindo tudo e sabendo que se gritasse haveria um massacre, o
soldado tinha um hlito de fumo e de podrido e se eu gritasse os
outros acorreriam, pensava sempre nas crianas, afinal era uma fera
que me atacava - corriam grossas lgrimas pelo rosto de Catarina,
Mateus cerrou os dentes como a querer trinc-los - me lembro ainda
da dor da areia spera nas costas, a pele esfolada, o cu repleto de
estrelas, uma noite de desespero como eu nunca antes havia tido, era
como se me estivesse afogando junto com o nosso barco que vinha
da Alemanha, e em cima de mim um tigre sem piedade e nem remorso,
rasgando as minhas entranhas com um ferro em brasa de maldio e
de vergonha; depois eu largada como um trapo imundo, sozinha,
vomitando como a purgar doena, tudo a rodar, ora o cu l embaixo,
ora a terra em cima de mim, at que cansei de chorar e fui at a
boca do poo, chamei por ele, perguntei se queria alguma coisa, eu
precisava correr para casa e abraar e proteger os meus filhos.
Daniel Abraho perguntou se o bandido j fora embora, se no havia
ningum mais por perto, se eu estava bem, ento ele disse chorando
"eles me pagam, juro por Deus que eles me pagam"; depois, numa
outra noite, os animais de novo se cevaram em mim como bestas e
Daniel Abraho sempre preso ao poo e quando tudo retomou ao
silncio ele alcanou a borda do poo e perguntou impotente
"novamente os selvagens, Catarina?"; chorava de soluar e eu a dizer que
ele fosse dormir, Deus a tudo estava olhando. Muito tempo passou,
as tropas a rondar a fronteira como abutres, Daniel Abraho enterrado
vivo, eu no suportava a idia de ver o pai dos meus filhos dependurado
num dos galhos daquela figueira do inferno.
        Calou-se, rgida, dedos entrecruzados com fora; virou-se para
Mateus: nunca mais, meu filho, teu pai quis sair do poo, nem mesmo
depois que voltamos aqui para So Leopoldo, quando viemos para a
casinha velha que agora desapareceu; Harwerther morreu, Mayer foi
assassinado, Juanito morreu depois de acompanhar por muitos anos
o teu irmo Philipp, parecia um co; a mulher dele morreu aqui nos
fundos, as coisas todas foram desaparecendo, s ficou em Daniel
Abraho esse medo de dormir fora do poo, de sentir o ar fresco da
noite, nunca mais foi o mesmo homem.
        Ouviram um grito lancinante de Daniel Abraho, Catarina
correu pressurosa para junto dele, Mateus e Emanuel ficaram do lado de
fora da porta, Juliana permaneceu onde estava, cobrindo o rosto com
as mos.


218


      - Fora com esses ces malditos, onde est a minha arma,
Catarina, onde est a minha arma?
        Catarina abraou o marido, estou aqui, estamos na nossa casa,
deves ter tido um pesadelo, escuta aqui, Daniel Abraho, Sou eu. Ele
ainda tentou livrar-se de suas mos: tapa este poo, eles esto vindo,
foge, Catarina, foge. Ela pediu a Mateus que trouxesse um copo de
gua, Daniel Abraho tentava lutar, fugir, Emanuel aproximou-se e
ajudou Catarina a sujeit-lo, Herr Schneider, sou eu, Emanuel, deite
um pouco mais, descanse. Mateus voltou com a gua, trazia tambm
um candeeiro que iluminou a pea, o pai tinha os olhos esbugalhados,
suava, ele disse:
      - Beba uns goles, meu pai, ns todos estamos aqui, no
precisa ter medo de nada.
      - Onde est Philipp?
      - Calma, Philipp no demora a chegar.
        Daniel Abraho olhou para a mulher, depois para o filho e para
Emanuel, Catarina sentiu que ele relaxava o corpo, ajudado por
Mateus tornou a deit-lo, recostou-se a seu lado, aconchegou-se a ele,
dorme que eu fico aqui a teu lado, teus filhos esto aqui, estamos
todos juntos.
        Ficaram ss, o quarto voltou  escurido. L fora, Mateus
depositou o lampio sobre uma cadeira e encostou a cabea no peito do
amigo. Emanuel sussurrou:
      - Chora baixo para no alarmar a tua me.



        2 Philipp desenrolou a atadura que envolvia a perna direita do
joelho at a canela - as ltimas voltas com cuidado - que os
panos estavam grudados entre si. O Tenente Blauth pediu que ele
no fizesse aquilo, na tenda de enfermaria havia mais recurso, era
preciso botar todas aquelas ataduras fora, podiam infeccionar ainda mais
as feridas. Philipp no deu ouvidos ao companheiro: ainda se fosse
ferimento de guerra, um estilhao de obus, um pontao de ferro, uma
bala, ainda se fosse isso eu me consolava; mas  de morrer de
vergonha se esta coisa vai adiante e termino recebendo um monte de
terra por cima, morto pelas muquiranas na frente de batalha do
Paraguai, uma bonita medalha para a famlia, mais um dos que deram
a vida lutando contra as pulgas, os piolhos e os bernes dos pantanais
de Curupaiti.
        Blauth olhava com certa repugnncia a perna purulenta, bateu
no ombro de Philipp, quem sabe vamos dar uma chegada na enfermaria
antes que a noite caia, algum passa uma pomada nisso a, bota
um p secante qualquer, no convm descuidar.


        219


      - Ainda se o pobre do Doutor Grave no tivesse ficado
estendido em Curuzu - disse Philipp - os danados desses bichos
estariam recebendo o veneno que merecem.
        Biauth pediu mais uma vez que pelo menos enrolasse as
ataduras, no adiantava ficar ali a falar no mdico morto. Philipp obedeceu,
tornava a enrolar as tiras sujas, olhou para o companheiro, sabe, eu
estava do lado dele, no mais que quatro metros, um soldado gritava
com os intestinos  mostra, o infeliz correu para prestar socorro e foi
quando o obus explodiu mesmo ao lado dele, eu s tive tempo de
enfiar a cara no cho e quando levantei a cabea o doutor estava
cado ao lado do soldado, tinha a cabea cortada, o estilhao entrou
na altura da boca, rasgou a orelha e arrancou metade do cabelo, deve
ter morrido na hora. Fez uma pausa, e ainda um pouco antes ele me
dizia para no sair de onde eu estava, era uma chuva de fogo; depois
vim a saber que s ali ficaram mais de mil e quinhentos dos nossos
homens.
        Terminou de enrolar a perna, pediu desculpas a Blauth, as
ataduras seriam trocadas no seu devido tempo, depois de arrancar os
paraguaios do outro lado do rio; no havia muito tempo para cuidar
de uma perna, o principal era cuidar da cabea. Eles estavam no
Segundo Corpo do exrcito, sob o comando do Conde de Porto Alegre,
em grande parte formado por alemes, Barth tinha se aproximado e
Shann andava por perto, um pouco mais para a frente, limpando com
vagar a sua arma.
      - O Conde  quem vai comandar o ataque? - perguntou
Blauth.
      -No, desta vez o comando toca a Mitre, vamos ver como ele
se sai da empreitada, no confio muito nesses castelhanos.
      - E nem eu nesses brasileiros.
        Ziedler chegou acompanhado de um outro oficial, de nome
Dickel, de Lomba Grande, trazia um grande pedao de papel que tratou
logo de abrir no cho, fazendo sinal para os outros que se aproximassem,
chamou Philipp,  bom que todos saibam sobre o terreno em
que vo pisar, no fundo acho uma arrematada loucura, acabo de sair
de uma reunio com oficiais do Estado-Maior, vejam aqui, este  o
Rio Paraguai, aqui Boquern que j conhecem, esta cruz  Tuiuti,
vejam Potrero Sauce, este pontilhado  a trincheira deles, sai aqui da
Piris, passa por aqui e vem vindo at os lados de Humait; mais ou
menos dois quilmetros de defesa, com fossos de seis ps de
profundidade, por onze de largura.
      - Sabe quantos homens tm eles? - perguntou Philipp.
      - Falam em mais de dez mil, o comandante  um tal de General
Daz, um bom militar, segundo se sabe.


220


        Voltou ao mapa rascunhado s pressas, apontou para um trecho
do rio, os navios de Tamandar vo atacar deste lado, a jusante,
Venncio flores vai procurar romper as linhas por esta altura e ns,
como no podia deixar de ser, vamos fazer o eterno trabalho de
pontoneiros e assim vai ser mais fcil para esses ndios nos matarem, j
que estaremos todos com as mos muito ocupadas para responder o
fogo. Notou Philipp mexendo nas ataduras, aproximou-se dele:
      -No vais poder entrar no rio com essa perna ferida, sinto
muito.
      - Vejo que as nossas opinies no coincidem, eu estava
Justamente pensando que seria muito bom para as feridas se eu pudesse
entrar no rio e lavar toda essa porcaria, chegava do outro lado de
perna nova.
      - Vamos examinar isso.
      -No vamos perder tempo, j disse aqui para que todos
ouvissem, pretendo trocar essas ataduras imundas na volta. E agora
quero comer qualquer coisa, no gosto de lutar de estmago vazio, fico
covarde.
      - Vamos todos - disse Ziedler - eu estou com o estmago
no espinhao e j mandei um ofcio timbrado a Mitre dizendo que de
barriga vazia me passo para o inimigo.
        Todos riram, Shann gritou de onde estava: e como eles l no
tm comida, vo gostar muito de alemo assado. Saram em grupo
para a parte central do Segundo Corpo, Philipp capengueando, a usar
a espada como bengala, Ziedler ameaou:
      - Vou dar parte dessa tua perna ao comando e vais assistir a
passagem do rio pelo binculo, nunca vi ningum de cabea mais dura.
      - Pois se deres parte ficamos os dois do lado de c, eu com a
perna ferida e tu com a barriga furada.
        Em toda a linha o movimento recrudescia, grandes peas de
artilharia eram implantadas cuidadosamente nas margens do rio, presas
a grandes falcas de madeira escura: soldados corriam para todos os
lados, passavam cavaleiros a galope largo, oficiais davam ordens,
Ziedler comentou para Philipp:
      - At parece que vamos atacar dentro de um minuto.
      - Um minuto acho um exagero, mas no te dou cinco horas e
esse Mitre vai levantar a espada para mostrar o caminho. Da minha
parte, confesso, at gostaria que fosse logo, essa espera me deixa
nervoso.
      - E quem no fica, meu velho?
        Philipp apontou para um sargento deitado de costas no terreno
arenoso, braos cruzados sob a cabea e o quepe cado em cima dos
olhos: aquele ali, por exemplo, no est assim to ansioso.


221


        Comeram um churrasco mal assado, a carne meio crua deixava
escorrer um sangue ainda vivo, no havia farinha e nem pO, Philipp
lembrou ao amigo de que a coisa, dali para a frente, s podia piorar,
pois se estavam mandando para casa um Major Grndling que era
sempre quem dava um jeito de conseguir as coisas mais impossveis,
ia terminar faltando carne. Ziedler disse, ele fazia uns passes de
mgica, chegou a mandar preparar para o comando churrasco especial
com carne assada no couro e at um ensopado de nonato com cebolas
que deve ter mandado buscar em Assuno; ele sempre sabia onde
encontrar as coisas, at leite fresco, de vez em quando aparecia pelos
acampamentos, em tarros acomodados em carroes que vinham
nunca se soube de onde.
      - Ele parte agora - disse Philipp - l esto as carretas
prontas para a viagem.
        - Vamos at l, no sei se vou tornar a ver o nosso major, Philipp
ia falando enquanto caminhava, o terreno estava atravancado de
apetrechos de guerra, caixas de munio, pilhas de barrotes para os
pontoneiros, embarcaes mdias, rasas, muitas delas ainda em trabalho
de calafetao, tonis de betume sobre fogueiras, cavalhada indcil
presa em cordas comuns. Chegaram junto das carretas, os feridos e
doentes eram postos nelas por grupos de padioleiros; um pouco mais
 frente viram Grndling dando ordens, afogueado, fardamento em
desordem.
      -Major - comeou Ziedier - viemos aqui trazer as nossas
despedidas, no fundo toda a gente queria mesmo mas era partir na
direo dessas carretas, deixar esses paraguaios roendo as unhas.
        Grndling fez uma ligeira pausa no trabalho de ordenao do
embarque daqueles homens, olhou para os dois amigos, botou a mo
no ombro de Philipp, ento voc no escreveu mesmo uma linha para
a sua gente.
      -No adianta, major, o senhor sabe melhor do que eu o que
deve e no deve contar, diga a eles que estou muito bem, que se
tudo correr como at agora, no princpio do ano que vem a gente vai
estar em casa para cuidar dos filhos e dos negcios, tratar de refazer
a vida.
      - Essa  muito boa, depois de velho vou dar em mentir, a
enganar as mulheres e os filhos delas, qualquer um est vendo que isso
aqui vai longe, que agora  guerra na casa do inimigo, eles conhecem
o terreno a palmo e cada mendigo de rua  um aliado, por mais
comida que voc lhe d.
        Ouviram repetidos toques de clarim, olharam todos para trs.
Grndling disse, acho bom voltarem, esto chamando para a comida,
um pouco mais esto atravessando o rio. Abraou os dois, eu vou


222


tratar de tocar essas carretas para a frente, para mim a guerra
terminou.
      -No esquea da conversa com as crianas, isso  muito
importante - recomendou PhiLipp.
      - E no esquea de proteger-se das granadas do inimigo, isso
 ainda mais importante. Quero esperar vocs de volta, depois me
contem como as coisas se passaram.
        Abraaram-se, Grndling deu as costas para os dois, caminhou
resoluto para a cabea do trem de carretas, demorou-se ainda falando
com um oficial superior, enquanto os dois retornavam cabisbaixos,
Philipp comentou: Herr Grndling merecia um descanso, est de
cabelos brancos, no  mais o homem que todos ns conhecemos.
      - Ele volta infeliz - disse Ziedler - deve estar se sentindo
como uma mulher velha, intil, e logo ele.
        Assumiram os seus postos logo depois do rancho, comandariam
pelotes de pontoneiros, seriam os primeiros a tentar abrir caminho
para a travessia das tropas de assalto e para tanto contavam com a
proteo da esquadra de Tamandar que j se mostrava em posio
de combate.
        Philipp acordou, no dia seguinte, e viu Shann ainda dormindo a
seu lado, olhou em redor, sentia a cabea a latejar, o corpo todo
dolorido, a perna queimando, dores que subiam pela coxa acima. Tinha
a farda molhada, barro na tnica chamuscada, recordava-se
vagamente de alguns detalhes, o trabalho frentico executado sob jatos dcua
provocados pelas granadas que caam no rio, O fogo cerrado dos
navios, a tropa vadeando o rio onde era possvel; sacudiu forte o rapaz
que dormia, Shann abriu os olhos com dificuldade.
      - Onde est Ziedler?
        O        outro olhou estremunhado para Philipp, permanecia deitado,
sorriu de modo estranho, Ziedler? Passou a mo pela barba suja, no
vi mais o Ziedler, foi a gente cair ngua e o cu desabou. Philipp
tentou ajeitar a perna dolorida, eu nunca tinha visto um fogo to cerrado,
eram os canhes da nossa esquadra pelo lado, o fogo da nossa
artilharia que passava por cima e o do inimigo que caa nas nossas
cabeas. E francamente, no sei como estou aqui, no me lembro de
muitas coisas.
        Algum Levantou a cabea um pouco mais distante, gritou pelo
nome de Philipp que no conSegUia saber quem era. o outro gritou
mais forte, aqui  Blauth, que diabo, estou assim to deformado?
Philipp olhou bem para ele e comeou a rir, Blauth tinha a cara negra
de plvora queimada, sobre o torso os trapos do que havia sido um
fardamento, gritou para ele que viesse pata onde eles estavam. Blauth
respondeu que no podia. tinha uma perna ferida, sangrava um pouco,


223


estava esperando que aparecesse um mdico por ali, se  que houvesse
sobrado um deles. Philipp perguntou: ento perdemos a batalha? O
outro confirmou, pelos meus clculos aqueles miserveis estavam
amarrados nas trincheiras e lutavam como ces danados.
        -         verdade - disse Philipp - e daqui para a frente vai ser
pior, afinal eles esto defendendo agora a prpria terra deles, no
vai ser fcil e  bom que todo o mundo saiba disso.
        Aproximaram-se dois compatriotas, Haefner e Hoher, vinham
com um aspecto melhor, mas andavam descalos e caminhavam com
uma certa dificuldade. Pararam junto a Philipp, ento, como est?
      -No to bem como vocs, mas que diabo, ainda vivo,
respirando. E que tm vocs nos ps?
      - Bicho-de-porco debaixo das unhas, os miserveis formam umas
bolsas cheias de filhotes e se alimentam de pus. Como v, a gente
consegue se livrar do fogo dos paraguaios,  apanhado por baixo nessa
imundcia e um homem quase no consegue mais caminhar.
      - O segredo  conseguir arrancar a bolsa deles com a ponta de
um bom canivete, mas sem rebentar seno cria outras no mesmo
dia.
        -         o que vamos fazer - disse Hoher - assim que
descobrirmos esse tal de bom canivete.
      - Eu, se fosse vocs dava uma olhada no bolso dos que vo ser
enterrados, algum sempre aparece.
      - Se depender disso - disse Haefner - vou terminar com
bicho-de-p at nas gengivas.
        Sentaram-se junto a Philipp, Shann veio de onde estava
arrastando-se, protegia com a mo a perna ferida, deitou-se novamente,
falou alguma coisa das dores que sentia, depois disse, pensando bem
a sorte ainda esteve do nosso lado. Philipp sorriu com amargura, afinal
a gente pode dar o nome de sorte a qualquer coisa, por exemplo,
o        de no ter morrido com um pedao de granada nas tripas mas sim
com um tiro na cabea, pelo menos  mais rpido.
      - Afinal no conseguimos passar - disse Philipp. - Tudo
resultou em nada. O que vocs sabem a respeito disso tudo? Ns,
como vem, estamos aqui como cavalos doentes.
      - Pelo que ouvi - disse Haefner - perdemos nessa
brincadeira por volta de trs mil homens.
      - Trs mil homens? - perguntou espantado Philipp - no 
possvel,  gente demais.
      - Pois estou a dizer que deve ter sido at mais. Tanto
Tamandar quanto Venncio Flores foram afastados, se me perguntarem
os motivos vou logo dizendo que no sei.
      -Na verdade - ajuntou Hoher - fomos repelidos e agora 


224


tratar de reagrupar a tropa, enterrar os mortos que o rio no
carregou, curar os feridos e mandar de volta para a sua casa Mitre e
as sUas tticas.
        Philipp levou a mo  testa, acho que estou com febre, a cabea
parece que vai rebentar. Shann encostou a sua mo na testa do amigo,
rapaz, ests com uma fogueira a dentro, precisamos chamar um
mdico, com febre desse tamanho no se brinca.
      - E por que no chama logo um para tratar da tua perna? -
perguntou Philipp zangado.
        O dia acabava, Haefner e Hoher disseram que iam providenciar
socorro e, quem sabe, um pouco de comida; voltariam logo, eles que
tivessem um pouco de pacincia, tinham que andar devagar.
        Shann ainda arrastou-se para mais perto de Philipp. disse que
estava desconfiado de haver perdido muito sangue, sentia-se sem
foras, e no era por hemorragia forte, mas o sangue saia sem parar,
havia deixado uma grande mancha no local onde acordara. Philipp
disse que estava sentindo muito frio e temia pela noite que se
aproximava, os dois ao relento, desabrigados, iam tremer como varas
verdes. Muitos soldados passavam, mas eram brasileiros e eles no se
entendiam, de nada adiantava pedir ajuda a qualquer um deles, pedir
notcias, saber das coisas, se algum cuidava do rancho. Um oficial
acercou-se dos dois, perguntou muitas coisas, botou a mo na testa de
Philipp, depois examinou a perna de Shann, falou ainda mais, eles se
limitavam a olhar sem abrir a boca, depois o oficial afastou-se e ainda
olhou para trs, desaparecendo logo entre os outros. Andava por ali
muito cavalo solto, Shann disse:  preciso cuidar seno esses animais
terminam pisando em ns, eles esto tontos com a fumaa e com todo
o barulho que houve.
        Philipp levou a mo  cabea, depois ao estmago, olhou
espantado para o amigo e comeou a vomitar forte, as entranhas
ameaando sair boca a fora, era um vmito esverdeado, nauseabundo, um
pouco depois passava a manga da farda rota pela boca, virou-se para
Shann:
        - Deve ser a gua que bebi no rio, essas guas esto podres.
        Bateu com os punhos no cho, Shann assustou-se. pegou um
brao de Philipp, calma, no adianta desesperar, eles j foram chamar
um mdico, algum deve aparecer por a. O outro virou o rosto,
falava para o lado contrrio, no queria encarar o amigo.
        - Que vergonha, morro de vergonha, sujei a roupa toda,  uma
disenteria que no d para agentar. E nem tenho foras para me
arrastar at o rio l embaixo, vo me encontrar aqui neste estado.
        Shann ficou penalizado, isso acontece. vergonha de qu? os
mdicos esto acostumados com essas coisas, a diarria j atacou mais da


225


metade da tropa. Philipp deitou a cabea no cho, mantinha os olhos
fechados, maxilares apertados, mos crispadas segurando o ventre,
depois dissse, com voz rouca, estranha:
      - Eu se, conheo bem, estou com o clera-morbus, eu sabia,
mais cedo ou nais tarde isso tinha que acontecer com a gente,  o
final da comdia.
        Quando o mdico chegou era noite fechada, teve dificuldade em
localizar os dois, logo depois chegaram quatro soldados, eram os
padioleiros. o mdico gritou: aqui, eles esto aqui. Era um alemo de
Santa Maria, disse para Shann que se mantinha sentado: sou Herbst,
que se passa com o seu companheiro aqui do lado?
      - Esse a  o Tenente Philipp Schneider, do Segundo Corpo,
deve estar atacado de clera, doutor.
        O        mdico apalpou Philipp que recomeou a vomitar, chamou os
homens, vamos primeiro Levar o tenente, ajudem-me. Philipp foi
colocado sobre a maca, tinha as calas grudadas nas pernas, exalava um
mau cheiro insuportvel, dizia coisas sem nexo. Shann perguntou para
onde iriam levar o amigo, o mdico disse:
      - Os atacados por clera vo para a ilha do Cerrito, h l um
hospital improvisado para eles.
      - H esperanas, doutor?
        O        mdico deixou que os padioleiros levassem Philipp, disse para
Shann enquanto examinava, quase que s por tato, a perna ferida:
      - Tenho que tratar logo essa ferida, no pode continuar
perdendo sangue, primeiro uma atadura com essa camisa velha, j vai
ser levado para a enfermaria, l temos luz e esse ferimento no 
de morte.
      - Doutor, eu pergunto por Philipp, acha que h esperana de
salvar o tenente?
      - O mdico terminou de fazer a atadura, pediu que ele
aguardasse a maca deitado, no devia fazer esforo. Depois respondeu:
      - Bem, o caso dele  mais grave, depende de Deus, ns temos
poucos recursos contra o mal, mas sabemos de muitos que se
salvaram. Se fosse clera seca ento eu j podia afirmar que teria visto
o        seu amigo pela ltima vez.



3 Jacobina foi quem recebeu os visitantes. A calea parara na beira
da estrada Emanuel acabava de perguntar a um colono que vinha
a cavalo onde ficava a casa dos Maurer, ele ento virara o corpo
apontando para a casa de madeira ainda nova, restos da construo ao
redor, alguns animais soltos num potreiro ao lado, ao p de um pe-


226


queno morro, coberto de rvores. Para chegarem at ali haviam
passado por picadas fechadas de mato, Catarina desconfiada de que nunca
chegariam e que as indicaes dadas estavam todas erradas. Daniel
Abraho encolhido no banco, no abrira a boca durante a viagem
inteira. O colono bateu com a ponta dos dedos na aba do chapelo
preto e prosseguiu pelo caminho. Jacobina vestia uma saia de cintura
que ia at os joelhos, meia preta de cano alto e botinas. Dirigiu-se a
calea, disse que ela e Joo Jorge j estavam preocupados, ento Herr
Schneider no viria mais e o marido a lhe repetir que Herr Schneider
j devia ter procurado um mdico na cidade, quem sabe o Dr.
Hillebrand em So Leopoldo mesmo, mas ela no sabia dizer bem por que
mas jurava sempre que ele viria a qualquer momento, sonhei at que
seria hoje, disse ela juntando as mos, acordei muito cedo e disse para
Joo Jorge,  hoje que Herr Schneider vem.
        Emanuel desceu estendendo a mo para Catarina, logo depois
Daniel Abraho fez o mesmo, apertou a mo de Jacobina emocionado,
tenho pedido nas minhas oraes pela sade dos dois, sei que ele
ilumina os seus passos, minha filha. Catarina cumprimentou tambm,
caminharam os trs em direo da casa, enquanto Emanuel levava a
calea para debaixo de uma grande rvore, comeando a desatrelar o
animal dos varais.
      - Herr Maurer vai bem? - perguntou Catarina.
      -Muito bem, Frau Schneider, ele no deve demorar, passa
grande parte do dia colhendo as suas ervas,  um trabalho muito
cansativo.
        Fazia muito calor, Catarina limpava o suor do rosto e do
pescoo com um grande leno, Jacobina disse a ela "que belo leno esse
seu, um desses aqui vale pelo menos trinta quilos de feijo". Catarina
ficou um pouco sem jeito.
      - Da prxima vez trago um para voc, minha filha, eu recebo
esses lenos do nosso empriQ de Porto Alegre.
      -No senhora, muito obrigada, aqui no meio do mato eu nem
teria como usar um leno igual a esse.
        Pediu desculpas, seria melhor que sentassem ali fora mesmo, 
sombra das rvores, o sol tornava a casa muito quente, no havia a
menor virao, at os bichos ficavam parados, assoleados. Trouxe duas
banquetas rsticas, Catarina apressou-se a ajud-la, deixe isso
comigo, uma mulher grvida deve saber cuidar-se. Jacobina disse, deve ser
para abril ou maio, vai ter sorte de no nascer neste calor, em maio
o tempo j est mais fresco, dizem que  melhor para se ter filho.
        Emanuel aproximou-se carregando duas cestas cobertas por
panos brancos, deixou-as ao lado de Catarina e sentou-se numa grossa
raiz da rvore maior. Catarina levou as cestas para a casa, foi acom-


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panhada por Jacobina que lhe pediu que botasse as duas sobre um
banco, eles ainda no haviam feito a mesa, estavam esperando mais
tabuas grossas.
        - No trouxe aqui nada demais - disse Catarina - fiz alguns
pes de trigo e estou tambm trazendo aqui uma boa lingia do
emprio de Porto mandada pelo meu neto Dane que agora cuida de l,
ele tem o mesmo nome do av, se chama Daniel Abraho.
-        Deve ser um belo rapaz.
        Depois olhou para dentro de uma das cestas e disse para
Catarina:
        - Que coisa boa, no como po de trigo h muito tempo, nem
me lembro da ltima vez.
        - trouxe tambm a dois lampies de azeite e mais alguma
coisa que sempre faz falta numa casa nova, tudo isso  muito difcil
de se conseguir no meio do mato.
        - Joo Jorge vai ficar muito feliz e eu nem sei o que dizer,
tenho at vontade de chorar.
        Catarina sorriu, que  isso, minha filha?  s dizer o que mais
precisam e a gente traz de l, no custa nada. Jacobina agarrou um
balde e dirigiu-se para o poo, mas Emanuel correu ao seu encontro,
tirou-lhe o balde das mos, deixe ISSO comigo, sente-se ali, eu me
encarrego da gua, ela me parece estar l embaixo fresquinha de doer
nos dentes. Ela agradeceu, entrou em casa e voltou de l carregando
canecas de folha, depois sentou-se ao lado de Daniel Abraho, comeou
a falar com ele, Joo Jorge vai tratar da sua sade, em pouco tempo
vai sentir a diferena, a natureza  obra de Deus e nos d todos os
remdios. Olhou para o livro preto que ele sempre trazia nas mos,
disse, eu sei, este livro  a Bblia - passou de leve os seus dedos sobre
a lombada - minha irm Carolina estava me ensinando a ler numa
igual a esta, eram palavras to bonitas e s vezes to terrveis que em
muitas noites eu nem conseguia dormir e nem sentia fome, mas
sonhava com vises do cu se abrindo e uma voz que dizia que o nosso
reino no  deste mundo.
        Daniel Abraho estava comovido, segurou a mo da moa, disse
para ela: estamos nos tempos do Apocalipse,  chegado o Sexto Selo.

        Grndling, sentado numa cadeira de balano, no queria
acreditar que estivesse de volta, olhava de maneira estranha o retrato do
filho quando menino, cercado pela bela moldura que mandara fazer
no Rio de Janeiro, a cristaleira era a mesma, as cadeiras, o
candelabro de lampies belgas, o tapete. Jorge Antnio lhe parecia agora um
homem estranho, algum que ele conhecia pouco, um velho
companheiro dos outros tempos. Clara tinha as mos brancas e delicadas e a


228


sua maneira de sentar lembrava no tempo algum que se perdera para
sempre; o pequeno Joo Nicolau olhava para o av com medo e
desconfiana, Joo Frederico e Dorotia estavam ao lado dele, dois
pequeninos estranhos que eram carne da sua carne. O filho vestia uma
boa roupa, no lembrava mais o rosto da me, nele ficara muito pouco
do menino pintado no quadro, disse:
      - Um homem envelhece e nem sente, meu filho ja caminha para
os quarenta, eu s vezes ainda penso que tenho essa idade.
      - Acabei de completar trinta e oito, meu pai.
      - Pois , o tempo passa, a gente nem se d conta.
        Ele percorria tudo com o olhar, deu com O relgio na parede do
fundo, estava meio na sombra, perguntou se ainda funcionava bem.
Jorge Antnio acompanhou a direo dos seus olhos, funcionar bem?
mas meu pai, nunca deixei ningum dar corda nele, o senhor sempre
repetiu que no queria nunca mais que ele batesse horas.
      - Tolice, meu filho, manias que a gente mete na cabea, vamos
dar corda, sim, e Clara vai passar a ouvir o som mais bonito de toda
a sua vida.
      - Hoje no - disse o filho decidido - amanh ns dois
tratamos de fazer com que funcione, temos que lidar com cuidado, tantos
anos a parado, a mola pode at partir-se ou quebrar alguma pea.
        Houve um silncio s quebrado pelo balbuciar de Joo Nicolau,
ento Grndling disse para o filho, em tom cavo e lento:
        - Fala um pouco de Albino, me diz afinal o que houve, como
foi, ele sempre foi um rapaz to cordato, nunca foi dado a violncias,
isso no podia ter acontecido e logo com ele, s vezes tenho vontade
de acordar deste pesadelo.
        - Hoje no  dia de falar nessas coisas, meu pai, importante
 que haja voltado, seus netos esto aqui e sentiam falta do as, todas
as crianas tm av, s eles  que no tinham e falavam sempre
que ele um dia ia voltar. Joo Frederico, ontem, ameaou um menino
mais velho dizendo a ele que se cuidasse que o seu av vinha a, no
foi, meu filho?
        O        menino baixou a cabea, encabulado, Jorge Antonio riu
alto,
sentou-se ao lado da mulher, vamos ter para o jantar de hoje um
pernil assado no forno como o senhor sempre gostou, batatas douradas
na gordura de porco e um vinho dos italianos que guardei para este
dia. Grndling sorriu, esqueci at mesmo o gosto de vinhos e sonho
seguidamente que estou a abrir uma garrafa com selo de ouro, no
sei bem por que, mas  um selo de ouro, que encho um clice de
cristal e que algum que outro no  seno o nosso velho Major Schaeffer
levanta um brinde e diz que vamos beber o melhor rum do mundo, um
nctar da Jamaica. e sempre que levo o clice  boca no tem nada


229


l dentro e assim tambm esqueci o gosto do rum. Cada vez que eu
abria uma garrafa e chamava Schilling, Tobz e Zimmermann, tua me
no dizia nada mas sacudia a cabea, ela sabia que depois da primeira
garrafa vinha sempre a segunda e eu terminava dormindo vestido no
sof grande da sala, um que estava aqui deste lado. Jorge Antnio
disse, o sof agora est na casa fechada que foi de Albino. Grndling
suspendeu um gesto no ar, olhou para o filho:
      - Preciso ir at l, mas acho que estou com medo, no sei bem
o que se passa.



        Jacobina largou a mo de Daniel Abraho e levantou a cabea,
como a pressentir algo l fora: Joo Jorge deve estar chegando, ele
nunca se atrasa, depois que traz as ervas ainda se dedica ao trabalho
de macerar todas elas, de preparar as infuses e pomadas e ainda
descobre tempo para tratar dos doentes.
        - Hoje, por sorte, temos s o senhor, mas ainda deve chegar um
homem que sofre do corao, um morador de Bom Jardim, que j
passou pela mo de quanto mdico descobriu por a.
        Maurer aproximava-se da casa, vinha carregado de plantas e ainda
trazia s costas um pequeno saco, depositou tudo no cho, distendeu
os braos entorpecidos, notou a calea e o cavalo desatrelado, caminhou
em direo da porta passando a manga da camisa no rosto, tinha a
pele vermelha e os cabelos de um ruivo acobreado. Entrou, foi direto
aos visitantes, apertou a mo de cada um, perguntou  mulher se
tudo estava bem. Ela balanou a cabea, disse que ele no precisava
trazer tanta erva de uma vez s. Catarina permanecia sentada ao lado
do marido, logo depois Emanuel acercou-se da porta e l ficou
encostado no marco.
      - O senhor sofre de insnia? - disse Maurer.
      -Nem sempre - respondeu Catarina - mas tem andado
muito nervoso de uns tempos para c, no tem disposio nem mesmo
para o trabalho, uma coisa que ele no deixava de lado nem mesmo
quando tinha febre, nem quando estava muito doente.
      -Mas  no trabalho que ns encontramos paz.
        - Paz ns encontramos em Deus e na sua palavra - disse
Daniel Abraho - e neste livro esto as respostas do Senhor para
todos os nossos males.
        Joo Jorge ficou um pouco confuso, sorriu para Catarina,
levantou-se e foi tirar um pouco de gua fresca numa talha de barro.
Perguntou se queriam um pouco, todos aceitaram, Jacobina foi ajudar o
marido e logo depois puxou uma banqueta para junto de Daniel
Abraho e disse para ele que desde menina sempre tivera um desejo
enorme de saber ler bem e de ganhar uma Bblia, ficava encantada quando


230


a sua irm Carolina lia trechos do Livro Sagrado e algo dentro dela
se abria, na certa era para receber a palavra divina, pois sabia que
alm da vida aqui na terra havia um outro mundo, um lugar s de paz
e de amor.
      -Minha filha, este mundo  um vale de lgrimas - disse ele
abrindo O livro de capa negra.
        Abria inseguro as pginas amareladas, folheava ao lo, suas mos
tremiam, percorria as linhas com a ponta do dedo, parou de repente,
"eu sou o Bom Pastor, conheo as minhas ovelhas e elas me conhecem
a mim, assim como o Pai me conhece a mim e eu conheo o Pai
e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas..."
        Catarina fez um sinal para Maurer, saram os dois para O ptio
ensolaradO, Emanuel sentou-se na soleira da porta afugentando as
moscas com a aba do chapu. viu quando Joo Jorge e Catarina
afastavam-se lentamente, Catarina falando e ele, de cabea baixa, s ouvia
sem nada dizer, parecia interessado no que ela dizia, balanava a
cabea, atento, mos cruzadas s costas.
        Grndling havia retornado  cadeira de balano, batia com a
mo espalmada sobre o estmago: como nos velhos tempos, isso no
deve ser muito bom para um velho,  coisa para gente moa. Clara
trouxe os netos para pedirem a bno ao av, Dorotia e Joo
Frederico beijaram a sua mo crestada pelo tempo, eram grandes mos
coscorentas, s Joo Nicolau encolheu-se todo no colo da me,
choramingou um pouco, olhos assustados diante do estranho de grandes
barbas, foi Grndling que beijou a sua testa. Estava na hora de irem
para a cama, de manh acordavam muito cedo. Ela pediu licena
e saiu com as crianas. Jorge Antnio perguntou ao pai se no gostaria
de provar um Licor feito de pitangas, um licor caseiro, reCeita da me
de Clara, feito com aguardente especial de Torres, de cabea de
alambique.
      - Pois vamos arrematar esse jantar condignamente, se bem que
as coisas nunca so completas, fico a pensar naqueles rapazes todos la
no Paraguai, comendo o po que o diabo amassou, parece que
estive l ainda ontem, o filho de Catarina um valente. De certa
maneira sempre me pareceu a me, cabea dura, teimoso, indiferente
ao perigo, tantos outros rapazes que no voltaro mais, sabe, s vezes
tenho a impresso de que desertei, de que fugi da luta, que deixei
todos eles abandonados e ss.
        Caminhou um pouco pela sala e recebeu das mos do filho o
clice. Provou a bebida com a ponta dos lbios, estalou a lngua, nada
mau, Clara j pode engarrafar este Licor e exportar para a Europa,
l eles no conhecem este sabor silvestre de cereja e de pimenta verde.


231


Sentou-se, encostou a cabea no espaldar alto, estou com a impresso
de haver comido esse pernil inteiro, preciso tomar cuidado, estou
chegando na idade do copo de leite, do ch e dos mingaus de farinha
branca. De olhos fechados, clice entre os dedos, perguntou sem
modificar o tom de voz:
      - E os negcios como vo nesses tempos de guerra?
        Jorge Antnio puxou a cadeira para junto do pai, foi apagar dois
dos quatro lampies, no precisamos de tanta luz, acho que assim
est bem. Sobre os negcios? Bem, podiam ir piores, mas no tenho
muito do que me queixar, melhorou um pouco quando a guerra passou
para alm das fronteiras deles, os comerciantes chegaram  concluso
de que o melhor que tinham a fazer era se darem as mos, lutarem
juntos e aos poucos foram entrando para a Associao Comercial que
at ento vivia s moscas, terminaram por enxergar que a de Rio
Grande estava prestando bons servios a todos. Heizen e Ebert
lutaram muito para que ns, os alemes, no ficassemos de fora, a
convenincia era toda nossa; e agora estamos pensando nas candidaturas
de Haag e de Wolkmann para uma das prximas eleies. E
assin  na Praa do Comrcio que agora ns tratamos dos nossos
negcios.
      - So muitos os alemes l dentro?
      - Bem, hoje temos quase cento e cinqenta scios, ao todo
somos trinta e sete alemes. Heizer e Ebert continuam firmes, Schillng,
um que foi scio de Haag; Haensel, diretor da Companhia fluvial e
nosso scio, Ter Bruggen.
      - O prussiano?
        Jorge Antnio sorriu, ele mesmo, um cabea-dura. Alm desses
vamos ver se me recordo dos nomes de mais alguns, sim, Bier, Daudt,
Fraeb, Petersen, Issler, Wallau, sei l, tantos outros.
      - E nas importaes, quem so os nossos maiores
concorrentes?
      - O maior ainda  o emprio de Fraeb, depois o nosso e ainda
temos que respeitar a casa do Holtzweissig, mas na verdade no se
briga por isso.
        Grndling permanecia de olhos fechados, mas ouvia tudo com
ateno e ia perguntando sempre o que queria saber. O filho bateu
no seu joelho, por que o pai no vai para a cama, continuamos a
conversa amanh, deve estar cansado.
      -No posso me deitar com a barriga to cheia. O melhor seria
se a gente pudesse dar uma volta pela rua, a noite est quente,
caminhar  sempre bom para a digesto.
      - Pois a idia no poderia ser melhor, vou apenas prevenir
Clara de que vamos sair um pouco.


232


        Grndling terminou de beber o licor enquanto o filho entrava
no quarto, caminhou at o relgio parado. passou de leve a mo aberta
sobre a sua madeira lustrada, lembrava-se, naquele momento, com
nitidez, da doce msica das suas batidas. Caminhou at a porta,
permaneceu no alto dos poucos degraus. "Estamos aqui reunidos para
unir pelo sagrado matrimnio da Santa Madre Igreja", Sofia com as
mos descansadas sobre a grande barriga, o vestido vindo da Europa
aberto nas costas, Izabela como uma grande dama, o decote deixando
entrever o par de seios murchos - padre, dispa-se de todos esses seus
paramentos e venha ocupar o seu lugar de honra na mesa, quero que
todos saibam que o Padre Antnio acaba de ganhar um belo terreno
em So Leopoldo, ele vai construir ali a sua igreja, e dou ainda
tijolos, escravos para a mo-de-obra, ento lesou Sofia para o quarto,
tirou o vu e as grinaldas, afrouxou o corpete, despiu-a por inteiro,
aconchegou-se a seu lado, suas mos passando de lese na pele sedosa
da barriga estofada, seu ouvido encostado no ventre, os seios lnguidos
e quentes, Tobz descendo aquelas escadas, todos eles saindo.
Zimmermann batia nas suas costas, virou-se assustado, Jorge Antnio sorriu,
em que estaria pensando o meu pai?
      - Em nada, acho que comi demais, eu bem que te dizia, as
pessoas velhas nunca se do conta da idade.
        Cu estrelado, noite morna, saram os dois a caminhar
lentamente pelo meio da rua, Grndling passou o brao sobre os ombros
do filho, disse sem olhar para ele:
      - Agora me fala de Albino, me conta tudo o que se passou.



      - O senhor conhece a histria do meu marido?
      - Por ouvir dizer - disse Maurer meio constrangido - mas
as pessoas quase sempre falam o que no sabem, inventam coisas,
eles dizem por a que Herr Schneider, depois que voltou da fronteira,
h muitos e muitos anos, nunca mais dormiu em outro lugar que no
fosse numa toca cavada no cho, foi o que sempre ouvi, mas no
gosto muito de dar crdito a falatrios.
      -Mas  a verdade, ou melhor, foi a verdade - disse Catarina
caminhando a seu lado - porque desde h alguns meses que mandei
fechar a toca, que fiz ele dormir num quarto como qualquer ser
humano, os netos todos criados, aquela situao triste do av metido
debaixo da terra como se no fosse gente, como se no acreditasse
em Deus
        - Sei tambm que  o melhor fabricante de carroas e de
serigotes de toda a regio e que alguns desses serigotes chegaram a ir para
a Corte, no Rio de Janeiro, um deles para o prprio imperador.
      - Tudo isso  verdade, todos dizem a mesma coisa, mas Da-


233


niel Abraho est doente, no s da cabea, mas agora de todo o
corpo; no dorme direito, tem alucinaes no meio da noite, sonha
que est sendo enforcado, fala muito do nosso filho que morreu
afogado no Rio dos Sinos, o Joo Jorge.
      - O menino tinha o mesmo meu nome.
      -No tinha me dado conta,  mesmo.
        Pararam um pouco debaixo de uma rvore, o sol queimava as
suas cabeas, Catarina ainda disse, ele anda esgotado, no  mais a
mesma pessoa e nem o mesmo homem de outros tempos.
        - A senhora pode ficar tranqila, ele vai ser medicado, tenho
remdios quase milagrosos para esses casos, no so os casos
piores, s vezes os remdios demoram um pouco a surtir efeito, mas
pode estar certa, no falham, tudo o que vem da natureza  bom
para o organismo das pessoas.
        Disse a ela que gostaria de fazer uma pergunta, era importante,
de sua resposta dependeria a cura do marido. Catarina disse que tinha
vindo at ali para seguir o seu tratamento e os seus conselhos. Maurer
agradeceu, pensou um pouco, no  uma imposio minha, mas eu
sempre penso em fazer um trabalho completo, no sou de fazer as
coisas pela metade, eu ento pergunto, Herr Schneider poderia, quando
necessrio, fazer parte do tratamento na minha casa, morando aqui
sempre que preciso, nos dias indicados? Catarina ficou um pouco
surpresa: mas acho que o senhor no tem lugar aqui para ele e nem
sei mesmo se ele vai concordar, ele  um homem muito difcil, 
bem capaz de recusar-se, tanto mais que s agora comeou a habituar-se
a dormir fora da toca, isso tem nos custado muito sacrifcio,
muita pacincia, no sei, no posso lhe dizer nada, acho melhor
primeiro conversar com ele e esse trabalho deve ser comigo, tenho a
maneira de entrar no assunto sem que ele logo se ponha em guarda.
        Comearam a voltar, Maurer agachando-se aqui e ali para
apanhar um pequeno arbusto, colhendo algumas razes, examinando
folhas; enquanto voltava ia perguntando coisas: ele urina bem? no tem
dores de cabea? queixa-se de dores no peito, de falta de ar? Catarina
ia respondendo, apreensiva, acho que sente falta de ar, principalmente
 noite, e o mais interessante  que nunca se queixou disso quando
dormia na toca, justamente l onde o ar era pouco, um buraco
abafado e mido.
        Chegavam de volta, Emanuel levantou-se da soleira para que
eles pudessem passar, encontraram Daniel Abraho e Jacobina na
mesma posio em que os haviam deixado, ele a folhear a Biblia
e a ler trechos esparsos, ela embevecida, atenta, olhos brilhantes.
Maurer disse, acabamos de dar uma volta pelas redondezas, queria que


234


frau Schneider conhecesse o nosso pequeno pedao de terra.
Depositou sobre um banco as ervas colhidas durante a caminhada, pediu a
Catarina que sentasse um pouco, ela procurou um lugar ao lado do
marido, botou a mo no seu ombro, falou com voz mansa e sem
pressa:
      - Daniel Abraho, aproveitamos tambm para conversar um
poucO sobre a tua sade, Herr Maurer conhece ervas milagrosas para
qualquer doena, ele sabe muito bem como aplicar os remdios, tudo
vai depender de ti para que as foras voltem, para que possas dormir
tranqilo e acordar sempre disposto para o trabalho. Isso,  claro,
s vai depender de ti e eu garanti a ele que tu havias vindo aqui
disposto a colaborar.
        Daniel Abraho permaneceu com a Bblia aberta sobre os
joelhos, levantou os olhos para a mulher, disse que nao compreendia
bem, afinal o que deveria ele fazer? Catarina botou a mo aberta
sobre a Bblia, no  nada que esteja fora daqui. Herr Maurer explicou
que para fazer o tratamento como deve ser feito o melhor  que de
vez em quando possas passar uns dias aqui na casa deles, as
viagens muito seguidas poderiam prejudicar a cura.
      -Morar aqui?
        - No, disse ela, ningum falou em morar, mas apenas passar alguns
dias, h remdios que precisam de ser tomados em horas certas, em
absoluto repouso. E depois, se no fosse necessrio, Herr Maurer no
pediria isso. Jacobina botou a sua mo sobre a dele. pediu que ele
ficasse, estaria como na sua prpria casa, ele trazia Deus dentro
daquele livro e dentro do seu corao, era o mesmo que ela sentia e
no sabia dizer. Daniel Abraho olhou para a moa, ficou por um
momento pensativo, dirigiu-se para a mulher com voz calma:
      - Se Herr Maurer entende assim...



      - O senhor no preferia deixar esse assunto para amanh? -
perguntou Jorge Antnio.
      -No, de qualquer modo passaria uma noite angustiado, afinal
o que tinha de acontecer, j aconteceu.
Jorge Antnio juntou-se um pouco mais ao pai, prosseguiam a
caminhada no mesmo ritmo, atravessavam agora a Praa da Matriz,
o Teatro So Pedro era visto recortado contra um fundo mais claro,
ele disse meio vacilante, o senhor sabe o que se passava com Albino,
era uma cruz que todos ns carregvamos, sofria de um mal sem
remdio, uma desgraa que eu no sei por que foi cair justamente
dentro da nossa casa, um rapaz criado com todo o carinho, nada
faltou para ele, sobre isso o senhor pode ficar de conscincia tran-


235


qila, no foi culpa sua e nem de ningum mais; quando o senhor se
ausentava eu nunca deixei que faltasse a mnima coisa para ele,
tinha sempre dinheiro para todas as despesas de casa, dinheiro para
comprar o que queria, tinha sempre tudo, comprava as melhores
roupas e eu nunca pedi a ele que me ajudasse nos negcios, ele nunca
teve vocao para isso, chegou um dia a me dizer que os negcios
sujavam as mos de quem se metia com isso.
      -No teriam sido as ms companhias?
        Jorge Antnio suava, no sei, quem sabe, mas muitos deles
trabalhavam como todos os demais, passavam os dias nos negcios dos
pais, ajudando, fazendo trabalhos pesados, dois deles tm hoje os seus
prprios negcios e esto prosperando.  o caso do Barnatski, um
bom patro e agora um bom chefe de famlia.
      - Como se deu a morte dele - Grndling fez uma pequena
pausa, depois disse com voz levemente trmula: - o assassinato de
Albino.
      - Sabe-se que ele e os seus amigos tinham combinado
encontrar-se numa casa qualquer, uma casa suspeita, no me lembro
do nome da mulher, os amigos contam que esse tal de Augusto, que
sempre fora tido como o seu melhor amigo, no quis ir, Albino
insistiu e ele se negou, tentando ir embora.
        Os dois cruzavam agora uma esquina onde alguns escravos
dormiam amontoados numa portalada velha, um soldado a cavalo passou
pela outra rua sem dar pela presena deles, Jorge Antnio
prosseguiu, contam os outros que Augusto teria sido esbofeteado por ele e
que no reagiu, pelo contrrio, sentou-se a um canto da mansarda com
as mos cobrindo o rosto e que Albino ficou arrependido, ajoelhando-se
aos seus ps, pedindo perdo. Grndling parou, ficou tenso,
cruzou as mos nervosamente, pediu a ele que continuasse; o filho
prosseguiu, olhava para a frente, os rapazes foram embora, disseram que
esperariam pelos dois na tal casa e cerca de onze horas da noite o
rapaz chegou l, transtornado, dizendo que havia assassinado Albino.
Fez uma nova pausa, depois contou, sem detalhes, como haviam
encontrado o corpo, ele mesmo sem acreditar, naquele momento s
tinha um pensamento e esse era o de vingar o irmo, em pagar
na mesma moeda. Mas que logo depois chegava a notcia de que o
rapaz havia se suicidado na casa do prprio Albino, na mansarda,
com um tiro de garrucha na boca.



        Quando voltava para casa, a noite j caindo, Catarina comentou
com Emanuel que ficara muito surpresa com a pronta deciso de
Daniel Abraho, ela esperava que ele fosse reagir, todos sabiam como


236


ele era, mas no tivera uma segunda dvida, concordara logo em
ficar, fora um comportamento muito estranho, Daniel Abraho estava
ficando imprevisvel, ou estaria mesmo melhorando um pouco, o ar
estava lhe fazendo bem ou ento comeara a ficar indiferente por tudo
o que lhe acontecia, fosse de bom, fosse de mau. Emanuel sacudia
as rdeas forando a marcha do animal, virou-se para Catarina e
disse que no seu entender Herr Schneider havia encontrado na moa
uma alma gmea, os dois liam a Bblia com muito fervor, ela era
muito estranha, parecia sempre encantada com o que ele lia, no
admirava que ele se sentisse bem l, tendo ao p de si algum que o
escutasse com tanto esprito religioso, com tanta f.
        - Acho que isso at pode ajudar na cura disse Catarina
pouco antes de descer da calea, na frente de sua casa vendo os
netos que surgiam de todos os lados.
        O primeiro a chegar foi Conrado, filho de Carlota. Trazia nas
mos uma armadilha de apanhar passarinho, perguntou logo pelo av
que no havia voltado. Catarina fez uma cara de zangada, tirou das
mos do menino a arapuca, onde se viu um menino cristo andar a
maltratar os bichinhos, aquilo era uma crueldade sem noni e, contaria
ao vov Daniel Abraho quando ele chegasse. Viu-se rodeada pelos
outros, abriu caminho, resoluta, entre todos:
      - O vov volta amanh, ele ficou descansando um pouco aqui
perto, na casa de um amigo.
        Quando lavava as mos, Mateus e Carlota ao lado dela, Catarina
disse que o pai estava bem, havia concordado em ficar l por alguns
dias, no ia demorar. Pegou de um pano para enxugar as mos,
sentou-se num banco e desabafou para eles:
        - Eu sim  que no sei se vou conseguir dormir,  a primeira
vez na vida que nos separamos.



        Quando chegaram em casa, de volta da longa caminhada pelas
ruas desertas de Porto Alegre, Grndling perguntou por sua casa
da Rua da Margem, no dia seguinte iria para l, estava ansioso por
reencontrar aquilo que era seu, dormir novamente na sua cama. Jorge
Antnio fechou a porta com a tranca de madeira presa em dois
suportes de ferro, disse ao pai que ele ficaria morando ali, no tinha
cabimento ficar sozinho naquele casaro abandonado. O velho fez
um gesto de desagrado, de maneira nenhuma, pois compraria um
casal de escravos, no queria incomodar ningum naquela altura da
vida.
        Jorge Antnio disse, amanh se discute isso, vamos dormir, o
senhor deve estar cansado, Clara preparou uma boa cama num quarto


237


que sempre foi o seu, ele nunca foi ocupado por ningum, sabamos
que um dia o senhor voltaria para junto de todos e depois eu sozinho
j no dou conta do recado, os negcios hoje so mais duros e a sua
experincia vai me ajudar muito.
        - No - disse GrndLing apanhando um dos lampies - no
entendo mais nada de negcios, preciso agora mas  de um canto
sossegado, quieto, tenho setenta anos de vida para ruminar.



238



XII

1 Philipp no parecia o mesmo homem, havia emagrecido mais
de vinte quilos, os malares espetavam a pele do rosto, tinha as
pernas fracas, no conseguia ficar de p seno por momentos,
poucos minutos, depois sentava para no cair. No existia entre os
pontoneiros nenhum dos seus velhos amigos e ningum sabia dar
informaes sobre eles. O capito se chamava Metzger, Eberardo
Metzger, tinha vindo da Linha Herval e l deixara mulher e filhos,
seu companheiro mais chegado era um homem de grossas
sobrancelhas e aspecto taciturno, o Tenente Damian Kmmel, que sara da
Colnia So Pedro de Alcntara e dizia que no tinha mais famlia
e que terminada a guerra levaria uma paraguaia para viver com
ele, queria filhos que no tivessem cabelos to ruivos e nem
sobrancelhas daquele tipo. Ele estava ao lado de Philipp e dizia: caminhe,
seu moo,  preciso caminhar, se ficar sentado a o tempo todo
termina como uma velha, as suas tripas devem estar lisas como pedra
de rio, escapar do clera  como sair de uma fogueira, a marca das
queimaduras no desaparece nunca mais.
        Fazia frio novamente, mas era um ms de julho seco, e quando
a tropa iniciou nova marcha, de Curuzu para Tuiuti, Philipp seguiu
aninhado numa carreta, deitado sobre pelegos que o Sargento
Herrschaft arrebanhara entre os despojos de campo e alguns que Philipp
mesmo trouxera da Ilha Cerrito onde estivera entre a vida e a morte
por mais de dois meses. Os solavancos da carreta feriam o seu corpo
magro, formavam escaras na pele ressequida, ele ainda tinha a
garganta machucada de quase quarenta dias de vmitos, um depois do
outro; ento alguns soldados traziam infuses de ervas e faziam com
que ele bebesse s escondidas dos mdicos. Eles diziam, essas ervas
so remdios dos ndios e curam mesmo.
        Em Tuiucue acamparam, o movimento era de quem acampava


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numa nova praa de guerra, trincheiras e paliadas, dois pelotes
montaram peas de artilharia nos extremos do campo, construram algumas
choas para os feridos e os doentes; Philipp ficou numa delas e era
sempre Kmmel que lhe vinha trazer comida, gua fresca, no
conversava muito, falava sozinho, mas no se descuidava do
convalescente; s vezes, noite alta, preparando e fumando grossos palheiros,
dizia a Philipp: se um dia eu sair vivo desta merda no vou casar e
tambm no quero filho. Philipp provocava, mas e a paraguaia que
ia levar para casa? Ele chupava com vontade o cigarro, expelia uma
onda de fumaa branca: decidi no levar nenhuma paraguaia, peguei
quatro delas por esses caminhos e no valem nada como mulher,
no s sabem choramingar e ficam como mortas debaixo da gente,
andasse cada um com tanta fome de mulher e nem valia a pena
derrubar uma ndia dessas; no vou levar mulher nenhuma, vou abrir uma
casa de bebidas, vender aquela cachaa de Torres com infuso de ervas,
isso eu sei que d muito dinheiro e tenho j os meus fornecedores,
nunca mais quero saber de guerra, s pego em armas para defender,
a minha honra e isso se for ofensa grave.
        Rude, brusco, parlapato, era carinhoso com Philipp, mandava
preparar um caldo de carne porque sabia que o tenente tinha
dificuldade para engolir coisas slidas, a garganta estava ferida de tanto
vomitar; muitas vezes ele prprio se dava ao trabalho de ferver os
pedaos de carne numa panela, puxando brasas de uma fogueira,
indiferente aos motejos dos camaradas que perguntavam a ele se o
menino Philipp j estava dando os primeiros passos. Ele dava uma
figa para todos, segurava as calas entre as pernas, sacudindo as
mos,  para vocs todos. Philipp tentava, algumas vezes,
convenc-lo de que, terminada a guerra, devia voltar com ele para So
Leopoldo, l havia trabalho no prprio negcio da famlia. Kmmel
sacudia as sobrancelhas, no quero saber de trabalhinhos, nem vou
mais abrir negcio de bebidas, minha me desapareceu de casa
porque o meu pai morria de fgado rodo, prefiro um bom cavalo e
andar de um lado para outro dessas terras, quem sabe at termino
ficando aqui pelo Paraguai, ocupo uma boa casa, vai sobrar das boas,
e quando tiver vontade carrego para dentro com uma dessas brancas
que a gente costuma encontrar por a;  verdade, h muitas brancas
por a, procurando  que se acha.
        Quando Philipp se dispunha a dar pequenas caminhadas contava
sempre com o interesse de Kmmel, a princpio junto dele, pronto a
ampar-lo quando fraquejasse, depois  distncia, quando gritava
um pouco mais, "precisa caminhar mais dez passos, vou comear a
contar"; ento ia para perto dele, sentavam-se os dois no cho duro
de areia grossa, Kmmel fazia novos planos, pensava em ir para Mato


240


Grosso depois da guerra, dizem que l a gente encontra pedras
preciosas calando ruas e enfeitando fachada de casas, imagine s,
comprava uma dzia de mulas e me tocava para o Rio de Janeiro, ia
vender pedra na Corte.
        Ao anoitecer de um domingo, vero chegando, havia calor e
mosquitoS, e os bichos no deixavam ningum sossegado, Kmmel
entrou na choa onde Philipp estava deitado, desenrolou de um pano
um pedao de carne assada, isto  para voc, chega de caldinhos,
precisa comer alguma coisa slida e v engolindo logo que a praa
est toda em p de guerra, parece que vem bala por a. as patrulhas
esto voltando e dizem que encontraram piquetes e que o grosso dos
paraguaiOS deve chegar por aqui no fim da madrugada. E no so
poucos, os otimistas afirmam que so quatro mil e j os pessimistas
no deixam por menos de seis mil.
        - E ns, quantos somos? - perguntou Philipp.
        - Descontando vocs que no prestam para nada, no
chegamos aos trs mil. E s duas bocas de fogo daquelas que falam a
verdade, meu velho, o resto  s dessas espingardinhas de caar
veado-poca.
        Philipp pediu que ele trouxesse uma dessas espingardinhas,
qualquer arma, no queria ser apanhado de mos vazias. Kmmel fez um
gesto de desprezo, vocs vo ser transferidos para alm de dois
quilmetros, nessa direo, ficando aqui s nos atrapalham e ns no
queremos matar paraguaio e defender moribundo. Ou se faz uma
coisa, ou outra. Ficou assistindo Philipp arrancar com os dentes os
pedaos de carne, mastigar e engolir com dificuldade. Isto, precisa
fazer um pouco de fora antes que algum ache melhor largar os
doentes em qualquer lugar, em tempo de guerra ningum pode pensar
em ser bonzinho.
        Logo depois as carretas partiram para a retaguarda levando
todos os feridos e doentes, teriam de ficar ao relento, Kmmel disse
para Philipp:
        - Meta-se num buraco qualquer, passe por morto, fique
contando estrelas, faa o que quiser, mas no d sinais de vida ou
esses miserveis so capazes de levar isso aqui por diante, paraguaio
 o soldado mais cabea dura que j vi em toda a minha vida.
        Ao lado de Philipp, com um profundo ferimento no rosto, ficou
o soldado Carlos Goethe, da Linha 48, um rapaz que no devia ter
mais de vinte anos, os dois tinham o corpo entalado numa fenda
de eroso, o rapaz disse, eu seria at capaz de dormir aqui se no
fossem essas formigas danadas, elas picam como fogo. Philipp disse,
elas tambm j me descobriram mas o segredo  ficar bem quieto;
encostou a cabea no cho, para descansar, e comeou a perceber um


241


longnquo tremor de terra, bateu no rapaz, encosta o ouvido na terra,
vamos, v se descobre o que ser isso. Goethe obedeceu, parece
uma trovoada, ser que vem chuva? mas no pode ser, o cu est
ainda com estrelas. Philipp disse para o rapaz, apertando forte o
seu brao, pois  pata de cavalaria, meu filho, comearam a atacar
em massa. Foi quando ouviram os primeiros disparos de calibre grosso
e a fuzilaria compassada dos pelotes, era capaz de jurar que ouvia os
ulos dos soldados em fria, o vozerio de incentivo da soldadesca
inimiga, disse para o rapaz: a primeira carga de cavalaria j passou as
nossas defesas avanadas, agora  combate  arma branca.
        No saberiam dizer o tempo que haviam ficado ali escutando o
fragor do encontro, o dia clareava, os disparos iam diminuindo,
magotes de cavaleiros passavam perto deles, em disparada, perseguindo
soldados inimigos perdidos, em franca debandada. Por fim uma trgua
pressaga, o sol surgindo por entre as folhgens de um caponete, ouvia-se
ainda uma que outra descarga, de onde estava Philipp podia ver o
trabalho de grupos de cavalaria fazendo a limpeza do terreno. Ento
um grupo compacto de cavaleiros marchou na direo de onde eles
estavam, o soldado Goethe perguntou se no seriam inimigos, os
paraguaios no costumavam fazer prisioneiros. Philipp ordenou que
calasse a boca, divisou a farda da sua gente, bateu no brao do
rapaz, olha, so dos nossos.
        Metzger apeou e veio sentar-se cansado ao lado dos dois: por
coisa de nada amos sendo derrotados, nos valeu que eles preferiram
saquear em vez de lutar e esse foi o grande erro deles, terminaram
envolvidos e debandando, o trabalho agora  abrir vala e enterrar os
mortos. Philipp perguntou, e Kmmel?
      -No vi mais o tenente, mas deve andar por a - disse Metzger
procurando um cigarro.
      -Morreram muitos dos nossos?
      - S contando, mas no foi pouco.
        Muito depois surgiu Kmmel a p, coxeando, dirigiu-se a Philipp
que acenava com um trapo.
      - Fui apanhado pelas costas, meu velho, mas liquidei pelo
menos com cinco maridos paraguaios, agora  s ir l escolher qual
das mulheres vale a pena levar para casa.
        Sentou-se arreatando o pano rasgado da cala, exibiu a
barriga da perna sangrando, uma lana havia entrado de um lado e
sado do outro, Philipp admirou-se de que as carnes no tivessem sido
dilaceradas. Ele olhou para Philipp, mas como podia dilacerar se
fui eu mesmo quem tirou a lana do lugar onde no devia estar?
Goethe no quis olhar para o ferimento, afastou-se rpido para bus-


242


car socorro. Quando voltou com um capito mdico, Kmmel j havia
enrolado a perna com as tiras da prpria cala e acendia um palheiro:
        - Vou experimentar o fumo dessa gente, tirei um bom naco do
bolso do infame.
        Ficaram em Tuiucue at recuperar os feridos, haviam recebido
reforos do Primeiro Corpo, Philipp se dizia bem, Kmmel passava
horas expondo a perna ferida ao sol, para ajudar a cicatrizao: no
h melhor remdio, meu velho, do que o sol, aprendi isso com os
ndios. Que ndios? perguntou Philipp. Sei l, respondeu ele, li essa
coisa tempos atrs e sei que os ndios faziam isso com as suas
feridas.
        Quando chegaram cavalos novos e grandes carretas se
enfileiraram no alto de uma ravina, Kmmel disse: nada disso  bom sinal,
os cabeas-grandes esto tramando qualquer coisa, por certo mais
trabalho, mas desta vez, tenham a santa pacincia, vou mostrar a
minha perna, tenho uma cicatriz que j merece uma boa medalha e
a ordem de voltar para casa. Virou-se para Philipp:
        - Eu, pelo menos, no agento mais passar essas noites ao
relento, num frio de rachar, ento pela madrugada  de chorar. Se
quiserem que eu fique, j sabem, quero duas paraguaias para poder
dormir, fico imprensado entre elas, no h cobertor melhor.
        - Ainda se a gente conseguisse arranjar mais alguns pelegos
- disse Philipp.
        Kmmel terminara de acender um outro palheiro, disse para
Philipp: esse negcio de pelego j me obrigou um dia a dar dois pares
de coice num sargento, todo o mundo j no agentava mais de frio,
falou-se em pelegos, ento ele me disse: e por que o tenente no tira
uma das sobrancelhas e no se cobre com ela? Eu podia ter feito outra
coisa?
        Na manh do dia seguinte ele ainda apareceu com outro
pedao de carne na mo, roubei o pedao mais gordo com um pedao
de costela,  bom comer que ainda est meio quente. Mostrou a
cala nova que havia conseguido encontrar e comeou a picar fumo
com uma grande faca de cabo de osso. Sentou-se numa pedra, largou
a faca no cho e esfarinhava o fumo entre as palmas das mos.
        - Sabe - disse a Philipp que comia - pensei melhor e quando
voltar vou para Porto Alegre, l engajo num navio mercante,
vou aprender a me guiar pelas estrelas, conhecer mundo, est
resolvido, vou ser marinheiro.
        Em junho eles se despediram, Kmmel seguiria para Humait,
Philipp marcharia com um peloto de pontoneiros para o Chaco.
Despediram-se, Philipp pediu que se cuidasse, tinha j uma grande ternura
pelo tenente de grossas sobrancelhas; Kmmel marcou um encontro


        243


em So Leopoldo com o amigo, queria muito conhecer a sua mulher
Augusta, os seus filhos, pensando melhor ficaria em So Leopoldo,
ento o teu pai faz serigotes? pois muito bem, se voc chegar
primeiro avisa a ele que vou trabalhar na oficina da famlia, vou
aprender a fazer serigotes e que desde j pode comear a guardar para mim
o melhor fumo da regio para comemorar a chegada, chego eu
primeiro e atrs de mim uma carroa s com as medalhas e citaes.
Bateu nas costas de Philipp, espero tambm que saiba se cuidar, esses
ndios no so de confiana.
        Trs meses depois, quando se dedicavam a fazer pontes e
limpar os pequenos rios, Philipp ficou sabendo que o amigo de bastas
sobrancelhas havia sido surpreendido num capo, em trabalho de
vanguarda, e que morrera enforcado num galho de rvore. No amanhecer
de um dia nublado e triste, a bordo de um vapor da esquadra
onde ia tambm Caxias, Philipp lembrou-se do amigo e disse para o
soldado Goethe que o acompanhava:
        -        Kmmel, afinal, terminou no fazendo nada daquilo com que
sempre sonhava.



2 Catarina olhava para Grndling e custava a reconhecer o homem
de outros tempos. Tinha  sua frente um velho alquebrado que
custava a levantar-se de uma cadeira, sempre a praguejar
contra o maldito reumatismo que no o largava mais. Restavam-lhe
poucos dentes, as mos eram grossas e pesadas, os dedos se
fechavam em forma de garra.
      -Negcio fechado, Frau Catarina. a casa da Rua da
Margem  agora de seu filho Jacob, espero que ele seja muito feliz
nela, um coisa que eu no consegui, mas  diferente, um homem
quando fica velho j nunca  o mesmo.
-        O negcio inclui os mveis?
      - Tudo - disse ele - os mveis, os bichos de quintal, o
riacho que passa nos fundos, as roupas de cama e mesa, um negro
ainda moo que meu filho Jorge Antnio comprou especialmente para
cuidar da casa e seus pertences.
      - E onde vai morar aqui, Herr Grndling?
      - Por enquanto junto ao emprio da Rua do Fogo, tenho l
um bom quarto, gente para cozinhar e ainda tenho nos fundos um
pequeno mato para quando eu quiser dormir  sombra, nos dias
quentes.
        Amanda serviu caf quente sem olhar para o visitante, ele
perguntou qual era o seu nome. A mocinha baixou a cabea e
respondeu.


244


      - Esta  Amanda, filha mais velha de Philipp, est agora com
dezoito anos.
        Os olhos do velho brilharam, filha de Philipp? Pois escuta aqui,
estive muito tempo junto com teu pai, na guerra, ele sempre me
falava na menina como sendo uma criancinha de colo, muitas noites
a gente tirava para falar dos filhos, da famlia, dos amigos, e ele
sempre a contar as horas e os minutos para voltar.
        Levantou-se com dificuldade: quando ele voltar estou certo que
no reconhecer a filha, no vai admitir que a menininha que aqui
deixou cresceu e se transformou nessa bela moa. Passou as mos
nos cabelos de Amanda, disse que tinha um presente para ela, assim
que as suas bagagens de Porto Alegre chegassem viria at ali trazer o
prometido.
        Virou-se para Catarina, j falamos bastante sobre Philipp, contei
tudo o que sabia, no escondi nada, mas diga sempre a eles que
Philipp  um homem de grande valor e que devem ter muito orgulho
disso. E no podia ser diferente, ele saiu  me. Despediu-se
abruptamente, saiu e embarcou numa calea que j o esperava na rua.
Catarina ainda viu o velho Grndling sendo ajudado a subir o pequeno
degrau, era uma sombra daquele Grndling que havia enchido e
tumultuado a sua vida, sentiu um aperto na garganta e gritou para a
neta que podia ir para casa; sentou-se  mesa e bebeu sozinha a
sua caneca de caf, enquanto a de Grndling jazia de lado,
abandonada, a esfriar.
        Quando ele chegou ao emprio viu  porta o Dr. Hillebrand,
os mesmos culos de aro de prata, os mesmos olhinhos vivos por
detrs das grossas lentes. Abraaram-se demoradamente, emocionados,
ento o meu velho amigo continua ainda aqui tratando dos seus
doentes, firme no seu posto.
      - Herr Grndling me parece muito bem, folgo em saber que
afinal decidiu-se em morar aqui entre ns, So Leopoldo precisa de
gente como o senhor.
      - Bondade sua, doutor, eis aqui o que resta daquele Grndling
que o senhor conheceu em outros tempos. Estou fazendo como os
elefantes velhos, venho morrer na minha terra ou pelo menos na terra
que sempre julguei que em parte fosse minha tambm.
      - Como encontrou os netos?
      -Muito bem, um deles, o mais novo, eu nem conhecia ainda.
Jorge Antnio tomou conta dos negcios e devo confessar que saiu-se
melhor do que o pai.
        Entraram, Grndling estava sendo esperado pelos encarregados da
casa, o primeiro a estender a mo foi um homem j grisalho, culos
pequenos na cara grande, fez uma curvatura:


245


        - Lus Friedruhten, o encarregado geral - comeou a apontar
para os demais que haviam se postado atrs de si - este  Macksel,
que controla as mercadorias das picadas; este  Robern, que faz a
ligao com Porto Alegre; este magro que o senhor v aqui  o Rissel,
caixa e tesoureiro, e muitos outros ainda que de momento no se
encontram em So Leopoldo, inclusive os nossos quatro "musterreitern"
que a essas horas batem picada por picada, levando mercadorias.
        Friedruhten fez uma pausa, braos cados, meio embaraado,
ps juntos em posio de sentido, comeou uma espcie de discurso:
 com a maior satisfao que todos ns aqui do emprio de So
Leopoldo recebemos a visita de to ilustre pessoa e tudo faremos.
Grndling atalhou a fala, que  isso? vamos deixar de discursos, eu
no estou aqui de visita, estou chegando para ficar, o nosso negcio
 tocar o barco, fiquem  vontade, mande arrumar um quarto para
mim e por enquanto eu e o Dr. Hillebrand vamos ficar nesse
escritrio para conversar um pouco.
        Os homens se dispersaram rapidamente, eles puderam ficar a ss
na sala modesta, uma velha mesa tosca, prateleiras pelas paredes,
cheias de grossos livros de capa preta, um cofre de ferro de grandes
propores. duas cadeiras, um banco ao comprido de uma das
paredes, sob uma janela de postigos verdes, e duas escarradeiras de loua,
com desenhos azuis. Grndling indicou uma cadeira para o mdico,
sentou-se atrs da mesa onde se debruou, mas ento me conte como
vo as coisas por aqui, mesmo de Porto Alegre no sei quase nada,
foi s o tempo de rever o filho e os netos, as minhas coisas e por
fim terminei decidindo morar aqui, vendi a minha casa para um dos
filhos de Frau Schneider, o Jacob, casado com a filha mais nova
do Pedro Martens, negcio fechado h meia hora. O mdico anua
com a cabea, demorou um pouco a falar, comeou por dizer que
no esperava por essa, Herr Grndling vir morar em So Leopoldo,
deixar a cidade grande.
        - No gosto mais de Porto Alegre justamente por isso, tornou-se
uma cidade grande para mim, prefiro uma assim como So
Leopoldo, aqui tem um belo rio e de qualquer maneira continuo perto
da famlia, vapor a qualquer momento e agora vo comear a
construir a estrada de ferro. Mas afinal o senhor ainda no me contou
nada.
        Hillebrand fez um gesto esquivo de ombros, que se pode contar
de novo para um homem que vem da guerra e que encontra aqui
esta vidinha de aldeia, cheia de pequenas injustias, de maledicncias,
pode crer que esse dia-a-dia  que nos mata, meu caro Herr Grndling.
      - Frau Schneider falou por alto num caso de muita injustia
que houve contra o senhor, disse que uma pessoa como a sua no
merecia isso, mas mudou logo de assunto e eu fiquei na mesma, mas
CUriOSO.


246


        O        mdico sorriu, apesar de Frau Schneider haver cortado
relaes comigo e isso por coisas que vm de longe, dos tempos dos
FarrapOS, nunca me perdoou no haver ficado do lado deles e mais
ainda por causa do filho deles que lutava contra as foras
imperiais, apesar disso tudo no  uma mulher que fique indiferente a
qualquer injustia e na certa deve ter-se referido  minha recente
demisso de delegado de Polcia e, logo a seguir, das minhas
funes de Juiz Municipal de rfos, e tudo pela priso de um tipo
desqualificado que resolveu borrar os escudos de armas imperiais da
Cmara; terminei sendo acusado de ser o instigador dos incidentes, os
tempos no conseguiram fechar as feridas de 45. Fez uma pausa
para passar o leno nos culos, disse, o senhor vai ver como isto aqui
 pequeno,  um lugar de gente muito miudeira e de qualquer coisa
fazem logo uma tempestade; mas compreende-se, na falta de outros
assuntos as pessoas costumam contar nos dedos os dias de gravidez
de uma mulher recm-casada s para saber se coincidem com a data
do casamento. Os dois riram juntos, Grndling dizia, eu sei, sei bem
como so essas coisas. Depois disse:
      - Ento nunca mais teve contatos pessoais com Frau
Schneider, no atendeu mais casos de doena na famlia, nem mesmo do
marido dela que nunca foi um homem de boa sade? Pelo que Jorge
Antnio me disse, Herr Schneider piorou muito, estaria at meio
doido.
        -        , Frau Schneider  uma senhora de cabea muito dura, tem
l os seus princpios, certos ou errados, mas a verdade  que tem
os seus princpios, agora mesmo est fazendo uma coisa
incompreensvel, imagine, passou a levar o infeliz do Daniel Abraho para a
casa de um curandeiro do Morro Ferrabrs, um tal de Joo Jorge
Maurer, que de carpinteiro se arvorou, como num passe de mgica,
a mdico. E muita gente tem ido l consultar o homem, tomar as suas
beberagens. Um pobre homem que alm de tudo ainda terminou
casando com uma das filhas mais moas dos Mentz, ela prpria
sempre muito doentinha, at uma vez fui l examinar a menina que
andava sofrendo de insnia, tinha crises agudas de depresso, uma certa
histeria, cheguei a recomendar que casasse, s vezes as coisas se
concertam, mas nem sempre.
        Friedruhten surgiu na porta, pediu licena, perguntou a Grndling
se podia deixar os empregados sarem, estava na hora. Ele respondeu
que mandasse o pessoal embora, ele mesmo poderia ir. O encarregado
disse que j havia deixado tudo arrumado no quarto dos fundos, suas


247


malas estavam l e que havia deixado o jarro dgua cheio ao p da
bacia. Saiu fazendo uma nova mesura.
      -No sei - disse o mdico - mas precisamos encontrar
uma boa casa para o senhor, no pode ficar morando aqui no
emprio, isso  lugar de vigia.
-        Quem sabe - disse Grndling pouco interessado na idia.
Hillebrand levantou-se, precisava ir andando, antes de ir para
casa deveria ver alguns doentes, era a vida de sempre. Grndling,
enquanto se apertavam as mos, perguntou por alguns dos velhos
conhecidos, o mdico foi sumrio:
-        Desses, lamento muito, no vive nenhum.



3 Catarina chegara ao cair da tarde. Enquanto Emanuel descia
da calea para abrir as duas folhas do enorme e imponente
porto de ferro batido da nova casa do filho, ela entreviu entre as
rvores a casa que havia sido de Grndling, Jacob acorria para
abraar a me, a senhora precisa ver que casa, eu nem sei ainda onde
encontrar as coisas, acho que a gente no devia ter comprado uma
casa dessas, a pobre da Sofia Maria tem medo de viver no meio de
tantas peas, s o poro daria para uma famlia inteira morar.
Catarina examinou degrau por degrau, passou a mo na madeira
lustrada da porta principal, entrou na sala da frente um pouco espantada
diante dos mveis ricos, havia um corredor comprido, ladeado por
inmeras portas. A nora veio ao seu encontro, a grande barriga
balouando, a saia curta e esticada.
      - Isto  casa para uma famlia de dez filhos - disse Catarina
fazendo um gesto circular com as mos.
        Jacob disse alegre para a me, pois j comeamos com o
primeiro, a parteira disse que nasce amanh ou no mximo dentro de
trs dias.
        Enquanto Sofia Maria permanecia no alto da escada que dava
para os fundos, me e filho desciam e comeavam a passear pelos
caminhos ensombrados; havia uma grande horta cercada por taquaras
secas, um pomar maltratado, uma tora falquejada para cortar lenha
a machado e finalmente chegaram num terreno de areia escura, mato
baixo e vioso margeando as guas mansas de um riacho e de onde
estavam viam uma casinha velha, Jacob disse que era do negro Jos,
um escravo que Herr Grndling comprara havia pouco tempo, homem
novo ainda, sabia tratar dos porcos, mostrou  me os chiqueiros
que acabavam na gua corrente, disse que o preto ainda cuidava da
horta, tirava gua do poo e j havia recebido ordens de podar as


248


rvores do pomar, limpar as macegas do terreno, tratar melhor de
tudo aquilo. Agora, disse para a me que j retomava pensativa,
preCisO arranjar uma boa negra para a cozinha, marquei para ver
algumas delas amanh, Jorge Antnio foi quem me recomendou um
feitor que tem posto numa ilhota aqui perto.
        Voltavam lentamente, viram Emanuel desatrelando o cavalo,
havia um galpo de portas largas para guardar as caleas e um
pequeno potreiro de paliada para os animais grandes. Jacob
perguntou pelo pai.
        - Est passando mais alguns dias na casa de Maurer, ele
parece se dar muito bem l, nem tanto pelos remdios mas porque
encontrou em Jacobina algum que no quer saber de outra coisa
seno ouvir a leitura da Bblia, ela prpria mal sabe ler, e com isso
ele se sente mais confortado.
      - E a sade dele?
      -Maurer me disse que ele tem dormido  noite e que de dia,
quando no est lendo a Bblia para Jacobina, ajuda um carpinteiro
de l mesmo a levantar um grande galpo para abrigar os doentes
que chegam l e que nem conseguem mais caminhar.
        Chegavam  escada dos fundos, ela disse: Daniel Abraho est
tomando uma infuso de erva mulungu, que  boa para os nervos,
ajuda a dormir sem sobressaltos e dizem que ainda faz muito bem para
o reumatismo, mas no fundo o melhor remdio ainda est sendo a
Jacobina, ele acha que a moa  iluminada, que tem a proteo de
Deus aqui na terra, enfim, teu pai precisa disso, o mal dele  mais
da cabea do que mesmo do corpo.
        Catarina foi para a cozinha, ao cair da noite, Emanuel
descarregara alguns cestos cheios de mantimento, Sofia Maria disse que era
um exagero, o marido j havia trazido do emprio caixas e caixas
de proviso e uma farinha de trigo to branca que pretendia preparar
uma boa fornada de po para o dia seguinte, queria experimentar o
forno de lenha que ficava ao lado da casa, sob um telheiro.
        Abraho nasceu no dia seguinte, a av calculou pelo olhar que
devia pesar mais de quatro quilos, era um belo menino, tinha o
nariz da me e a testa do pai, lembrava-se de Jacob quando era
daquele tamanho, no podia ser mais igual. Jorge Antnio mandara duas
escravas para ajudar em todo o servio e j um dia depois vinham
ele e a mulher Clara fazer uma visita, desembrulharam os presentes,
entre eles uma pequena caixa de msica com desenhos a esmalte.
        Sentaram-se na sala, as negras servindo clices de licor e finas
fatias de pernil, Jacob entrando e saindo do quarto, disse a eles que
Sofia Maria passava muito bem, naquele momento dormia um pouco,
o menino s abrira a boca para chorar na hora de nascer. Jorge


249


Antnio levantou um brinde ao novo membro da famlia Schneider,
fazia votos sinceros de que se tornasse um homem digno de sua raa
e que fosse a alegria dos pais e dos avs. Depois perguntou a
Catarina:
        - A senhora acha que o pai se acostumar com a vida de So
Leopoldo?
        - Quem sabe - disse ela - me pareceu muito bem, ele
precisa agora  de se distrair no trabalho, Herr Grndling nunca foi um
homem de ficar sentado numa cadeira de balano e l ele sempre
vai encontrar o que fazer.
- Teve notcias de Philipp?
        - A no ser as que Herr Grndling trouxe, nenhuma. S ouo
dizer que a guerra est no fim, que os aliados j esto s portas da
capital inimiga e no deixo de ficar preocupada com as notcias de
clera naquela frente, o que deve ser conseqncia de tanto
morticnio.
        Jorge Antnio levantou-se, bateu no brao da mulher, vamos
indo, Frau Schneider deve estar cansada, todos devem estar
esgotados, as negras podem ficar aqui at acharmos outras nas mesmas
condies. Disse como a desculpar-se: est cada vez mais difcil de
arranjar escravos de qualidade, mas com um pouco de pacincia
sempre se consegue.
        Jacob acompanhou o casal at o porto da rua e quando voltou
perguntou  me se no precisava de nada. Ela mandou que ele fosse
dormir, eram mais de nove horas e queria partir de volta ao
amanhecer do dia seguinte, precisava chegar logo a So Leopoldo, ver
como as coisas andavam e no mesmo dia ainda seguir para a casa dos
Maurer, a notcia do nascimento de Abraho alegraria o av.
        Na viagem de volta s trocou meia dzia de palavras com
Emanuel, ia com o pensamento confuso, misturava o nascimento do neto
com a imagem de um Philipp morto, as coisas deviam correr assim,
as auras de uns encarnavam no corpo dos que nasciam, tinha uma
sensao de vazio no peito.



        5 ficou em casa o tempo suficiente para dar a notcia do
nascimento do menino que se chamava Abraho em homenagem ao
av, para abraar e beijar os netos, dar algumas ordens no emprio
e nas oficinas e trocar de blusa que a outra ficara vermelha do p
dos caminhos.
        Quando a calea parou na frente da casa de Maurer notou que
havia um movimento maior, quatro carroas estavam paradas debaixo
das rvores; Jacobina apareceu na porta, vinha vestida toda de branco,
trazia os cabelos presos no alto da cabea, cumprimentou Catarina
com uma certa cerimnia e disse que Herr Schneider estava cada vez


250


melhor, era j um outro homem. Entraram, havia na sala muita gente,
todos se viraram para olhar a recm-chegada, Catarina postou-se a
um canto, viu o marido de p, ao fundo, Bblia aberta entre as mos,
uma estranha mulher permanecia deitada sobre uma enxerga no meio
da sala, tinha as faces lvidas, um homem que parecia ser o seu
marido estava sentado ao lado dela, uma criana dormia entre os
dois. Ouviu-se a voz de Daniel Abraho, havia erguido um dos punhos:
Eis que o Senhor fez ouvir at as extremidades da terra...
        Catarina sentiu-se levemente indisposta, notou a transfigurao
de Jacobina que havia se ajoelhado e mantinha os olhos fixos em
Daniel Abraho. Ele prosseguiu ainda na leitura, depois fechou a
Bblia e, acompanhado em coro por todos os presentes, iniciou a
orao:
      - Im Namen des Vaters, des Sohnes und des henigen Geistes...
Catarina olhou para trs e viu Emanuel que permanecia na
soleira da porta, reparou na concentrao em redor, saiu p ante p,
l fora respirou fundo, sentia uma estranha angstia, como se duas
garras apertassem a sua garganta.



4 Herrschaft dizia que estava cansado de construir pontes, de
destruir pontes, de passar por cima de pontes, de nadar debaixo de
        pontes; abriu a mo esquerda em forma de leque, com o
indicador da mo direita enumerava: no dia de Reis aquela ponte para
chegar a Assuno, tinha-se de limpar o terreno de cadveres para
cravar as estacas, o que se conseguiu sem maiores sacrificios; depois
Rio Paraguai acima at a ilha Faixo dos Moros, ento nos tocou
tambm a tarefa das fortificaes, j no se cumpria ordens de
Caxias que voltava para o Brasil, mas era ento o Conde D'Eu, genro do
imperador, vocs se lembram bem dele, naquele seu fardamento
recm-sado das mos do alfaiate, quando da rendio de Uruguaiana;
ento a gente foi na frente para Peribitu e assim facilitamos a derrota
do inimigo e l deixamos tambm um punhado de bons amigos
enterrados na lama; ajudamos a tomar de assalto a maldita daquela ponte
que dava acesso a Campo Grande e Lopes s no foi apanhado porque
sempre foi mais esperto e mais militar do que os nossos generais;
veio depois o Cerro do Leo, enquanto o nosso exrcito seguia para
Rosrio a fim de refrescar a alma.
        Fez uma pausa, tirou o resto do palheiro que carregava atrs
da orelha e pediu licena para usar a outra mo, os cinco dedos
da esquerda j haviam sido utilizados, ento precisava da mo
direita, vamos ver se com esses dedos consigo terminar a minha bis-


251


tria. Acendeu o cigarro, deu uma tragada comprida e jogou o resto
longe, com um piparote. Vamos a ver, com calma: a ficamos adidos
a uma nova Brigada e partimos para So Joaquim onde abrimos
trincheiras, cravamos estacas e foi aonde consegui pegar aquela
paraguaia de pele branca que depois queria porque queria vir junto para
o Brasil, jurava que seria minha escrava para o resto da vida e como
eu no entendia nada mas percebia o que ela queria, terminei por
amarrar a cadela numa rvore para que ela no largasse atrs da
gente como cachorro quando v banda de msica; j fazia calor,
sim, outubro comeava a esquentar, ento agora estamos aqui
torrando neste sol que  o prprio inferno e, meus senhores, declaro-me
sem rodeios um invlido da ptria, no tenho mais foras para abrir
a braguilha, tenho mijado no cano das botas.
        Philipp e Metzger ouviram Herrschaft calados, ambos deitados
 sombra de uma carreta, Metzger preparando a palha para um novo
cigarro. O Major Claussen aproximou-se do grupo, seu cavalo fazia
espuma na tbua do pescoo, disse que os pontoleiros iam permanecer
ali enquanto as tropas atacariam o inimigo entre os quais se
presumia estivesse o prprio Marechal Lopes, bateu com a mo no
copo da espada:
      - O fim deles est chegando,  s pegar o Marechal.
        Metzger tinha se posto de p, perguntou se havia mais notcias
da frente de combate, Claussen disse que eles estavam desesperados,
que a capital sara de Assuno para Luque e de l j se transferira
para Pirivevi.
      - E ns para onde vamos, major? - perguntou Philipp.
      - Os pontoneiros vo ser dissolvidos, pelo que sei vocs devem
ir para o 18.o Batalho de Linha.
        O        major acenou e deu de esporas no cavalo que de to exausto
apenas iniciou a caminhada em sentido contrrio. No restavam mais
do que trinta homens dos pontoneiros, naquele momento estirados
onde houvesse um pedao de sombra; uma velha e quase inutilizada
cozinha de campanha estava sendo manobrada por alguns soldados,
Metzger disse a Philipp que se tudo desse certo aquela gente
terminaria por preparar qualquer coisa de comer. Philipp deu de ombros,
tanto fazia, depois de Curupaiti havia passado quatro dias sem botar
nada na boca e nem por isso morrera, seu estmago j estava
acostumado.
        J quase noite fechada dois soldados vieram trazer uma gamela
com uma espcie de cozido de carne gorda e alguma batata que por
acaso havia sido deixada por alguma tropa em retirada a toque de
caixa. Ambos comearam a comer em silncio, olharam-se
desconfiados.


252


-        Nada mau em matria de sopa de pedra - disse Metzger
sorrindo.
-        Pelo contrrio - disse Philipp -  a melhor comida que
vi        nestas ltimas semanas, com exceo dos peixes ensopados da
ilha Faixo dos Moros. Mesmo assim o sal l era mais escasso.
        Permaneceram estacionados por ali ainda uns dois meses, os
soldados saam  noite para tirar tatus das tocas, faziam da carne deles
um guisado com farofa, servido na prpria casca. Depois o sarro da
caa enjoava o olfato e nauseava o paladar. Um dia caaram uma
anta, assaram a carne, gorda como de porco, em grandes braseiros, mas
j no dia seguinte no suportavam mais o cheiro do assado,
terminaram por jogar fora todo o resto, Metzger jurou nunca mais em
sua vida comer carne de anta, passou a sentir o cheiro daquela
gordura at nos palheiros que fumava.
        Em fevereiro foram incorporados ao 36.o Batalho de
Voluntrios da Ptria, sob o comando do Coronel Genuno Sampaio,
alojaram-se em Humait, PhiLipp correu para mostrar a Herrschaft e a
Metzger as paliadas que seus homens haviam construdo. Nos ltimos
dias do ms chegava um comboio de carretas com feridos da frente
de batalha, entre eles mais de trinta alemes. Um deles, o Sargento
Carlos Batt, tinha uma perna amputada e quando o mdico disse que
ele queria falar com algum compatriota do 36.o, avisou a Philipp:
      - Ele tem muita esperana de sair desta com vida, mas a outra
perna comeou a gangrenar. Ele no sabe.
        Philipp convidou Metzger e foram ver Batt, era um sujeito moo
ainda, de famlia de Santa Maria, solteiro, tinha uma cicatriz viva
na testa, alegrou-se ao apertar a mo dos oficiais, pediu que sentassem
um pouco ali. Metzger ofereceu um cigarro.
      - Vou aceitar, capito, no fumo h duas semanas e chego a
sonhar em dar uma boa tragada.
        Cheirou bem o cigarro improvisado, arregalou os olhos,
prendeu-o entre os dentes e aguardou que Metzger lhe chegasse o fogo.
Aspirou com ar deliciado a fumaa, encheu os pulmes e comeou a
solt-la lentamente, lambendo os lbios ressequidos.
      - Isso  o que se pode chamar de verdadeiro prazer, meu
capito.
        Philipp perguntou como estava se sentindo. Muito bem, o diabo
desta perna  que me vai fazer falta na volta, vou liberar a minha
noiva do casamento, no tem sentido uma moa bonita casar com
um aleijado e acho que no vai ser difcil encontrar trabalho que
no exija as duas pernas, mas sabem, por mais que tenha quebrado
a cabea nessas noites todas em que a gente no consegue pregar


253


olho, no encontrei um trabalho desse tipo. Quem sabe os senhores,
que so mais velhos, me lembram algum?
      - H muitos - disse Philipp - mas tem muito tempo pela
frente para pensar nisso. O principal agora  continuar o tratamento
e ficar bom de vez.
      - Ah, isso tambm me diz o doutor e eu sei que deve ser
assim, mas que diabo, essas coisas no precisavam demorar tanto a
sarar. Para acontecer,  um zs! e l estamos ns sem uma perna,
mas depois o tempo passa e nada.
      - Onde foi ferido? - perguntou Metzger.
        - Na tomada de Pirivevi, estava l o ditador, nem foi bem uma
batalha, Lopes ainda conseguiu fugir para Caraguata, j nem tinha
muitos soldados, o homem estava entre mulheres e velhos, at
crianas cercavam o Marechal; em Rublo Nu os nossos homens tiveram de
lutar muito para dobrar o inimigo e depois ficaram bastante
envergonhados, haviam batido um batalho de meninos, o mais velho deles
no devia ter ainda 16 anos.
      - Voc estava com as nossas tropas?
      -No, fiquei sabendo disso tudo depois que a exploso de uma
granada me arrancou a perna e me abriu aqui na testa, vejam, um
pOUCO mais e me deixava cego. Mas a nossa gente j est em
Assuno e como l no sobrou um homem para remdio, j podem saber
que ningum mais quer sair de Assuno,  s entrar em qualquer
casa, numa casinhola que seja, e escolher a menina que achar mais
bonita e mais fornida de carnes.
        Fez uma pausa para reacender o palheiro, olhou com ar gaiato
para Metzger:
      -Meu capito, cicatrizando este toco de perna me vou pata
Assuno, acho que me caso por l mesmo, as moas no fazem
questo que os noivos tenham uma ou mesmo duas pernas, o
importante  que uma granada no tenha levado o principal.
Riu alto e logo ficou srio, o mdico acabava de chegar.
      - Pelo que posso ver a visita dos amigos fez bem ao nosso
caro sargento, seu aspecto melhorou muito e isso ajuda a cura.
      - Doutor, diga a eles quanto tempo ainda devo ficar aqui nesta
enxerga.
      - Isso vai depender de voc mesmo. Se comear a mexer-se
muito, trs meses; se ficar quieto como tenho recomendado, talvez
em menos de vinte dias j possa comear a fazer os primeiros
exerccios.
        O        mutilado ficou pensativo por um momento, depois segurou a
manga da tnica do mdico, escute uma coisa, doutor, esta outra
minha perna no anda l essas coisas, me di muito de noite e aqui na


254


altura do joelho eu sinto umas pontadas esquisitas e o diabo  que o
senhor mantm essa outra perna toda enfaixada.
      -Mas eu j disse, essa outra perna foi atingida tambm e est
sendo medicada,  por isso que o amigo deve ficar quieto e no se
agitar como um menino.
        Batt sorriu: esses mdicos tm um jeito todo especial para falar
com o prximo, mas confio nele,  gente que vem da Prssia. Philipp
levantou-se, seguido por Metzger, vamos deixar o sargento descansar.
      - Um momento, vou pedir um pequeno favor, no me levem
a mal, o doutor aqui no vai dizer no.
        Philipp e o companheiro ficaram onde estavam. o mdico
perguntou o que era, Batt falou baixo, em segredo:
      - O capito podia deixar um outro cigarro daqueles?
        O        mdico fez uma cara de espanto, ora essa, tanto mistrio, eu
nunca proibi o sargento de fumar. Metzger tirou do bolso um
pequeno amarrado, puxou l de dentro dois cigarros preparados e
passou-os a Batt.
      - Obrigado, capito. Antes de dormir fumo um e amanh,
depois do rancho, fumo outro.
        L fora Philipp perguntou ao mdico:
      - Est certo a respeito da outra perna?
      - Como um e um so dois e o pior  que se trata de uma
gangrena mida, alta, no h remdio que ataque a putrefao.
A noiva dele chama-se Ana Isabel, mora com a famlia na Linha
Hortncio, seu sobrenome  Raupp. Se algum de ns conseguir sobreviver
pratica um ato cristo procurando a moa e contando o que se passou.
Convm dizer que antes de morrer ele s falava no nome dela.
        Num dia claro de abril, a primavera se fazendo presente nas
rvores e nos campos, aquele troo dos Voluntrios da Ptria
levantava acampamento - Philipp e Metzger ainda foram colocar algumas
flores do campo sobre o monte de terra onde haviam enterrado o
Sargento Batt - o objetivo era alcanar Montevidu, a guerra havia
terminado, Lopes resistira at  morte cercado por dez batalhes e seis
regimentos, num total de quinhentos homens, nenhum oficial. Metzger
a dizer, abanando a cabea, "era um louco", esse tipo iniciou uma
guerra que sabia de antemo que era suicida. Um outro oficial que
se juntara a eles comentou: e quem nos diz que ele iniciou esta
guerra? Metzger esticou o lbio inferior, fez um gesto de dvida,
tambm pode ser possvel que de fato tenha sido levado a ela, no se
sabe. Philipp montava num cavalo depois de quase um ano de
marchas e contramarchas a p, sentia-se desesperanado, como se
estivesse a caminhar para algum lugar desconhecido, perguntava-se como
chegaria a So Leopoldo, no se lembrava mais da fisionomia de Au-


255


gusta, confundia-a com a da me, talvez no reconhecesse mais os
filhos e se perguntava tambm se os velhos j no haviam morrido,
os dias correndo, os meses, um tempo sem memria.
        Nos ltimos dias do ms chegavam a Rio Grande, o Coronel
Genuno  frente da tropa, a cavalaria aos pedaos, animais de
cabea baixa, as ruas apinhadas de gente; os que tinham parentes ali,
poucos deles, eram arrancados dos seus cavalos e levados nos braos
de pessoas que choravam, os soldados meio espantados, as moas
atiravam flores, velhinhas desmaiavam, Philipp tinha a impresso de
estar chegando numa distante e perdida terra estranha, no via entre
a multido um rosto amigo, uma pessoa sequer conhecida.
        Aquartelaram aquela noite na cidade, fartos de tanta comida e
de tanta bebida que todos traziam, uma noite de insnia quando muitos
soldados escapavam do aquartelamento e se juntavam a moas e
prostitutas. De onde ficara, Philipp podia ouvir a bulha que os casais
faziam, os gritos de alegria e de prazer, ouviu que davam ordens para
a troca da cavalhada por outra que tivesse foras para alcanar Porto
Alegre e, antes do sono que chegou pesado e irreversvel, lhe pareceu
ouvir a voz grave do pai, uma voz que saa de dentro da terra,
de dentro de um poo, aquele ar de maresia lhe trazia  memria
algo confuso, distante, cavaleiros de negro galopando por descampados,
retinir de espadas, um choro desesperado que vinha do fundo da
garganta de sua me. E o pai dizia no seu linguajar arrastado "
Deus que s o autor da paz e amas a misericrdia".



      - O primeiro que avistar a Igreja das Dores ganha um leito
assado inteiro - disse Metzger que mantinha o seu cavalo junto ao
de Philipp e que se mostrava preocupado com o amigo de ar perdido.
      - Pois agradeo o teu leito. Troco tudo por uma cama macia,
por um travesseiro de penas, por um par de lenis brancos e
engomados - disse Philipp mansamente.
      - Pareces triste com a volta.
      -No sei dizer como me sinto, no fundo acho que estou com
medo de chegar.
      - Deixa disso, meu velho, todos aqui esto contando os
minutos e os segundos, repara como a marcha vai se acelerando 
medida que nos aproximamos e isso sem nenhuma voz de comando,
 como um rio quando o leito vai estreitando, estreitando.
        Havia uma hora que Viamo ficara para trs quando ouviram o
toque de alto, oficiais percorriam as fileiras mandando apear, um
major alemo reuniu os seus compatriotas, explicou que deviam
preparar-se para a entrada na cidade, que tratassem de arranjar os
fardamentos, limpar o barro das botas, abotoar as tnicas, manter a
cabea dos cavalos erguida, no podiam dar m impresso ao povo, um


256


emiSSriO viera ao encontro do comando para avisar que preparavam
grandes manifestaes e que a tropa dispersaria em Porto Alegre, que
cada um fosse para a sua casa. Philipp permanecia ausente, cumpria
as ordens como um autmato, no queria acreditar no que ouvia,
tinha medo de acordar e sentir a terra fria das trincheiras, o fedor
dos vmitos podres numa pequena barraca de campanha. Metzger veio
at onde ele estava:
      - Ento, homem, este  o momento que eu sempre via nos meus
sonhos, jamais acreditei que um dia pudesse voltar, mas que diabo,
sonhar ainda a gente podia.
        - E que pretendes fazer daqui para a frente?
        - Tenente, lembrei agora o nosso Kmmel, pois vou ser
marinheiro em homenagem a ele.
        Philipp olhou demorado para o companheiro, sabe, daria o meu
brao direito para ter Kmmel agora entre ns. Depois passou as
mos pelo fardamento velho, perguntou ao amigo que tal o seu
aspecto.
      - At que o teu fardamento no est dos piores. o diabo 
esta cara de fantasma.
      - Estou pensando nisso, vou dizendo logo o meu nome, Augusta
 capaz de no me reconhecer, meus filhos, ento, vo ficar muito
assustados.
        Montaram, tornaram por quatro, e reiniciaram a marcha.
Porto Alegre inteira estava nas ruas, centenas de bandeiras imperiais eram
agitadas com entusiasmo, a cavalaria vencia o caminho com dificuldade,
os animais espantados desfaziam o alinhamento precrio, Philipp
agora procurava descobrir entre a multido alguma cara conhecida.
quem sabe algum empregado do emprio, algum amigo perdido no
tempo. Ia vendo muitos dos seus companheiros desgarrarem de repente
e se atirarem do cavalo ao cho, logo sumido entre abraos e lgrimas
dos familiares, viu quando Metzger apeava tambm e desaparecia
no meio de um grupo de gente, ele ainda tentou acenar,
despedindo-se, mas desapareceu logo, uma velhinha dependurada no seu
pescoo, uma jovem que passava as mos nos seus cabelos.
        De repente ouviu seu nome, estacou o cavalo, foi empurrado
pelos que vinham atrs, a tropa no mantinha mais a sua unidade, ao
redor dele no via mais do que quatro ou cinco soldados. Virou-se,
no conseguia distinguir de onde partia a voz que repetia o seu nome,
tinha os olhos embaciados, a voz agora estava mais perto, algum
rompia a multido compacta, corria para ele aos esbarres:
        - Philipp, Philipp, sou eu, Jacob.
        Apeou meio tonto, dois braos fortes cingiram o seu pesCoo,
sentiu o calor do irmo abraado ao seu corpo, conseguiu afast-lo


257


um pouco, Jacob lhe parecia outra pessoa, lgrimas corriam-lhe pelo
rosto, Deus ouviu as preces do nosso pai. Ficaram assim, Philipp
tentando resistir ao pranto, no conseguia dizer nada, a voz sumira,
enxergou a cunhada com uma criana no colo, estendeu um brao,
puxou-a para si, balbuciou um abafado "como esto os velhos?",
Jacob disse que estavam bem, que em So Leopoldo ningum sabia
da chegada das primeiras tropas.
      - E este aqui?
        -         Abraho, o nosso primeiro filho.
        Jacob voltou-se, fez um sinal, aproximou-se um casal, ele disse:
      - Este  Jorge Antnio, filho de Herr Grndling, e esta  a
sua mulher Clara, vieram te esperar tambm.
        Philipp abraou os dois, perguntou se Herr Grndling havia
chegado bem. Jacob adiantou, chegou muito bem, resolveu morar em So
Leopoldo e me vendeu a casa que tinha aqui na Rua da Margem.
      - Foi um grande companheiro que tive na guerra - disse
Philipp apertando forte a mo do outro que sorria alegre, enquanto a sua
mulher enxugava os olhos.
        Jacob disse que ele ficaria aquela noite na casa deles, precisava
descansar, trocar de roupa, dormir numa boa cama, no outro dia
embarcaria num dos vapores da famlia para So Leopoldo. Jacob
falava em catadupas, nervoso no despregava os olhos do irmo, disse
que ele havia mudado um pouco, era natural, todos mudavam,
perguntou se no tinha mais nenhum ferimento, precisava tratar do
corpo.
        Philipp segurou-o carinhosamente pela nuca, mas ento vocs aqui
acham que a gente vai para a guerra para receber ferimentos? Jacob
o apalpava, notou depois uma pequena cicatriz ao lado do nariz, olha
aqui a marca de um deles, vamos para casa, temos aqui perto duas
caleas nos esperando.
        Ao jantar deram a cabeceira da mesa para Philipp e os outros
lugares foram ocupados por Jacob e Sofia Maria, Jorge Antnio e
Clara, Isaas Noll e Gebert, os mais velhos servidores dos emprios
da famlia Schneider em Porto Alegre. Philipp preferia ouvir, no
fizera outra coisa depois que chegara. Comia com lentido, explicou
que um soldado se acostumava logo a comer pouco e nem sempre
havia tempo para isso. Jacob pediu: conta como foi a rendio de
Uruguaiana, a carta de Herr Grndling foi lida milhares de vezes,
imagina, uma pessoa se ver assim frente a frente com um peloto
de fuzilamento, deve ser uma experincia horrvel. Philipp balanou
a cabea, fiz uma promessa, nesses prximos trs meses no conto
nada, s quero saber de tudo o que se passou aqui, quem nasceu,
quem morreu, quem desapareceu. Fez uma breve pausa, cortou len-


258


tamente um pedao de carne, virou-se para o irmo, e depois,  a
mais pura verdade, esqueci de tudo o que se passou na guerra e ainda
h pouco, quando experimentava essas roupas que vocs mandaram
buscar para mim, cheguei  concluso de que no houve guerra, de
que tudo isso no passou de uma grande inveno.
        Jorge Antnio aplaudiu, muito bem,  a melhor coisa que uma
pessoa pode fazer, o que passou, passou. Philipp dirigiu-se a Noll:
        - Ento, meu velho Noll, como vo os negcios por aqui?
        Apanhado de surpresa, Isaas Noll engoliu depressa o que
havia posto na boca, ficou sem saber o que dizer, apontou para Jacob,
ele pode dizer melhor do que eu, agora passou a tomar conta de
todos os negcios em Porto Alegre.
        - E Engele, que notcias me do dele?
        Houve um ligeiro mal-estar, Jacob respondeu, Engele morreu
de clera. Depois acrescentou: Philipp sabe muito bem que as
pessoas atacadas de clera dificilmente se salvam, foi feito tudo o que
se podia fazer por ele, no se poupou recursos, mas foi tudo em vo.
        Philipp prosseguiu comendo, pediu que falassem sobre todos,
podiam comear pelo pai e pela me, qual era o estado de espirito de
Augusta, queria saber muita coisa a respeito dos filhos.
        Da mesa passaram para um canto da sala, Philipp provando gota
a gota o conhaque do seu clice, o irmo falando quase sem tomar
flego, Sofia Maria de vez em quando interrompendo para
acrescentar um ou outro detalhe do que o marido dizia.
        Os primeiros a se despedirem foram Jorge Antnio e a mulher,
pouco depois saam Noll e Gebert. Por fim Jacob levou o irmo
para o quarto que lhe estava preparado, comentou que ele devia estar
morrendo de sono, h quanto tempo no dormia numa cama de
verdade?
        - Perdi a conta - disse Philipp - mas nunca deixei de
sonhar com um travesseiro assim, com este par de lenis brancos e
engomados, com um camisolo que se pudesse dormir sem se sentir
maneado, num quarto como este, amplo e de teto alto, ao contrrio das
furnas em que se largava o corpo e ao acordar de madrugada contar
os escorpies que aninhavam no calor da gente.
        Quando Jacob saiu ele ficou afofando o travesseiro com as mos,
alisando os alvos lenis e pela sua cabea desfilaram todos aqueles
bons companheiros que haviam ficado para trs. Mas quando
assoprou a chama do lampio de bela manga lavrada e afundou a cabea
nos panos macios, dormiu logo, como se fizesse aquilo pela primeira
vez na vida.
        Acordou com leves batidas na porta, o quarto ainda permanecia
no escuro, a princpio no sabia onde estava, depois foi se situando,


259


passou as mos speras ao redor de si, novas batidas, perguntou quem
era. Jacob pediu desculpas, eram dez horas e o vapor partia dentro
de uma hora. Phiipp pediu que ele entrasse, que abrisse a janela.
Jacob ento disse: mas no te preocupes com o horrio, o vapor 
nosso, j dei ordem de s partir quando Herr Philipp Schneider
chegar. Sabes, disse ele estremunhado,  a primeira vez nos ltimos dez
anos que acordo a esta hora e se no batesses era bem capaz de
acordar amanh de tarde. O irmo disse, est um dia bonito de sol e
Sofia Maria preparou um bom caf com po fresco e torresmo com
ovos.
        - Sabes - disse Jacob sentando-se na beirada da cama - por
mim ningum te acordaria, mas acho que eles l em So Leopoldo
tm o mesmo direito, a mesma alegria de te ver e de te abraar.
Acho at que tm mais direito.
        Philipp ficou enfiando a roupa, ainda sonolento, enquanto Jacob
saa para ver se tinham atrelado o cavalo na calea, havia duas malas
de couro cru  entrada da sala com roupas que na vspera Jacob
mandara trazer de diversas casas e que Philipp experimentara logo
aps o seu primeiro banho morno depois de muitos anos.
        Quando o vapor manobrava para desatracar, ele ainda ficou
algum tempo na amurada, acenando para o irmo e a cunhada, Noll
e Gebert, Jorge Antnio, a mulher e os filhos; a cidade havia
crescido, novos prdios grandes, o cais era maior, muita coisa mudara,
mas no fundo era ele que se tornara um estranho, um galho seco.
sem razes e que agora flutuava contra a correnteza, rumo ao
desconhecido.



5 Juliana, toda vestida de branco, camisola que descia alm dos
ps, estava estendida num estrado forrado de couro, cabea cada
para trs, Jacobina ajoelhada  sua cabeceira, Bblia de encontro
ao peito magro; Emanuel mantinha-se  distncia, quase fora da
pea, um puxado baixo do galpo principal dos doentes; Maurer re-
mexia num lquido escuro e grosso. Jacobina permanecia de olhos
fechados, sua voz rompeu o silncio:
      - Que os teus olhos sem luz vejam a vontade de Deus, ele
est junto de ti e de todos ns...
        Maurer embebeu alguns panos de algodo na vasilha,
estendendo-os  mulher que sobre eles fez um sinal-da-cruz lento e
formal; Emanuel viu quando a compressa era colocada sobre os olhos
de Juliana, vertia dos panos a infuso escura e oleosa, Jacobina
ainda disse: ns te suplicamos,  Senhor, que nos mostre em cle-


260


mncia a tua inestimvel misericrdia. Maurer afastou-se levando a
vasilha, Jacobina fez um sinal para Emanuel aproximar-se, disse a
ele que ficasse de guarda  mulher. Ele sentou-se ao lado do estrado,
tirou de um leno e ficou ali a enxugar o remdio que descia pelo
rosto e comeava a empapar os cabelos.
        Naquela noite a sala grande abrigava muita gente, eram homens
e mulheres vindos de longe, a poeira dos caminhos ainda no corpo
e nas roupas, na parede maior vrias velas ardiam com luz fraca,
as pessoas permaneciam sentadas no cho, algumas delas ajoelhadas,
crianas doentes dormiam sobre panos, ao lado das mes aflitas. De
onde estava, Emanuel podia ver Jacobina e ouvir a sua voz montona
e arrastada, viu quando Daniel Abraho passava pelo ptio levando
consigo um lampio, ouvia tambm, de vez em quando, um murmrio
de muitas vozes em orao. Ento Jacobina fez-se ouvir alto e bom
som, era uma voz de agouro e de ameaa, afirmava que dos cus se
abriria um claro de luz e de fogo e que a maldio divina atingiria
os pecadores e os remissos, que sete anjos, montados em sete
cavalos de nuvens, baixariam sobre a terra para com suas espadas
vingarem as ofensas que contra Deus eram praticadas pelos mpios. Agora
todos cantavam um hino conhecido, repetindo pesadamente o refro.
        - Ests sentindo alvio? - perguntou Emanuel.
        - Estou - disse Juliana. - E agora tenho a impresso de
que o meu corpo no existe, tenho sono, muito sono.
        - Dorme, no vou sair do teu lado.
        Mais tarde ele ouviu o rumor de gente que saa, algumas
carroas em movimento, patas de muitos cavalos, choro de criana.
Desdobrou um cobertor que havia sido deixado ao lado e estendeu-o
sobre o corpo de Juliana que parecia dormir profundamente, a noite
estava fria e ventava l fora. Jacobina despedia-se de todos pedindo
para cada um a proteo divina; depois Emanuel notou que muitas
pessoas se aglomeravam na sala ao lado, pelas frestas da parede viu
rstias de luz, ouviu Daniel Abtaho dizer a Jacobina que toda a
verdade estava aqui e que dentro daquele livro havia o inferno e o
cu. Ela ento pediu que ele lesse o livro de Deus. A voz que
Emanuel ouvia naquele momento era a mesma que estava
acostumado ouvir em muitas noites, vindas do alapo que separava o
patro do mundo, da toca que havia sido o seu refgio e o seu abrigo.
        Quando acordou, Emanuel no saberia dizer o quanto dormira e
nem onde estava. Estendeu a mo e tocou o brao frio de Juliana que
ressonava tranqila; cobriu-a melhor, reparou que na pea ao lado
ainda havia luz e que a voz de Daniel Abraho ainda se fazia ouvir.
        Madrugada alta, espiou pela porta que ficara semi-aberta e
reparou que j podia distinguir por entre as ramadas mais altas a


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tnue claridade de um novo dia. Tocou de leve na compressa gelada.
sentiu na ponta dos dedos o lquido gorduroso e ficou a imaginar o
dia em que Juliana pudesse novamente ver a luz do sol e o azul do
cu, os animais no pasto, o seu rosto envelhecido na face polida
de um espelho.
        Uma mulher bateu de leve no seu ombro, Emanuel abriu os
olhos, assustou-se, ela disse: venho trazer um caldo quente para o
senhor, Herr Maurer no demora muito passa por aqui, Jacobina
dorme, passou a noite toda em claro, junto a Deus. Ele agarrou a
tigela e reparou que Juliana dormia ainda, no se movera durante a
noite inteira, assim como adormecera, assim estava, deitada ao
comprido, de costas, braos estendidos ao longo do corpo.
        Havia movimento no ptio, carroas e cavalos, Maurer surgiu
na porta, retornava com a mesma vasilha, perguntou se Juliana
passara bem a noite.
-        Dormiu logo e no acordou at agora.
O        curandeiro retirou a compressa dos olhos, Juliana teve um
leve estremecimento, as plpebras se entreabriram, chamou pelo
marido.
-        Estou aqui, Juliana.
        Ela disse, sonhei com Philipp, enxerguei Philipp ferido na guerra
e que Herr Schneider estava ao seu lado lendo a Bblia e que eu
andava no meio dos soldados mortos e que entre os soldados estava
Joo Jorge afogado num rio sem guas e que era um menino de
poucos meses.
        Emanuel olhou aflito para Maurer que disse, vamos trocar esta
compressa, mas primeiro vai tomar alguma coisa quente para afastar
o frio do corpo. Entregou um trapo umedecido para o marido, passe
sobre os olhos dela, procure limpar bem, deve tirar todo o remdio
que a est. Levantou-se e saiu, no ptio saudava as pessoas. Uma
delas chegou-se  porta, era Gertrudes, mulher de Joo Ddring, da
Picada Hortncio, pediu licena e entrou, agachou-se ao lado do
estrado e disse para Emanuel que se sentia muito feliz por ver que
havia afinal trazido Juliana para tratar-se com Maurer, o remdio
ajuda, mas so as oraes de Jacobina que realmente curam, ela 
enviada de Deus  terra, a sua misso  a de consolar os que sofrem.
        Ele segurou a mo de Juliana, sentiu que ela apertava os seus
dedos, a recm-chegada falou em voz baixa, como a segredar algo.
todos ns temos lido o livro sobre as pessoas sonmbulas, elas so
dotadas de poderes divinos, a cura est nas suas oraes e s a ela
Deus escuta. Emanuel perguntou se ela estava ali por causa de
algum mal, a mulher disse que no, por graa divina gozava de boa
sade, trabalhava ainda na enxada de sol a sol, mas tinha uma filha


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doentinha, a Brbara, entrevada desde os dois anos de idade e agora
j andava pelos nove anos e mdico nenhum encontrara a cura, tinha
f na sabedoria de Maurer e na palavra de Jacobina. Cochichou:
ela  a nossa santa. Depois disse, reparou em Herr Schneider? um
homem que tinha medo da luz do dia, que vivia enfurnado feito bicho,
est ficando curado, est lendo a palavra de Deus para Jacobina, j
vai e volta sozinho para a casa, houve um milagre, meu filho, com
Herr Schneider.
        Sem mover a cabea, Juliana esboou um sorriso feliz, disse: Herr
Schneider merecia que Deus olhasse para ele, sempre foi um bom
cristo, nunca perdeu a sua f. A mulher balanou a cabea em
sinal de aprovao.
        - E o mesmo vai acontecer contigo,  preciso muita f e um
pouco de pacincia, no pode haver desespero.
        Uma mocinha veio trazer a tigela de caldo para Juliana pedindo
a Lmanuel que assim que ela terminasse era para avisar Herr Maurer
para colocar uma nova compressa.
        Pelo meio da tarde Jacobina entrou no quartinho, pediu para
os que a seguiam que ficassem do lado de fora; vestia uma longa
bata branca, mostrou para Emanuel o livro preto que trazia na mo
e pediu que ele se afastasse um pouco; ajoelhou-se, depositou a Bblia
sobre o corpo de Juliana, levantou os braos:
        - Senhor, glorifica o teu nome, trata a tua serva segundo a tua
misericrdia.
        Passou as mos nos cabelos de Juliana, disse a ela que a viso
valia qualquer sacrifcio e que tivesse pacincia. Levantou-se e foi
ao encontro de Emanuel:
        - Herr Schneider descansou esta manh depois de toda uma
noite devotada ao Senhor. Partiu para casa antes do meio-dia e deve
voltar amanh de noite.  bom apanhar um pouco de sol, Juliana
est medicada.
        Ela terminou de falar e saiu lentamente, ele ainda viu as pessoas
no ptio ajoelhando-se e beijando as suas mos, desaparecendo a
seguir. Disse a Juliana que no se demoraria muito. Vai, disse ela,
eu estou bem.
        Na rua, ofuscado pela claridade, ele sentiu uma leve tontura;
comeou a andar por um caminho ladeado por grandes rvores,
as pernas estavam dormentes, doam-lhe as costas como se estivesse
com pontas de fogo sob a pele. Imaginou Juliana boa, ele a mostrar
toda a casa para ela, abrindo as janelas que davam para o mato,
ela veria os pssaros, o cu, as nuvens formando desenhos de
algodo, as belas carroas novas que saam das suas mos.
No dia seguinte, ao meio da tarde, ouviu um alvoroo l fora,


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Juliana permanecia com uma nova compressa sobre os olhos, algum
chamava com nervosa insistncia pelo nome de Maurer, muitas
pessoas corriam, ouviu a voz de Maurer pedindo calma; algum disse:
Herr Schneider est a com a mulher muito mal.
        Emanuel pulou de onde estava, escancarou a portinhola, correu
para a calea cercada de pessoas, abriu caminho desesperado, viu
Daniel Abraho segurando as rdeas, a cabea de Mateus ajudando
outros homens a carregar Catarina que estava como que desmaiada, o
rosto lvido e inerme.
        Levaram-na para o quarto de Jacobina, Emanuel conseguiu
aproximar-se de Mateus, agarrou seu brao:
-        Que se passa, o que houve?
        Mateus estava com os olhos vermelhos, havia chorado, abraou-se
com Emanuel, seus olhos novamente se encheram de lgrimas, a
princpio no conseguiu dizer nada, o amigo pedia que ele se
acalmasse, mas afinal o que houve? pelo amor de Deus, fala, diz alguma
coisa. Mateus limpou o rosto, olhou para a porta onde haviam entrado
com Catarina, viu Jacobina assomar  porta, braos estendidos, o
vestido branco largo e frouxo sobre o corpo, sua voz era autoritria,
olhos muito abertos:
        - Para trs, para trs, todos devem orar pela sade da nossa
irm, o desespero  prprio dos mpios.
        Mateus deixou cair os braos, desconsolado:
        - Minha me estava bem, de repente caiu no cho sem uma
palavra, debatia-se sem fora, desmaiou.
        - E veio assim toda a viagem?
        - Meu pai disse que s Maurer e Jacobina podiam salvar
minha me.
        Entraram no quarto, Catarina jazia estendida na cama, como
morta, Maurer abriu sua boca com uma colher e com outra derramou
uma infuso de ervas, uma mulher ajudava a sustentar a cabea que
pendia mole, Daniel Abraho abriu a Bblia enquanto Jacobina
ajoelhava-se pronunciando palavras obscuras. Depois Maurer derramou na
palma das mos o contedo de um vidro e esfregava os pulsos de
Catarina, pediu que Mateus fizesse o mesmo nos tornozelos e nos
ps, Daniel Abraho elevou a voz em meio ao silncio geral:
        - No dia de So Marcos, o Evangelista, pedimos ao
todo-poderoso...
        Jacobina levantou a cabea, tinha o rosto transfigurado, mos
crispadas, levantou-se e permaneceu na cabeceira da cama, levou o
dedo indicador  boca, pedindo silncio, disse com uma voz que
Emanuel no reconheceu como sendo a dela prpria:


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- Aos homens que em desespero se esquecem de sua f, Jesus
respondeu com um milagre.
        Houve um alarido de gente que se encontrava na rua, algum
chegara a galope largo e abria caminho entre os homens e mulheres
espantados, um homem assomou  porta, Jacobina apontou para ele
e exclamou:
-        Deus onipotente, misericordioso Pai Celeste!
        Philipp correu para junto da cama, segurou o rosto de Catarina
entre as mos, beijou sua testa mida de suor frio e encostou
seu rosto no rosto da me. Daniel Abraho disse um apagado "meu
filho", Emanuel e Mateus correram para abraar Philipp que agora
tentava falar com ela, chamava por seu nome, sacudia com
carinho o seu corpo,  seu filho Philipp, me, sou eu que voltei da
guerra, voltei para ficar, escute me,  Philipp.
        Catarina gemeu, entreabriu os olhos e dava a impresso de no
reconhecer ningum; depois fixou-se em Philipp, tentou dizer
alguma coisa, soluou. Seus dedos percorreram o rosto do filho,
pronunciou com dificuldade, num fio de voz:
-        Eu sabia que Deus no podia me abandonar.



Lisboa
Maio de 1975.



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